O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 17 de 46

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O Meu Irmão

Regresso de Ponte de Telhe. Deixo o…

Regresso de Ponte de Telhe. Deixo o carro no caminho que leva ao cemitério.

Chamo-lhe caminho mas nem isso é. No Tojal nada honra o significado das palavras. Quero descrever o que há por aqui e não consigo; mas não são as palavras que me traem, são as coisas que as palavras dizem.

O cemitério do Tojal parece uma caixa de sapatos embutida na terra à força. E nem sequer é uma caixa direita, porque falham os ângulos. Os construtores devem ter erigido as paredes à pressa depois do primeiro morto e não conseguiram manter os ângulos das quatro paredes por causa do desgosto. De certa forma, queriam que as paredes se juntassem mais umas às outras para se consolarem num abraço de terra, pedra e argamassa.

A senhora Olinda costuma acender uma ou duas velas naqueles invólucros de plástico que tombam ao vento mais fraco, e o Tojal é atravessado pelo vento norte. Talvez por isso tenham construído as paredes tão altas. Nos últimos tempos deu-se a novidade das velas a pilhas, mas a senhora Olinda insiste nas velas originais porque gosta do aconchego da luz que emitem por oposição à luz eléctrica.

O cemitério é o que há de mais triste no Tojal, mas não por ter pessoas dentro. Os cemitérios reflectem a vitalidade das povoações. Há que enterrar os mortos. É triste porque quase toda a aldeia decidiu saltar lá para dentro. Os que sobraram levaram as mãos à cabeça, olharam para o lado e comentaram «Aonde é que foi toda a gente?».

No lado oposto ao cemitério, o caminho passa por minha casa e segue para o único largo do Tojal. Ao fim do dia de trabalho, o senhor Aníbal costuma colocar as socas dentro da fonte, a meio do largo. Durante a noite, a madeira das socas incha e entrega a porcaria à água da fonte, a mesma água que usam para esfregar as portas em dias de festa e que lançam sobre o Camões sempre que este ladra sem motivo.

Para lá da cancela do terraço, um vulto de um metro e sessenta move-se por baixo do chorão que os meus pais plantaram há mais de vinte anos. É o Miguel.

Quem havia de ser?

Entrelaça renques de folhas como madeixas. Algumas folhas soltam-se e colam-se às mãos.

Os dedos devem ter as articulações elásticas porque vergam para trás quase até ao punho na base do indicador, calos com a forma de dentes, pois desde os dez anos que morde os dedos até adormecer; os dedos têm o mesmo comprimento, acabam na mesma linha imaginária. Excepto o polegar. As mãos amareladas por falta de sangue.

As raízes do chorão colhem água, sobem pelos interstícios da terra, tornam-se tronco, fazem-se ramo, terminam em folha e de cima mergulham até deslizarem pelo chão. A árvore é como a terra a respirar. Dentro desse fluxo, o Miguel agarra-se às folhas mais compridas, quebrando-as com as pontas dos dedos.

Nem deu pela minha falta, o estupor. Esteve quase duas horas sozinho e não reparou que o irmão tinha saído.

Entro nas folhas da árvore afastando-as com a mão. Caem pingos sobre a minha cara e a cara dele. Folhas seguem o exemplo dos pingos e detritos seguem o exemplo das folhas. A árvore abana com o vento, mas não muito. Mesmo assim, a agitação à volta denuncia o vento, até a armação dos candeeiros, que bate contra as lâmpadas apagadas. Por causa das nuvens, não existe lua para meter luz por entre as folhas e fazer desta árvore uma pequena ave-maria iluminada pela fé.

Quer dizer, não me explico bem. Partindo do princípio de que a fé se parece com uma luz fraca pela qual temos de lutar, e assumindo que dois juntos fazem mais santuário do que um só, parece-me que uma árvore com dois irmãos dentro é uma forma de rezar tão válida como outra qualquer. Mas de facto não me explico bem: estamos às escuras e o Miguel nunca soube rezar, nem nunca precisou.

Ao ver-me, não percebe logo que sou eu. Dá um salto e larga as folhas, que caem aos nossos pés e abrem uma brecha no lado da árvore. O vento afunila-se por essa brecha. Encosto-me ao tronco e pergunto

– Então, Miguel, que estás a fazer?

– Vista – responde.

– Mas vês melhor da janela. E está escuro, não há nada para ver. Não tens frio?

– Nao, calate – responde.

A voz dele, agora que a ouço neste «calate» saído tanto da garganta como do coração, é muito parecida com a do pai, mas a do pai dizia as coisas mais espantosas e elaboradas. Nas noites de grandes conversas, referia a grandeza do ser, a ascese da alma. E citava o exemplo do Miguel, que Deus destinara ao paraíso à nascença. Eu, ao contrário do meu irmão, não fora destinado ao paraíso, aliás à semelhança de toda a gente. Ao Miguel bastava existir, os outros precisavam de lutar.

Se pensarmos bem, isto é um pouco injusto. Ainda hoje, ao lidar com o meu irmão, não me consigo desligar dessa ideia.

Depois, o pai entrava no quarto e abraçava o Miguel à minha frente, abraçava-o bem, enquanto dizia «Que lindo que tu és! Mesmo lindo!». A voz, que antes soara poderosa, desencastelava-se sobre ele como natas batidas em demasia.

Mas enfim, a voz do pai sobrepunha-se às outras, até à minha, e julgo que ainda hoje, já ele morto há mais de um ano, essa voz continua a pairar sobre mim por vezes para apoiar, por vezes para contrariar. Nunca falo sozinho, por assim dizer. Só que a voz do meu irmão é apenas um simulacro da voz do meu pai: falta-lhe o conteúdo, é uma réstia, um fundo de voz.

Como a árvore, que também é um resto, um testemunho daqueles que nos antecederam dando o corpo à terra. Quando o chorão ainda era pequeno, os nossos pais chamavam-lhe «o bebé». Agora tem pouco de bebé. O tronco cresceu e enrugou, os ramos distenderam-se e taparam a vista das janelas, mesmo quando o vento oeste os empurra para o lado, e as raízes devem alcançar fundo e quem sabe já andaram a mexer na fossa séptica por baixo da casa.

Sobre restos, testemunhos do que já passou, parece-me que o Miguel, não somente a sua voz, também se enquadra nesta categoria. Isto porque não o consigo admitir sem a existência dos nossos pais, ou não o compreendo sem eles.

Aquele que sobrevive, mesmo que seja apenas um simulacro, tem afinal vida própria. No entanto, estranho vê-lo sem logo de seguida surgir a nossa mãe a perguntar se ele lanchou, ou se tem frio. E também estranho que ele mantenha a língua para dentro sem a ordem do meu pai «Miguel, língua para dentro», ou que consiga viver a mais de três quarteirões da Constança.

Porque a vida dele alimentava-se da vida deles. Não nasceu apenas deles, viveu da soma dessas duas pessoas, a mãe e o pai. Agora que não há elementos para somar, como subsiste?

Bem, mas nada disto interessa perante as coisas do dia-a-dia. O que interessa é persistir num caminho que siga sempre em frente. Cada dia representa uma etapa. Já ultrapassámos muitas etapas juntos. Vivo com ele há mais de um ano. Resgatei-o às irmãs. Elas queriam lançar-se sobre ele, cada uma a puxá-lo para seu lado. Queriam alimentar-se dele, dividi-lo entre si.

Mas eu não deixei e combati-as.

Suponho que ainda não chegou a altura de falar sobre essa fase da nossa vida, mas dá-me um gosto especial ter conseguido afugentar as minhas quatro irmãs quase tão facilmente como o «Xô!» do Miguel ao paralisado cerebral que quis tocar no cabelo da Luciana.

O Miguel continua a quebrar a ponta dos ramos e a soltar as folhas mais fracas. O vento encarrega-se do resto.

Há qualquer coisa de pouco honesto em seguir em frente e ao mesmo tempo olhar para trás, como se não estivesse certo do caminho. O caminho é em frente, o que ficou para trás já não existe ou foi destruído (existe mas está em ruínas). E há qualquer coisa de pouco viril em olhar para trás. Só as mulheres o fazem e morrem em sal. Por isso a obsessão da memória é uma impureza, infelizmente uma impureza à qual não consigo fugir desde que chegámos ao Tojal. Sim, como se não estivesse certo do caminho. Por isso preciso de disciplinar a memória, ordená-la conforme me parece mais lógico e prosseguir até que tudo esteja sobre a mesa.

Só assim me livrarei da voz do meu pai e da expressão das minhas irmãs quando lhes disse «Ele é meu» e fiquei com o Miguel.

Seguro-lhe na mão e arrasto-o para casa. Não quer sair de baixo da árvore mas eu aperto-lhe a mão com força, magoando-o tanto como a mim mesmo. Durante segundos as nossas mãos fundem-se. Os meus dedos pertencem à mão dele e a mão dele aos meus dedos. Ele percebe que não o vou largar e mexe o pé direito, depois o esquerdo. Ainda volta atrás antes de me seguir. Dá pancadas leves no tronco.

Vai resmungando. Por vezes dialoga a dois tempos, ou a duas vozes. Uma voz mais rouca pergunta e uma mais fina responde. A rouca muito rouca e a fina muito fina. Deste modo, marcando as duas vozes, é como se o diálogo se dividisse em itálico e em redondo. Discute, narra, sentencia. Até pode faltar o contexto, como em «Não, já disse não! Oh, e eu sim, eu disse sim!», desde que a parte se oponha à parte. O resto não interessa.

Muitas das discussões abordam a Luciana.

Claro.

E às vezes reproduz conversas do passado. Nessas ocasiões, nunca conseguirei perceber como, articula as palavras com mais perfeição do que o habitual.

Por exemplo, uma dessas memórias.

– Miguel, agora a Luciana acabou. Nao acabou nada! A Lucana é o meumor. Eu sei, eu sei. Não há nada a fazer. Nao acabou nada. Fim-de-semana talvez acabou, mas segunda colegio nao acabou. Tenho muita pena, Miguel.

Temo que ele viva mais o passado do que o presente, mas sem disciplinar a memória como eu ou como qualquer pessoa normal. O agora deixa de ser ponto de referência. Os episódios vão e voltam e ele vive-os quase com a mesma intensidade.

Para ele existem segundas oportunidades para primeiras impressões.

Neste momento resmunga porque não quer voltar para casa, mas recorre a memórias que nada têm que ver com não querer voltar para casa. Resmunga sobre o sumo concentrado que a minha mãe fez e não estava bom, e ele avisara que a mãe pusera concentrado a mais e depois teve de beber tudo até à última gota. «Uma porcaria» em redondo e «Não está nada, está óptimo» em itálico.

– Miguel, vamos lá – interrompo-o.

Um espelho decorava uma parede da nossa sala de jantar, reflectindo as luzes do hall, dos candeeiros e das velas, assim como a mesa e os pratos a fumegar. O Miguel pausava as discussões virando-se para o prato na pergunta e voltando-se para o espelho na resposta. A cara dele esbatia-se entre as luzes e os braços dobrados sobre o tampo davam aspecto de tasca a uma mesa com castiçais de prata. A Joana deixara de viver connosco muito cedo e já não estava habituada àquilo. Quando jantava connosco, murmurava «Seu maluco» enquanto o marido assentia «Sim, de facto».

Assim que os nossos pais morreram, o espelho foi a primeira coisa que vendi.

Antes de entrarmos em casa, o vento intensifica-se e insufla o meu casaco, mexe-me no cabelo e levanta a camisa. No entanto, passa pelo Miguel e desvia-se, talvez porque usa um pijama justo e o cabelo à escovinha. De qualquer forma, parece que não lhe toca, parece que se destina apenas a mim. O Miguel arrasta-se e eu arrasto-me com ele.

– Anda lá, despacha-te. Vamos para dentro! – berro.

Ao olhar para mim, começa a rir, e ri a valer. É que devo lembrar um quadro esborratado. Não só ainda sinto o efeito da aguardente de Ponte de Telhe, como o vento desarranjou-me ao ponto de ficar com o casaco meio despido.

Ri com os olhos em meia-lua. Está velho, mas, se o fitar só nos olhos, parece que tem quinze anos e, pela lógica, eu voltei aos dezasseis. Somos outra vez irmãos na idade em que é bom ser irmão. Mas rir é sempre bom, não interessa a idade. Limpa-nos. Por segundos, a voz do Miguel deixa de se assemelhar à do nosso pai. Passa a ser apenas a voz dele, ainda que a alterne em grave e agudo para discutir consigo mesmo.

Não interessa que se ria de mim. Penteio o cabelo para a frente com a palma da mão e ele ri ainda mais. Quase nos atiramos para os braços um do outro, mas não pelos mesmos motivos. Ele para se agarrar e descomprimir o riso, eu sem motivo para além de o ajudar a rir mais e a rir melhor.

Depois entramos em casa. O Miguel vai direito à casa de banho.