O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 24 de 46

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O Meu Irmão

Não sei o que pensar de «Estão…

Não sei o que pensar de «Estão para lá» e «Já tratei deles». Suponho que não queria dizer nada. Ou seja, não quero que signifique nada. Com certeza o episódio do tractor, «aquilo não ia para cima deles», foi mais devaneio do que realidade, assim como o ódio pelos pais apenas consequência do mau vinho. «Olá, mãezinha!»

Apetece-me fumar. Nunca fumei. Apetece-me o gesto da mão a fumar, o fogo controlado das mortalhas a consumir-se em cada passa, o tabaco a morrer por mim, a entregar-se na brasa diminuta, a cinza que fica agarrada ao cigarro até que lhe dê uma pancada na berma do cinzeiro, o acto de esfregar a beata, de dar o ritual por concluído. A minha mulher fumava cigarrilhas na cama antes de adormecer e depois de acordar.

Apetece-me sobretudo porque o cigarro distrai e não quero pensar em «Estão para lá» e «Já tratei deles», mas fumar e pensar em fumar é quase o mesmo, distrai da mesma maneira. O fumo dos cigarros da minha mulher subia pelo abat-jour ao lado da cama e a luz definia o seu fluxo como uma performance em palco, diferente das baforadas cinzentas que ela lançava quando tossia.

O barulho da televisão interrompe-me. De tão alta, a voz de uma Maria do Céu Guerra palpita nas paredes e perturba a superfície das folhas, nos livros. Perturba tudo.

– Mais baixo, porra!

– Hum!

Ainda consegui observar pela janela os faróis do Smart em plena estrada a subir os montes e a apitar nas curvas, como em celebração. Observei-o e sobre ele, no rasto, surgiu a frase «Estão para lá».

Vai longe. Decido que preciso de ir à casa.

Como não quero deixar o Miguel sozinho, obrigo-o a acompanhar-me. Subo ao quarto, faço-o desligar a televisão e vestir calças e uma camisola. Quer vestir as calças com as duas pernas ao mesmo tempo. Ajudo, deixando-o apoiar-se nos meus ombros.

– Despacha-te. Vamos à senhora Olinda.

– Qué?

– À senhora Olinda.

Saímos. Temos de ser rápidos para regressarmos antes que o Quim apareça. Levo o telemóvel no bolso caso seja preciso fazer um telefonema. Os pauzinhos piscam, a rede nunca chegou ao Tojal. Ao passar pela igreja, toco com os dedos no mesmo sítio em que o Quim se apoiou. O Miguel imita-me e reparo que o braço estendido sobre a parede está despido. Apesar da temperatura, vestiu uma T-shirt.

No Tojal qualquer lugar fica à distância de um minuto a pé. A casa da senhora Olinda encara a igreja do outro lado do largo.

Bato à porta. Ninguém responde. Rodo a maçaneta e a porta abre-se. Entramos. Digo ao Miguel que esteja calado e levo-o pela mão. Arrasta as pernas. Um cheiro a coisas esquecidas e acumuladas. Fétido, é o que é.

A cozinha fica à esquerda de quem entra. O zumbido do frigorífico. Tudo quieto e ninguém lá dentro. Rebentam algumas fagulhas na lareira. O fumo espalha-se pelo tecto ainda aquecendo restos de carne. Apesar disso, lembro-me de a senhora Olinda dizer «Não precisamos de fogão» enquanto uma camada de fumo lhe envolvia os olhos. Ao lado da mesa, uma gaiola de canário e dentro um canário com a cabeça metida na asa.

À direita, o corredor leva ao quarto da senhora Olinda e do senhor Aníbal, se bem me recordo. O cheiro vem de lá. Não ligo as luzes e vamos pelo corredor espreitando às portas antes de alcançarmos o quarto principal. Digo ao Miguel que não faça barulho. Ele não faz barulho. Aperto-lhe a mão com força e mesmo assim continua calado. Vamos espreitando. Não há nada dentro dos quartos, uma cama, um quadro, um móvel ao menos.

O quarto do Quim, no andar de baixo, deve estar cheio. Imagino-o com vuvuzelas por baixo da cama, dentro dos armários e atrás da porta. Vuvuzelas imensas e uma profusão de outros objectos como mochilas velhas, três ou quatro bengalas, luvas, cachecóis intermináveis, almofadas, binóculos, revistas, canetas, porta-chaves com carros em miniatura, quarenta e três livros que ele nunca leu guardados em duas caixas de cartão, uma revista pornográfica, uma roda de bicicleta, dois ratos de computador.

Não ligo as luzes porque sou levado por um desejo de manter o ambiente o mais soturno possível. Aquele desejo característico de perdido por cem, perdido por mil.

O Miguel não se assusta. Não está, como eu, à espera de que um corpo rebole até aos nossos pés.

Por fim, estico a mão e empurro a última porta, que se abre sem ranger. Silêncio. No centro do quarto, uma cama de casal. No centro da cama, o casal. Distingo a forma de uma caçadeira encostada a um banco. Roupas sobre o chão ao pé do banco. Mais algumas peças, calças, em frente de um armário em forma de caixão.

A janela aberta dá para a várzea. Ouve-se o resfolgar do Paiva. A caçadeira é a mesma de quando foi preciso abater o cão Átila depois de o carro o ter atropelado. O senhor Aníbal deu-me a caçadeira e disse «Não tenho coragem», enquanto a senhora Olinda repetia «Deus meu, os olhos mesmo à banda». Eu disse que tinha coragem, mas não sabia mexer na caçadeira. O cão sofreu durante dois dias porque o senhor Aníbal tinha como mas faltava-lhe a coragem, e eu tinha coragem mas faltava-me como.

Não consigo identificar manchas no corpo da senhora Olinda, mas a sua posição, como se estivesse a dormir, parece ao mesmo tempo natural e mais do que natural, como arremessada por um impacto. O cabelo, normalmente agarrado, queda-se solto numa onda uniforme. O corpo do senhor Aníbal tem o braço estendido por cima da mulher, a mão torcida sobre o cabelo dela. Está de barriga para baixo e o pescoço e a cabeça forçam o colchão. A cara quase enterrada. O mais estranho é que, apesar de não usarem os cobertores, não consigo distinguir mais do que formas e sulcos.

Do outro lado da cama, o Camões lambe as patas durante o sono. Quase não tem pêlo. Tenta aproveitar parte de um cobertor caído, mas não se enrosca devidamente.

O Miguel resmunga atrás de mim. Não percebe o que se passa, onde estamos, e quer ir para casa. Enfia o indicador nas minhas costas. Empurro-o em direcção à cama e digo

– Põe lá a mão.

Quando o Miguel está prestes a tocar no cabelo da senhora Olinda, dou-lhe uma pancada leve para que se despache, para que ponha por fim a mão no corpo. O braço dele paira sobre a cama, desce sobre as formas, afaga já os primeiros fios do cabelo da senhora Olinda, quando se ouve um ronco vindo do emaranhado dos dois corpos e logo de seguida «Tá quieto, Aníbal!».

Estavam só a dormir.

Puxo o Miguel e saímos tão silenciosamente como entrámos. Encosto a porta e eles nem percebem que lá estivemos.

Apressamo-nos de regresso a casa. O Miguel fica para trás mas também corre com os braços por cima da cabeça.

Sempre correu atrasado em relação a mim.

Atiro-me para o sofá. Parece que levei uma coça do Quim. Agora é que me apetece fumar e já nem sequer penso no raio das cigarrilhas da minha mulher. Fumar só por fumar, como quem procura conforto e precisa de carinho.

O Miguel vai a subir as escadas. Antes que desapareça, pergunto

– Gostas de mim?

e, como sempre, ele responde

– Da Luciana.