O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 40 de 46

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O Meu Irmão

– Fora daqui que eu não quero nada!

– Minha senhora, só perguntei se viu um homem com síndrome de Down.

– Isso é o que vocês dizem e depois querem vender frigoríficos ou tupperwares. Nem penses em subir que não abro a porta.

– Mas viu um homem com síndrome de Down? Ou seja, mongolóide? Não quero vender nada, não preciso de subir.

– Então é publicidade! – E depois acrescentou com pronúncia da Ribeira: – Publicidade, aqui, não.

O intercomunicador desligou-se.

Nas primeiras horas depois do desaparecimento do Miguel, pensei que se tratasse de mais uma investida pelo quarteirão, desta feita com a agravante de sair de casa estando esta fechada à chave. Se ao menos tivesse arrombado a porta; no entanto, permanecia tudo no sítio, nada movido, a porta fechada. Comigo, a única cópia das chaves. Era um mistério.

Percorri a vizinhança como de costume sempre que ele saía. No Docinho, a empregada parecida com a Luciana disse-me «Ainda não o vi hoje. Cafezinho, senhor?». Ao lado, na churrasqueira, informaram-me que o Miguel não aparecia há dias. No Pingo Doce nem sequer sabiam quem era, embora ele costumasse ficar horas ao pé das caixas registadoras. A mulher da drogaria não estava certa de o ter visto passar de manhã cedo. «Tem o cabelo curto?» Respondi-lhe que sim, à escovinha. «Ah, então não era ele. Este tinha-o muito comprido.» Na farmácia disseram que não o viram, e acrescentaram «Cumprimentos à Luciana». O homem da papelaria referiu o mesmo, mas anunciou que, da próxima vez, ele teria de pagar porque amarrotava as revistas penduradas à porta. As revistas das telenovelas. No restaurante Poleiro, esclareceram «Lamento, mas ele não entra aqui. Ordens da gerência, ele tentava sentar-se à mesa com os clientes».

Nada parecia anormal às pessoas a quem eu perguntava por ele, já que o fizera noutras ocasiões.

Ao jantar, a vizinhança serenou. O Docinho fechou, os restantes cafés acolheram outra clientela, o Pingo Doce colocou correntes à volta do portão, a mulher da drogaria apagou as luzes mas continuou dentro a discutir ao telemóvel, a farmácia não estava de serviço, a papelaria fechara antes, às sete, e o restaurante Poleiro deixou de admitir clientes porque não tinha mesas disponíveis.

Às onze da noite por fim inquietei-me. O Miguel nunca ficara tanto tempo fora de casa. Encontrava-o sempre com rapidez, numa ou duas horas. Agora sabia que ele fugira, levando o Loto. A inquietação toldou-me o raciocínio. Sem comida, o Loto ficaria com fome em breve, e chiaria como louco, de focinho no ar. Talvez encontrasse o Miguel através da chiadeira do Loto, caso ele permanecesse nas imediações. E o Miguel, teria fome? Onde dormiria? Como conseguira fugir da casa trancada sem ser notado? Como é que eu não reparara?

Durante a noite procurei em todas as ruas do Monte dos Burgos. No salão de bilhar Cinco Estrelas, a meio caminho do Carvalhido, amigos de boné para trás e tatuagens de correntes ao peito terminavam o jogo e o charro. Não falaram comigo porque a próxima tacada e sobretudo a próxima passa os absorvia.

Cem metros à frente, a entrada de um campo de entulho, espécie de Ecoponto destinado às sobras da construção civil. Traves de ferro erguiam-se dez metros no ar como monumentos intencionais aos operários. De resto, pirâmides de pedras rectangulares construíam uma paisagem estéril, onde ninguém conseguiria esconder-se, muito menos o Miguel.

Perto, uma tinturaria desactivada. Constituída por dois pisos, o abandono descarnara-a por dentro, excepto centenas de fitas de papel higiénico que pendiam das traves do tecto. Debaixo de umas escadas, um ninho de vagabundo forrado a cartão. Espreitava para dentro quando ouvi um ressonar de homem que não pertencia ao Miguel.

Nas ruas em redor, apenas casas particulares com palmeiras ocupando metade dos jardins. Espreitei para cada uma delas. Os cães não ladravam quando me pendurava nos muros.

Por último, forcei a entrada no antigo parque de campismo, que fechara havia dez anos. Morcegos voavam entre os pinheiros, apenas visíveis quando abocanhavam insectos debaixo dos candeeiros, junto ao muro. Gatos fugiam à minha passagem. Ao fundo, perto do lago, os faróis dos carros que passavam na VCI cortavam a penumbra, mostrando a zona descampada do parque. Perto, uma forma humana de cócoras que se revelou um aglomerado de pedras e galhos. No centro do lago, uma torre de três andares a imitar as construções medievais. A água do lago ficava-me pelos joelhos. Subi as escadas da torre à espera de o encontrar a dormir junto de uma ameia, mas deparei-me com um colchão velho e dois bocados derretidos de cera preta.

A noite terminou no Carvalhido, já os chineses corriam as grades das lojas.

Regressei a casa pelas oito da manhã, passando à frente da drogaria. A mulher saiu no meu encalço.

– Já encontrou o seu irmão?

– Claro que sim, ele nunca se demora muito – respondi, disfarçando o cansaço.

– Cabelo à escovinha?

– Sim, à escovinha.

– Então enganei-me. Vi-o ontem, era mesmo ele. Não o tinha comprido. O cabelo. Passou aqui à frente a esta hora, mas como já o encontrou tanto faz.

Agora percebia o que se passara. Era elementar, e chegaria a essa conclusão se tivesse parado dois segundos para pensar. Ele fugira antes de eu sair para o trabalho. Era a única explicação. De tão entusiasmado com a perspectiva de ele melhorar depois da nossa conversa, fui para o trabalho sem lhe dizer adeus. Mas este esclarecimento pareceu-me acessório, uma vez que não impedia que ele continuasse desaparecido.

Em casa deixei-me dominar pelo pânico. Senti-me assoberbado pela tarefa monumental de o encontrar. Grandes ou pequenas, modernas ou antigas, em altura ou em extensão, ricas ou pobres, se formos a ver, as cidades são locais onde nos ocultamos. Nelas escondemos as nossas casas, os nossos trabalhos, a nossa cultura, a nossa vida. A proximidade é a responsável por isso, já que, embora habitemos perto uns dos outros, necessitamos de resguardo e afastamento. As cidades foram construídas em malhas de esconderijos, e eu teria de o encontrar nesses esconderijos, agora muito para lá do Monte dos Burgos ou do Carvalhido.

Uma dor física que era mental, como uma mão que puxa os ossos a partir de dentro, atirou-me para a cama e impediu que me levantasse. Picadas atrás dos olhos e formigueiros na sola dos pés acompanhavam um esvaziar de força que ia além do cansaço.

Adormeci a pensar em 112 112 112 112 112 112, e a recusar-me, a recusar-me. Encontrá-lo-ia eu mesmo, resolveria tudo. Não precisava do auxílio da Polícia.

Depois de acordar, no começo da tarde, telefonei à Constança.

– Diz lá que estou com pressa – atendeu ela.

– Nada de especial, só para saber como estavas – tranquilizei-a.

– Estou como sempre. E o Miguel? Quando é que podemos vê-lo?

– Tens visto as manas?

– Volta e meia. Diz lá do Miguel.

– Depois combinamos – desliguei.

O Miguel não se encontrara com elas. Pelo menos isso tranquilizava-me. Embora tivesse conseguido perceber que elas não sabiam de nada, o telefonema resultou inútil, porque o que não levasse à sua descoberta era inútil.

Nessa tarde, palmilhei a Circunvalação à espera de o encontrar no troço que levava à APPACDM. Guiava devagar. Procurei nas paragens de autocarro, à frente dos stands de automóveis, nas gasolineiras, debaixo do viaduto que fica antes da rotunda dos Produtos Estrela, na entrada do Aki, nos jardins e ruas transversais, no acesso ao horto, e por fim na rua que conduz à APPACDM.

Aí, grupos de ciganos dirigiam-se ao autocarro com óculos contrafeitos pendurados à cintura. Eles rolavam os relógios dourados no pulso e elas esfregavam as caras dos filhos.

Outros graffiti tinham invadido a parede branca. Próximo do portão, o RPLKS rabiscara mais vezes o seu número de telefone, cobrindo meia parede. Restos de garrafas, panos, sacos e fraldas enchiam o descampado à volta do colégio. Estacionei o carro longe da entrada mas perto o suficiente para observar as movimentações.

Havia que ser discreto.

Cinco da tarde. A carrinha, na qual observei as cabeças alinhadas dos deficientes, acabara de sair. Risos e berros. Depois, uma mulher gorda, que logo identifiquei como a Eugénia, colocou-se ao lado do portão, ofegante, tentando conversar com uma colega baixa e magra. Dizia-lhe «Mas temos de resolver isto, custe o que custar, Josefa», e a outra interrompia «Eu digo o contrário? O que sugere? Fizemos o possível».

Um carro da Polícia dirigiu-se ao portão. A Eugénia indicou o lugar de estacionamento e seguiu-o. A Josefa continuou encostada ao muro perto de um throw-up. Fumava. Atirou a beata para longe antes de a Eugénia regressar. «Acho que ainda não fizemos tudo», continuou esta. «Mas o quê, diga lá», insistiu a outra. «Vou pensar.»

Estacionei o carro mais longe e voltei a pé, desta vez pelas traseiras, onde eucaliptos cerrados escondiam o muro. Não seria visto.

Três horas depois, a Polícia foi-se embora seguida dos funcionários, entre os quais a Eugénia e a Josefa, que desapareceram lado a lado sem falar. O contínuo saiu em último, já a escuridão lançava os dedos ao dia.

Entorpecido pela espera, evitava pensar nos acontecimentos ou tirar conclusões da conversa entre a Eugénia e a Josefa, assim como da presença da Polícia. Só queria encontrar o Miguel. Embora guiado pela imagem dele, esta afastava-se sempre que eu me aproximava.

À minha frente, ao alcance do braço, já ali, mas longe, sempre longe.

Circulei o colégio em busca de uma abertura no muro. No entanto, o perímetro encontrava-se intacto e protegido por arame farpado no topo. Não conseguia entrar. Procurei nas imediações e circundava de novo o muro quando ouvi dentro um barulho de metal a bater. Chamei «Miguel, estou aqui! Miguel, anda cá! Estás aí? Miguel!» e o ruído aumentou, como a responder que sim. «Sabia que te encontrava aqui! Vai para o portão!»

Enquanto corria para lá, o som seguia-me, batia, batia – era ele que me seguia, era ele que batia no muro e no chão, do outro lado. Ainda que apenas tossisse impedido de falar, eu ouvia-lhe claramente os passos. Enfiei o braço nas grades, abanando-o. «Aqui!» Nisto, uma forma indistinta saltou sobre o meu braço e abocanhou-o. Em pânico e sem perceber o que se passava, tentei libertar-me.

Porque mordia? Porque reagia como um animal?

Retirei o braço assim que senti afrouxar a mordedura. Mais calmo, porém com a camisa rasgada, tentei perceber o que se passara. Não era o Miguel, mas um cão com uma lata de Coca-Cola presa à pata. A manga esfarrapou-se e o braço sofreu alguns arranhões superficiais. Fugi quando o cão começou a ladrar.

A partir desse momento não me lembro do que fiz, se dormi, se continuei as buscas perto do colégio, no Monte dos Burgos ou noutros locais do Porto. Era como se estivesse com febre. Os objectos perderam a forma, tornaram-se percepções. Sentia-os indiferentes ao toque. As vozes como no fundo de um barril. Os carros movimentavam-se sem saírem do sítio. Os homens pareciam-se com o Miguel e as mulheres com a Luciana.

A meio do dia seguinte, o terceiro desde que ele fugira, dei por mim na Baixa, perto dos Aliados, a bater às portas como louco. Não tinha verdadeiro domínio sobre mim. Algo estalara, talvez o mecanismo de travagem, e agora seguia sem rumo, sem plano, a importunar as pessoas nas casas e nas ruas. Perguntava-lhes «O Miguel?» ou mesmo «A Luciana?», só porque a carrinha passava por ali.

A última pessoa com quem falei, uma velha que vivia num quarto andar da Rua das Flores, espreitou à janela e insistiu aos berros

– Publicidade, aqui, não!

– Não é publicidade! Responda por favor – esclareci enquanto tocava à campainha sem parar.

Depois de um som gutural, a velha expeliu um escarro que caiu direito na minha cabeça. «Agora vais-te embora, não vais?»

De volta a casa, sentia que não era o Miguel que estava perdido. Eu é que estava perdido. E, mais do que isso, desamparado e débil. Nem me conseguia mexer. Percebera com pânico que não o encontraria quando o telemóvel tocou.