O Meu Irmão
Há vinte anos, os comboios ainda apitavam…
Há vinte anos, os comboios ainda apitavam sempre antes de partir. Campanhã: tudo feio, tudo bitolas ibéricas e tensão da electricidade e do diesel. Crianças pela mão arrastando mochilas desproporcionadas, namorados que se colavam à janela, ele de fora e ela de dentro («Amo-te muito»), executivos com pastas de couro, funcionários da CP carregando os comboios de malas, refeições e bebidas. A máquina aquecia ao frio à espera do arranque e a conversa prolongou-se no entretanto.
– O Miguel estava cheio de saudades tuas, meu querido.
– Estava?
– Sim, cheio. Reparaste como ele lidou contigo? Não te largava. Afinal, não te víamos há muito tempo.
– Pois, eu sei, a vida lá…
– Mas podias visitar-nos mais vezes.
– Não dava mesmo, mãe. Não deu. – O gesto cansado dela, a mão a descair, quando lhe disse isto. E ao mesmo tempo o gesto de disfarçar o cansaço e a desilusão.
– Não te quero recriminar. Só estava a dizer que o Miguel sente muito a tua falta. E nós também. Volta mais vezes.
– Quando puder, quando for possível.
– Quando for possível, sim.
Dois anos depois de eu ter saído de casa. As malas quase não cabiam na porta da carruagem e eu fingia que era por causa delas que respondia tão rápido e tão desajeitado.
– O Miguel só não veio porque eu não deixei. Queria vir.
– Fez bem, não calhava ele aqui.
Enquanto a minha mãe falava, lembro-me de pensar no número setenta e sete, que era o da porta onde eu morava, a trezentos quilómetros dali, num quarto alugado perto das Avenidas Novas. Setenta e sete vezes trezentos igual a vinte e três mil e cem; dividindo por vinte, a minha idade, dava mil e cento e cinquenta e cinco. O Miguel fizera dezanove anos há pouco tempo. Mil, cento e cinquenta e cinco dividindo por dezanove redundava em sessenta e um arredondados para cima.
E também pensava que não temos muito que levar naquela idade, mas apesar disso sempre levamos alguma bagagem. Um pouco como a sopa da pedra, «E agora ponha lá mais qualquer coisinha». Para além da roupa, levava duas malas de livros que roubara às estantes dos meus pais.
A ver se me recordo: Como Eu Atravessei a África, Serpa Pinto; Tortilla Flat, Steinbeck; A Confissão de Lúcio, Mário de Sá-Carneiro; As Aves de Portugal e Europa, grupo Fapas; A Vida na Terra, David Attenborough; Cão Pêndio, Tóssan; as obras completas do Almada Negreiros; Poética, Aristóteles; etc.
Eu julgava que já era um homem e também julgava, qual estúpido, que as nossas vidas, a minha e a do Miguel, poderiam ser representadas como rectas paralelas, duas linhas que continuariam para sempre lado a lado, mas as rectas paralelas são formas de coabitar sem contacto. Embora suspeitasse desta dualidade, ainda não era homem suficiente para o admitir.
Como se vê, estava errado nas duas suposições.
Fui sozinho para Lisboa e assim permaneci, bem vistas as coisas. Às duas por três, deixara pais, irmão e amigos para trás de modo a seguir a minha vocação, o meu caminho sozinho. Não sabia ainda que seria um desígnio tão mínimo que ficaria o resto da vida confinado às salas de aula a ver se disfarçava a minha mediocridade perante outros tão ou mais medíocres do que eu.
Depois da mudança, senti-me como um cavalo que um dia vi libertar em Almendra depois de vários meses no estábulo. O bicho galopava para nenhum sítio, atirava-se à terra, erguia nuvens de pó que o limpavam. Relinchava a cada baforada, trotava e abanava a crina. Era um animal belo, inteiro, só que fora solto num campo cercado, e assim a liberdade derivava apenas de não saber que permanecia fechado em circunstâncias diferentes. Ele como eu, passados dois anos de viver em Lisboa. Preso em circunstâncias diferentes.
Além dos cálculos inúteis para me distrair do que a mãe dizia, calculei também as semanas e os meses desde que estivéramos juntos. Dois anos com poucos encontros, feitas as contas. É que o tempo deixa-se escorregar como uma faca bem afiada; quando damos por isso, o corte está feito.
– Mas vem mais – insistiu a minha mãe quando o diesel soltou os primeiros impulsos.
– Tenho muito trabalho.
– Sim, por isso é que te faz bem descansar.
Um homem de sobretudo interrompeu-nos, insistindo para que o deixássemos entrar «Que isto está mesmo a partir».
– Talvez consiga.
– O pai gostava muito. Eu gostava muito. E sabes que o Miguel gostava muito.
– Sim, sei.
– E podemos ir ao Tojal. Não vais lá há tanto tempo. Aquilo está lindo.
Os transeuntes abandonaram a plataforma. A minha mãe de braço apoiado na carruagem tentando segurar-me a mão. Não lha dava justamente porque o tempo já operara o corte. Os dois anos não se apagariam, a nossa proximidade não se restituiria de súbito só pelo toque de mãos. O Miguel continuava, e continuaria, a viver do amor que agora não estava disponível para mim.
Não sabia por que motivo, se devido a eles ou a mim, mas de facto algo se quebrara, algo que não seria possível restaurar, frágil como a pintura sobre vidro. No centro dessa quebra, talvez a pederneira que a despoletara, o Miguel e a sua vida perfeita: a falta de luta, o amor, a harmonia em tudo o que lhe dispunham sem exigir retorno. Eu, sim, precisava de batalhar por tudo e sentia cada vez mais que se tratava de uma luta perdida. Faltavam-me forças para sequer, pela manhã, achar que um dia belo de sol seria apenas um belo dia de sol, e não o começo de mais uma jornada laboriosa que acabaria na pequeníssima morte do sono.
O Miguel não pensava na vida – ele era vida, respirava-a com naturalidade, enquanto eu ansiava por fazê-lo.
Mais ou menos como Pessoa: invejo a sorte que é dele, porque nem sorte se chama.
A Luciana encontrava-se dentro da sua vida, era a causa do respirar, o coração. E no entanto, parecia-me, faltava-lhe o reconhecimento de colocar também os nossos pais nesse músculo, e por isso eu não queria assistir a essa vitalidade às avessas, sem consideração pelo próximo. Nem pelos pais, quanto mais por mim.
Por mais couraçados que nos tenhamos tornado, persistimos, como crianças, numa birra inexplicável por afecto.
– Está lindo – continuou a minha mãe. – Plantámos um chorão. Damos-lhe de beber gota a gota, o pai montou um sistema de tubos. Parece um bebé. Da próxima vais lá.
– Mãe, o comboio.
A máquina apitou e moveu-se num descarregar de força. A minha mãe acompanhou a carruagem até ao fim do terminal. Ficou a olhar o comboio. Assemelhava-se a uma mulher irlandesa em 1912 vendo o filho partir num transatlântico da White Star; desolada e já com o oceano de permeio.
Visitei-os daí a três anos.