O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 45 de 46

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O Meu Irmão

Encontrei-os deitados num colchão disposto na diagonal…

Encontrei-os deitados num colchão disposto na diagonal a meio da sala. Se é que se tratava de um colchão, se é que se tratava de uma sala. Não conseguia acreditar. Eram mesmo eles? Por momentos pensei que, em vez do Miguel e da Luciana, estava perante um casal de drogados, mas depois uma voz que eu conhecia desde sempre murmurou «Nao disse?».

Algo pingava no telhado de zinco, fios de água que escoavam dos prédios em volta. O zumbido de um ar condicionado, o grasnido de uma gaivota que sobrevoava, a música de uma discoteca próxima e o bater de chapas convergiam ali como uma praga. As paredes não eram paredes, eram tijolo descarnado e sujo com restos de estuque. Máquinas sem préstimo empilhadas a um canto, varinhas mágicas, batedoras e microondas. Um resfolgar na casa de banho, talvez um bicho, um rato. Qualquer animal que escarafunchava.

Perto do colchão, mantas velhas da British Airways, cotos de Bolicao, restos frescos de piza, cinco latas de Coca-Cola. Num banco, a roupa dobrada do meu irmão e ao lado a roupa dobrada da Luciana.

A proximidade das roupas repulsava, e repulsava sobretudo eles deitados no mesmo sítio.

O néon McCain lançava sobre o barracão um brilho palpável, diria até suado. Pontos de luz mais intensa entravam pelo telhado crivado de buracos; chão de estrelas, como na música. Uma lufada de ar fresco abanava o telhado.

De início conservaram-se quietos a olhar para mim. Depois o Miguel espreguiçou-se, aproximando a Luciana com o braço. Ela sorria e os seus pés mexiam-se como a sapatear.

– É o meu irmao – informou o Miguel.

– Eu sei, teu irmão. Conheço – retorquiu a Luciana, apontando para ele e para mim ao mesmo tempo, a lembrar-se.

Não sabia o que dizer perante aquilo, muito menos o que fazer. Fechei a porta da rua, que deixara escancarada, certificando-me de que o beco continuava sem ninguém. Aliás, quem entraria ali? Tapei a cara com as mãos, envergonhado por ter permitido que as coisas chegassem àquele ponto. O Miguel levantou-se vestido apenas de boxers e encheu um copo com a água que pingava no balcão da cozinha. Trouxe-mo. Bebi-o com violência, num trago, cuspindo de seguida por causa do gosto a ferrugem.

Que era aquilo? O meu irmão num casebre. Que era aquilo? O meu irmão com a Luciana. Quase não conseguia respirar. Quer dizer, não conseguia respirar.

Sentei-me no banco sobre a roupa do Miguel para recuperar o fôlego.

A Luciana não se levantou. Espreguiçou-se, bocejou revelando manchinhas pretas bem alojadas nos dentes. Parecia descontraída, em paz com a minha presença, como se não soubesse que fora eu quem os separara e que poderia fazê-lo de novo.

De repente senti-me fracassado a toda a monta. Eles eram os vencedores, o deficiente e a deficiente; eu o perdedor. Preferível a APPACDM. Preferível qualquer coisa àquilo. Preferível o quê?

O Miguel sentou-se ao meu lado, em cima da roupa da Luciana. Tentou reconfortar-me afagando-me as costas mas os seus movimentos irritavam-me sobremaneira.

– Miguel, que fazes aqui? – perguntei por fim.

– A Luciana aqui, eu aqui – respondeu. – Eu avisei onde Luciana esta, eu esta.

Não detectei rancor ou reprovação por o ter tirado da APPACDM e mantido isolado durante meses. Havia só felicidade por isso ter acabado e por estar de novo com a Luciana. E agora, ainda por cima, por terem uma casa e viverem juntos. Incentivando-me, sorriu e apertou o meu ombro com carinho. Afastei-o num gesto rápido.

A Luciana ficou deitada como se eu não a assustasse. Porque não a assustava? Não fugiram de toda a gente durante aqueles dias? Agora, que os encontrara, porque não tentavam escapar?

Só me ocorria que estávamos no mesmo barracão onde a mãe da Luciana fora violada. De súbito voltáramos ao início, embora fosse o início dela, e não o nosso. Nós nascêramos no outro lado da cidade. No outro lado da vida. Como fora possível chegarmos a isto? Ela no colchão, o Miguel dirigindo-se outra vez para o colchão.

Voltáramos ao início e definitivamente chegáramos ao fim. Estava determinado a acabar com tudo. Tudo era o quê? E como?

Deitou-se com a língua pendida para fora.

– Miguel, a língua. – E ele, no único gesto de provocação fortuita dessa noite, espicaçou-a na minha direcção. A Luciana riu-se daquilo. Riu-se de mim.

Chegáramos ao fim, eu chegara ao fim. Não conseguia suportar mais a vida, se a vida continuasse a ser um emaranhado de altercações entre nós sobre a Luciana. À minha frente, a causa dos dissabores. Uma mulher desconchavada, de óculos, com o cabelo espesso mal penteado e o queixo raquítico. Sobretudo, deficiente. Ainda mais deficiente do que o meu irmão. E apesar disso nem sequer lhe metia medo. Sim, era como se eu não existisse.

A julgar pelo barulho, o animal que escarafunchava o chão da casa de banho, talvez um rato, quem sabe uma ratazana, meteu-se dentro de um saco de plástico e agora esgravatava-o e chiava.

Entrei na casa de banho para averiguar o que se passava. Parte da retrete quebrada tombava sobre o bidé. Ao pé do lavatório, que estava manchado de terra, um saco de plástico do Continente revolvia-se contra a parede. Uma ratazana guinchava dentro dele em busca dos restos de gordura colados às alças.

– Só faltava esta merda! – berrei.

A ratazana afastou-se do saco num salto e correu na minha direcção. Desviei-me, mas ela continuou a investida. Mesmo depois de lhe ter dado um pontapé, prosseguia o ataque. Enojado e decidido, começava o movimento de calcar com toda a força quando percebi que não era uma ratazana mas sim o Loto, o porquinho-da-índia, só que já não me consegui deter. O Loto ganiu como um cão enquanto o aperto do meu pé lhe expelia as tripas pela barriga.

O Miguel entrou na casa de banho quando o Loto estrebuchava pela última vez. Aquilo perturbou-me a ponto de vomitar. O Miguel deu uma pancada leve com o pé na cabeça do Loto para verificar se morrera. Depois, sem comentar a morte do Loto, segurou-me na mão e insistiu que fôssemos para a sala.

A Luciana levantara-se e lavava pratos no balcão. Porém a água escura sujava mais os pratos lascados à volta. Regressou ao colchão quando entrámos e chamou pelo Miguel. «Lavei pratos», disse-lhe ao ouvido. Aquilo lembrava uma encenação, como se eles se dessem especialmente bem só para me provocar.

– Miguel, acabou a brincadeira. Vamos para casa – ordenei.

– Querias. Fico aqui – respondeu ao aconchegar-se à Luciana.

– Meu miserável, julgas que te deixo ficar aqui? Nem penses. Vamos e é agora.

– Fico aqui.

– O Miguel fica aqui – interrompeu a Luciana.

Era de mais. Eles que não me lixassem, nada daquilo estava certo. Nada daquilo fazia sentido. O Miguel voltaria a casa, não ficaria ali. Comigo, não com ela. E a Luciana repetiu «O Miguel fica aqui».

Num ímpeto, arremessei as mantas. Não me lembro se ela usava soutien, nem se estava vestida. Só agora reparava nesse pormenor. O corpo era como a cara, sumido, metido para dentro. Acossada por mim, abraçou-se ao Miguel, que estendeu a mão à minha frente.

Travei a investida a tempo de perceber que tinha de os convencer a bem. Caso contrário, arriscava que fugissem. Sentei-me ao lado deles no colchão, quase de cócoras. Dei a mão ao Miguel sob o olhar atento da Luciana.

– Isto assim não é vida. Vamos para casa, está bem? – E acrescentei: – A Luciana pode ir connosco. Que te parece? Diz, queres que a Luciana vá connosco?

– Boa ideia – respondeu ele.

Mas nisto ela começou a chorar, surpreendida por o Miguel concordar comigo.

– Não. Aqui somos nós. Lá ele. Eu não vou. Tu não vais.

O telhado tremia com o vento e o tra-ra-ra da água que pingava dos prédios em volta embatia directamente sobre nós. As cortinas esfarrapadas ondulavam como algas. Em tensão, eu evitava pensar onde estávamos, ao que chegáramos e como sairíamos daquela situação. Esperava com ânsia que o Miguel dissesse «Sim, vamos embora», mas em vez disso ele retorquiu

– Luciana razão. Fico aqui.

– Porra, Miguel! Obedece, faz o que te digo!

– Fico aqui.

A raiva que acumulara desde que ele fugira soltou-se pelos dedos, que ardiam e latejavam. Não sabia o que fazer. Chegáramos ao fim, chegáramos ao fim. Às duas por três, esmurrei a parede a tal ponto que os restos de estuque se desfizeram. O sangue jorrou dos nós dos dedos e a raiva, em purga, jorrou com ele.

Consegui acalmar-me pelo menos durante uns minutos.

– Basta, Luciana! Não há discussão, acabou. O Miguel sai daqui comigo quer venhas quer não. Se quiseres acompanhar-nos és bem-vinda.

Agarrei no braço do Miguel para o erguer da cama. Ele resistiu retesando o tronco e os braços enquanto a Luciana gritava de emoção. Agarrar o Miguel era como agarrá-la.

Indiferente aos acontecimentos, a noite avançava. Seriam já quatro ou cinco da manhã. Quanto mais cedo resolvesse o problema, mais cedo voltaria para casa – mais cedo dormiria, mais cedo esqueceria as últimas horas.

Forcei-o uma e outra vez mas ele manteve-se hirto no colchão.

– Ficas aí? Ficas? Então é a Luciana que vem comigo!

Saltei sobre ela. Em menos de nada alçava-a ao ombro. O Miguel tapou a boca de espanto; não acreditava no que via. «Então, vens ou ficas?», desafiei-o. Ela abanava os pés tentando libertar-se. O seu corpo quase não pesava, e o esforço por se libertar, as pernas que abanavam e batiam, surtia tanto efeito como uma criança a debater-se. «Vens ou ficas?», repeti. Depois de responder «Ficas», ele atirou-se a mim, derrubando-me. Bati com a cabeça no chão. A Luciana teve mais sorte porque as mantas lhe ampararam a queda.

Enquanto esfregava a cabeça e recuperava forças, o Miguel chorava e pedia «Desculpa, desculpa, desculpa», mas eu não estava preparado para o perdoar. Passados alguns minutos, aquela raiva que latejava nos dedos regressou. Aproximei-me dele pronto a findar o suplício. Dei-lhe um estalo forte. A cara dele quase não cedeu e ele não reagiu. A Luciana é que respondeu à afronta mordendo-me a mão. Pontapeei-a para a afastar, mas agora era o Miguel que entrava em acção. Ainda chorava, ainda murmurava «Desculpa, desculpa, desculpa» quando me enfiou um pontapé no joelho. Não senti dor, apenas mais raiva.

Eu não estava dentro de mim. As coisas aconteciam a outro.

Entretanto, a Luciana voltara ao ataque e mordia-me o braço. Queria acalmá-los, afastar-me, mas quanto mais me debatia para me afastar, mais eles me sovavam. As mantas da British Airways dançavam de um lado para o outro. A cadeira onde o Miguel pousara a roupa partiu-se ao meio. Às tantas não sabia quem me batia, se ele, se ela, se os dois em simultâneo.

– Calma, calma! – berrava eu.

Tentava que parassem de me bater, queria chamá-los à razão, mas ao mesmo tempo não conseguia cessar os golpes que eu próprio desferia. Defendia-me deles ou eles defendiam-se de mim.

No meio da confusão, o Miguel caiu arrastando a Luciana consigo. Tinha-os em desvantagem, mas em vez de parar, em vez de repetir «Calma, calma!» ou «Tudo se resolve!», deixei-me dominar pela raiva e apertei o pescoço da Luciana. Ela tossia, afastava-me com os braços e as pernas mas não conseguia. Eu era mais forte; ela media menos de metro e meio. Se de início foi como agarrar um peixe escorregadio e irrequieto, pouco depois ela serenava sob as minhas mãos, acalmava sob o meu olhar. Adormecia.

Tão pequena, tão indefesa.

Quando estava prestes a resolver o assunto, um baque tremendo obrigou-me a afrouxar as mãos. O Miguel atirara-me com qualquer coisa que ainda abanava no chão quando me levantei. Quase perdi os sentidos mas consegui ficar de pé à espera da próxima investida.

O Miguel acudiu a Luciana, apalpando-lhe o pescoço e dando-lhe beijos na boca. Ela permaneceu inerte por momentos, depois dos quais recomeçou a mexer-se.

– E agora, Miguel, já vens comigo? Queres mais? Pergunta à Luciana se aguenta mais!

Embora pretendesse parar, qualquer movimento do Miguel ou da Luciana acirrava a minha ira. Passado um bocado, a Luciana ousou dizer numa voz partida «O Miguel aqui. Fica», e ele confirmou de seguida «Fico».

Fugiam ao meu controlo, não percebiam que aquele estado de coisas era insustentável. Não valia a pena chamá-los à razão. A Luciana não me ouvia. O Miguel não me ouvia. O meu irmão preferia ficar naquele antro a viver comigo.

A música da discoteca acabou e o grasnar das gaivotas intensificou-se, acompanhado pelo som corrido dos carros que começavam a passar com mais intensidade na Rua da Constituição. Não tardava seria manhã. Antevia os primeiros raios de sol como prova da minha derrota mas ainda havia tempo, ainda era possível. Não assumiria a derrota enquanto não fosse de facto derrotado.

Só distanciando-me dos acontecimentos conseguiria o sangue-frio necessário. Aproximei-me do Miguel em silêncio com a frieza de uma estátua. Agarrei-lhe os braços num movimento rápido que ele não previu e arrastei-o para a cozinha. O móvel da banca, de aspecto sólido e ainda aparafusado à parede e à canalização, perdera as portas. Nunca afrouxando a força com que o agarrava, encostei-o ao móvel. Ele tentava libertar-se mas eu aplicava pressão onde esta surtia mais efeito. Nos punhos. Dobrando os joelhos. Na base do pescoço. No plexo solar. Usei os cabos de electricidade que encontrei no chão para lhe atar os braços à estrutura do móvel e as pernas uma à outra.

Não conseguiria desprender-se.

Agora, que o dominara, o barracão parecia mais pequeno. Reparei nos pormenores da vida de casal que eles tinham levado nos dias anteriores. Copos alinhados no balcão. Latas de atum empilhadas. Três pares de meias. A bola de plástico do Loto encostada a um canto. Um bem-me-quer em cima de um móvel.

A Luciana seguira-nos até à cozinha. «Não magoes. Não o magoes», pedia de braços esticados temendo que a prendesse de seguida. Agora, sim, conseguira assustá-la.

– Miguel, isto vai ser assim. Ou tu vens comigo a bem, ou eu levo a Luciana para longe. Se vieres comigo, a Luciana também vem. Volta para o colégio mas tu podes visitá-la. Caso contrário, não sei o que pode acontecer.

Era uma proposta razoável. Bastava que ele dissesse que sim, bastava que finalmente ouvisse a voz da razão. Mais do que acatar as minhas ordens, bastava que concordasse genuinamente comigo. Libertá-lo-ia, levaria a Luciana à APPACDM e regressaríamos a casa.

A normalidade retomaria o seu curso.

Esperava a resposta dele com ansiedade, pois se concordasse comigo não resolveria apenas a situação imediata mas também a nossa convivência no futuro.

A Luciana aproximou-se dele, tomou-lhe as mãos e disse

– Vou escola.

Porém, ouvindo isto, ele enfureceu-se, arfou, e declarou por fim

– Nunca. Luciana aqui. Eu aqui!

Em fúria, desesperado, saltei sobre ele mas a Luciana interpôs-se. Ele tentava proteger-se dando cabeçadas, cuspindo, só que nada me demovia. Não o esmurrava – simplesmente pressionava-o com o peso do meu corpo. Por seu lado, a Luciana puxava-me pelo braço para me afastar.

Depois não sei ao certo o que aconteceu. A insistência da Luciana em separar-nos lembrou-me que fora isso que ela sempre fizera. Afastar-nos. Fora ela, sempre ela. E agora tinha a ousadia de continuar a afastar-nos, mesmo perante a evidência da minha superioridade física.

Precisava de a travar, de lhe pôr um ponto final.

Na banca atrás do Miguel, um objecto indefinido, velho, que se assemelhava a um maço ou a um quebra-nozes ou a um rolo de cozinha, destacava-se no meio da escuridão apenas clareada pelo néon McCain. Era como se o objecto também emitisse alguma luz, sugerindo «Usa-me».

Peguei-lhe e desferi um golpe rápido na Luciana. No ombro, no peito, no pescoço ou na cabeça, não percebi logo onde. Ela caiu e permaneceu caída de braços atirados cada um para seu lado e a cabeça estendida de perfil, cabelo espalhado. Um fio quase imperceptível de sangue aflorou na sua testa como uma cruz

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de onde escorreu mais sangue e com mais força, numa poça. Não havia nada a fazer. O próprio sangue estancou passados alguns instantes. Talvez a boca se mexesse, talvez as mãos ou os pés tremessem. Não me atrevi a tocar-lhe, nem a perceber se de facto ela se movia.

O Miguel chorava e pedia «Desculpa, desculpa, desculpa», agora não a mim, mas a ela. Esticou as pernas e deu-lhe uma pancada leve na cabeça. Forçava tanto os cabos que a qualquer momento estes podiam ceder.

– Miguel, tem lá calma – disse eu. – Precisamos de levar a Luciana ao hospital. Viste o que lhe aconteceu? Precisa de médico. Vamos levá-la ao hospital. Ajudas o mano a levá-la ao hospital? Portas-te bem?

Deu mostras de serenar mas continuava num choro baixo que mais parecia um gemido. Respondeu «Sim, hospital» e desviou a cara.

– Então vou soltar-te e depois seguimos de carro para o hospital.

A Luciana quase não pesava. Meti o objecto com o qual lhe batera no bolso, embora só coubesse o cabo, e mandei o Miguel abrir a porta do barracão. Levava-a às costas com facilidade. Ultrapassámos em dois segundos os detritos que cobriam a frente das barracas. Na esquina da placa que assinalava o nome Vila Fernandes, já perto da saída, disse «Silêncio, não quero barulho. A Luciana está muito doente e precisa de silêncio. Deixei o carro mesmo à saída».

No entanto, a brecha entre os prédios era demasiado estreita para mim e para a Luciana. Estendi-a no chão e, segurando-a por baixo dos braços, mandei o Miguel fazer o mesmo nas pernas. «Cuidado para não a magoares», acrescentei.

E sobretudo não faças barulho, Miguel, não faças barulho, pensava eu.

Fora, o vento refrescava. O cabelo da Luciana abanava. A primeira claridade surgia a leste.

Deitámo-la no banco de trás. Arranquei devagar para não levantar suspeitas. O Miguel não chorava nem repetia «Desculpa, desculpa, desculpa». A TSF anunciava o estado do tempo para esse dia. Esperavam-se mais de trinta graus.

Estava certo de que ninguém nos vira metê-la no carro.

Em menos de nada ultrapassara o Carvalhido e virara nos novos acessos à Circunvalação. Segui no sentido do Hospital de São João. Guiava com calma, atento a qualquer movimento suspeito na rua, e a qualquer movimento suspeito do Miguel ou mesmo da Luciana. Esta mantinha-se na mesma posição em que a deitáramos.

O Miguel deu sinais de vida nos últimos semáforos antes do São João. Reconhecia o sítio, estivera ali um ano antes por causa do nosso pai. Duas ambulâncias ultrapassaram-nos com as luzes a piscar mas de sirenes apagadas. Um carro da Polícia seguiu-se-lhes.

Parámos no sinal à frente das urgências do São João. O Miguel tentou abrir a porta mas só eu a podia destrancar nos comandos do condutor.

– Aqui, aqui! – berrou.

Não adiantava responder ou dar falsas esperanças. A Circunvalação, que passa à frente do hospital, era o caminho mais rápido para a A3; e a A3 era o caminho mais rápido para as serras abandonadas ao pé de Valongo. Arranquei mal o verde caiu, deixando o São João para trás.

O Miguel verificou se a Luciana continuava inanimada e depois exigiu que eu invertesse a marcha mas já não tinha força para me obrigar a fazê-lo. Agora que o observava com mais claridade, percebia que a cara estava repleta de pequenos cortes e o corpo abatido não só pela violência física como pela violência psicológica.

O sol nasceu nas serras de Valongo num incendiar distante que

tomou de assalto o horizonte. Os primeiros raios erguiam-se quando saímos da A3, algures perto do rio Sousa, em plena serra. Cruzámos algumas aldeias parecidas com o Tojal antes de desviar o carro para uma estrada de terra batida.

A poeira erguia-se à passagem do carro, prendendo-se às

árvores e aos arbustos. O estradão seguia para uma encosta que terminava no topo do monte. Depois de ultrapassarmos a parte mais alta, regressámos ao declive e às tantas entráramos num vale onde um riacho estagnava. Pedregulhos maiores do que homens competiam em altura com a vegetação.

Parei o carro próximo de um desses pedregulhos. O pó

assentou em menos de nada. Abri a porta, saí e fechei-a com rapidez para que o Miguel não fugisse. Dei alguns passos em volta para me certificar de que estávamos sozinhos.

Assim que abri a porta para tirar a Luciana, o Miguel berrou

– Não! Deixa!

e tentou saltar para o banco de trás mas eu afastei-o, batendo a

porta com força. A Luciana estava nos meus braços

pequena, serena, quase bela

e permanecia inconsciente de olhos semiabertos. Embrenhei-me na mata parando num local onde já não via o carro. Juntei algumas folhas e depositei-a aí como numa cama.

Quando regressei, o Miguel tentava sair pela mala e, para isso, puxava os bancos. «Que foi? Onde está?», berrava. Não lhe dei nenhuma satisfação sobre o que fizera à Luciana.

Antes de sairmos da serra, parei num viaduto que passava por cima de uma mata de silvas. Atirei daí o objecto, que apesar do golpe não ficara sujo com sangue.

Ao chegarmos ao Porto, o Miguel dormia de língua para fora. Com certeza a exaustão do que sucedera forçara-o a adormecer. Introduzi-lhe a língua para dentro com medo de que a ferisse num solavanco do carro.