O Meu Irmão
O telemóvel tocava. Eu estava derreado, mal…
O telemóvel tocava. Eu estava derreado, mal conseguia levantar-me, quanto mais falar com alguém. Contudo, o número pareceu-me familiar, e um instinto básico, talvez de sobrevivência, impeliu-me a atender.
– Sim, senhor doutor? – perguntou uma voz rouca. – É a Eugénia, da APPACDM. Está recordado?
– Com certeza que sim.
– Desculpe incomodá-lo.
– Não é necessário pedir desculpa. Diga lá.
– Precisava de lhe perguntar pelo Miguel.
O meu sangue disparou e gelou ao mesmo tempo.
– A que propósito?
– Muito simples. É-nos exigido que façamos follow-ups alguns meses depois de os utentes nos deixarem. Até por amizade, sabe? É que o Miguel esteve muitos anos connosco, coitadinho.
– E porque só telefona agora?
– Procedimentos internos. Tem de passar algum tempo, depois do qual fazemos o follow-up. É by the book.
Seria um esforço falar do Miguel sem me emocionar, mas considerei melhor tratá-la com a maior simpatia possível.
– Percebo. Então que precisa de saber?
– Como ele tem passado, por exemplo.
– De início custou bastante. Foi uma mudança muito grande, mas aos poucos verificou-se que eu tinha razão.
– Tinha razão, como?
– O Miguel está muito mais sereno. Fala melhor, consegue conjugar verbos complexos. Melhorou as maneiras. – E depois, arriscando: – Quer falar com ele?
– Não é indispensável, senhor doutor. Eu não lidava muito com o menino Miguel, só supervisionava. A Josefa é que era a educadora.
– Pois, ele realmente está melhor. Não digo que a adaptação tenha sido fácil ou pacífica, mas passou e ele não podia ser mais feliz. Ainda no outro dia… Bem, mas isto não lhe interessa. Está muito bem, ele.
– Não ponderou colocá-lo noutra instituição?
– Agora que pergunta, a verdade é que nunca me passou pela cabeça. O objectivo era tê-lo em casa.
– Claro, claro. Esplêndido. E custou de início por causa dos amiguinhos dele?
– Ora! Custou por causa da obsessão pela Luciana. Como lhe disse, o tempo deu-me razão. Ele esqueceu-a. Esqueceu-a. Aliás, fala mais da Josefa do que dela.
Deu-se um silêncio no outro lado. A Eugénia tossiu, assoou o nariz e arranhou a garganta antes de prosseguir. A voz soou ainda mais rouca.
– Senhor doutor, isto é um follow-up mas não é by the book. Vou explicar. Antes do mais, fico muito contente por saber que o Miguel está bem e de saúde. Preocupou-nos que a nossa situação pudesse ter que ver com ele. Eu explico. Estou a telefonar-lhe e a fazer estas perguntas porque a Luciana desapareceu. – Calou-se à espera da minha reacção, que não foi imediata. – Não sabemos o que sucedeu. Há três dias que a procuramos. Claro que as autoridades estão a trabalhar desde o primeiro minuto. É terrível. Julgávamos que a carrinha a levara para a residência mas ela nunca lá chegou.
A verdade caía em mim como um soco. Não sabia como reagir. A boca movia-se mas as palavras não saíam.
– O horror, o horror – balbuciei por fim, qual imbecil, porque nem sequer tencionava fazer uma referência literária.
– Tem razão, é um horror. Um horror. Nós sabíamos que ela era dada a fugir, mas ficava sempre por perto e regressava. Às vezes até eram os ciganos que vivem aqui ao pé que a traziam. Mas agora foi a valer. As autoridades estão a ponderar todas as possibilidades, mas já passaram três dias. É muito tempo para uma pessoa como ela. É muito tempo para qualquer pessoa.
– O horror, sim, o horror – continuava eu. – Como posso ajudar?
– Já ajudou. Estávamos aflitos a pensar em todas as hipóteses quando nos lembrámos do Miguel.
– Que quer dizer com isso?
– Nada, apenas que ele podia saber alguma coisa, até se calhar ter-se encontrado com ela. Por isso é que dizia que o senhor doutor já ajudou. Agora estamos mais tranquilos.
– Mas a que propósito é que ele se encontraria com ela?
– Não sei. É como lhe dizia. Pensámos em tudo.
A voz da Eugénia chegava distante como no fim de um sonho, em que pessoas e objectos perdem consistência. A voz esbatia-se, não conseguia percebê-la.
– Mas pronto, senhor doutor. De qualquer forma, prezo muito ter falado consigo.
– Mantenha-me actualizado, por favor.
– Manteremos com certeza, esteja descansado.
Quando a chamada caiu, a voz da Eugénia ainda pairava indistinta, repetindo como do nada «A Luciana desapareceu».