O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 27 de 46

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O Meu Irmão

Não trouxe o Miguel comigo. Devo poupá-lo…

Não trouxe o Miguel comigo. Devo poupá-lo a espectáculos que não compreende. Melhor, gosto de reservar alguns espectáculos só para mim, saber que ele não é capaz de os perceber e não ser generoso a ponto de lhos explicar, mesmo aceitando que de qualquer forma não os compreenderia. Um pouco o inverso do que se faz com as crianças, quando lhes explicamos «Aquilo é uma central nuclear».

O senhor Aníbal deixa-me entrar e aponta para as escadas que levam ao andar de baixo. Usa boné dentro de casa. «Então vá», diz, mas não me acompanha até ao quarto do filho.

No quarto, tosse abafada uma e outra vez. A porta quebra o som, mas uma frincha deixa escapar um pouco de luz, uma luz muito vaga e muito triste. «Então vá», repito ao colocar a mão na maçaneta.

Entro e é como destapar um quadro do qual já vi o esboço. Duas vuvuzelas escondidas por baixo da cama, quatro bengalas encostadas à parede, uma delas acabada em tripé. Um par de luvas roxas e um copo vazio na mesinha-de-cabeceira. Duas mochilas velhas penduradas numa cadeira, cachecóis enrolados nas mochilas. Almofadas a tombar da cama, binóculos no sítio ao qual pertencem, no parapeito da janela. Canetas Bic por escrever, porta-chaves com carros em miniatura atados ao puxador do armário, vários livros com títulos como A Princesa e o Caubói ou Paixão do Passado guardados em duas caixas de cartão sem tampa. Ele nunca os leu mas gosta das ilustrações da capa. Mal escondida entre as almofadas, uma revista pornográfica repleta de dedadas. Uma roda de bicicleta atrás da porta, dois ratos de computador que se encontraram, como por magnetismo, num canto do quarto e lá permaneceram em casal.

Mas não imaginava uma cama com os lençóis assim tão direitos, engomados em permanência, apenas preenchidos por uma forma pouco volumosa e esguia ao centro. E quieta. Mal se nota a respiração na zona pouco mais alta da caixa torácica. Tanto respira como não respira, e entretanto tosse.

Não o sabia tão extinto.

Sentada ao lado do filho, a senhora Olinda parece um exagero, um absurdo de pessoa e de mulher em tamanho e agilidade. As mãos seguram nos joelhos. Alinhou o cabelo para trás num puxo tão contido como ela. Observa o filho mas não diz uma palavra. Mesmo nestas circunstâncias, não costumam falar. Nada do que ela diga lhe interessa, nem tampouco ela percebe o que ele diz. Nunca se esforçaram por aprender as mesmas palavras e agora é tarde de mais.

O Quim está acordado mas não se apercebeu da minha chegada. Limita-se a olhar para a mãe e para a cama. Tem os braços nus fora dos lençóis e une as mãos sobre o peito. Quer ao menos acariciar as próprias mãos, mas recusa as da mãe sempre que ela lhas estende. Esfrega os dedos com mais intensidade do que numa carícia.

Muito devagar para que ele não repare, aproximo-me da senhora Olinda, coloco a mão no seu ombro e não sei porquê mantenho-a aí.

– Ah, é o senhor – diz ela sem virar a cabeça. – Que veio cá fazer?

– Não queria que eu visitasse o Quim?

– Queria.

– Pois aqui estou… Ele percebe o que dizemos?

– Não.

Neste «Não», o Quim volta-se para nós e contrapõe um «Sim» que sai aos bocados. É a sua maneira de contrariar a mãe, de mais uma vez não lhe dar o gosto de ter um filho que já nem consegue perceber que o visitam e que por isso necessita da mãe sem reservas. Ele bem vê a alegria e o entusiasmo da mãe quando a doença o leva à cama, ele bem sabe que ser doente é torná-la útil – como a pega de madeira, útil na panela por causa do fogo. E repete aos poucos «Sim, percebo» até ficar animado o suficiente para se recostar na cama. Os lençóis, contudo, permanecem esticados.

Dirijo-me a ele sem retirar a mão do ombro da senhora Olinda

– Como está?

– Estou como vê, como havia de ser? Cada vez melhor!

A voz corresponde ao que se vê – dois braços azulados, uma cara quase inexpressiva e um corpo encurralado no peso dos lençóis. Impressionado, pergunto

– Homem, porque é que não chama uma ambulância?

– Preciso lá de médico. Estou como vê, muito bem. Habituado. Daqui a três dias volto a andar por aí. O bicho hoje atacou forte, mais nada.

Enquanto isto, retira filamentos brancos da boca e coloca-os na borda do colchão. No entanto, a tosse deposita mais filamentos nos cantos da boca. Não tem forças para retirar todos, pelo que desiste e mantém a mão sobre a boca como aquelas pessoas que, embora educadas o suficiente para não falarem de boca cheia, põem a mão à frente quando querem falar e por acaso algum pedaço de carne as impede.

A única posição natural do Quim é deitado. Além de assim não parecer um trapo, deitado assume uma submissão que condiz com a doença. Tal porventura significa nele uma forma de combate, de rendição absurda e violenta. A dor e o sacrifício tornam-se vitórias quando os assumimos como derrotas, e ao assumi-lo desistimos por completo e entregamo-nos. Isto apesar de quase não se mexer, limpando apenas os filamentos dos cantos da boca e regurgitando o mau humor.

Tomara ao Quim subir ao céu nas costas de um ganso como na viagem de Nils Holgersson pela Suécia. Tomara a ele libertar-se num voo. Em vez disso entrega-se à cama, ao chão e à terra.

Nisto pergunta «Mas não acha?» e percebo que continuou a falar sem eu o ouvir. A senhora Olinda, entretida a dobrar as calças na zona dos joelhos, interrompe-nos olhando para o Quim, mas dirigindo-se a mim.

– Nem lhe posso dar as pastilhas, que ele não quer.

– E o senhor não as quer porquê? – pergunto.

– Porque estou bem, como vê. Mas talvez as tome. Ó mãe, vá buscar-me um copo de água.

– Tens ali um.

– Não é daquela água que eu gosto. A água velha faz-me sentir mal por dentro.

A senhora Olinda levanta-se e sai do quarto disfarçando a alegria de ser útil que a doença do filho lhe possibilita. Depois de a mãe sair, o Quim vira-se de lado e sussurra

– Acho que ela me quer matar – de tal forma que parece verdade. E continua: – Quer mesmo! Está farta de mim.

– Mas não era você que estava farto da senhora Olinda? Não confunda as coisas.

– Não, não.

– Sim, você disse-o quando foi lá a casa beber. Usou o verbo «detestar». E depois disso até referiu «Já tratei deles» e «Estão para lá».

– Eu disse só essas coisas que era para disfarçar. Eles é que me detestam. Sem mim tinham emigrado para fora deste buraco. De certeza que viviam melhor. Eu estou a mais e acho que ela me vai dar os medicamentos errados. Não os vou tomar.

– Desculpe lá, se a senhora Olinda quisesse isso não teria já feito qualquer coisa? Porquê agora?

– Você está por cá, olha qu’esta! Às tantas ela julga que você serve de testemunha de que tudo ia bem até que o pobre cão se apagou. O cão! Já viu uma mãe a falar assim do filho? Cão! E ela é que é cadela.

No máximo, a senhora Olinda chamou-lhe «Meu cachorrinho», afagando-lhe a cabeça como se ele tivesse pêlo. Nunca lhe chamaria cão.

– Homem, desculpe, mas você está doente há muitos anos. Ninguém estranharia se…

O Quim sabe o que vem depois de «se», mas não dá sinais disso, quer dizer, encara a questão como uma hipótese académica, uma possibilidade remota num futuro evitado a cada dia.

– Todos estranhariam, todos estranhariam. Olha agora não estranharem! Então os de Ponte de Telhe, esses sabem-na bem. Tenho de durar só até um dos meus irmãos chegar de férias. Conto-lhe tudo. Tenho de contar. Não tomo os comprimidos.

Continua mais baixo «A mim ninguém passa a perna», só que vai perdendo as forças, acalmando aos poucos como uma chama sem oxigénio. Insiste no «Nem um comprimido. Nem um ou dois. Nem um nem dois» antes de fechar os olhos, exausto, mas de alguma forma reconfortado pelas suas próprias suspeitas.

Só me apetece ir para casa lavar as mãos com sabão. Lavar as mãos e torná-las o mais limpas possível, como os médicos e os maníacos. Depois entrar na cama sem tocar em nada, nem sequer no Miguel para dizer boa noite, e adormecer acompanhado pelas mãos novas. Estranhas mas agradáveis. E, mesmo antes de adormecer, cheirar a fundo as palmas das mãos e sentir que pelo menos uma parte de mim está limpa e é pura. Que uma parte de mim não se misturou com as porcarias da vida.

A senhora Olinda regressa com um copo de água e um prato rendado de flores cor-de-rosa e brancas onde pôs os comprimidos dispostos também em flor. Cinco comprimidos, uma pétala cada comprimido. Esforça-se por manter a flor de remédio no sítio sem desarranjar as pétalas.

Aproxima-se da cama e levanta a cabeça do Quim. Ele não se queixa, mas mantém os olhos em mim como se insistisse «Eu não avisei?», e a mãe dá-lhe os remédios seguidos de um trago de água.

Depois diz

– São calmantes. Eu sei que ele se assusta. Daqui a pouco está a dormir.