O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 43 de 46

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O Meu Irmão

A Rua da Constituição é igual ao…

A Rua da Constituição é igual ao Porto, pelo menos ao Porto novo: de lés a lés, apenas cimento ladeado por prédios dos anos cinquenta cuja característica é serem incaracterísticos. Recta de quase três quilómetros, começa no fim da Malheiro Dias e termina no início da Pedro Hispano sem que nenhum troço sirva outro propósito que não o de levar os portuenses de um ponto a outro da cidade. Ali não cresce uma árvore, não sobressai uma cor, não escapa uma fachada. Até as plantas ocasionais que as donas de casa colocam nas varandas padecem do mesmo mal, pois também florescem cinzentas.

Apesar do que omitira no telefonema da Eugénia, percebi que o Miguel fugira com a Luciana. Em boa verdade, já pensara nessa possibilidade mas esforçara-me por a reprimir. Apenas não sabia para onde, embora não pudessem ter ido longe. Continuariam com certeza no Porto, o Porto que eu calcorreara como louco nos dias anteriores, como se fosse possível encontrá-lo batendo de porta em porta.

Estavam a monte, quais amantes do século XIX.

Depois do telefonema, permaneci em casa para raciocinar com calma antes de agir. Simplesmente não compreendia como é que um mongolóide e uma atrasada conseguiram fugir, ele de casa e ela da APPACDM, sem que ninguém percebesse ou soubesse onde poderiam estar.

O Miguel entrara no colégio sem ser visto e levara-a? Teriam combinado com antecedência ou fora coisa de momento? E, na rua, porque é que ninguém os parara, algum polícia que perguntasse «Alto lá, vocês andam acompanhados?». Sentiriam fome? Onde arranjariam comida? Onde dormiriam?

Insistia nas perguntas que já colocara três dias antes, aquando do desaparecimento do Miguel. De novidade, apenas o motivo. Fugir, viver com a Luciana. As perguntas surgiam indefinidas, confusas, porque mal dormira nesses dias – sentia-me doente – e começava a pensar que mais valia ter ligado de imediato ao 112; sabia que devia tê-lo feito. A oportunidade passara, agora não podia reportar à Polícia sem que me atribuíssem responsabilidades.

A mesma dor dos dias anteriores, a mesma mão que puxa os ossos a partir de dentro. Deitei-me no sofá de olhos fechados. O Miguel voltara a ser criança e crescia diante de mim em ritmo acelerado. Gatinhávamos juntos, e logo eu subia a escada em caracol para o ir buscar ao ATL; a nossa mãe impedia que o Miguel me visitasse no colégio, e logo ele já frequentava a APPACDM; a corrente do Paiva levava-o para a zona funda enquanto o nosso pai procurava ouro, e logo recordações do Miguel que eu adoptara como minhas por preferir a vida dele (o Caranguejo a apertar a própria coxa, o Masturbador inutilizado a um canto, os esconderijos dos jardins de Serralves, o sorriso da Luciana, o beijo da Luciana, sempre a Luciana); éramos adultos e os anos mantinham-nos irremediavelmente separados, e logo ele esbatendo-se, ele desaparecendo, ele tornando-se menos meu irmão.

Passava das duas da manhã quando uma ideia persistente e difusa como uma miragem surgiu na minha mente.

Era a única hipótese que fazia sentido. Porque não pensara nisso antes?

Embora a excitação me confundisse, lembrei-me ao pormenor do encontro com a Eugénia. A Luciana vivera na mesma casa até aos catorze anos, o único lar que conhecera fora das residências da APPACDM. O sítio ao qual poderia voltar. E, se bem me recordava, essa casa, quer dizer, essa barraca, ficava numa transversal à Rua da Constituição.

Conduzia devagar, travando a cada amarelo. A TSF repetia as notícias do dia. Noite quente, gente na rua a sair ou a entrar dos bares. Estacionei perto do cruzamento com a Oliveira Monteiro. Na esquina, os empregados do Sabor Atlantiko, com k em vez de c, fechavam as portas e acorrentavam as pernas das cadeiras. «Amanhã há mais», diziam ao atirar os cigarros ainda acessos para os canteiros em frente.

Recomeçava as buscas, agora também pela Luciana. A esperança de os encontrar encheu-me de um entusiasmo que eu não sentia há muitos anos. Pernas leves e garganta seca. Seria eu, só eu, a resolver o problema, por muito que custasse. Antecipava que a qualquer momento os salvaria, que os restituiria ao quotidiano seguro.

Ele em casa e ela no colégio.

E antecipava que dentro em breve deixaria de me preocupar com a Luciana. Ela voltaria à APPACDM, desta vez com medidas de segurança reforçadas, e então seria impossível ao Miguel alcançá-la, fosse como fosse. Claro que não daria à Eugénia a satisfação de saber que lhe mentira, teria de devolver a Luciana sem que soubessem que eu a encontrara. Talvez deixá-la à porta de uma esquadra da Polícia.

Comecei pelo lado par da rua. Alguns apartamentos continuavam de luzes acesas. Ocasionalmente alguém passava à janela quebrando o mosaico de luz com a sombra de uma cabeça. A montra da loja Mi Casa piscava em clarões amarelos que alcançavam o lado oposto da rua. Sobre ela, uma varanda com cortinas rendadas. Daí até à Avenida de França, conquanto houvesse entradas de garagens, a rua era uma parede contínua de cinco andares, excepto as casas novas de esquina, por desentaipar. No piso térreo dos prédios, estabelecimentos fechados havia várias horas mas mantendo algumas lâmpadas acesas.

Cunha Gomes S.A., Torangis («carregue aqui o seu telemóvel»), Margon, Extrusal, etc.

Fui até aos semáforos do cruzamento com a Avenida de França e regressei ao cruzamento com a Rua Oliveira Monteiro devagar, como quem passeia, mas sempre atento a qualquer reentrância.

Nenhuma transversal.

No entanto, no lado ímpar da rua, depois da bomba de gasolina da Galp, uma paragem de autocarro. Atrás, um jardim escuro ocultava canteiros rasos à frente dos quais um renque de carros tornava o espaço mais apertado. O jardim assinalava o começo da Rua Dom António Meireles, que conduzia até à nova igreja do Carvalhido.

Não se podia chamar àquilo transversal, pelo menos no sentido que eu adoptara, isto é, rua estreita e escura que passa despercebida. Mas era de facto a única transversal desse troço, e ficava perto da paragem de autocarro, porventura a mesma que a mãe da Luciana usava.

Três carros de pára-choques rasos passaram a mais de cem à hora, deixando para trás, num fio, a canção do Avicii

So wake me up when it’s all over.

que fez vibrar os vidros da paragem. Vagueei pela António Meireles à procura de qualquer indício de barracas ou construções ilegais, mas tratava-se de uma rua ladeada por prédios dos anos sessenta, tão incaracterísticos e correctos como os outros prédios da zona.

As copas das árvores tapavam a luz dos candeeiros em sombras que se assemelhavam a dedos movidos pelo vento, e os aspersores começaram a regar a relva quando eu passei. No fim do jardim, depois do café Poeta, em que a caricatura de Fernando Pessoa gravada na porta saudava os clientes, encontrei um acesso às traseiras dos prédios.

Beco sem saída?

Deparei-me com um fim de rua destinado a servir as garagens cujos portões, vários lado a lado, se encontravam fechados. A iluminação pública não alcançava esse troço. As traseiras dos prédios, quase sem janelas, formavam um invólucro de betão que escondia o caminho. Quase não conseguia distinguir o passeio da rua. Nas fachadas, caixas brancas dos ares condicionados, estendais nas duas ou três janelas, canos de escoamento que saltavam das paredes a cada andar, marquises de metal ferrugento e vidros batidos.

No topo de um dos prédios, um néon piscava a palavra McCain em letras garrafais, oferecendo alguma luz. Porém, os portões das garagens sucediam-se sem espaço a um acesso mais estreito onde se pudesse aninhar um barracão. Já desanimava, certo de que fora iludido pela ideia de os encontrar, quando um portão rangeu e se abriu, revelando uma garganta de luz. Um carro dirigia-se à saída com os máximos ligados.

Escondi-me num canto, ao fundo. Aí, para meu espanto, uma grade de ferro trabalhado tapava a brecha entre a esquina de dois prédios. Não seria mais larga do que os meus ombros, e quase me dava pela testa. Não rangeu quando a empurrei. Embutidas na parede da esquerda, caixas de correio abandonadas. Na parede da direita, cavidades que no passado guardavam contentores de lixo. O corredor exíguo seguia vinte metros em frente, depois dos quais contornava à direita uma parede onde uma placa de esmalte dizia «Vila Fernandes».

Sobressaltei-me. Era ali, era ali, era ali. Estava tão seguro de que encontrara o sítio que voltei atrás para buscar o carro, estacionando-o o mais próximo da grade sem estorvar os portões.

O sangue pulsava a ritmo industrial. Os sentidos dispararam. Até via melhor na escuridão.

Continuei pela direita na placa da Vila Fernandes. Dez barracões cobertos por telhados de zinco e telhas avulsas confrontavam uma parede lisa. À frente dos barracões, vasos partidos, cadeiras de plástico tombadas, ervas daninhas que brotavam das fendas, frigoríficos sem portas, sapatos desirmanados, microondas, jornais enrodilhados, pernas de mesas, telemóveis antigos, cabos de electricidade, brinquedos de criança, panelas, garfos, raspadinhas, punhados de terra; o vendaval da penúria dispersara o exterior das barracas.

Entrei na primeira. Uma sala e um quarto ligados pela casa de banho. Um sofá descarnado, qual zebra morta na savana, escondia ninhos de rato. O pó, mais do que pó, a terra, o entulho, escondiam os objectos diminutos como um porta-chaves com dizeres que eu não consegui ler, lápis de cera e facturas.

Nos dois barracões seguintes, o mesmo cenário. Tentava procurar da maneira mais silenciosa possível, mas o medo constrangia os meus movimentos. Não o medo da noite ou daquele local abandonado: o medo de não os encontrar.

Até à oitava barraca, deparei-me com divisórias apertadas onde cheirava a tecido molhado, principalmente nas cozinhas e nas casas de banho.

Enquanto nas anteriores as portas estavam abertas, a penúltima barraca encontrava-se fechada. Pareceu-me ouvir um grito ou gemido de mulher. Bati ao de leve na porta. Alguém falava, uma voz grossa que dizia «Aqui nao» e uma voz fina que respondia «É ali». Arrombei a porta com o ombro e entrei num salto à espera de os encontrar, mas dentro apenas colchões velhos, panelas com restos de comida, mantas tapando cadeiras e bonecas sem cabeça.

Faltava a última casa. A última esperança.

Um azulejo pendurado na porta anunciava «Bem-vindo seja quem vier por bem». O néon McCain apagou-se oferecendo uma obscuridade momentânea. Desferi um pontapé na porta, que cedeu como papel.