O Meu Irmão
Olho para a porta. Só a porta.…
Olho para a porta. Só a porta. Abstraio-me como a ouvir uma música, mas fixado na maçaneta com falhas no verniz, baça e brilhante ao mesmo tempo. E fria. Num ponto único, na maçaneta, mas sobretudo na fechadura. Lá dentro, a mancha escura da chave que trancou a porta.
O Miguel está deitado e não se quer levantar. Três da tarde e ele metido na cama. Quer dizer, acho que está deitado porque, quando bato à porta, responde «Embora! Estou dormir!». Há meia hora que insisto sem efeito. Não há pachorra. Tento abrir a porta com uma das chaves penduradas no armário da cozinha, porém do outro lado a chave resiste presa à fechadura.
Agora como o tiro de lá?
Talvez consiga com um clip ou uma chave de fendas. Em último caso arrombo a porta. Mas onde é que arranjo um clip? E a única chave de fendas que aqui tenho é de cruz e muito grande, nem sequer cabe na fechadura. Aliás, provavelmente não consigo arrombar a porta.
Ouço o tractor, o Quim no campo, qualquer coisa de selvagem no rio.
Coloco o olho na fechadura. Não consigo ver para dentro. Encosto a boca à porta mesmo na junta com a ombreira e digo de forma calma e simpática, tentando esconder a fúria
– Então, meu malandro, não te queres levantar?
– Não.
– Porquê?
– Nao sei.
– Levanta-te.
– Embora!
– Vá lá, Miguel, meu querido, abre a porta ao mano, abre. Tens de comer qualquer coisa. Estás aí há muito tempo. Não brinques comigo.
E penso que, quando ele sair, lhe dou um murro entre os olhos, ou na barriga, ou num sítio qualquer, desde que lhe dê um murro, desde que o domine.
– A Luciana! – continua.
– Ela não está aqui, certo? Não te adianta de nada falar agora da Luciana.
– Mas Luciana! Porta ou Luciana!
– Miguel, caramba, vá lá. Estamos no cu de Judas, achas que a Luciana pode aparecer assim de repente?
– Nao sei.
– Mas sei eu. Abre a porta, por favor.
– Nunca.
O barulho do édredon a cobri-lo, a escondê-lo ainda mais como se não bastasse estar fechado. Não quero esmurrá-lo para o magoar, apenas para lhe arrancar a tristeza à força, colocar as peças no sítio à paulada, já que nada funciona.
Desisto por agora e desço ao terraço. A senhora Olinda ainda trabalha na várzea, no campo do meio. O rio quase lhe chega aos pés escorrendo entre os troncos dos salgueiros e alagando as cercanias do campo. Ela não sabe nadar, «P’ra quê?». O Quim reclina-se no tractor como a apanhar um raio de sol na cara, só que não há sol, e o senhor Aníbal dá pontapés nos pneus e aperta as cordas da caixa para segurar o entulho que insiste em cair.
Cada um faz o seu trabalho sem falar.
No pátio, reparo que a janela do Miguel se encontra aberta. Qual clip ou chave de fendas ou arrombamento ou quê. Vou buscar um escadote ao barracão e tento não fazer barulho enquanto o desdobro e encosto firme à parede. Subo a tremer mas evitando qualquer ruído.
Isto até tem piada. Eu, um homem feito, a subir a uma janela para o pôr na ordem, a ele, que também deveria ser um homem feito. O problema dos mundos alternativos. Num mundo alternativo eu não estaria aqui a equilibrar-me, a tentar não fazer barulho, não estaria sequer no Tojal com o Miguel. Ou talvez estivesse no Tojal com o Miguel, mas para conversarmos sobre as coisas grandes da vida, sobre nós próprios, sobre os interesses dele, sobre os sonhos que deixou morrer e os que conquistou, sobre a saudade dos pais que angustia qualquer homem, mesmo homem feito, mesmo homem com a sua própria família, como eu suponho que o Miguel tivesse nesse mundo, talvez com alguém chamado Luciana. Conversar como dois homens que se reencontram, mesmo que o reencontro não faça sentido porque nunca nos teríamos apartado, e subitamente eu perceber sem inveja que ele é mais homem do que eu, e subitamente até ter orgulho nisso, em ele ser mais homem do que eu, e dizer-lhe «Miguel, és melhor do que eu». E depois um daqueles momentos em que nos entendemos à volta de um copo de vinho, sem palavras porque não servem para nada, e o olhar dele e o meu, e sabermos que somos iguais e diferentes e isto constituir uma homenagem aos pais que já morreram, e à família da qual viemos, e a sei lá eu mais a quê, a nós. À vida. Contudo, os mundos alternativos pendem para a perfeição, pendem para o ideal. E o ideal, tal como os mundos alternativos, não existe. Existe o que existe: eu, um homem feito, a subir um escadote tentando não fazer barulho para o apanhar desprevenido.
Salto os últimos degraus de modo a surgir como facto consumado, isto é, aparecer inteiro no parapeito da janela e atirar-me logo sobre ele para depois abrir a porta e resolver o assunto. Controlá-lo. Mas o Miguel vê-me antes que consiga descer do parapeito e num berro «Querias!» levanta-se da cama e avança para mim com os braços estendidos. Pretende empurrar-me da janela. Atiro-me para dentro, bato com o queixo, torço o braço. Ele ri-se, sai do quarto trancando a porta e corre para o andar de baixo.
Dói-me o corpo e o orgulho, não sei qual deles com mais intensidade. Fico estendido um ou dois minutos no chão a recuperar a coragem. Agora só me resta sair pela janela. Nisto, sons de metal contra metal e depois metal sobre pedra, de uma vez. Quando por fim consigo levantar-me, olho à janela e confirmo o que já sabia: o Miguel atirou o escadote ao chão e olha para cima a desafiar-me.
– Abre a porta! – berro.
– Querias!
– Eu salto pela janela, Miguel.
– Pois saltas. Alto.
E pronto, o gajo fechou-me no quarto.
Meto-me na cama ainda quente do corpo dele. Tal como o Miguel há pouco, também me apetece ficar assim fechado não interessa até quando, até acabar tudo. Um sono de cansaço e desistência. Deixar o tempo correr, dormir. Enrosco-me no édredon como numa mulher, cada vez mais próximo e cada vez mais quente. «Querido, vem a mim.»
No fundo, ele trata-me mal porque sofre. Se pensarmos nos vários tipos de sofrimento, três destacam-se por motivos semelhantes.
O primeiro é o dos animais. Sem noção de futuro nem de alma, o animal até pode sentir uma dor ligeira, por exemplo, uma pata roçada nas silvas. Mas essa dor, por lhe faltar o contexto, vai crescendo e torna-se o único foco de preocupação, toma o lugar onde devia estar a alma. Só ela existe.
Basta olharmos para um cão depois de lhe darmos um pontapé.
O segundo tipo é a dor das crianças, e pode dizer-se que mais ou menos pelos mesmos motivos, mas sobretudo por inexperiência. Para quem nunca a sentiu, e não sabe se vai acabar ou quando, uma dor de cabeça deve ser igual a levar marteladas nos dentes. A criança fica reduzida ao medo e ao presente, e esse presente é uma cabeça que dói. Actuando numa alma assim tão fresca, a dor funciona como um diluente.
O terceiro tipo de sofrimento é o dos deficientes, já que se assemelha muito ao dos animais e ao das crianças em simultâneo. Ao dos animais, porque se encontram presos dentro da sua própria condição. Ao das crianças, porque é a alma que sofre. E neste (três ponto um), o sofrimento do Miguel. E não há muito que o irmão mais velho possa fazer. Os pais mortos, as irmãs ausentes, a Luciana. Parece que o Miguel se vai apagando de dia para dia, e apagando-se – como agora – em luta contra mim. Mantém-se vivo na aparência mas as saudades da Luciana já o mataram. É possível que coisas mortas, como ele, pareçam coisas vivas. Um dia quis recuperar das brasas um maço de papel manuscrito que atirara à lareira. Porém, ao pegar-lhe, desfez-se em pó porque era apenas cinza. Ele é apenas cinza.
Também me vou apagando, desistindo, adormecendo. Os sons do tractor a subir o monte quebrando galhos apagam-se na minha consciência.
...
Acordo com o tumulto do Miguel aos saltos acompanhado pela televisão. O ruído entra pela porta e pela janela em momentos diferentes. Uma grande confusão e uma grande raiva por continuar fechado. Quanto tempo passou? Fim de tarde? Já noite?
Depois o tumulto acalma e os passos do Miguel sobem as escadas até ao quarto. Abre a porta e aproxima-se em três saltos. Cerro o punho. Penso em colocar as peças no sítio à paulada, mas sem mais o Miguel abraça-me e eu desisto do murro, aceitando o abraço.