O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 34 de 46

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O Meu Irmão

O meu pai regressava devagar a casa…

O meu pai regressava devagar a casa pela Oliveira Monteiro apoiando-se na bengala. Percorria a rua, como a descobri-la pela primeira vez, em direcção à Praça Pedro Nunes, à casa amarela da nossa infância. Aliás, ele sempre conseguiu olhar para as coisas de forma renovada. Mantinha o mesmo deslumbramento inicial por aspectos tão corriqueiros, tão os mesmos dos outros dias, como uma fonte rachada ao meio, no começo da rua, uma loja da Instanta onde um rapaz gordo servia de modelo numa daquelas fotografias em que as crianças vestem fatos lustrosos de adulto, uma frutaria de chineses com o chinês à porta, e uma loja de móveis dotada do nome ambíguo de Afonso VI. Pena que a rua tivesse poucas árvores e muito cimento, tudo pedra do começo ao fim.

A meio, sentou-se numa paragem de autocarro para descansar.

– Não vai entrar, senhor? – perguntavam os motoristas antes de fecharem a porta.

– Obrigado mas não, vou a pé.

E os autocarros arrancavam numa baforada do escape. Dentro, gente muito nova. A carreira passava pelos liceus Carolina Michaëlis e Rodrigues de Freitas. Risos saíam das janelas menos nítidos à medida que os autocarros se afastavam. E já tinham passado uns quantos porque o meu pai insistia em deixar-se sentado.

Mas havia coisas bonitas para ver na paragem do autocarro. Uma rola turca que voava para o alto em circunvoluções, cada vez mais excitada, cada vez mais rápida e cada vez fazendo mais barulho de palmas com as asas, para depois acalmar num deslize planado até à árvore próxima. Atrair a fêmea, atrair a fêmea. Uma criança que fazia birra para dentro de si própria por causa de uma guloseima qualquer, birra só em beicinho e na frase «Mas eu quero, mãe». O cheiro a digestivos e bolachas de manteiga acabadas de cozer vindo da confeitaria Porto Rico. Dois velhos que passeavam de mão dada. Ela perguntava «Não queres pudim?» e ele respondia «Já te disse dez vezes, mulher teimosa, que não quero pudim!». Um casal de namorados a olhar para os carros. A cinquenta metros, à porta de uma conservatória do registo comercial, uma cigana coberta por um manto roxo e sujo segurando um cartaz de papel plastificado onde se lia em maiúsculas, assim mesmo em masculino, «Estou desempregado não mereço o apoio social tenho cinco filhos». Mais à frente, numa discussão sobre Cristiano Ronaldo, um reformado berrava «É um lince, ele resolve!». Sem se perceber de onde, de que janela, o som pouco trabalhado de um piano. Perto, um homem de brinco que esperava o autocarro, dizendo ao telemóvel «Vai à merda com a tua língua». Por último, o vento, melhor, a brisa sobre este cenário.

Isto sim era a Primavera.

E depois a última visão dessa manhã. A minha mãe passava de carro, rápida, também de regresso a casa. Ainda usava casaco de peles, teimosa. Ele levantou a bengala, berrou, mas a minha mãe não o viu. Passou, desapareceu na curva que leva ao Rodrigues de Freitas.

Já se saciara do passeio e até da Primavera. Agora só queria voltar a casa. Levantou-se, sentindo-se descansado, todavia com a cabeça leve, como a pender para o céu, e o coração em brasa. Já tivera ataques cardíacos, anginas, bypasses, stents, até um mixoma auricular, não era aquilo. Aquilo era o quê? Uma espécie de ciática mais funda, mais cavada, que começava no coração mas que o enchia por inteiro.

Deu três ou quatro passos. Voltou atrás. Sentou-se e pendeu. Caiu. Quando chegou ao chão, a corda já parara.

O INEM levou-o para o São João. Depois de constatarem o óbito, devolveram-no bastante sovado das reanimações frustradas.

A Primavera continuava, embora a minha mãe tivesse perdido a noção de tudo. Sempre dissera que queria morrer depois porque se sentia mais capacitada para sofrer, mas no íntimo convencera-se de que morreria antes, trocando a volta às probabilidades.

O Miguel acompanhou-a ao hospital. Esperaram no corredor, o cheiro a químico, o deambular de pessoas, o telefone que toca ao fundo. O médico aproximou-se dela, informou-a do que se passara, olhando intermitente o Miguel. «Mas eu ainda…», repetia ela.

O grande problema foi explicar ao Miguel que o pai morrera e sobretudo explicar-lho repetidas vezes, dizer-lhe «O teu pai morreu» até que ele percebesse. Não bastou a ida ao hospital, a presença do médico. Já muito depois do hospital, já muito depois do próprio enterro, o Miguel continuava a perguntar pelo pai como se este estivesse atrasado. Antes das refeições, comentava «Falta o…», mas então percebia pelo estremecer da mãe que não devia falar no assunto, embora realmente o pai estivesse muito atrasado há algumas semanas.

Compreenderia a morte? O afastamento contínuo? Decerto sim, porém acordava a mãe a meio da noite para perguntar

– O pai?

regressando à cama com a mesma resposta, que morrera, melhor, que chegara ao céu.

E isto cansava a minha mãe, consumia-a. Em semanas envelheceu anos, tal como costuma acontecer nestes casos. Sobretudo não conseguia suportar o imenso atraso do meu pai aos olhos do Miguel, e também ela se deixava enredar na fantasia. Dava por si a ouvir passos nas escadas, a olhar para a porta, a ver a maçaneta rodar, e então nada acontecia. Até disse uma ou duas vezes ao Miguel, num impulso do qual logo se arrependeu, «O pai não demora». Mas o pai tardava e, quatro meses depois, o Miguel convenceu-se de que o atraso seria permanente.

Eu também ficara sem pai mas tinha noção das coisas e preparara-me com anos de antecedência. O afastamento que mantive resultou em que, afastado por afastado, a morte dele não pareceu um momento tão definitivo. Tratou-se apenas de uma fase mais extrema de estarmos longe um do outro.

A normalidade assentou como a cinza depois do fogo, cobrindo tudo com uma calma morta. Quatro meses depois, a minha mãe ficou na cama de manhã. O Miguel desenvencilhava-se sozinho, e para mais a cama protegia-a contra a tristeza porque daquele lado, à sua esquerda, ainda ouvia o meu pai respirar. Pelo menos gostava de imaginar que o ouvia.

Mas adormecia, sonhava ou lembrava-se, não sabia ao certo. Lembrava-se ou sonhava que tornava a casa de carro depois do pequeno-almoço, croissant simples torrado e café duplo. Sempre gostou de guiar depressa pela Oliveira Monteiro depois do pequeno-almoço. E ultrapassava a paragem do autocarro sem olhar para o lado porque tinha pressa e sabia que ninguém a esperava ali. De facto, a paragem encontrava-se vazia. Porém, mesmo antes de abrir os olhos, pareceu-lhe distinguir alguém pelo retrovisor.

Acordou em sobressalto. O Miguel abanava-a.

– Vou.

– Porta-te bem, muito bem.

– Sim – disse, virando as costas.

– Miguel, então e o beijinho da mãe?

Ele abraçou-a, deu-lhe um beijo na testa e passou-lhe os dedos na boca como depositando aí uma moeda. À saída, repetiu o mesmo de todas as manhãs, «Vou ter com a Luciana».

A minha mãe voltou a adormecer porque queria regressar de carro à rua, antes ou depois do pequeno-almoço, tanto fazia. Bem rápido. Olharia com mais atenção.

Na paragem, agora sim, viu o marido sentado a acenar com a bengala e sorrindo sempre. Acenou também, disse «Adeus, até logo» e o carro continuou pela rua. Porque não parou, se iam ambos para o mesmo sítio, para casa? Queria parar, voltar para trás – acordar –, só que a rua não acabava, o asfalto em recta até ao horizonte, tal como não acabava, porquê, a sensação de reconforto, de alegria, por o ter visto e saber que o encontraria daí a pouco.

A rua continuava sempre.

– E agora um momento de silêncio – diz o padre mas ninguém ouve.

Abriram a igreja à pressa e puseram o caixão cá dentro nuns apoios de madeira que estalam e a qualquer instante podem ceder. Acho que um dia encontrei os apoios no barracão ao lado da nossa casa onde o Quim guardava o Smart. Quer dizer, nessa altura ainda não tinha o Smart. Já assim sozinhos e encostados à parede eram frágeis, quanto mais com um morto em cima. O que vale é que o corpo do Quim quase não pesa: parece um véu, parece só espírito pousado sobre um pouco de carne e osso. Pesa a madeira do caixão e, mesmo assim, sendo de pinho, é bastante leve.

Apesar de tudo, conseguiram disfarçar o tamanho do corpo enfiando chumaços na roupa.

Isto lá à frente ao pé do altar, onde acenderam mais velas, por baixo de um lustre de casa de velha. Não consigo ver as mãos agarradas uma à outra a saírem por cima do caixão com o terço de permeio. Nem mesmo a cabeça. Não vejo nada mas sei que ele está ali dentro porque antes de me sentar pus-me ao lado para o manter na memória deste modo, muito inexistente mas já em paz. Parecia de porcelana. Alguém veio de Arouca para o arranjar, mas já deve ter partido porque ninguém se demora no Tojal. A qualquer momento aquela cara inexistente mas em paz pode quebrar-se, quebrar-se a porcelana, fazendo-se pó, e ele desaparecer sem antes ir à terra.

O pior é que chove. Toda a tristeza da terra caiu no Tojal, construção que desaba sem motivo e derruba tudo como se o Quim fosse a peça que sustinha este lugar.

– Um momento de silêncio – repete o padre.

Estou sentado nos últimos bancos, quase por baixo do coro. O Miguel luta por manter os olhos abertos. Trouxemos um ramo de flores.

Fui a Arouca num instante comprá-lo, por isso nem vale a pena dizer que achei bonita a mulher que mo vendeu, nem que as pessoas ainda me reconheciam na rua, apesar de eu não aparecer há muitos anos.

O povo que entra vem pingado e a espirrar. A igreja está cada vez mais húmida, tresanda a calor de gente transpirada. Entram os habitantes das aldeias à volta e também de Arouca, os poucos que lá o conheciam por causa da doença, como a enfermeira que lhe dava injecções e dizia «Hoje está com bom ar» e o taxista que o transportava.

Nos nichos. São Barnabé apedrejado à porta da sinagoga, Nossa Senhora de Fátima com a cabeça pequena e a coroa grande, São José de cajado, Santo António sem nada nos braços, Santa Teresa segurando flores que envolvem a cruz.

Nos bancos da frente, também por baixo do lustre de velha, o senhor Aníbal parece outro. Quer dizer, é outro, não é o senhor Aníbal. Tomou banho, penteou-se, vestiu um fato dois números acima, endireitou as costas e tirou o boné. Pousou as mãos sobre os joelhos e não as tira de lá. Ao lado das mãos dele, as mãos da senhora Olinda. Não se tocam mas estão muito próximas. Ela também parece outra. Extinguiu-se, resumiu-se em si mesma e tem os olhos fechados como quem descansa depois de um trabalho difícil.

O Quim foi o trabalho difícil.

E agora falta-lhe qualquer coisa por dentro, alguma luz. Ou toda a luz. Não sobrou nada. Ficou desfeita pela explosão da morte do filho, e desfeita talvez por se ter sentido aliviada quando percebeu que ele nunca mais se descolaria do seu ombro de livre vontade. Ao seu lado, até o senhor Aníbal parece maior e vivo.

Reparo que ninguém trouxe flores. A rodear o Quim, apenas madeira.

A igreja encheu-se. Todos de preto carregado como manda a tradição da aldeia. Muitas mulheres não tiveram de mudar de roupa porque andam sempre de luto pelos maridos que se escaparam daqui, da vida, mais cedo do que elas e as largaram apenas com o consolo umas das outras. Pouco consolo. E é assim o interior de Portugal: uma imensa mulher feia e viúva fechada à janela do primeiro andar de uma casa velha, esperando sair à rua numa ocasião importante como o enterro do doente que nunca conheceu mas em relação ao qual sente alguma afinidade porque vivia na terra ao lado.

Já entraram vários exemplos dessa viúva que é o interior de Portugal. Ao lado do Miguel sentaram-se duas, uma gorda e outra ainda mais gorda, ambas de um gordo flácido que não choca por ser natural, por ser o consolo de tantos anos de trabalho. Trabalhaste, sofreste, agora regala-te, agora come. A mais nova é mais gorda e a mais velha é mais magra, mas quase não se nota a diferença. Partilham a gordura uma da outra.

– Quem é?

– O da Olinda.

– Foi novo?

– Sei lá.

– E deixou alguém?

– Não deixou ninguém.

– Ao menos. Daqui a nada estamos todos mortos. Já me habituei.

O Miguel manda-as calar. Sempre que íamos à missa, alguém o mandava calar, ou alguém mandava calar alguém, mas sobretudo a ele, só que ele realmente portava-se muito bem, sentado quando era para estar sentado e de pé quando era para estar de pé. «Como um príncipe», e ele sorria. Porém, diziam-lhe chiu quando ele tentava imitar o padre ou a assistência, «criadordocéudaterratodascoisasvisíveinvisíveis», etc. Diziam chiu como a cuspir. Ou seja, um chiu saído sem pensar. Quando nós lhes respondíamos chiu, percebiam, calavam-se, e penitenciavam-se um pouco durante o resto da missa. Não tinham reparado que ele era como era.

Agora é o Miguel que diz

– Chiu!

e as mulheres viram-se, olham-no, fazem-lhe uma festa na cabeça e calam-se antes de tirarem o terço do bolso. O psst psst psst das mulheres a rezarem o terço. Quatro ou cinco psst psst psst por conta, mais nos pais-nossos do que nas ave-marias.

Fora, a chuva intensifica-se. O barulho fecha mais a igreja e as pessoas umas nas outras, não só para se consolarem da morte do Quim mas também para se aquecerem.

– Silêncio – continua o padre.

E eu no centro das pessoas que se juntam, pelo menos é o que sinto. Mais ninguém entra. Agora, com tanta chuva e trovoada, parece que estamos presos cá dentro. Parece que o único verdadeiramente livre cá dentro é o Quim, mas ele não está cá dentro. Aqui ficou o véu de carne com o qual se debateu e perdeu.

– Já lá fostes ver? – recomeça a menos gorda interrompendo o psst psst psst.

– Fui quando cheguei. Muito lindo.

– Sim, muito lindo. Pareceu-me de cera.

O Miguel vai relançar num chiu quando o padre com voz mais grossa

– Caríssimos, silêncio.

A senhora Olinda vira-se para identificar quem fala e eu, estúpido, aceno-lhe com um sorriso. Palerma. Não repara em mim, tem os olhos secos e encurtados. Não vê nada excepto o caixão do filho.

Por fim, a gente começa a serenar. Ombros descaem, pessoas ajoelham-se, pessoas encostam-se às paredes. No coro, as últimas cadeiras a arrastar. E pronto: a massa preta acalmou, assentou, e agora as caras viram-se para o altar quase ao mesmo tempo como onda na costa.

Uma vontade irresistível de estalar os dedos.

Calamo-nos à espera de que algo nos trespasse no mesmo movimento. Que algo nos una como um facho. Esperamos viver a mesma experiência da mesma maneira, de não ter de ser um para ser muitos. De ser simplesmente muitos, de sentir aquela intimidade do abraço de irmão. Talvez sirva de consolo. Mas onde é que se faz essa intimidade?

O padre sorri por ter conseguido arranjar silêncio. O Miguel sorri por ter conseguido calar as gordas. Dá-me a mão e diz «Estéricas» e depois de uma pausa «Chatas». Num enterro ou noutro sítio, tanto faz. O Miguel comporta-se como se o mundo se centrasse nele, e não no morto ali à frente. Quem diz o morto ali à frente diz qualquer outro acontecimento. Ele é o mundo dele e os outros não existem, a não ser a Luciana.

Sempre a Luciana. Uma palavra que me desgasta, Luciana. Uma palavra que me fere, Luciana.

Mas talvez, de certo modo, ela também não exista por fazer parte dele, por ser um órgão ou braço dele. Porque o sangue dele é o sangue dela. Porque ela é nele um sentimento forte e constante. Ele molda o sentimento da Luciana e por sua vez o sentimento da Luciana molda-o. Por isso, nada mais lhe interessa. Expressar amor pela Luciana é dedicar amor a si próprio. O Quim morreu e eu não vejo o Miguel sequer perceber ou olhar para o Quim morto com alguma saudade, se é que ele era digno de saudade. Ao menos sentir remorsos enquanto igual, enquanto irmão que deixa o irmão partir. O Quim partiu, o Quim era nosso irmão e deixámo-lo ir. Ele tinha de ir, ele está melhor depois de ido, contudo perdura, talvez não na tristeza mas nos remorsos.

Mas que interessa o que ele sente?

Mentiria se dissesse que o padre também é gordo. Na verdade é muito magro. Alimenta-se mal.

– Irmãos, estamos hoje aqui reunidos. – Cala-se e continua depois de pensar: – Estamos hoje aqui reunidos para acompanharmos o nosso irmão Joaquim Vinagre que parte. Porque o nosso irmão Joaquim… Realmente o nosso irmão Quim, sim, partiu. E agora está lá, não está cá. Aqui não, não. Ali, no alto. Sobre o Tojal! E está lá como bem-aventurado porque sofreu. Todos sofremos, irmãos, mas ele sofreu mais. Já não sofre.

E cala-se de novo à procura das palavras e a analisar a assistência. Como sempre, um velho tosse puxando o catarro e uma criança, uma das poucas crianças, talvez a única, ensaia um choro mas cala-se porque a mãe lhe dá um beliscão nas costas, por baixo da camisola.

– E teve sempre um sorriso para os outros. Uma forma de lidar muito boa apesar de por dentro as agruras atormentarem o nosso irmão Quim. – A senhora Olinda acena que sim. – Nunca se esqueceu dos outros. Não nos esqueçamos também nós dele, irmãos. Ele está lá mas nós estamos cá e recordamos, irmãos. Nós, os outros de quem ele nunca se esqueceu. Porque, irmãos, às vezes basta pouco. Ele mostrava pouco, mas nós sabíamos que era muito. Os de Ponte de Telhe, os de Arouca e, claro, os do Tojal. Irmãos, reflictamos antes sobre a vida, porque este é um momento de vida.

Agora o beliscão ultrapassou os limites. A criança berra sem que a mãe a possa levar para fora por causa da chuva. Berra sempre.

– O nosso irmão Quim… – prossegue o padre, mas não sabe o que dizer mais.

De qualquer forma, não é preciso continuar porque o choro do senhor Aníbal, surgindo como o som de uma locomotiva numa curva, silencia tudo o resto. E depois a senhora Olinda, as duas mulheres que ciciam o terço, o Miguel e toda a assistência. E eu, porque não, também choro. Mas choramos como animais, como tristes, como abandonados. Embora pareça por um momento que somos todos iguais, que todos vivemos a morte do Quim da mesma maneira, não é através do choro que existe fraternidade porque não existe fraternidade.

E eu talvez chore por isso, não pelo Quim.

O padre perde-se nisto, atrapalha-se. A criança ainda berra, as pessoas ainda choram. A missa começa e termina sem que ele conclua o que queria dizer e sem voltar ao Quim na homilia.

Sim, ninguém trouxe flores. Não é costume. Fico com as minhas presas à mão como uma arma depois do disparo. Tenho de as deixar em algum sítio perto do Quim, mas a multidão impede-nos de aproximar enquanto o levam sobre ombros, saindo da igreja e dirigindo-se pelo carreiro até à caixa de sapatos.

Atrás de todos, o coveiro segue ensopado pela chuva que ainda cai e arrastando a pá como sem força, embora tenha muito trabalho pela frente. É o mesmo homem que mata o porco duas vezes por ano.

O vento dá-nos caneladas de chuva. Tosse puxa tosse e espirro puxa espirro.

À frente, o padre quase tropeça ao entrar na caixa de sapatos. O povo segue-o. O Miguel encosta-se a mim porque está cansado de tudo isto. Quando é que acaba? Quando é que nos livramos do Tojal e voltamos ao Porto, à vida de sempre? E, principalmente, quando é que a Luciana volta?

A terra já aguarda o Quim de boca aberta mas ninguém lhe deu sequer um ramo de flores. Só me apetece largar o meu. Estacionam o caixão ao lado da cova e aguardam que o padre conclua.

– É agora, irmãos! – berra no meio da chuva e depois reza qualquer recitativo como «Deus omnipotente quis chamar desta vida para Si o nosso irmão, cujo corpo entregamos à terra, para que volte ao lugar de onde foi tirado», e sai de braço dado com a senhora Olinda.

O povo retira-se antes que o coveiro comece o seu trabalho. Não há flores, não há nada. Só lama, só merda do Camões defecada à porta do cemitério, mas que o coveiro arregimentou para dentro com a pá, só bocados empapados de terra e pedra e o caixão que, à força da chuva, está agora quase enterrado por livre e espontânea vontade, como a cobrir-se numa cama depois do banho.

– Miguel, ala para casa que eu ainda quero deixar as flores – digo-lhe, empurrando-o.

Ele desaparece no aguaceiro.

– Vai começar ou não? – pergunto ao coveiro.

– Ó senhor doutor, isto é uma arte. Tenho de fazer tudo a pensar no que vou fazer. Sabe como é, para mostrar respeito.

E lança a primeira pazada, e logo a segunda e a terceira, e depois é contínuo. O monte de terra tem de voltar ao buraco, só depois posso colocar as flores sobre a cova.

– Ó homem, é coisa para demorar?

– Pois, senhor doutor. Estou sozinho na minha arte.

– Não tem mais uma pá?

– Ali ao canto.

Começo também a cobrir o Quim de terra, cada pazada é uma surpresa de lama e água. E ainda mais surpresa quando em vez de lama e água aparece uma tíbia ou uma omoplata mostrando o branco de osso. Olha agora, enterrar não apenas o Quim mas todos os avós, todos os Vinagres deste sítio. Os que sorriem nas fotografias a preto e branco e a cores na lápide mas de cujo sorriso talvez só reste uma fieira de dentes ou o maxilar inferior.

E uma caveira completa com ar de espanto.

Voltam todos ao seu lugar. Afinal não é para saírem, é somente o Quim que precisa de entrar. O coveiro alisa a superfície com a pá e eu imito-o. A cova ficou ligeiramente mais alta. O homem larga a pá e anda sobre o monte de terra com passos estreitos para o nivelar. Não o imito.

– Ora está a ver, sôtor? Não demorou muito para tantos quilos de terra. Isto agora amansa, aplaina com o tempo.

Já tudo sereno, coloco as flores à cabeceira do Quim e volto para casa.