O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 38 de 46

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O Meu Irmão

Agora me lembro. A gorda de vestido…

Agora me lembro. A gorda de vestido cor-de-rosa e voz rouca que supervisionava o Miguel na APPACDM chamava-se Eugénia. Marquei a reunião com ela no dia em que o Miguel reatara com a Luciana.

Embora tenha começado por perguntar pela Luciana, o meu objectivo era outro, pelo que quase não ouvi quando a Eugénia descreveu o barracão onde a mãe da Luciana vivia, nem tampouco considerei relevante o relato escabroso. Que adiantava saber que a Luciana era uma «filhinha da violação», e que vivera até aos catorze anos no mesmo alpendre em que a mãe fora violada? «Vivia lá naquele sítio. Uma coisa que nem lhe digo. Porcaria por todo o lado.» Aliás, a Eugénia nem conhecia a deficiência da Luciana, catalogada apenas como «apanhadita do cérebro».

Quando ela acabou de descrever a infância da Luciana, as bugigangas na secretária ainda me impressionavam, tal como as cores esbatidas das precisamente dezasseis orquídeas que decoravam o gabinete. Continuava os desenhos no bloco de notas, agora para aliviar o constrangimento de uma pausa longa antes de a conversa prosseguir.

Fora, os berros dos utentes, que regressavam do intervalo.

– Pois isso está muito bem – disse eu. – Sabia mais ou menos o que se passava, embora até há pouco tempo vivesse em Lisboa. Agora estou aqui para tratar do Miguel e já me inteirei mais dos assuntos.

– Esplêndido, senhor doutor. Assim é que deve ser. E fez bem em ter-me telefonado no outro dia. Até gostava de lhe pedir desculpa, porque devíamos ter sido nós a contactá-lo logo que aquilo aconteceu, mas por vezes as coisas arrastam-se. Se soubesse a quantidade de utentes nas mesmas condições. Muito gostam eles de se arranhar.

– Não se preocupe. Com «inteirar mais dos assuntos» não quero dizer que o que acaba de me contar sobre a Luciana tenha qualquer importância. Mas obrigado na mesma. – A caneta saltou-lhe das mãos. Por momentos olhou para mim sem reagir. Depois retomou os rabiscos como se eu não tivesse dito nada. Continuei: – Cheguei à conclusão de que isto é prejudicial para ele.

– Isto?

– Sim, isto: o colégio, enfim, a proximidade com a Luciana.

– Mas é só amizade, senhor doutor – e acrescentou um ;) ao bloco.

– Seja o que for, tem-lhe feito mal. É uma obsessão. Não pensa nos outros, só pensa nela. Efabula todos os dias coisas que me metem medo.

Decidido como estava, nada me metia medo, mas era bom que ela percebesse que eu agia por amor a ele, para o proteger.

– Mas senhor doutor… – A Eugénia não dizia mais que três palavras; talvez percebesse aonde eu queria chegar.

– Por exemplo, que estão casados de facto – retomei.

– Isso nunca! Nós vigiamos sempre, metemos sempre o olho entre eles. Nunca chegaram a vias de facto, embora seja normal sentirem os impulsos.

– Pois sim. Para comer basta ter fome. Já imaginou? E depois quem se responsabilizava? E o que viria dali? Alguém como ela ou ele, alguém como os dois ao mesmo tempo?

– Livra, o que aí vai. Credo.

– A questão é muito essa. Aliás, em tempos vocês também pensaram assim. Não a puseram noutro centro durante dois anos?

– Sim, mas isso foi por motivos administrativos. – Parecia insultada. – Por nós ela estava melhor aqui, mas eles lá necessitavam de mais utentes. Administrativos, sim? Claro que o Miguel fez trinta por uma linha, por isso trouxemo-la de novo para cá. Mas nunca a tirámos daqui para os separar. O que seria.

– Você é que sabe, mas o que é certo é que eu não tenho de lhe dar satisfações. Eu é que sou o encarregado de educação, eu é que pago a mensalidade, eu é que sou o irmão. Eu é que sei.

Mais uma vez, a gorda ficou sem resposta. As folhas do bloco enchiam-se cada vez mais de pontos de interrogação e exclamação que ela não escondia da minha vista. Por instantes tossiu e afagou a folha de uma orquídea, como a ganhar coragem.

– Mas aonde quer chegar? – perguntou.

– Com certeza já percebeu.

– Não percebi. Explique, por favor.

– É muito simples. Nada do que você diga pode evitar que o faça. Pensei muito no assunto e estou decidido. Quero tirar o Miguel daqui.

Silêncio. A Eugénia nem sequer rabiscou no bloco. Simplesmente ficou a olhar para mim num esgar que desenvolveu mais e mais em espanto.

Enfim dizia o que pensava sem rodeios. E actuaria consoante o que pensava. Nada do que ela pudesse sugerir me impediria de tirar o Miguel da APPACDM. Não ouvi o que ela retorquiu, lembro-me apenas de «Mas sabe o que isso significa, sabe o que isso significa?», e de responder «Sei».

Então, a Eugénia sugeriu que eu passasse na secretaria para ultimar os papéis. Não demoraria mais de dez minutos. Depois ficou sentada apontando para a porta, indicando que saísse rapidamente.

– É para o bem dele – disse-lhe antes de fechar a porta.

Assim que assinei os papéis senti-me aliviado, por fim livre da Luciana. Não teria de partilhar mais o Miguel, nem de aturar as conversas intermináveis sobre como ela o abordara no corredor, como tinham ido para o jardim, ou conseguido fugir ao Caranguejo, «ha muto tempo». Por fim cessaria a inveja daquele amor puro, feito de céu, que pertencia à ficção – nunca a um mongolóide e a uma «apanhadita do cérebro».

Os corredores vazios. Meio da manhã. Sempre que passava pelas portas de vidro das salas, erguia-se um bramido de berros e cadeiras a arrastar.

A minha presença excitava-os.

Então ocorreu-me passar pela sala do Miguel. E ocorreu-me também que a Luciana estaria com ele, talvez a pintar caras em papéis reciclados.

Levá-lo-ia comigo. Ele nunca mais voltaria à APPACDM. Rompimento limpo pela minha mão.

A sala envolvia-os em brinquedos de cartão, fitas, enfeites e garrafas de plástico pintadas às bolinhas. Aviões com três asas e gaivotas sem cauda pendiam do tecto. A educadora acabara de sair da universidade, não teria mais de vinte e um anos. Ao pé dela, o Miguel parecia ainda mais envelhecido.

– O meu irmão! – berrou ele empurrando a educadora.

– Sim, sou eu – respondi, encostado a uma mesa.

– A que se deve a visita? – interrompeu a educadora.

– Tem de haver motivo para uma visita?

– Claro que não, foi só por perguntar.

– Tinha um compromisso. Aproveito e levo-o para casa. Esta aula é de quê?

– Manualidades – murmurou ela, embaraçada com a minha rispidez.

Tímida como qualquer recém-licenciada.

Os colegas do Miguel rodearam-me. O entusiasmo dele crescia, mas eu sabia que se tratava de exibicionismo. Os dedos que em volta tocavam nos meus ombros cedo redundaram em abraços acompanhados de sorrisos e muita baba. Senti um beliscão no rabo.

– Como é que os mantém quietos? – perguntei.

– Dou-lhes guloseimas quando eles se portam bem.

– Vai dar-lhes guloseimas depois disto? Não me largam.

– Hoje não, meninos, hoje não há doces para ninguém. Portaram-se mal!

Logo recuaram todos como um cardume sensível às vibrações da água, sobrando apenas ao pé de mim o Miguel e uma mulher que media menos de metro e cinquenta, magra, tufo de cabelo longo e escuro que já escasseava na franja. Os olhos ampliados pelas dioptrias fitavam-me com curiosidade. O Miguel e a mulher davam as mãos. «É Luciana», disse ele. «Sou Luciana», completou ela.

De início não percebi. Mesmo que mo repetissem várias vezes, se não tivesse olhado de novo para as mãos dadas, não acreditaria que aquela era a Luciana. Mas, sim, aquela era a Luciana.

Ali estavam, juntos pela última vez.

De tanto ouvir falar dela sem a conhecer, encontrava-se perante mim uma personagem de livro, daquelas personagens que não se espera conhecer na vida real. Era ainda mais feia do que imaginava. Não beneficiava de alguma carne em cima dos ossos, e a mão fina perdia-se na mão grossa do Miguel.

Não lhe dirigi a palavra. Tal como ele não me incluía no seu mundo por causa dela, também eu não a incluía no meu mundo por causa dele. Não havia lugar a conversas, nem a um olá de ocasião.

Despedi-me rapidamente da educadora e forcei a passagem através dos utentes, que entretanto nos cercaram de novo. Pequena, a Luciana perdeu-se entre braços e pernas que se cruzavam.

No exterior, o Miguel observou a carrinha que o levava a casa e acenou ao condutor sentado ao volante a ler A Bola. «Tudo fino?», comentou ele, apitando. O Miguel sorriu e respondeu «Fino».

À janela do segundo andar, a Luciana tentava perceber aonde íamos, mas um carrapito de cabelo tapava-lhe os olhos. Acenou ao Miguel quando este entrou no carro.

O edifício da APPACDM fora pintado recentemente; porém, junto ao portão, já os graffiters haviam rabiscado alguns throw-ups como «Angústia nas paredes2014», e até o célebre RPLKS, que marca presença em qualquer rua do Porto, colocara aí o seu número de telemóvel.

Admito que o Miguel estivesse contente por o ter ido buscar. O meu pai é que costumava fazer dessas surpresas. Assim chegava a casa mais cedo e não teria de esperar quase uma hora na Circunvalação por causa do trânsito de final de sexta-feira.

No carro, de regresso a casa, disse-lhe por fim o que se passara. Não reagiu de imediato. Continuou a olhar pela janela enquanto murmurava «Por aqui a carrinha passa».

– Ouviste, Miguel? Agora a Luciana acabou! Não voltas ao colégio.

– Nao acabou nada! A Lucana é o meumor – respondeu ele algo indiferente, convencido de que eu brincava.

– Eu sei, eu sei, mas não há nada a fazer.

– Nao acabou nada. Fimdesemana talvez acabou, mas segunda colegio nao acabou. Volto – afirmou, agora mais convencido.

– Tenho muita pena, Miguel, mas não voltas ao colégio.