O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 33 de 46

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O Meu Irmão

A senhora Olinda senta-se no sofá à…

A senhora Olinda senta-se no sofá à frente do poster Decca. Não apanhou o cabelo, mas arranja-se passando as mãos pelo corpo como a costureira que procura um ponto solto. Endireita-se, estica as calças e recompõe a camisola. Os gestos são nervosos de forma controlada. Não diz uma palavra.

Não sei o que veio cá fazer nem me interessa, desde que não se demore.

Por vezes sentava-se no terraço a conversar com os meus pais. Como agora, compunha-se depois de sentada. Eles gostavam de conversar com ela, de lhe servir um copo de vinho e ouvi-la queixar-se da Junta de Freguesia por causa do sistema das águas e dos vizinhos que só regressavam ao Tojal em Agosto e esbanjavam a água como ricos, sem consequências. Enfim, já não eram de cá e tinham-se esquecido do valor da rega. Ela sim conhecia o valor da rega. Impunha o seu conceito de água aos outros, fechando-lhes as torneiras durante a noite. Os vizinhos acordavam perante os campos, as figueiras e as videiras, quase tudo a morrer, e sabiam que fora a mulher de baixo, aquela com a criança esquisita. Deixavam-na em paz por causa da criança esquisita e reabriam as torneiras. A água refluía.

A senhora Olinda costumava comparar o Miguel ao Quim, dizendo à minha mãe «O meu filho hoje sente-se melhor. E o seu?». Comparava o doente ao deficiente, o dependente ao dependente, mas a minha mãe sentia-se constrangida porque comparar é admitir conceitos abstractos e o Miguel correspondia a tudo menos a critérios predefinidos. O Miguel não era comparável ao Quim. Porém, a senhora Olinda insistia «E o seu?» e a minha mãe ripostava «O meu está óptimo. É muito respeitado na área dele, dizem que é uma autoridade». A senhora Olinda não percebia a resposta, bebia o resto do vinho e retirava-se.

Ao meu pai bastava a vista para se consolar. Também nunca lhe ocorrera comparar o Miguel ao Quim. Não se intrometia, limitava-se a beber o copo de vinho até ao fim.

Mas agora a senhora Olinda tem alguma coisa importante para dizer, caso contrário demoraria menos a começar. Não veio queixar-se das regas, até porque os vizinhos já não regressam nas férias de Verão. O Tojal é só dela, do Quim e do senhor Aníbal. Mais dela do que do Quim; mais do Quim do que do senhor Aníbal. De resto, todos abandonaram o Tojal.

Bate os joelhos e permanece calada.

– Posso arranjar-lhe alguma coisa? – pergunto.

– O quê?

– Não sei, um copo de água ou um chá.

– Pode arranjar-me um chá sem açúcar.

Continuo a observá-la da cozinha. E ela também me observa. Não sei se tal é possível, mas parece-me que a senhora Olinda é uma mulher ao mesmo tempo perspicaz e imbecil.

– Não usa o lume para aquecer a água? – pergunta.

– Tenho uma chaleira eléctrica, não é preciso.

– Mas a água fica mais aquecida, sabe?

– Assim também é bom, não se preocupe, senhora Olinda.

Ligo a chaleira e a máquina vai acumulando tensão enquanto procuro os saquinhos de chá. Treme e faz transbordar alguma água. O metal brilha por causa da água.

– Ó, como ela chia! – berra a senhora Olinda. – É assim?

– E ainda vai chiar mais…

O que diz no rótulo. Chá preto Pingo Doce, consumir de preferência antes do fim de 2014. Numa chávena, colocar um saquinho por pessoa e juntar água acabada de ferver. Deixar em infusão cerca de 2-3 minutos. Conservar em local fresco e seco e ao abrigo da luz solar. Consumir de preferência antes de: (ver embalagem) Lote: (ver embalagem) Se não ficar totalmente satisfeito devolveremos a totalidade do seu valor (sessenta e cinco cêntimos).

– Pois é, agora chia mais – continua a senhora Olinda.

Despejo a água ainda borbulhante numa chávena, tal como aconselhado no pacote. Entrego-lhe o chá.

– Isto aqui é antigo?

– O quê?

– Este cartão aqui com as pessoas a dançar.

– Mais ou menos. Dos anos quarenta. Gramofone Decca. Gosta?

– Os homens são muito elegantes. No meu tempo ainda vi senhores com sapatos daqueles. Mas só em Arouca. Aqui a gente andávamos descalços.

Depois envolve o chá com as mãos para se aquecer.

– Não acendeu a lareira? – pergunta.

– Não consegui. Está muito suja.

Pousa o chá, agacha-se em frente à lareira de cócoras num movimento lento por causa da velhice. Bate três vezes no interior da lareira com o ferro de espicaçar. De dentro cai um fio de pó como numa ampulheta, directamente sobre as ranhuras da gaveta, enchendo-a por completo. Depois coloca dois troncos lado a lado, desfaz uma pinha com uma força incrível e deposita os nós resinosos entre os dois troncos. Põe novo tronco em cima dos outros dois. Acende um fósforo e pega fogo aos troncos, um fogo intenso que não se extingue logo como o fogo que eu tentei manter quando chegámos ao Tojal. Parece que pegou, a chama vive e o fumo escoa.

– Vê? É assim que se faz.

Depois senta-se no mesmo sítio e volta a pegar no chá. Não ficou suja.

Entretanto, o Miguel desce do quarto. Diz olá à senhora Olinda e encosta-se ao pé da lareira, sorrindo de alegria por ouvir os estampidos e os jactos sumidos de vapor que se escapam da lenha quando não está completamente seca.

A nossa mãe alimentava a lareira com voragem de piromaníaco. Talvez a lareira lhe lembre a mãe. O fogo lembra sempre uma origem.

– Ó menino Miguel, como estás hoje? – pergunta a senhora Olinda.

– Bom – responde.

E vai a dizer «És um menino muito lindo» quando se lembra de que ele já tem quarenta anos, tal como o Quim, que ficaria perturbado se lhe dissessem «És um menino muito lindo». Mas de facto são os dois meninos muito lindos, pensa.

O Miguel capta-lhe a expressão que significa «És um menino muito lindo» e, em vez de se sentir insultado, de sentir que está a trair a Luciana, pergunta

– E menina Oinda, boa? – à semelhança de quando suspirava «Menina Augusta!» como quem diz «Minha nossa».

Virando-se para mim, a senhora Olinda comenta baixo

– O que é que ele perguntou?

e eu respondo

– Se está boa.

Pousa o chá e suspira. O Miguel sorri-lhe e ela responde com meio sorriso. Depois recosta-se no sofá e cruza os braços à altura do peito, fazendo-o sobressair num suspiro. Fecha os olhos, encolhe as pernas e os ombros. De súbito parece um livro que ninguém abre há muito tempo, ou que nunca foi lido.

– Mas o que se passa, senhora Olinda? – pergunto.

– O meu Quim.

– Vi-o de manhã. Voltou a andar de carro e tudo.

– Sim. Ainda agora pôs a cabeça no meu ombro, aqui. – Aponta com as mãos para o ombro direito. – Depois foi muito rápido que eu nem sei. É que não sei dizer bem. Falámos da doença e da trotineta, acho eu. Antes de ele adormecer sentei-me um pouco com ele na cama. Ele pousou a cabeça no meu ombro. Sentia-se melhor mas assim para o tonto, um bocado como não estar ali comigo. Pôs aqui a cabeça e falou da doença. Sempre a falar da doença… Mas agora falou diferente da doença, percebe?

Ouvindo a senhora Olinda e observando os gestos cansados – até mais do que cansados –, os gestos de uma mãe, tenho vergonha, mas interrompo.

– O que é que ele diz sobre a doença?

– Ó, nem lhe posso responder a isso. Diz que a doença é uma… Sabe? Mas pronto. O Quim estava com a cabeça no meu ombro. Já lhe disse que falámos da trotineta, acho que pelo menos falámos disso.

Com certeza que para o Quim pareceu um ombro como um ninho, e com certeza que para ela a cabeça no ninho que construíra ao longo de quarenta anos era apesar de tudo a cabeça de um filho ainda pequeno. Daquelas cabeças onde se cheira um resto de infância. «Não te está a acontecer nada, filho», disse, afagando o pouco cabelo que lhe sobrava. Ele respondeu «Não me está a acontecer nada, mãe», e era como se ao dizê-lo se abandonasse ao mundo que sempre combatera, o seu próprio mundo, porque a mãe e o pai eram o único mundo que conhecera e combatera. Depois lembrou que precisava de guardar o tractor para não o roubarem durante a noite. «Sou o único que sabe mexer na trotineta.»

A senhora Olinda cala-se, puxa pelo fio do chá soltando-o logo de seguida. Uma espuma quente emerge e ela sopra-a antes de retomar a conversa.

A espuma cai no tapete e dissolve-se. Sentado no tapete, o Miguel observa a lareira mas presta atenção à nossa conversa, dando solavancos sempre que ouve algo que o alarma.

– E acho que também falou de si – continua ela. – Não falou só da trotineta. Lembra-se daquela vez em que o Quim foi buscar vocês à Paradinha?

– Acho que sim, que me lembro. De certa forma naquele dia ele salvou-nos. Mas e então?

Pousa o chá na mesa de apoio porque está cansada e não tem força para o segurar sem beber. Ainda não o bebeu.

– Depois não sei bem. Falou em muitas coisas mais. Sei lá. Acho que estava mais metido a lembrar-se de muitas coisas do que ali a falar comigo. Percebe?

– Percebo. E isso foi quando?

– Ainda agora. – Decidida, bebe o chá de uma assentada, chupando a saqueta no fim. Depois de passar a língua nos dentes para limpar os restos de chá, continua: – Ficou com a cabeça no meu ombro durante um bocado e então foi tudo muito rápido, mas pareceu muito devagar. Foi igual a quando caímos mas antes de batermos no chão. Falava de si, dos seus amigos e da sua namorada, naquela altura em que vos foi buscar. Estava cansado mas a conversa dava-lhe vontade. E então pronto.

Então pronto: o Quim deu um impulso para a frente como se engatasse a primeira no tractor. Como se atrás de si sentisse a baforada do tubo de escape enquanto subia ao monte depois de nos ter ido buscar, e ao lado dele estivesse uma mulher linda como a minha namorada. A senhora Olinda segurou-o num abraço para o manter encostado ao ombro, e o Quim, mesmo antes de engatar a segunda e espiar o sorriso da minha namorada pelo canto do olho e perceber à volta o espectáculo de pôr-do-sol e montanhas, manteve os olhos abertos à espera de mais qualquer coisa – e morreu.

A senhora Olinda cala-se e vira-se para mim. O cabelo cai-lhe para a frente da testa e a respiração abranda e quase pára, como prestes a rebentar num choro que é ela a libertar-se de si mesma e do Quim.

No entanto, não chora. Termina com

– Era só para lhe dizer isto.

e depois levanta-se e sai.

Fora, junto do portão, o senhor Aníbal aguarda a mulher. Quando a vê, retira o boné verde da Santa Casa. Quer dar-lhe a mão, mas ela não a aceita. Prefere a mão só. Em vez disso, diz-lhe «Vamos lá» e regressam a casa lado a lado.