O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 10 de 46

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O Meu Irmão

– Quim, como está?

– Como se vê, como havia de ser? E eu posso beber disto?

– Claro, porque não? Não sou médico.

E despejo-lhe mais um copo.

– Não bebo há anos – diz ele. – Uma vez fui à Ponte de Telhe e estávamos lá os dos carros a beber. Depois disso nunca mais bebi. E não era vinho deste. De garrafão.

– Deste ou doutro vai dar ao mesmo, a certa altura.

Depois do jantar, uma quase forma de homem passou à janela. Convidei-o a entrar. Percebi que conseguia tirar-lhe o nó da língua e ataquei. É que em tantos anos não passámos muito além de olá e adeus. Nem havia, aliás, motivo para dizer mais do que olá e adeus. E agora também não, mas vamos a isto.

Está sentado no sofá com as pernas atiradas para lados opostos e tem as mãos escurecidas pela doença. Por vezes apoia-se na bengala. As pernas e a bengala parecem um tripé sem nada por cima.

Mudo de assunto.

– Pois, agora não há muito que fazer, não é? De manhã estiveram ali nos campos.

– Sim sim, eu lá vou com os meus pais na trotineta

É como chama ao tractor.

mas agora é só para limpar. Depois estrumar, mas isso fazem eles. Eu só vou na trotineta. Hoje soube bem, mas você não percebe nada disso.

Vai rolando a bengala na palma das mãos.

– O quê, de saber bem? Claro que percebo. Um bom dia de trabalho é o melhor que há. Tira-nos um peso de cima. Um homem fica de consciência tranquila.

Ele olha-me de lado, como uma criança, e esfrega a palma da mão direita com os dedos porque o rolamento da bengala na palma corta-lhe a circulação.

– Disso não sei. Sabe bem andar de trotineta, era o que eu estava a dizer.

Bebe aos golinhos e leva o copo à mesa mais devagar do que o leva à boca.

– Deve ser mais ou menos o mesmo que andar de carro. Quando se vai na auto-estrada bem rápido é uma maravilha – digo.

– Não sei, nunca andei numa auto-estrada. Mas isso é saber andar depressa e eu dizia andar devagar. Na trotineta não se vai a mais de trinta. Só que é diferente, é como andar de cavalo, é preciso dominar o bicho. E depois os meus pais não sabem andar. Só eu é que sei.

Vê-se que tem o orgulho escondido à mostra. Encho-lhe de novo o copo. De repente lembro-me.

– Ah! E daquela vez em que você nos foi buscar?

Dessa vez ele sentiu-se feliz. Eu tinha vinte anos e abri a casa aos amigos nas férias de Verão. Quer dizer, primeiro abri a casa à minha namorada e depois aos amigos. Os amigos vieram por arrasto. Fazíamos praia no Paiva e à noite conversávamos até adormecermos em casa ou no terraço, na praia ou no monte.

A luz das velas punha os mosquitos em êxtase.

Julgo que o Quim nos espiava pela vegetação. Queria ver raparigas de perto, e raparigas iluminadas por velas. Raparigas que brilhavam de noite.

Quando nos fartávamos de conversar, uma das aventuras era percorrer os rápidos num barco insuflável. Começávamos em Meitriz e acabávamos na Paradinha. Como nessa época do ano os rápidos já quase não existiam, sugados pelo calor, era mais um esforço de levar o barco às costas do que outra coisa.

Isolamento total.

O rio por vezes tornava-se um fio entre rochas e montanhas e parávamos nos bancos de areia para descansar, beber uma cerveja e ouvir a nossa respiração, estafados, suados e prontos para outra. As raparigas faziam-se conduzir e sorriam por estarem de biquíni e não haver ninguém por perto. Só nós e elas.

Talvez achassem que o sol lhes definia melhor o corpo.

As montanhas davam para o rio como paredes mal apontadas, sem a precisão que assinala o toque do homem. Naquela zona o homem ainda não existira. Era como se também nós não existíssemos e por isso, por muito que as canções digam que aos vinte anos somos reis do mundo, ali pouco mais éramos do que reis de nós mesmos. Para além disto, apenas o tojo, os pinheiros, os choupos, as bétulas e os eucaliptos, mas sobretudo o vento sobre o tojo, os pinheiros, os choupos, as bétulas e os eucaliptos. O mesmo vento que se deitava no rio e depois, já erguido, abanando-se como um cão, espalhava um pouco de rio pelos montes em volta. O amarelo do tojo contrastava com a cor dos nossos corpos, dos nossos reinos, em especial depois de cobertos pela água sacudida pelo vento.

A água deixava uma camada doce na pele e especialmente no pescoço da minha namorada. E na boca. O que eu mais ouvia era a respiração dela repercutir-se na minha. As formas do biquíni acompanhavam o respirar e o corpo parecia um pássaro acossado mas apto para o voo. Achava impossível que houvesse tanta grandeza num país tão pequeno, mas depois claro que, com o tempo, a grandeza foi diminuindo até não se qualificar como tal, e o doce da pele perdeu importância. Deixei de prestar atenção aos pormenores, por exemplo o lóbulo da orelha ou um gesto mais cansado. Ela perdeu presença em mim, esqueci-me de a incluir nas palavras do dia-a-dia.

Pouco depois, deixou-me. Sempre que penso nessa época, ela permanece com aquela idade dos quase vinte e eu entretanto envelheci, portanto parece-me perverso pensar nela, como um homem feito a pensar numa criança.

Mas nessas férias estávamos apaixonados. Ainda. Sempre que parávamos num banco de areia, púnhamos as nossas toalhas uma sobre a outra e ficávamos estendidos lado a lado. Não falávamos, bastava que o mesmo vento percorresse as nossas costas num único afago.

Fizemos o rio em seis horas. Quando chegámos à Paradinha, atracámos, esvaziámos o barco e arranjámos as nossas coisas.

Atracar parece um verbo importante. O apito de um navio, amarras que se lançam, o ferro a bater no cais. Num barco de borracha não há nada disso, só nós com a água pela cintura a arrastar a borracha na gravilha da margem.

Meia hora depois, ainda estávamos sentados a escorrer e a olhar para o vazio. O Quim nunca mais aparecia. Quando lhe pedimos que nos fosse buscar, fez-se de caro, fingiu-se contrariado, disse que lhe tomávamos muito tempo. Já era doente, mas ainda andava com as costas direitas, tinha cabelo, e só precisaria de bengala daí a anos.

As minhas amigas acharam-no empertigado. No fundo, ele só lhes queria agradar e para isso colocava todos os obstáculos possíveis, para que depois, ao dizer «Afinal vou», o contentamento fosse mais completo. Ele sabia que não podíamos descer o Paiva sem que ele ajudasse, já que não tínhamos como voltar. Dependíamos dele e isso envaidecia-o.

Enquanto elas pediam «Quim, por favor!…», ele empilhava fardos de palha rente ao caminho. Virava as costas e fingia não ter mãos a medir. Logo ele, que nunca fez nada na vida além de conduzir o tractor e, desde 2010, soprar a vuvuzela.

Fingiu que aceitava a contragosto, mas não havia nada de que gostasse mais – aparecer por dentro da mata, senhor da máquina, a dominá-la como a um cavalo, e salvar as citadinas daquele embaraço estúpido de quem não se sabe desenvencilhar. Respondeu «Está bem, eu vou. Tenham lá cuidado».

A meia hora passou e ele não aparecia. Tentávamos ouvir o motor, mas só ouvíamos silêncio. Nada, apenas o vento nas árvores. Então, ao nível dos nossos olhos e do outro lado do rio, o Quim apareceu lentamente por entre as árvores – um pouco como o gesto de fechar as cortinas só para as abrir mais. Começou a soprar um apito.

Broncos como éramos, tínhamos atracado na margem errada. Um dos meus amigos murmurava «Porra, porra, porra» para se acalmar, mas sem que elas ouvissem.

A confusão de levar tudo às costas, encontrar passagem para a outra margem. Convencer as raparigas a entregarem o corpo às silvas. Mais à frente, entrámos na mata, escorregámos nos riachos que desaguavam no Paiva e por fim saltámos de uns pedregulhos lisos. Emaranhámo-nos no rio, não se percebia onde começava uma perna e acabava a borracha do barco esvaziado, ou onde começava uma cara e acabava outra. Enquanto isto, ouvíamos o apito do Quim, que funcionava como uma corda atirada à água.

Na outra margem, ele recebeu-nos como o motorista de um alta cilindrada. Nada se passara. Limitou-se a estender a mão às senhoras para as ajudar a subir para a caixa do tractor, um sítio tão digno como outro qualquer. Deu à minha namorada o único banco do tractor, ao lado dele.

Ocorreu-me de repente que foi uma sorte o Miguel não ter ido connosco, ele que mal sabia nadar e se atrapalhava com facilidade. Ele que se agarrava ao pescoço dos outros.

O Quim levou-nos para o espinhaço da montanha por caminhos de terra pouco batida. O tractor abanava no topo do espinhaço. Cada metro para cima, cada abanão para o lado. A luz quase adormecida do sol cobria as montanhas. Estávamos mesmo lá no cocuruto e bastava um deslize para cairmos num penhasco que só acabava no rio.

Embora quisesse assustar-nos, o Quim guiava o tractor com o cuidado de um artesão. Mesmo perigoso, cada movimento era exacto. Eu dizia a uma delas «Se isto cair, não saltes para o lado errado», e ela berrava «Mas qual deles?». Não se ouvia nada com o barulho do motor. O Quim compunha uma cara de verdadeiro actor e, em pânico, virava-se para trás «Isto está difícil! A terra desliza-me toda». Volta e meia espreitava a minha namorada pelo canto do olho e via o seu cabelo em contraste com o pôr-do-sol, mas sem saber qual era qual – sem saber se o cabelo era afinal a luz, se ela era afinal o sol; se ela era a própria tarde e aquele calor do fim do dia quase a desaparecer mas que ainda o aquecia.

Quando chegámos à estrada, tínhamos o rabo dorido, mas a alma livre. O sol já desaparecera. À entrada do Tojal, elas cantaram qualquer coisa em coro, um «Viva ao Quim» misturado com «I love you».

O Quim acaba mais um copo e a cara é de alegria, só de alegria como se não estivesse habituado a ela.

– Havia meninas lindas.

Dizer «meninas» é para ele uma preciosidade, como uma pérola que se afaga na palma da mão.

Nunca teve uma dele, por isso talvez lide com a palavra como se possuísse o corpo.

Creio que dá por si a sonhar com o tractor e a minha namorada sentada a seu lado, como a pairar sobre o tractor erguida pela força do sol e do desejo. E imagina que não é ele que olha para ela, mas ela que olha para ele. Sente-se reconfortado e ao mesmo tempo melancólico, como os pobres que imaginam o que é ter uma grande fortuna.

Mas os sorrisos cessam e a expressão muda. Voltou ao presente e o choque parece agitá-lo. Para lhe ser agradável, digo que gostava de viver sempre no Tojal, neste sossego. Levar a vida com mais calma e sem problemas, sem multidões nas ruas. Descansar o cérebro, relaxar o corpo. Beber um copo.

Entretanto, ele já apanhou uma piela e não hesita em contrariar-me.

A soltar a bílis, mais vale que seja em mim.

– Mas sabe que isto é complicado. Não é nada como diz. É muito difícil viver aqui e há muito trabalho sempre. O que vale é que eles é que trabalham mais. Eu só faço o que quero, e mesmo assim já faço de mais. Quanto a mim, mais vale uma mão inchada do que uma enxada na mão. Sobre as multidões acho que é uma forma de pensar. Dois já são uma multidão e para cima disso detesto-os. – Segura na garrafa, abana-a e enche o copo. Não pergunta se quero mais. Depois continua. – Hoje de manhã estava no tractor e eles à frente. Arranquei com força. A trotineta ia forte e estava mesmo quase em cima deles, só que depois passou-se qualquer coisa e o motor pifou. A trotineta ficou quase em cima deles, passou-se qualquer coisa com o motor. – Fixa-me e prossegue. – Comigo não. Eu continuava com o pé no acelerador, só que não acontecia nada. A trotineta parou-lhes mesmo à frente com fumo a sair do motor. Eles perguntaram «Ei, Quim! Estás bem?», e eu com o pé no acelerador. Aquilo não ia para cima deles. Desisti e disse «Podia ter-me magoado, o motor foi ao ar». Ela berrou como sempre «A aleijares-te, aleijas-te à minha beira!», mas se eu me aleijar só quero estar longe dela. Depois o caralho do motor ficou bom outra vez e já deu para voltarmos para cima.

Silêncio. Aproveito e pergunto

– Mas detesta-os porquê?

Não responde logo. Pensa uns segundos e endireita a bengala.

– Porque não há mais ninguém. São os únicos que eu vejo quando me levanto e quando me deito. Tudo o que eu não posso fazer, eles fazem. Tudo o que eu não sei, eles sabem. Tudo o que eu não quero, eles querem. E depois são normais, saudáveis, e eu isto que se vê. Quero fugir deles e não posso, não tenho força. Não há nada pior do que estar preso às pessoas que nos amam.

Eles – claro – são os pais, e eu acho que a bebedeira passou das marcas. Já gastou a eloquência que aprendeu com a televisão.

Obrigo-o a alçar o braço esquerdo sobre o meu ombro e usar a bengala com o outro. É como vestir um casaco, quase não lhe sinto o peso. Levo-o até casa e ele bate com a bengala na porta para fazer barulho. Berra «Olá, mãezinha!», enquanto comenta «Nem as chaves da merda da porta me dão».

Volto para junto do Miguel quando me ocorre que é muito fácil fazermos mal às pessoas que amamos.