O Meu Irmão
Nos tempos depois de conhecer a Luciana,…
Nos tempos depois de conhecer a Luciana, ao regressar a casa, o Miguel atirava-se para os braços da minha mãe com entusiasmo de inocente. Corrida e salto em frente ao espelho da sala de jantar, enquanto olhava para as costas da mãe reflectidas no espelho e metia a língua repleta de nervuras para fora. Babava-se sobre o cabelo que a minha mãe se esforçava por manter loiro. Adaptava a posição do corpo às zonas de maior visibilidade, por entre as manchas do espelho antigo.
Chegava às cinco da tarde e, mal saía da carrinha branca com letras azuis da APPACDM, berrava para o nosso primeiro andar «O Miguel chegou!».
Chegara, pois.
Entrava tocando às campainhas, batendo às portas do prédio, e quando a Augusta abria a nossa, suspirava «Menina Augusta!» como quem diz «Minha nossa». Por vezes simulava um abraço, porém arrependia-se acto contínuo e admoestava-se «Nao, nao. A Luciana».
Era como se voltasse de uma ausência prolongada num país distante, como se chegasse a casa às cinco da tarde depois de ter ultrapassado provações impossíveis de descrever e agora devêssemos acolhê-lo como o mais sofrido dos homens. Um homem que esbanjara tudo com todos, melhor, com a Luciana, para depois voltar a casa acolhido pelo pai. Sim, porque de certa forma dava-lhe o que tinha para dar, esbanjava a boa-disposição e alegria com ela, regressando apenas com forças para descrever o dia, falar da Luciana, aceitar o abraço do pai e da mãe e fechar-se no quarto sem mais. Comigo não falava.
Uma espécie de filho pródigo que é recebido com as melhores vestes no corpo, um anel no dedo, sandálias nos pés e banquete de novilho, apenas para não agradecer ao pai e voltar à rotina.
Ninguém entrava no quarto com o Miguel lá dentro. Ele não permitia. Lançava urros de «Sim, a Luciana!» contra a parede e enchia o peito para a defender, a ela que não estava ali, contra inimigos imaginários que ali estavam afinal com muito mais presença. Mantinha assim a Luciana junto de si, era sempre a ela que devotava os pensamentos, e mesmo quando observado, por exemplo quando a minha mãe entreabria a porta e lhe dizia «Calma, Miguel», ele não ligava e respondia «Nao, a Luciana!».
Nestas ocasiões só o meu irmão importava, era só com ele que se preocupavam. Colocavam-no numa custódia. Nunca entreabriam a porta do meu quarto para dizer «Calma» porque, enfim, não era preciso. Só que também eu, o filho mais velho, queria alguma atenção e no fundo era mais merecedor dessa atenção. Ficara sempre em casa. Nunca me esgotara tanto noutra pessoa que deixasse de pensar nos outros, como o Miguel com a Luciana. Eu era atento, eu vivia além do egoísmo, superava o que era estritamente meu. Pensava nos outros.
O mundo sofrera um cisma antes e depois das cinco da tarde. Antes das cinco, conversávamos sobre mim, sobre as minhas aulas, sobre as minhas ambições, que no fundo eram tantas que não as conseguia definir. Depois das cinco, falávamos sobre o Miguel, sobre a Luciana, sobre o raio que o parta.
Refugiava-me nos livros. Mais do que um escape, e se a vida é feita de locais, os livros eram um local onde eu ouvia as vozes dos outros como se fossem ditas por mim. Deste modo, não representavam bem um refúgio, mas sim o sítio aonde voltava a casa. Uma parcela da vida que dava para muitas outras parcelas que eu nunca poderia conhecer, ou sequer perceber.
Nunca ouviria o grito «O horror! O horror!» no meio de uma selva.
Porém, o lugar dos livros tornar-se-ia o cercado do animal que defeca onde vive, do animal que julga ser capaz de abrir a porta e sair, mas nunca tenta, como os viciados que afirmam «Deixo quando quiser». Neste local confortável, o refúgio dos livros, nasceria um lugar de desconforto, a inevitabilidade dos livros. Eu sabia já naquela altura, ou penso que sabia, que era apenas um escritor não praticante, e nunca passaria disso.
Enfim, em consequência, naqueles tempos o que eu dizia era cada vez menos oral, cada vez mais composto e artificial, embora ninguém percebesse. Soava esquisito. Por exemplo, num dia de maior frustração «E eu, pai? Não estou sempre em casa contigo?». O meu pai sorria, ele que estava sempre nas leituras talvez percebesse a referência. Despenteava-me o cabelo, dava-me uma palmada no ombro daquelas «segue o teu caminho» e depois respondia com o mesmo sorriso, mas ainda mais amplo
– Cala-te. Porco. Cão.
Se tivesse algum poder de encaixe, teria respondido «Mas, filho, tudo o que é meu é teu».
Eu pensava na beleza do quotidiano. Abria outro livro e embrenhava-me nele. Ocasionalmente, acontecia frustrar-me com o próprio livro tanto como com a porta fechada do Miguel ou o despentear de cabelo do meu pai. Então, sim, podia actuar. Arrancava as páginas com lentidão quase até ao fim, para doer, depois puxava com força, para matar. Arrancava as páginas dos livros como se arrancasse as penas a um pássaro vivo e palpitante nas minhas mãos.
Num desses dias depois de conhecer a Luciana, deu-se a frase. O Miguel chegou a casa mais tarde, a carrinha atrasara-se. Foi pouco mais de uma hora, mas para mim o cisma quebrara-se e nessa hora conquistei o lado dele, imiscuí-me no tempo que seria só do meu irmão.
Telefonemas de lá para cá. «Mas então, quando é que chega?», ao que a secretária da APPACDM respondia «Desculpe, minha senhora, mas já lhe disse. Não sei ainda. A carrinha apanhou muito trânsito, mas acho que está por minutos». A minha mãe sabia perfeitamente que não havia qualquer problema, no entanto permanecia aflita a olhar pela janela com o telefone na mão.
Se existe alguma idade em que é necessário deixarmo-nos de fantasias, eu já a alcançara, mas apesar disso mantive durante essa hora a fantasia de que dominara o tempo do meu irmão, como se o tempo tivesse rédeas e eu as pudesse agarrar; e também a fantasia de que me havia alojado dentro da custódia dele. Ultrapassara a fronteira, tornara-me filho único.
E então, como é lógico, um chiar de travões na rua, uma porta a bater e o berro de sempre, «O Miguel chegou!».
Um trambolhão nas escadas, trac trac em cada degrau, a porta fechada apesar dos toques na campainha, ninguém em casa e ele lá fora. Saltar da carrinha em andamento e deslizar intimamente no chão, um trânsito que nunca mais acaba e dá voltas sobre si mesmo, o motorista que desiste a meio e parte levando as chaves, a APPACDM que continua as actividades do dia ininterruptamente e ninguém sai das salas, um quarto sempre fechado onde alguém esconde Gregor Samsa, a Augusta na cozinha a engomar um braço, o jardim no fundo do pátio à noite quando eu era pequeno, uma rua que só de olhar para ela nos perdemos. Tudo imagens que desejei como cenário para o meu irmão no momento em que ouvi «O Miguel chegou!».
Abri-lhe a porta apontando com o dedo mindinho para o relógio. Talvez percebesse o gesto, embora nunca tenha usado relógio. Saltou num abraço, desta vez para cima de mim, mas eu não deixei que olhasse para o espelho nem que pusesse a língua de fora. Não queria ver as nervuras nem adaptar a minha posição às manchas do espelho. O Miguel fervia de ânimo.
Dera-se qualquer novidade na APPACDM, o Miguel dizia que defendera alguém, que ajudara, que realmente ajudara, fizera-se homem. De facto, uma cor roxa instalara-se nos dedos, a cor depois do murro.
Faltava dizer quem, embora pela lógica das coisas não fosse difícil de adivinhar.
– Sabs? – perguntou.
– Sei, Miguel. Vais dizer «a Luciana», não é?
– Sim.
Não resisti, pelo menos por uma vez queria largar um pouco de fel, purificando-me. Nada de especial, disse-lhe apenas
– Pois sim, essa grande porca.
A cara dele fechou-se em duas voltas. Subitamente percebia muito bem o valor das palavras. Abri num sorriso de quem vai a dizer «era na brincadeira», mas depois calei-me, e o sorriso permaneceu especado num lugar impreciso. Claro que, comparada com as imagens que figuraram na minha mente ao ouvir a campainha, esta frase pouco significativa era só um abcesso que eu tratava pela boca.
Não foi apenas a cara do Miguel que se alterou, a própria expressão corporal, de manteiga, derreteu no calor da frase para cima de mim, sem resistência, no prolongamento do abraço.
Como as coisas podem ser quentes e frias.
– Vá, larga – disse-me.
Percebia-se que ele necessitava de se desatar de si mesmo, dos maus sentimentos que eu lhe passara, porém não conseguia porque não encontrava a guita por onde puxar. Simplesmente não estava habituado ao sofrimento, ou à dúvida, ou a algo que saísse do mundo dele, que não estivesse dentro do que pensava e calculava que o mundo fosse. Nesse mundo, a Luciana não era uma porca, pelo que não fazia sentido que eu o dissesse. E, ao dizê-lo, eu, irmão, era como se ele mesmo pensasse também que a Luciana era aquilo, daí a necessidade de se desatar, de se confessar.
Largou-me por fim. Refugiei-me. Encontrava-me a meio de um livrinho dos anos setenta com aquelas capas de fotografias recortadas e recompostas sobre um fundo branco. Não me lembro do título, nem do autor, que era português, lembro-me apenas de um W semi-manuscrito e das figuras na capa: um tanque cansado e impotente, uma mulher gorda com o peito gordo à mostra, toda ela a sair de uma boca Rolling Stone, ela era a língua Rolling Stone, uma tabuleta de hotel diminuta pendurada no peito da mulher, um qualquer Serpa Pinto a julgar pelo chapéu colonial e pelo capim à volta, uma narceja à espera de que ele passe, a palavra PORNO algures entre o colono e a mulher, um generalzinho irritado, a águia dos EUA que de tão pequena parece um colibri, um monstro inofensivo sentado na legenda «This one’s for you baby».
Os murmurinhos da casa para além do meu quarto, e os murmurinhos do andar de cima. Alguém a esmifrar a parede com um berbequim. No quarto ao lado, o Miguel saltando repetidamente para cima da cama, as vezes necessárias para se cansar.
Senti uma grande paz em não me mover, em colocar a mão sobre o livro e sobre aquelas imagens como se as tentasse baralhar com os dedos, e em ouvir a agitação do Miguel no quarto, porque apesar do cisma, e mesmo girando tudo em torno dele, agora era ele que girava em torno de mim. Controlava-o a partir dos bastidores.
Consolava-me dominar a acção sem fazer parte dela. Era como dar um abraço ao próprio corpo e imaginar que outro o dava, mas sem o embaraço no momento de largar.
Depois, claro, o Miguel foi queixar-se aos pais. Decidira por fim que a culpa era minha. E eles, então, recorreram às minhas traduções. E eu, naturalmente, respondi
– Não percebo nada. Desculpem. Devem ser invenções dele. Pelos vistos anda sempre à volta da Luciana, até para dizer estupidezes.
Assim deixava-o trancado no seu mundo sem comunicação com o exterior, como o Quim a fixar-me atrás da janela e sobretudo através das cortinas, e mantinha-me em obscenidade, quer dizer, fora de cena.
Mas não foi a minha frase que ocorreu verdadeiramente naquele dia, fujo ao assunto. Foi sim uma frase dele que surpreendeu.
No fundo, eu sei que a frase não lhe pertencia. Nunca uma frase tão direita, tão bem dita, poderia ter saído dele, não a conseguiria montar. Ele é mais de desmontar frases. De qualquer modo, foi a resposta que encontrou para a minha afronta.
Deve tê-la ouvido numa telenovela e agora que se sentia feliz mas oprimido, que se sentia superior a mim em muitos aspectos, por eu não ser feliz nem oprimido, pelos vistos por eu ser infeliz e oprimir, entrou no quarto muito depois das cinco da tarde, tirou-me o livro das mãos
interrompendo a frase «Toda esta fastidiosa série de eventos me impelia a meditar, e não pouco, sobre a»
e disse, aproximando-se da minha cara com os olhos secos.
– E tu, e tu não vales nada.