O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 22 de 46

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O Meu Irmão

Reencontrei-me com o Quim depois de o…

Reencontrei-me com o Quim depois de o Miguel ter aberto o quarto. Foi lindo vê-lo descer a rua que leva à minha casa. Uma espécie de trapo – digo, uma espécie de bandeira escalpelada – descia segurando-se a uma bengala sem borracha na ponta. Batia com a bengala no chão de pedra como se espicaçasse a barriga de um animal morto. Usava luvas por causa do frio, mas também porque não queria mostrar os ossos dos dedos e o punho, tendão sem nada a revesti-lo, género marioneta.

Ajeitava as luvas como uma mulher, com a ponta dos dedos, e cheio de medo de que um gesto indelicado lhe descompusesse os ossos.

Lascas de gelo substituíram a poalha de água que durante a noite assentou e se tornou orvalho. A bengala batia no chão para quebrar o gelo. Ao longe, o vento estalou os eucaliptos e os pinheiros e vergou a urze. O mesmo vento desceu ao rio e voltou, embatendo no Quim, qual homem que tropeça e se apoia noutro.

E o Quim manteve-se firme na tripeça.

Atrás dele, uma das casas abandonadas mostrava no frontão A.1857 (A. corresponde a ano), uma data sem significado perante aquela descida às arrecuas com medo de cair. Quer dizer, a bandeira que descia, o Quim, podia ser de 1857 como de 1504, 1143 a. C. ou 2027. No fundo, é um homem sem data ou terra. Não pertence ao Tojal e não pertence a ninguém ou a nada, nem aos pais nem à doença, embora ambas as pertenças sejam por demais evidentes.

Num momento parecia cair, noutro que já tinha caído e se levantava. E quando parava para respirar melhor era como se enchesse os pulmões à pressão. De qualquer forma, avançava encaixando os pés nas pedras que conhecia melhor, apoiando-se à parede da igreja em que deixava dedadas ao nível dos ombros.

Não conseguia aproximar-se mais da igreja porque, embora quisesse ultrapassar a porta, um medo infantil e mal instruído controlava-lhe os movimentos. Não queria sentar-se na igreja, nem que fosse a um canto por baixo do coro, nem mesmo junto à porta como por engano e prestes a sair. Depois dizia «Sou doente, não tenho de ir», mas no fundo sabia que não era livre ao recusar-se, que era dominado por um asco do qual, em suma, não sabia determinar a origem, um asco sem fundamento. O que interessa é que não transpunha a porta e por isso, ao colocar a mão na parede para se apoiar, entrava por procuração.

Vestia fato de treino. A bengala brilhava na pega húmida. As pernas abanavam nas calças lembrando canas a baterem contra tecido.

Cuspia para purgar o interior da boca. Mesmo depois de me ver, continuou a cuspir, até mais e com maior intensidade. Reparou em mim já muito próximo, ia eu a entrar em casa. Puxou outra vez as luvas para cima, segurou a bengala mais firme e endireitou as costas. Levou a mão ao cabelo para o alinhar, mas nisto lembrou-se de que era careca quase por inteiro.

Não conseguindo deter o movimento, passou a mão pela careca.

Pareceu-me mais fraco do que o normal. Demorou muito tempo, demasiado, a percorrer trinta metros. Chegou ao barracão ao lado de minha casa como depois de trinta quilómetros.

Nem sempre os fortes nos intimidam (os demasiado fortes são um pouco ridículos), mas por vezes os fracos fazem-no. O Quim intimida e fascina, integra as coisas que não conheço e me seduzem e repulsam ao mesmo tempo, como o sexo quando somos mais novos.

Está doente dentro da doença. Tomara a ele libertar-se, despir-se dos braços gelados e azuis, da magreza, dos próprios ossos, da pele que o envolve e que o agarra. Mas não basta despir-se. Tem de desaparecer, ir todo ele com aquele vento que antes quase o derrubou. Passar. Deixar de se consumir e de consumir os outros, viver pelo menos uma segunda-feira sem dizer «Aí vem mais uma semana».

Entrou no barracão e destapou a lona que protegia um Smart. Não sei porquê, colocou um autocolante de bebé a bordo no vidro traseiro. O sol queimou a cara do bebé.

Tornou-se maior, mais encorpado, dentro de um carro como aquele. Os dois têm um caso: o carro leva-o para onde ele quer e, em troca, o Quim cuida dele sempre que tem forças, sempre que não está atirado para a cama a murmurar «Filho-da-puta» a si mesmo. Adora aplicar óleo nos «Pneumáticos da minha viatura», e spray de brilho no tablier. Sempre que o faz, por muito que se estafe, sente que a vida vale alguma coisa.

Sente que a vida é um tablier que brilha.

Dizem que as sinapses do cérebro criam vícios, afundam os caminhos por onde as enviamos. Não é tanto uma questão de realidade, mas de insistência numa determinada realidade. O Quim afocinha na sua, e só pensa noutras coisas quando trata do carro.

Depois sobrevém mais uma crise e desilude-se, mas, enquanto o sentimento de tratar o tablier perdura, é como se vivesse sobre rodas. No entanto, nunca apreciou o vento no cabelo, a brisa do mar e o vento no cabelo, o cheiro a caruma, o resfolgar de terra e pedras na carroçaria. Segundo me disseram, nunca vai além de Ponte de Telhe, nunca passa dos quarenta e nunca abre os vidros em andamento.

Era de esperar que fugisse, que uma vez por outra visitasse a costa, ou subisse à Freita, de onde se vê o mar em Aveiro.

O Miguel apareceu à janela. Disse «De todo! De todo!», sei lá porquê, e enrolou um pano de cozinha, torcendo-o como a espremer água. É assim. Conversa no seguimento do que está a pensar, como tantas vezes, e cabe-me adivinhar a que se refere «De todo! De todo!».

Os travões chiaram e o Quim travou ao meu lado, quase sobre os meus pés como os condutores que são mandados parar por um polícia e por centímetros não lhe esmigalham os pés na ânsia de perguntar «Que fiz, senhor agente?». Desceu o vidro até meio, subiu-o e só depois o abriu na totalidade. Parecia irritado por me ver. A minha presença ofende-o como ofende a presença de um irmão com o qual andamos às avessas.

Esperou trinta segundos puxando catarro, desengatando e engatando a primeira. Ligou a música, o segundo andamento da Nona Sinfonia (como é que Beethoven chegou aqui?), e comentou o tempo

– Está de chuva.

– Muito bem. Vai à sua voltinha? – perguntei.

– Pois sim. Ponte de Telhe, vou ter com os dos carros.

Passou os dedos pelos nódulos do volante, estendeu a mão e tirou o pó do lugar do morto. É ele quem domina. Depois calou-se para me manter em suspenso.

No outro dia dei-lhe demasiada confiança. Onde é que já se viu, levar aquele trapo ensopado de vinho até casa? Levá-lo aos ombros.

Apesar de tudo, reparei em algum entusiasmo. Notei algum descanso. Até acenou ao Miguel, que entretanto comia um pão à janela.

Nunca lhe tinha visto gesto tão simpático, e logo para com o Miguel. Porque merece ele, mais do que eu, um aceno de olá e simpatia? Porquê a afeição imediata dos outros?

Virei-me para mandar o Miguel para dentro. Acrescentei «Mas fecha a janela». Ele desapareceu mas não fechou a janela.

Entretanto o Quim puxou pelo motor, colocou o conta-quilómetros a zeros e engasgou-se no que ia a dizer. Então, sim, conta-quilómetros a zeros, motor ainda a arfar, olhou para mim, fixo, e disse

– Ah, já tratei deles.

«Deles» não teve entoação especial. As frases importantes são ditas tantas vezes entredentes. Percebi de imediato que foi por causa dessa afirmação que ele se dirigiu a mim com calma, como a saborear o que diria.

– Deles? – perguntei.

– Sim, estão para lá.

Ligou os faróis e apitou três vezes já depois da primeira curva.

O Smart meteu-se pela montanha.