O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 16 de 46

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O Meu Irmão

Era um jogo de pintar com as…

Era um jogo de pintar com as mãos, o Miguel tinha dezassete anos e na APPACDM faziam muito daquilo. Só não usavam batas de criança porque já sabiam, mais ou menos, como não entornar a tinta na roupa. E eram demasiado velhos. Davam-lhes uma folha branca e esperavam que desenhassem, mas eles preferiam molhar as mãos nas tintas e passar os dedos na cara a desenhar lágrimas, ou a imitar índios.

Depende do risco na vertical ou na horizontal.

O Miguel gostava de sentir a tinta primeiro na cara e depois no papel de péssima qualidade, daqueles papéis reciclados que todos amassámos em criança. Comparava a superfície da cara com a do papel e por vezes confundia as duas.

Fazia parte da turma dos semis, aqueles que ficaram a meio caminho entre os ocupacionais e os produtivos. Eram demasiado activos para se distraírem com bolas e brinquedos, mas não conseguiam embalar sabonetes ou encaixar molas de roupa. Assim, dedicavam-se às «manualidades».

Nos produtivos, sempre que alguém novo entrava, um deles levantava-se, endireitava a bata e mostrava a mão coberta por uma luva de pano áspero. «Quem tem a luva, pega no sabonete», e de facto pegava no sabonete, introduzindo-o dentro da embalagem com o logótipo da marca virado para cima. A sala cheirava a concentrado de sabonete.

A turma do Miguel não era só de trissómicos vinte e um. Havia de tudo: paralisados cerebrais com atraso (os profundos), síndromes do X frágil, síndromes de Joubert, síndromes de Rubinstein-Taybi; e, claro, atrasados mentais sem diagnóstico definido, profundos, agudos, graves, moderados e leves.

A Sala do Arco-Íris (grupo dois, turma doze) media trinta metros quadrados bem limpos e ataviados, mas com falhas na pintura das paredes, manchas de humidade e bolas de pó onde parava a brisa levantada pelo fechar das portas. Particularmente, incomodava uma mancha cinzenta que se diluía sobre qualquer cor que tentasse nascer, como aquele vento norte que corta as primeiras hastes que despontam da semente. A mancha estendia-se ao resto da APPACDM e até à sopa da cantina, aguadilha quase incolor. E isto apesar das gargalhadas ou dos corrimões às cores ou dos quadros nas paredes.

Para a actividade juntavam-nos aos pares à volta de uma mesa. As mãos atacavam o papel ao mesmo tempo.

Parecia a linha de montagem dos Tempos Modernos.

Os dedos cruzavam-se com dedos, as primárias misturavam novas cores e o produto escorria pela folha e pelo chão, exausto e satisfeito como um corredor depois da meta. Só não se ouvia arfar. Por acaso às vezes fazia-se arte. Em todo o caso, não sei como, apesar da cor no papel, a mancha cinzenta persistia.

Todos os esforços se goravam, porque embora houvesse alegria também esta era cinzenta, e deixara de ser possível distinguir onde acabava o cinzento e começava a cor dos jardins em volta. Quanto mais para dentro nos corredores, mais cinzento.

Os ânimos levantavam-se a correr quando alguém divergia na estética. «Ah, badocha!» «Grande porco.» «Pára, estúpido.» «Ele mordeu-me!» Nos dias mais artísticos, o Miguel chegava a casa com dentadas nas mãos.

Por isso desenvolveu um horror à arte.

Subia as escadas da entrada desanimado, sem berros de olá e a colocar os pés em cada degrau mais lentamente do que o costume. Vinha com o humor igual a um bafo de cão. Queria resmungar, queria desabafar, queria simplesmente comunicar, só que não conseguia e chicoteava a raiva em nós.

Estava fechado dentro da preocupação e a única escapatória era o ataque.

A Augusta sofria sempre – e sofria mais. O Miguel entrava na cozinha e apanhava-a a engomar as camisas num esforço para desenrugar os colarinhos e as mangas. Costumava abrir a porta do pátio por causa dos abafos. Queimava-se frequentemente e berrava os seus ais para dentro. Não queria incomodar, nem sequer deixava a tábua de ferro ranger. Engomando perto da janela, o vapor traçava-lhe o perfil no vidro e por momentos eram duas que passavam a mesma roupa a ferro, mas depois um vento mais forte borratava o desenho. Saía às seis da tarde e dela só sobravam as camisas mal engomadas.

Era tão boa que sorria e o apaparicava quando ele se sentava ao pé dela só para impor a sua presença e resmungar frases desagradáveis. Por vezes ele perguntava-lhe o que jantara no dia anterior e ela respondia

– Empadão.

porque sabia que era desse prato que ele mais gostava.

Boa pessoa, sim, mas pagávamos-lhe bem. De qualquer forma, acho que passou pela vida num deslize direito ao céu.

Foi assim até muito tarde, aqueles dias deixavam-nos loucos. No entanto, passado algum tempo, deu-se o inevitável: o Miguel regressou feliz das aulas de pintura. Inexplicavelmente, chegava a casa com uma expressão de contentamento, um peito cheio de ar projectado para a frente. Felicidade mal disfarçada.

Até subiu as escadas sem pensar nos degraus.

A cara estava pintada de uma maneira especial, como se cada traço de dedo significasse um carinho. Dedos haviam passado por cima das suas sobrancelhas, ao de leve, em ambas as bochechas, quase ao mesmo tempo como mãos de carícia, e até na periferia da boca. Ficava bonito, mas de aspecto incompleto.

Como um pássaro mal emplumado.

O sorriso parecia sobretudo de regalo, como quem encontra o que procura. Foi com esse sorriso que se sentou na sala

Quer dizer, foi nesse sorriso que se sentou.

e nos explicou o que se passara. Eu traduzia, sempre acedi directamente à linguagem do Miguel. Tirava informações da voz e dos gestos e preenchia o resto com a minha imaginação. Nem sempre fui um tradutor fiel, mas isso agora não interessa.

Voltara às aulas de pintura logo pelas nove da manhã. Mordiam-lhe, queriam arrancar-lhe os pincéis. A tinta diluíra-se muito e por isso não servia para empastelar nas mãos. Desânimo como uma película de suor por todo o lado, o tipo de desânimo que nos mantém pregados ao chão.

Designaram os pares e o Miguel não queria sentar-se com o balofo mais velho que lhe punha a mão na perna e apertava.

Chamavam-lhe «o Caranguejo». O mais incrível era o seu esgar de pena e dor quando fazia os outros sofrer. Parecia que apertava a própria perna. E berrava ao mesmo tempo «Está quieto, está quieto», como se não concordasse com a própria mão, ou achasse que assim disfarçava a sua maldade.

Neste ponto da história, o Miguel calou-se e suspirou. Uma pausa para recuperar o fôlego. Olhou para os quadros da sala com um meio olho fechado e um meio olho atento. Depois continuou, enquanto prensava os dedos uns nos outros, estalando-os.

Acontece que ao lado dele, em vez do Caranguejo com a sua mão-pinça, sentou-se uma rapariguinha cheia de cabelo e já com as pontas dos dedos manchadas.

Andara a brincar com a tinta às escondidas.

Era enfezada em tudo menos no cabelo e tinha uns olhos muito definidos e azuis que, apesar dos óculos, fixavam com atenção, sempre à espera de agarrarem qualquer coisa. Olhos como um anzol, e ela fisgava-os directamente nos olhos castanhos do meu irmão. Vestia uma camisola cor-de-rosa bordada com bainhas de ursinhos e árvores e de resto não sei, talvez colmeias penduradas nas árvores. O corpo perdia-se na camisola.

A auxiliar rodava de sala em sala e estava entretida noutro sítio qualquer. Não os incomodou, embora fosse má política deixar um conquistador como o meu irmão à solta. Sabia-se que ele importunara a auxiliar da secretaria.

Ela vinha de outra turma, parece que se cruzavam nos corredores. Eram desconhecidos de vista. Devem ter reconhecido uma certa afinidade na conversa, não sei se de gostos, se de quê. Entenderam-se bem, quer pelo toque das mãos em busca dos pincéis, quer pelo sorriso atrapalhado. Podem nem ter trocado uma palavra, a verdade é que não sei.

O processo habitual.

Ficaram os dois isolados no seu canto, ao mesmo tempo no centro do mundo e fora dele – um pouco como agora no Tojal estamos no interior e no exterior da acção. Ela provocava-o ao apertar-lhe o cachaço, mas o Miguel não se importava e sorria porque naquela zona do cabelo cortado à escovinha a pele era mais sensível. Ele brilhava. Ela brilhava.

Pouco depois, a educadora disse para pintarem a cara uns dos outros. Claro que queria dizer um retrato no papel, mas foi o bastante.

Apetecia a ambos o que fizeram.

Os dedos cruzaram-se, ela aplicava uma cor e ele outra, as cores misturavam-se tanto quanto os próprios dedos. As caras ficaram coloridas de parte a parte e a folha permaneceu branca.

Aquele cinzento que, como um lobo, pousava a pata na APPACDM desaparecera e agora só havia cor por todo o lado, nas paredes, no tecto e no chão, na ponta dos pincéis (onde ela é mais óbvia), nas cadeiras em renque, na comida do refeitório e até nas retretes.

Nesse momento, se o Miguel soubesse escrever, teria aproveitado a folha em branco assim: [Amo-te.]

O relato acabou e os meus pais sentaram-se mais juntos e deram as mãos. Eu orgulhava-me da tradução, de como conseguira acrescentar substância e cor local e por isso julgava que aquele dar de mãos se devia a mim. Uma reacção muito comum, confundir a minha vida com a dele, ou querer sobrepor a minha vida à dele.

Perguntámos-lhe qual era o nome. O Miguel respondeu «A Luciana, a mnha Luciana», e foi à cozinha ter com a Augusta para lhe dar um beijo na mão que segurava o ferro.