O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 2 de 46

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O Meu Irmão

O Tojal é pouco mais do que…

O Tojal é pouco mais do que isto. A senhora Olinda está à minha frente com a mão na cintura, quase dentro dela. Quieta, ainda não percebeu que somos nós dentro do carro. Olha-nos de lado como um pássaro. Não sai da frente, mas aos poucos o movimento do corpo diz que sim, que já nos reconheceu. Berra «Não me acredito!». Envelheceu e não usa soutien. Mantém um ar sólido enquanto tudo abana. Os braços de baixo para cima, a barriga a dançar e o peito em frente apontando para nós.

A boçalidade é uma forma de incompreensão e eu acho que assim, sem soutien e espevitada, a senhora Olinda corresponde melhor ao pouco que a conheço. De facto, não sei se usa soutien, apenas que o tecido deixa antever o que de outro modo não seria perceptível.

– Ai, mas que vocês não vinham! Pára aí, pára aí o carro, que eu vou chamar o meu Aníbal. Ó Aníbal, anda cá ver! Eu não chamo o nosso Quim, que ele hoje está mal, mas pronto. Está no quarto. De cama… Aníbal!

O marido não aparece, deve andar por aqueles sítios aos quais deram nomes como O Cabo do Lugar ou A Beira de Lá. Estou contente por a encontrar, mas quero sobretudo rever a casa – embrulhar-me nela numa ternura de dois amigos que se reencontram.

– Mas então que vieram cá fazer? Deixem lá o Aníbal, ele também não percebe nada. Vou-vos dar ali alfaces que tenho e com este tempo estão bem fresquinhas. Ai, mas eu não consigo, dá-me cá um beijo!

E enfia a cara cheia de pêlos na janela.

À custa da distância social, nunca me tinha dado um beijo. Agora que deu, em vez da distância há uma fieira de cuspo a escorrer-me pela bochecha. Limpo-a com a manga.

Digo-lhe que viemos matar saudades, tirar o pó à casa. Mas também não queremos ficar muito tempo. Apenas uns dias. Ver o Tojal por dentro outra vez, não só imaginar o Tojal. Ou ter saudades do Tojal.

– Mas é por causa… – e aponta o olho, como a outra velha.

Digo-lhe que não e ela desata numa algaraviada impossível de descrever. Queixas: o marido, o filho, a vida. Sobretudo o campo e o filho. Sobretudo a vida em geral.

É estranho que fale a minha língua, não se percebe nada entre regionalismos e grunhidos de alegria e tristeza.

Ao fundo, um homem baixo e coeso, género empilhadora, dirige-se para nós e, chegando, tira o boné verde dos Jogos Santa Casa e apoia a mão na porta.

O senhor Aníbal é daquelas pessoas pim, pam, pum. Ouve pim, faz pum. Ouve pum, faz pam, e por aí fora. Não é pois muito inteligente. As suas frases preferidas são «Então vá» e «Tenho muito que fazer», mas de resto nunca vai nem nunca faz. O nariz está desfeito pelas bexigas e embebido de vinho. Cara de areia mijada, à Camilo.

Diz olá, admito que com alguma alegria, e depois conclui

– Então vá, tenho de ir ali à frente.

seguindo a rotina. Enfia o boné dando palmadas na cabeça. Palmadas fortes de mais. Nada o afecta porque não tem capacidade para ser afectado. Quebra apenas o dia-a-dia para contar uma anedota, mas conta-a falhando no contexto e no ritmo. Ninguém ri.

É o que se chama viver em três pontinhos.

A casa deles fica à esquerda, um pouco antes da nossa. Numa das varandas, um matagal de orquídeas que a senhora Olinda trata como filhas, ou pelo menos como meninas às quais endireita os botões do vestido para que fiquem bonitas.

Na frincha da porta surge uma figura magra, um fiozinho de gente a extinguir-se no escuro, do qual vejo unicamente com clareza a ponta da bota. Sim, a ponta do raio da bota. Sorrio-lhe mas ele não responde e fecha a porta depois de mostrar uma mão tumefacta. E essa mão, pelo menos, encena o gesto de olá ou adeus, não sei. Conheço-o mal, mas o Quim é mesmo assim: uma mão tumefacta e a ponta de uma bota.

A nossa casa fica a oitenta metros, depois da igreja. A casa chama-nos, a senhora Olinda prende-nos, mas arrancamos. Haverá mais conversa.

À direita, o campo onde estaciono leva ao cemitério. À esquerda, um carreiro conduz à várzea e ao rio. De resto, nada conduz a nada. Sobre o lado do monte, a nossa casa permanece igual.

No terraço em frente da entrada sobrou apenas o abandono. O tempo cobriu-o com uma camada de folhas, restos de azeitonas e vestígios de figos numa espécie de cobertor morto e vivo.

Abro a porta e deixo que passe à frente. A sala com kitchenette solta um cheiro quieto, mas continua tudo igual – pequeno e bem arranjado. Os meus pais investiram a pulsão de uma vida a decorar o Tojal. Compraram a casa poucos anos antes da reforma do meu pai. Foi mais ou menos como demonstrarem que uma casa nova representava uma maneira renovada e sempre apaixonada de viverem juntos, e isso testemunhava-se pela junção dos objectos.

Alguns objectos. Na parede principal da sala, dois casais dançam ao som de um gramofone Decca «made in London». Dançam sempre os mesmos passos porque são figuras num poster de cartão. À direita, no canto, bengalas e bordões dentro de um bengaleiro. No topo dessas bengalas e bordões, quatro chapéus, dois deles Panamá, mas rotos. À esquerda dos dançarinos, no outro canto, uma lareira por cima da qual o bacalhoeiro Ismael oferece o bombordo. À frente da proa, uma figura chinesa fixa sempre o mesmo ponto com olhos de porcelana. No braço do sofá, a pele de uma raposa sem cauda. A meio da sala, escadas para o andar de cima. Do outro lado das escadas, a cozinha forrada com restos de azulejos do século XVIII. Incrustado no topo das escadas, um globo de bronze do cinema Monumental. O andar de cima é mais vazio, só tem um Cristo partido pendurado no hall que dá para os quartos. Um Cristo sem braços e sem a perna direita. Também sem cabeça.

Depois de entrar segurando a minha mão, olha para mim e abre um sorriso nos olhos meia-lua, entre constrangido e alegre. Range os dentes de felicidade ou susto ou não sei o quê.

Senta-se no sofá levantando o pó. A barriga enrola-se em dois altos encostados um ao outro. Os dedos simulam um estalido quase imperceptível; repletos de calos, têm o mesmo comprimento. As orelhas diminutas sobressaem no cabelo curto. A camisola justa ao pescoço e as mangas reviradas. Os olhos denunciam o aspecto estrangeiro. Não se consegue controlar, mexe-se com ansiedade.

Apesar de parecer uma criança envergonhada de dez anos a mexer os dedos e a fazer salamaleques, é bem o meu irmão, na casa dos quarenta, um pouco para o gordo e, claro, mongolóide.