O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 6 de 46

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O Meu Irmão

Quer dizer, não é dormir nem estar…

Quer dizer, não é dormir nem estar acordado. Sinto o corpo estendido na cama à espera do impulso para me levantar, mas ele não surge. Quero manter-me neste entretanto até ter coragem para começar o dia.

Todos sabem do que falo. Se quisesse ser académico, chamar-lhe-ia «estado alterado de vigília», mas não gosto de praticar academismo nos tempos livres porque sou professor universitário e dispo a farda mal chego a casa. Dispo-me todo dela, felizmente conservei discernimento para isso.

A voz interior, o homúnculo. Levanta-te, desce à cozinha, junta café ao leite, vai lá fora sentir o frio de pés descalços (repara, não está a chover), e depois, quando o Miguel acordar, sorri. Enfrenta a normalidade.

Nada mais difícil.

Num esforço, levanto-me, desço à cozinha, preparo uma meia de leite e saio. No terraço, cada pedra tem impressa uma interpretação diferente do frio. Vê-se em cada laje uma fatia de gelo que cresce, mas aquilo desfaz-se com o bater do sol e sobra uma impressão a escuro que é parecida com um sorriso morto. Estamos em Novembro.

Lá em baixo na várzea os mujiques já labutam, sete e meia da manhã.

Tenho esta mania de acordar de madrugada cheio de pressa para nada, mas eles não. Acordam porque é preciso, eu acordo para me legitimar enquanto homem, para dizer «Sou capaz».

Olho-os cá de cima. Quase parecem felizes, um pouco como a Cantiga da Boa Gente. Dos quatro ou cinco campos, dois sustentam-lhes a vida. Não percebo ao certo o que lá fazem, que magia oculta praticam com as mãos bem enfiadas na terra. Gostava de saber de cor as alfaias, campos e épocas de sementeira. Ter o gosto de apontar com o dedo – bem esticado – para um campo e dizer, quanto a Novembro: estrumações, preparação da Primavera; protecção contra as geadas; semear favas, rabanetes e salsa. São daquelas coisas que um citadino não precisa de saber e por isso parecem indispensáveis, uma espécie de vitamina Centrum perfeitamente inútil mas que faz de placebo.

Por fim sobem ao dependuro no tractor Daino 4WD. Levam entulho dos campos, ervas, pedras, meio tronco meio raízes, coisas assim. Parecem carraças num lombo de boi. Deixaram os campos limpos como a palma da mão de um relojoeiro e amanhã despejam o estrume.

Isto aqui é muito diferente da minha vida. O dia corre-lhes mal se não cortarem rentes as ervas daninhas e parece-me um consolo saber que, se não as cortarem, não faz diferença nenhuma. Pelo menos não para mim, que me dedico ao estudo do verbete na segunda metade do século XVIII até à primeira metade do século XX. Eles nem sabem o que é um verbete, suponho.

O Quim vai à frente a guiar o tractor. É tão magro como um trapo torcido para dentro e tem o ar chupado de um doente. Não sei como se aguenta no banco.

Os berros da senhora Olinda saltam por cima do motor.

– Ó meu idiota, eu não disse para não ires longe? A aleijares-te, aleijas-te à minha beira!

O Quim foi o único que ficou, os outros irmãos puseram-se daqui para fora – França, Suíça, Luxemburgo e Algarve. Tem quarenta e um anos, os pais não sabem guiar o tractor e ele faz-se útil a engatar primeiras e segundas. De resto, fecha-se em casa e sopra uma vuvuzela. Quer dizer bem alto que existe através da vuvuzela, embora nestes vales ninguém o ouça.

– Mas eu não avisei? Avisei! Da próxima acontece uma e depois já não vou dizer só que avisei. Aleijas-te!

A senhora Olinda berra mas vê-se que ainda está assustada. Aconteceu qualquer coisa com o tractor e, pelos vistos, alguém podia ter-se ferido.

Os berros parecem iguais aos de quando morreu o cão Átila, um rafeiro de vinte e dois anos. Estava deitado no calor do alcatrão, a aproveitar as coisas boas e pequenas da vida, quando um carro fez o que os carros fazem ao passar por cima de animais. Morreu dias depois e ela não se calava com «Eu avisei» e «Vê lá, Aníbal, até me ficou com os olhos de lado».

Por fim, sobem o carreiro ao lado de minha casa e o Quim trava, acena e faz menção de prosseguir.

– Muito trabalho? – pergunto.

– Ah, amanhã é que vai ser. É estrumar a terra.

A senhora Olinda explica o processo e o senhor Aníbal remata

– Mas dantes era pior. Dantes usávamos as mãos para espalhar a merda.

Ocorre-me que o Miguel pode acordar com o barulho do tractor. Despacho-os, digo-lhes «Vá, vão lá à vossa vida». Ele que descanse, que durma até o mais tarde possível, em suma, que me deixe em paz por algumas horas.

O sol já dispersou a geada. Desisto da meia de leite e volto para casa. Quero ver o que dá no mundo e ligo a televisão com o som no mínimo. Qualquer coisa a revolver-me o intestino, subo ao som da Troika para o andar de cima, aflito por ir à casa de banho.

A porta está aberta e encontro o Miguel estiraçado na retrete – nu – e ainda meio caído no sono, ali na retrete como noutro sítio qualquer. Nem me olha.

Desisto e volto para a cama com uma daquelas indisposições infinitas centradas numa só ideia que não nos abandona mesmo depois de adormecermos.

E resume-se a isto, em flashes: espalhar a merda com as mãos e mijar nu.