O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 29 de 46

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O Meu Irmão

Agora o Miguel acompanha-me. Dou-lhe a mão,…

Agora o Miguel acompanha-me. Dou-lhe a mão, levo-o para fora de casa, dizendo «Vamos ver uma coisa», mas ele arrasta os pés a custo. Não sei porque não o trouxe ontem.

E a coisa é apenas um homem numa cama. Não é «Vamos ver uma coisa» quando, na infância, nos levam aos pirilampos numa noite de Verão e sobre o campo e a toda a volta, até já nos nossos ombros, brilham milhares de luzes quase verdes que são apelos mais ou menos desesperados ao sexo.

O senhor Aníbal abre a porta, manda-nos entrar e suspira «Vá vá…». Alguns gatos correm pelo corredor, saltam, entram na cozinha. Reagem à agitação correndo para a cozinha porque estão esfomeados e cada um quer chegar primeiro, caso possa consolar-se com algum resto, mas a maioria das vezes não há nada para comer – e por isso lambem-se, gemem como gente e por fim miam, prostrados. Logo nos interrompe um berro da senhora Olinda «Ó Aníbal, deixa-te lá de conversas que eles querem entrar!».

Ele nunca visita o filho, fica sempre no topo da escada a pensar que fez mal em tê-lo posto no quarto de baixo, tão isolado. O Quim arrasta-se ao subir as escadas e pendura-se ao descê-las. Mas depois lembra-se de que foi o filho que quis aquele quarto para ficar mais longe deles, para ser pelo menos um pouco independente, como o adolescente que se muda para a garagem de casa. Assim talvez seja melhor, talvez não tenha feito tão mal em pô-lo ali. Quer dizer, talvez não tenha feito tão mal em concordar com a mulher quando ela no fim de um jantar o informou «Agora vamos pôr o Quim no quarto de baixo que é melhor lá». Afinal de contas, o que importa é que o filho esteja bem.

Mas não está bem. A senhora Olinda disse-me que hoje de manhã, depois de um pequeno-almoço mais cheio, tossiu um fiozinho de qualquer coisa espessa misturada com sangue e sujou os lençóis mas não os quis mudar. Ela aproveitou uma ida do filho à casa de banho para mudar os lençóis à pressa e mesmo assim, ao regressar, ele perguntou «Mas o que é isto?» como que espantado com tanta limpeza.

– Vá vá, vão lá – apressa-nos o senhor Aníbal, envergonhado pelos berros da mulher, que continua «Deixa-te de conversas, Aníbal! Larga lá as pessoas».

As paredes da casa são pedras de xisto umas sobre as outras sem nada a uni-las, talvez algum estuque no centro. Enfiaram papelinhos nas brechas das pedras: facturas com a tinta já morta, folhas dobradas em quatro, almanaques antigos como o Borda-d’Água, várias folhas rasgadas com contas de somar e subtrair, e também lixo como tampas de iogurte e pacotes de leite espalmados. A papelada acumulou-se especialmente ao lado da entrada do quarto do Quim.

Ao descer, travo o Miguel para ouvir a conversa entre o Quim e a senhora Olinda. A porta está entreaberta: lá dentro, o braço do Quim pende da cama com o punho fechado. A cara, que se encontra virada para a mãe, mas deste ângulo virada para nada porque não consigo ver a senhora Olinda, guarda a vivacidade de um cão que aponta a caça.

O Miguel quer entrar. Agarro-lhe o braço com força, junto-o a mim, digo «Não» e tapo-lhe a boca. Embora fraca, a voz do Quim torna-se mais nítida. O senhor Aníbal continua a observar-nos no topo das escadas mas sem perceber porque não entramos logo. «Então vá», repete.

Mantendo o punho fechado com força e falando mais alto, o Quim queixa-se

– Já lhe disse, mãe. Não o deixe voltar aqui.

– Mas o que é que eu posso fazer? Então até fui eu quem disse para ele vir – responde ela depois de uma palmada leve na perna do Quim, uma daquelas palmadas que demonstram carinho. No entanto, ele coça a perna como se a palmada o tivesse magoado.

– E daí? Já disse, mande-o embora – responde ele. – Grande merda. Mande-o embora. Ora agora, quem manda no meu quarto?

– Ó ó ó. Estás a exagerar. Não vês que ele pode ajudar? É doutor.

– Mãe, qual doutor. É que eu digo-lhe o que é.

– E o que é?

Nisto, atrás de nós, o senhor Aníbal insiste em que entremos, mas eu quero ouvir mais, saber «o que é». O senhor Aníbal já desce os primeiros degraus para nos fazer entrar, quando o Quim reúne a bílis e expele.

– Pois é assim: acho que ele quer matar-me.

Uma pausa. Antes de reagir, a senhora Olinda bate as palmas.

– Ora agora! Então como é isso? Ó meu Deus! – berra ela, aos saltinhos na cadeira.

– Pois quer. – Arranha a garganta e continua: – De certeza que me quer matar. É só vir aqui todos os dias e pôr remédios diferentes sem ninguém ver. Porque é que ele vem cá? É só para pôr os remédios.

– Mas ele hoje traz o irmão, vai lá agora fazer-te isso com o irmão ao lado. – E depois de pensar: – Olha que sou eu que te dou os comprimidos.

– Ouça o que lhe digo, mãe. Depois não se queixe – termina, acrescentando um encolher de ombros que significa «Com certeza que depois não te vais queixar».

De facto ocorre-me a mesma pergunta. Porque é que visito este filho-da-puta? Apesar de o conhecer há mais de vinte anos, quase nunca falei com ele. Não o conheço. Só agora, já ele no fundo da ampulheta, consegui falar-lhe, perceber um pouco mais em que mundo vive mas sem chegar a nenhuma conclusão. E sem querer chegar a nenhuma conclusão. Sim, eu sei que não é preciso conhecer alguém para o visitar – os que visitam os presos não o fazem pelos presos, e também os que visitam doentes e velhos e em geral as pessoas diminuídas. É o acto solidário que interessa, mas eu no Tojal não estou para isso. No entanto, talvez nos una o fim de tarde em que ele nos resgatou no tractor. Para ele foi um daqueles dias inteiros e puros que justificam a vida, daqueles dias em que até respirar representa um acto voluntário de aceitação de toda a beleza e alegria. Para mim foi pouco mais do que um dia entre amigos, mas de facto aquele pôr-do-sol e a imagem da minha namorada envolta em chamas de cor (as árvores, a terra, o sol, a nossa pele, o próprio tractor) ainda voltam à minha memória como o clarão de um fósforo que logo se apaga. Para o Quim, o fósforo ficou a arder mais tempo. Com certeza que gosta de se imaginar dentro do pôr-do-sol e dentro de um abraço à minha namorada: «Havia meninas lindas, digo-lhe agora.» Mais do que regressar à memória, esse dia vive no quotidiano dele.

Empurro o Miguel e ele quase tropeça para o quarto, arremessando a porta. A senhora Olinda larga um «Jesus!». Do Quim nem um som, apenas regressa lentamente à posição de mãos sobre o peito e os olhos quase fechados como se meditasse.

– Ah, estava a ver que o meu Aníbal não os deixava entrar. Quando ele se põe a falar…

– Nós entrámos logo, senhora Olinda.

Arrasta a cadeira para mais perto do filho num movimento de pernas abertas e diz

– Olá, menino Miguel.

Ele não reage.

– Responde à senhora Olinda – digo.

O Miguel olha espantado para o Quim. Também mal o conhece e de certeza que não percebe porque está na cama a meio da tarde. Não sabe identificar as mãos azuladas, o corpo magro, os olhos encovados e a pele seca como sintomas de doença. Constrangido, responde

– Ola.

Eu fico de pé. O Miguel pega numa cadeira e senta-se ao lado da senhora Olinda de perna cruzada. Os modos boçais dela, muito ao contrário do que está habituado, sempre o atraíram. Vê nela uma figura maternal às avessas: sente uma aversão àqueles braços tão diferentes dos braços da nossa mãe, àquele cabelo nada louro, àquela cara que não tem beleza, só que apesar disso gosta dela e das memórias que dela tem.

A senhora Olinda nunca se esforçou por obter a afeição dele. Aliás, nunca soube lidar com o Miguel. Quando chegávamos ao Tojal, o Miguel berrava ainda dentro do carro «Ó snhora Olinda, anda aqui!», mas ela cruzava os braços e respondia «Pronto, pronto».

O Quim reabre os olhos mas fixa-os no tecto, age como se não estivéssemos aqui. Continua sozinho mesmo na presença de outras pessoas, que é o pior tipo de solidão.

Na mesinha-de-cabeceira, um prato onde fumegam restos de sopa ao lado de um pão cuja côdea não foi comida. A julgar pela fraqueza daquelas mãos, deve ter sido a senhora Olinda a dar-lha de comer.

– Não queres mais sopa, filho?

– Agora não – responde. – Sabe, mãe, eu conheço-me bem. Depois de amanhã já vou estar bom.

– Deus queria que sim.

À menção de Deus, o Quim simula uma careta expelindo restos de qualquer coisa pela boca. Depois dirige-se a mim.

– Por cá outra vez.

– Claro, devo isso à sua mãe. A senhora Olinda disse-me que insiste em não chamar a ambulância.

– Sim, pois sim. Era o que eu estava a dizer à minha mãe. Daqui a dois dias.

– Espero bem que sim. Não é bom ficar sempre metido no quarto. E você nem sequer se vira para a janela. Porque é que não quer a ambulância?

– Acabei de lhe dizer que daqui a dois dias estou bom. Para que é que preciso de ambulância, para me meterem coisas que fazem mal? Da última vez que fui ao hospital parecia que me queriam matar. – Depois como a lembrar-se: – A enfermeira até disse que eu estava muito acabado, mas o que ela queria dizer era que eles acabaram comigo.

A senhora Olinda aponta para a mesinha-de-cabeceira.

– Não queres mesmo a sopa? Olha que ainda está quente.

– Já lhe disse que não, mãe, deixe-me em paz. Já como. – E vira-se para o lado.

Sobrevém um daqueles silêncios. A senhora Olinda quer falar mas não fala, eu quero falar mas não falo, o Quim não quer falar e não fala, o Miguel quer falar mas não consegue. O silêncio adensa as coisas, torna mais evidente o fumo a sair da sopa e a humedecer o pão.

E torna mais evidente a estupidez disto tudo. Faria melhor em não invadir a privacidade desta gente, mas algo me atrai, talvez o fascínio pelo desconhecido ou o desejo de somar pontos à vida, ou seja, de conhecer sempre mais, mesmo que mais seja apenas um homem em luta contra o corpo.

Mas de resto é um silêncio embaraçoso porque só nos podemos manter em silêncio com pessoas que amamos. No entanto, de certo modo não é apenas um silêncio: há o silêncio do Miguel e meu, o silêncio da senhora Olinda e do Quim e o silêncio deles e nosso; ainda assim, o que poderia ser a harmonia de três silêncios afinal redunda num só silêncio incómodo e dissonante.

Permanecemos calados durante alguns minutos. Felizmente um gato começa a miar no andar de cima, mas um miar tossido que provoca o riso do Miguel. O bicho andou a farejar a cozinha e não encontrou comida. Agora faz ouvir a sua fome. O Miguel não se contém. Ri-se como uma criança, aos solavancos, ri-se para cima da senhora Olinda, para cima de mim e sobretudo para cima do Quim.

Vê-lo a rir é lindo.

A senhora Olinda também simula qualquer esgar como um sorriso.

O Quim agita-se na cama, cerra os punhos estalando os dedos, retesa os ombros e dirige-se ao Miguel com violência.

– Mas estás a rir de quê?

O Miguel não sabe responder, ou se calhar nem ouve porque não consegue parar de rir. O gato continua o grito de fome. A senhora Olinda parece surpreendida com o dislate do filho, que se mostra cada vez mais exaltado. Abana os braços como a empurrar alguém no meio de uma multidão.

– Sim, diz lá! Estás a rir de quê? – insiste, quase erguido.

– Cato la cima – responde o Miguel com a mão a pressionar as bochechas, já calmo do riso, já incomodado com aquelas perguntas.

Agora sentado na cama, o Quim atira os braços para o ar, subitamente cheio da energia que a doença roubou. A senhora Olinda esconde a cara nas mãos. A voz dele até soa mais grossa, mais impositiva.

– Sai daqui, pá! – berra. – Vai para casa, seu idiota! Grande animal. Estás mas é a rir-te de mim!

De tal modo surpreendido, o Miguel não sabe como reagir. Nem percebe porque é que o Quim berra com ele se é óbvio que se ri do gato. Vou a dizer «Ouça! Isso não!», quando a senhora Olinda se levanta sem uma palavra, e desfere uma bofetada em cheio na cara do Quim, entre os olhos e sobre o nariz, atirando de arrasto a sopa ao chão. O Miguel fica ainda mais surpreso, mas sabe como reagir: recomeça o riso, desta vez inquebrável e forte.

Agora, sim, ri-se do Quim.