O Meu Irmão
A seguir à morte dos nossos pais,…
A seguir à morte dos nossos pais, reuni-me na APPACDM com a responsável pelo Miguel, uma mulher gorda de vestido cor-de-rosa que enfeitara a secretária com orquídeas. Como se não bastasse ser gorda, vestir cor-de-rosa e gostar de orquídeas, enlaçara os vasos com fitas. O escritório pertencia a uma burocrata alegre: fotografias de amigos e família, bonecos do Gil, gatos de porcelana, capas brilhantes de telemóvel, desenhos das aulas de pintura dos «meninos», pompons na ponta das canetas, pirilampos mágicos. A alcatifa, igual às das repartições, fora manchada pela tinta dos tóneres.
E de resto, apesar das cores, a decoração parecia-me esbatida e triste como as próprias manchas dos tóneres.
Encontrara-me com aquela mulher para tomar decisões importantes quanto ao Miguel, aliás já falara com ela ao telefone. Contudo, a bugiganga miudinha e sentimental distraía-me. Sentia um certo asco, um certo nojo daquela intimidade atirada à cara dos outros. Apeteceu-me perguntar-lhe «Não tem vergonha?», mas de que serviria confrontar aquela senhora retesada e com certeza solteirona?
Ela olhava para mim de caneta sobre o bloco de notas Cavalinho. As próprias orquídeas olhavam-me. E nisto um cheiro a embrulho de florista e a perfume cobriu a sala como se estivéssemos dentro do diário de uma adolescente apaixonada.
Fora, berros e chiar de sapatos. Antes de entrar no escritório, parei no meio desses sons que denunciavam alguém semelhante ao Caranguejo ou ao Masturbador. Esses dois, no entanto, haviam saído da APPACDM e que eu saiba não deixaram qualquer marca, nem mesmo um eco de terem passado por lá. Nada ficou, mas no fundo nada mudara porque a deficiência e a loucura não têm história. Jack Nicholson a voar sobre o ninho de cucos ou Murray Abraham como padroeiro dos medíocres vai dar ao mesmo.
Em bom rigor, o que me impressionou mais foi não perceber quem era quem, mesmo observando com atenção. Num momento tomava uma assistente por deficiente, e noutro uma deficiente por assistente.
Percorri o caminho até ao gabinete sem me dirigir a ninguém, pondo os olhos no chão com medo de ofender ou ser ofendido.
Enquanto eu não falava, a gorda
Não me lembro do nome.
entreteve-se a rabiscar pombas de leque no bloco de notas. As pombas debicavam milho entre árvores e prédios. O pescoço tremia-lhes ao abrir e fechar o leque. Murmurava «Esplêndido, esplêndido» ao retocar as rémiges afastadas no impulso do voo.
Acariciando uma folha de orquídea, perguntei «Afinal quem é essa Luciana?», como se não soubesse, como se não ouvisse o Miguel falar dela há mais de vinte anos. Como se os meus pais, interrompendo os poucos telefonemas que trocáramos nesses vinte anos, não dissessem «Lá está ele outra vez a palrar sobre a Luciana».
– Esplêndido, senhor doutor. Óptima pergunta. E eu digo-lhe. É uma amiguinha do Miguel.
– Isso sei eu.
A mulher anotou «Isso sei eu» no bloco à frente de um smiley.
– Bem, mas que precisa de saber? – acrescentou.
– Quem é, o que faz…
Óbvio: queria saber mais, porque apesar de tudo sabia pouco. Nem conhecia as suas origens, por exemplo. Não que isso interessasse, não que nada daquilo interessasse. Contudo habituara-me a engolir, a sorver informação, e já que marcara aquele encontro com intuitos tão sérios convinha primeiro perceber se a gorda poderia influenciar as minhas decisões.
– Muito bem, esplêndido – respondeu depois de uma pausa. – Mas isso é mais complicado. Está a ver, não gostamos de expor os nossos utentes, senhor doutor. Veja lá se alguém fizesse perguntas sobre o Miguel.
– Grande coisa. Era-me indiferente. Mas diga-me, se faz favor. Só pergunto porque o Miguel tem um interesse especial por ela.
Especial também quer dizer exclusivo.
– Sim, esplêndido. Muito especial e já há muito tempo – comentou, levando a mão ao peito em demonstração de sentimento.
Como não lhe respondesse, sorriu a dizer «Desses já não há muitos» e, enternecida, secou a ponta da caneta que mastigava.
– Como não consigo saber pelo Miguel, acho lógico vir falar consigo, que é a responsável.
E a mulher escreveu «acho lógico» no papel. Nada a demovia. Rebuscou termos como o direito à privacidade e o resguardo dos utentes. E depois não era responsável pela Luciana, só pelo Miguel. Podia falar com a colega, mas achava que não adiantaria.
– Pois, compreendo.
Não avançávamos. Deveria haver outra forma de lhe desatar a língua. De certo modo, sentia pena dela por não se solidarizar comigo. Ser-lhe-ia mais fácil. E também sentia pena de mim por ela não se solidarizar comigo, por colocar entraves. Ou talvez sentisse até pena do Miguel, não sei e não importa.
Então disse «Mas que lindas flores a senhora tem!» e a mulher veio logo comer-me à mão.
– Ai muito obrigada. São orquídeas. Tenho mais em casa à minha guarda. Gosto de dizer «à minha guarda» porque são minhas companheiras, em vez de propriedade. Estas são as verdadeiramente bonitas. As que eu gosto mesmo.
– Bem escolhidas, bem escolhidas. Vê-se que as cuida com muito carinho, muitas horas. Quantas estão à sua guarda?
– Precisamente dezasseis.
– São esplêndidas, caramba. Precisamente dezasseis…
– Eu não diria melhor, senhor doutor.
– Dezasseis, de facto! – Depois voltei à carga. – Sem querer mudar de assunto, estava aqui muito bem consigo a falar só das flores, mas e a Luciana?
– Bem, bem. Já que insiste. A Luciana, coitadinha…
Foi direita ao tema mais escabroso.
A mãe da Luciana vivia num daqueles barracões de metal que existem onde há espaço para se alojarem os que são miseráveis, numa transversal esconsa à Rua da Constituição. De manhã apanhava o autocarro que ia pelas ruelas mais apertadas da cidade, ultrapassando rente o jardim, virando à direita e seguindo pela rua que levava aos Aliados. O autocarro abanava por todo o lado e ela às vezes magoava-se porque batia com a cabeça no vidro, aquele vidro onde lia «aicnêgreme ed osac me rarbeuQ» por cima de «Quebrar em caso de emergência».
Os motoristas cruzavam-se e, quando calhava, paravam lado a lado e perguntavam «Como está, ilustre?». Ela gostava destes diálogos antes de prosseguirem a marcha.
E arranjava sempre lugar porque a ensinaram a sentar-se nos bancos da frente para deficientes.
– Compreende, senhor doutor, ela lia aquilo ao contrário – interrompeu a mulher para explicar melhor.
– Sim, não se preocupe, tinha percebido.
A mãe da Luciana vendia lenços de papel Renova de porta em porta. Nos Aliados, percorria os restaurantes, as lojas de roupa, os antiquários, os alfarrabistas, os quiosques para turistas, os emolduradores, as padarias, as tascas, as butiques de mezinhas, as lojas de botões, as joalharias, as lojas de cerâmica, os correios, as tabacarias, os mercados de esquina, as lojas de decoração, as drogarias. Enfim, o comércio da zona.
Muitos conheciam-na, outros faziam por não a conhecer. Por exemplo, o alfarrabista de esquina onde ela entrava para conversar com o empregado. Ele não percebia o que ela dizia, as palavras desencaixavam-se-lhe ao sair da boca e mesmo só «Olá, lenços?» parecia uma escalada à Torre de Babel.
Falar com ela era mais difícil do que ler Heidegger, ou qualquer outro dessa laia.
Depois o funcionário reparou que a camisola de gola alta às riscas era sempre a mesma e passou a comprar os lenços, embora não precisasse. Ela aparecia todas as semanas. A certa altura dava-lhe abraços e dizia que gostava muito dele e que os lenços eram realmente bons, que ele era muito ajuizado em comprá-los, precisasse ou não.
Isto numa das lojas. Nas outras dizia frases semelhantes mas a pessoas diferentes.
– Ou seja, eu a bem dizer não sei nada de muito pormenor, mas podia ter acontecido assim. Ela conhecia muita gente nos Aliados – completou a mulher.
– Mas aonde quer chegar? – perguntei.
Os lenços Renova eram mais passatempo do que necessidade. Recebia o cheque do Estado nos últimos dias de cada mês e não pagava renda naquele sítio entre sítios mais decentes. Não vivia com muito, mas não precisava de muito. Como desconhecia o valor do dinheiro, achava que cada moeda era um tesouro muito grande, e como gostava de tesouros, grandes ou pequenos, queria ter o seu.
– E veja, senhor doutor, que a própria Luciana dá valor em demasia ao dinheiro. Não sabe que um euro é só um euro. Coisa engraçada.
No entanto, soubesse ou não o valor do dinheiro, com o tempo a mãe da Luciana acumulara um montante que já fazia tesouro.
Chamava tesouro a um saco de lona para onde atirava as moedas da Renova. Encheu-o quase até cima e não lhe mexia porque achava que um tesouro requeria um sítio fixo – como no mapa o local marcado com um X – e porque o saco pesava vários quilos. Alimentava-o todos os dias. O saco era um animal faminto. Por mais moedas que ela lhe desse, queria sempre mais.
De certa forma, tinha-lhe um amor muito próprio, construído à força da dedicação, e só falava dele aos passageiros do autocarro. «Levo comida para o meu saco.» Mas as pessoas percebiam sempre «Levo comida para o meu gato» e achavam-na ainda mais atrasada por chocalhar os cêntimos do bolso referindo-se ao gato.
A maioria desviava os olhos para a rua, o mais fora do autocarro possível, onde o espaço é livre de anomalias, ou pelo menos onde elas se mantêm longe. Mas alguns olhavam directamente, sorriam e diziam «São como nós», o que é muito pior porque estabelece uma fronteira. Eles como nós – ainda assim eles e nós.
– Mas a mãe da Luciana tinha que deficiência?
– Não lhe sei dizer. Era apanhadita do cérebro. A Luciana é como ela. Não se sabe bem e pronto.
– Continue lá, então.
Num desses dias, ao voltar para casa de autocarro, um homem de bigode sentou-se ao seu lado e varreu-lhe o corpo com os olhos. O corpo lindo apesar da deficiência. «Vives sozinha? Aposto que consegues tratar de ti todinha.» Ela respondeu que sim, claro que conseguia. E vivia muito bem. «Só vendo, mostras-me?» Agora era uma questão de honra, tinha de lhe mostrar.
O autocarro parou e eles os dois juntinhos. O homem coçava o bigode murmurando obscenidades que ela não ouvia.
Começou a chover quando entraram no barracão onde ela vivia, na transversal sempre deserta. Parecia que o som da chuva no telhado de zinco os atirava ao chão, por isso, quando realmente ele a atirou ao chão, ela não estranhou. Já estava habituada a sentir-se oprimida pelo som da chuva, tanto lhe fazia sê-lo pelo corpo de um homem. A água embatia repetidas vezes no zinco, aos sacões. Só quando a chuva parou e ele continuava em cima dela, mas imóvel, já acabado, é que sentiu falta de ar e um desejo estúpido de não existir, de se enrolar dentro de si mesma e expurgar o mal para fora. O homem apontou o bigode para o canto das moedas. «Que tens ali, minha boneca?» «Não é nada, é só o meu tesouro.»
O homem levantou-se e enfiou devagar as mãos no saco para guardar punhados de moedas nos bolsos da frente, de trás e da camisa. Algumas moedas rolaram para baixo do fogão. Depois conseguiu atar as alças e levantar o saco num gesto de balanço. Quando saiu, a chuva recomeçou.
A mãe da Luciana não reagiu. Permaneceu deitada a ouvir a chuva e queria ficar assim até que nascesse outro tesouro.
– Claro que a Luciana não percebe nada disto, não lhe faz diferença. Não sabe que é uma filhinha da violação. A mãe morreu quando ela tinha catorze anos e desde aí tem estado sempre connosco… Antes vivia naquele sítio, no fim da Constituição. Fomos lá buscá-la. Uma coisa que nem lhe digo. Porcaria por todo o lado – concluiu a mulher, esborratando o caderno.
A conversa continuou, já não sobre a Luciana mas sobre o Miguel. No fim, o bloco de notas encheu-se de apontamentos e desenhos e insultos anotados nas margens, talvez insultos que ela, sem coragem, me quisesse dirigir de viva voz.
Eu dissera tudo e decidira tudo. E soubera-me bem dizer por fim o que pensava, sem rodeios. E actuar consoante o que pensava. Lembro-me da cara da mulher fixada em mim num espanto, num esgar de burrice. Gostei. Por vezes há que ser brutal e directo. Mas agora não quero falar disso. Fica para quando for mais oportuno.