O Meu Irmão
No doutoramento comecei por fim a minha…
No doutoramento comecei por fim a minha carreira, o meu desígnio. Nada do que previra quando lia a Busca no Paiva e achava que aquele texto me preenchia de tal maneira que necessitava de retribuir com a minha própria escrita.
No primeiro ano do doutoramento, frequentei um seminário de orientação com uma professora concentrada e dispersa que chegava às aulas surpreendida pela audiência, como a pedir desculpa por nos ter obrigado a prestar-lhe atenção. «Sabem, tem de ser.»
Por essa altura comprei num alfarrabista o Inocêncio reeditado pela INCM, e aliás comprei-o barato. Depois de folhear os vinte e cinco volumes, incluindo os aditamentos e guia bibliográfico, decidi escrever um ensaio sobre o tecido que vestia aquele dicionário: o verbete.
Propus o título «O amor ao verbete» e a professora aceitou-o sem reservas, embora eu o tivesse escolhido para testar os limites.
Na minha perspectiva, o verbete não fora alvo de especial atenção. Nunca desempenhara um papel de destaque nas paixões humanas. Por ele não se atravessara o Rubicão, ele não viera nas naus da Índia e, sobretudo para mim, ninguém o debatera nas universidades. E percebi que esse homem, Inocêncio Francisco da Silva, declarara no prefácio da sua obra monumental – o Dicionário Bibliográfico Português – a paixão, mais, a loucura, enfim, o amor ao verbete.
Aquilo intrigou-me de tal forma que quis descobrir a génese desse amor. Dividi o ensaio em seis partes que agora reproduzo de memória, em resumo. Escuso-me de referir as fontes.
A melhor parte da vida
O bibliógrafo vive num tipo de paz muito próprio. Em «tranquila e recolhida obscuridade», o seu temperamento foi «fortificado com o volver dos anos» e, de facto, é no estudo de «notícias e espécies biobibliográficas» que foge do cansaço de funcionário público. Para mais, funcionário «numa repartição pública, porventura das mais laboriosas entre todas as da capital». Além das poucas e inevitáveis relações de amizade e de profissão, vive «a melhor parte da vida como solitário».
Nestas condições, o acto de resumir um estudo pela ponta da caneta toma um significado muito especial. Primeiro, eleva a solidão a empreendimento. É uma solidão activa, que se redime a si mesma. Segundo, enquadra o carácter. O seu temperamento equipara-se ao rigor que é exigido pela moldura breve de uma entrada bibliográfica: «Em diversas situações nunca hesitei em sacrificar interesses e conveniências pessoais de qualquer natureza às minhas convicções, bem ou mal adquiridas.»
Dotado de solidão, pode vencer cada etapa do quotidiano, que é como quem diz cada fase mais e mais penosa do trabalho. A cada dia sente «novo impulso às investigações» e aquilo que poderia ser árido é para ele um estímulo. De certa forma, quanto mais reúne, mais quer reunir e a empreitada justifica-se precisamente por não ter fim.
Isto leva a que o essencial do seu mundo seja a junção das entradas bibliográficas. Neste sentido, o tipo de paz do bibliógrafo é a paz arquivística, ou seja, todos aqueles momentos em que, composta uma ficha, a coloca no sítio devido por ordem alfabética. O verbete está no centro dessa paz.
Proveito comum
Para o bibliógrafo, o dicionário vem no fim. O objectivo não passara por isso, pelo menos não no início. Só depois de reunir «uma avultadíssima soma de indicações, apontamentos e notas de toda a espécie» decide converter «o trabalho particular em proveito comum». Até a missão tomar contornos de obra, os verbetes ficam sem corpo e servem apenas para arquivar.
O dicionário pretende dar «aos bibliófilos aplicados o resultado de tantas investigações e pesquisas, convencido de que poderia ser-lhes nisso de alguma utilidade», mas, paradoxalmente, quando transforma o trabalho particular em público, a paz arquivística acaba.
Para já, a distinção entre ele, bibliógrafo, e os outros, bibliófilos, é clara. Logo aí está aberta uma trincheira no campo de batalha. Depois, não é sem tensão que entrega aos outros algo que era tão seu, algo que servia para ordenar o seu mundo. Algo que não pensou partilhar.
As contrariedades começam porque o Dicionário foi dado como morto «pelo voto leviano de muitos, que o apodaram de obra anacrónica e desnecessária». Mas apelidar o conjunto dos seus verbetes como anacrónico e desnecessário é o mesmo que dizer que ele mesmo vive de forma antiquada e inútil. Não aceita a imagem que os outros têm de si e apresenta-se não só como actual, mas também como ganhador: «Vencida uma longa série de dificuldades […] realiza-se enfim a demorada aparição do Dicionário.»
É a própria utilidade do verbete que o justifica. Passa a ser ponto de honra que os outros percebam essa utilidade. Por outras palavras, que percebam que a entrega ao verbete exige alguém disposto a enfrentar as adversidades. Alguém que sabe que o seu tesouro é demasiado precioso para ser censurado pelos «que incompetentemente se presumem habilitados para pronunciar voto decisivo […] sobre o mérito das produções literárias».
O meu tesouro
Se o dicionário só aparece no fim da linha, cativou-o a própria colecção de registos, sem que esteja enquadrada por uma obra. Chama-lhe «o meu tesouro» e acrescentar-lhe riquezas é «um estímulo insaciável». Cada novo verbete é uma nova moeda para aumentar o acervo.
Aliás, pode estabelecer-se uma relação entre «tesouro» e o próprio conceito de «thesaurus», um trabalho de referência que agrupa verbetes (não corresponde exactamente a «dicionário»). No entanto, o bibliógrafo quer focar a acepção mais amorosa da palavra: pessoa ou coisa a quem se tem afeição. Escreve depois, referindo-se a uma época em que o dicionário não estava sequer em causa: «A bibliografia converteu-se para mim numa paixão predominante.»
Assim, o bibliógrafo sacrifica tudo pela colecção. Perde «horas de repouso indispensável» e corta «despesas que seriam para outro de urgência imediata». Não olha a meios para que cada nova peça do seu tesouro seja exacta, clara e concisa. De certa forma, pela precisão, leva a cabo um trabalho de ourives. Mas este sacrifício precisa de algum tipo de recompensa.
Árido em demasia
Os gozos e os encantos do verbete são evidentes para ele. E assim é como se tivesse acesso a uma área reservada da realidade. Aquilo que já tinha sugerido com a distinção entre bibliógrafo e bibliófilo, reforça-o agora com mais convicção.
Os outros vêem um estudo bibliográfico como «árido em demasia e ingrato na aparência», mas ele retira-lhe «uma espécie de encanto irresistível, e gozos que bem compensam as fadigas e sacrifícios que exige». Não é por isso um triste ou um frustrado, nem vive em privação. Pelo contrário, encontra no verbete uma forma de fruição. O prazer do verbete está no trabalho de ourives, no brio. Às avessas de Barthes: o brio do verbete (sem o qual, em suma, não há verbete) seria a sua vontade de fruição.
Por mais cinzenta que seja a imagem que os outros constroem do bibliógrafo, ele prossegue na sua dedicação ao verbete por um único motivo: a paixão que lhe tem. Não interessa por isso que esteja só no seu nicho de realidade.
As forças de um só homem
Mas o que vemos, quando nos deparamos com um bibliógrafo? Alguém com os olhos em bico, e já míope, de olhar para as letras pequenas no papel antigo. Alguém com o nariz a pingar, alérgico, e com o pó dos livros entre cabelo e careca. Mais importante, que verá o próprio bibliógrafo, sempre que observa o bibliógrafo que há em si?
O seu objectivo é «ordenar o inventário descritivo de tudo o que dentro ou fora de Portugal se imprimira na língua vernácula». Por outras palavras, catalogar tudo o que se publicou em português desde o tempo dos incunábulos até à última e mais medíocre elegia ao aniversário de qualquer alteza real.
Trata-se de um propósito megalómano, e ele admite-o: «Vasta e ousada era na verdade a empresa […]. Tenho até a consciência de que ela é superior às forças de um só homem.» No entanto, os recursos intelectuais não lhe faltaram e ele levou avante os seus propósitos, ou seja, criou em nove volumes um mundo feito de verbetes. Quer dizer, no fundo afirma ter superado uma empresa «superior às forças de um só homem». É neste ponto que o discurso parece menos de bibliógrafo e mais de alguém dotado de poderes sobre-humanos.
Fazer jus ao verbete significa desbravar o terreno, abrir os alicerces e levantar as paredes do edifício. Trata-se de um esforço tanto físico quanto intelectual, e o bibliógrafo dá o corpo ao manifesto, nem que isso signifique fazer-se de pequeno para engrandecer os obstáculos que venceu: «Mais feliz que eles, eu, o mínimo de todos, cheguei ao termo de apresentar o fruto.»
Assim, o próprio vê-se como superbibliógrafo, alguém que trabalhou o verbete até à perfeição, alguém que viveu o verbete e que apesar de todas as adversidades conseguiu elevá-lo à categoria de desígnio. Alguém que o amou.
Apresentar o fruto
Chegar «ao termo de apresentar o fruto» representa o momento mais doloroso para o bibliógrafo. Não significa separar-se dele, mas significa que este deixará de lhe pertencer.
Ao entrar «no turbilhão de escritos de toda a ordem e de todos os géneros», poderá ser lido, mal compreendido ou até amado por outros. Fugirá ao seu controlo. O prefácio representa pois um último esforço para o bibliógrafo acompanhar o verbete e é muito mais do que a «choradeira» descrita por Borba de Moraes. Ao inscrever-se nas primeiras páginas, o bibliógrafo passa a acompanhar sempre o verbete, ainda que este lhe fuja na vida e no tempo.
O ensaio acabava aqui, mas já estabelecera as bases teóricas que me levariam à tese de doutoramento e, mais tarde, ao percurso na vida académica. Quando a professora o leu, perguntou-me «Que quer fazer com isto?». Ainda não sabia, estava apenas certo de que partilhava a solidão com Inocêncio e, como ele, queria elevá-la a empreendimento.
Aos poucos, também eu passei a amar o verbete e o paratexto. Mais do que isso, passei a amar a solidão do verbete. Quando dei por mim, tinha fundado o Centro de Estudos do Paratexto, orientado para a abordagem teórica do verbete e seus derivados. O CEP começou em meados dos anos noventa com quinze investigadores integrados, cinco investigadores associados, dois correspondentes e vinte assistentes de investigação. Os números cresceram. Quando saí da direcção, além de vários protocolos e actividade editorial intensa, o centro contava com sessenta investigadores integrados, quinze investigadores associados, dezassete correspondentes e noventa assistentes de investigação divididos em vários grupos de trabalho. Convém não esquecer a Maria da Glória, nossa secretária.