O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 46 de 46

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O Meu Irmão

O nevoeiro cresce do rio e toma…

O nevoeiro cresce do rio e toma a várzea de assalto. Nos campos vêem-se apenas os paus espetados que servem de espantalho, nos quais garrafões de plástico enfeitados com panos abanam ao vento. Velado pelo nevoeiro, o rio ultrapassa as margens e fustiga os amieiros, cujas copas se inclinam. O rio sova as árvores, parte os ramos, açoita os troncos, mas não toca no nevoeiro. Este acompanha as curvas do Paiva, qual outro rio sobre o rio que corre, adensando-se e galgando as encostas.

Um ou outro pássaro arrisca mergulhar no nevoeiro. Uma garça-boieira aventura-se e não regressa. Quando as nuvens abrem, mesmo que só em traços momentâneos, o nevoeiro ganha novas tonalidades de cinzento, quase até branco puro, reflexos de azul e um brilho mais intenso.

Sem aviso, o vento vindo de oeste, do mar, traz consigo de longe, bem visível, uma vaga de nevoeiro que galga as montanhas destruindo o fio do Paiva, que desaparece num som de folhas a bater. É como se o mar invadisse a bacia do Paiva e inundasse tudo em colateral: os campos, as montanhas, Ponte de Telhe, a Paradinha, Meitriz, Arouca, e agora, subindo a várzea a um ritmo constante, o Tojal. Primeiro o caminho que leva à várzea, depois a encosta e então, sim, numa lufada, a nossa casa e o resto da aldeia.

Porém, o tumulto acalma. A vaga de oeste trava depois de engolir a paisagem por inteiro. O Vale Encantado ainda afunila alguma brisa que estanca ao alcançar as cercanias do Tojal; e a bruma ganha volume, trazendo calma, embora ocultando o que era dado a ver.

O Miguel saiu para observar a parede cinzenta. A igreja, o cabeço e até o fim do pátio desapareceram. O céu também. Nós não. Vemo-nos um ao outro e à fachada da casa.

Estamos sós.

O Miguel não teme o nevoeiro, não teme o que não consegue ver. Sente-se seguro ao pé de mim, apaziguado mesmo em circunstâncias adversas. Experimenta tocar no nevoeiro mas este desaparece com a proximidade. Os vasos empilhados ao fundo do pátio surgem ou não surgem conforme o vento sopra.

Vamos partir do Tojal amanhã. Chego à conclusão, em jeito de balanço não só destes dias mas dos anos que revivi, que dei ao Miguel o que estabeleci perante mim mesmo: paz, boas condições e um amor semelhante ao dos pais.

Embora sós, e ainda que escondidos pelo nevoeiro, juntos formamos uma casa. Protejo-o e ele protege-me. Protegi-o com grande custo de tudo e todos, mesmo da Luciana, e ele retribuiu continuando a amar-me.

– Hi! – comenta.

– Pois é, Miguel. Hi! Ainda há minutos dava para ver além do Vale Encantado, e agora quase não se vê dois metros à nossa frente. Não tenhas medo.

Ele sorri perante o meu dislate. Porque haveria de ter medo?

Perto da igreja, uma buzina anuncia um carro que passa lento para não resvalar na berma da estrada.

O Miguel faz menção de entrar em casa quando me ocorre uma ideia melhor. Agarro-o pela mão e murmuro

– Espera.

Ele estaca sob o toque da minha mão.

– Que é? – pergunta.

Pensando bem, não consigo definir o que é. Mais do que uma ideia, trata-se de um sentimento que me incomoda há meses e que agora decidiu despontar com maior intensidade. Remorsos ou início de culpa quando me lembro da Luciana.

Depois daquela noite, vivi semanas de angústia à espera de que uma farda me batesse à porta acompanhada por sirenes. Mas as semanas decorreram e nada sucedeu. A Luciana desapareceu como no nevoeiro, perto de quem a encontrasse mas longe da vista.

Em bom rigor, não sei o que lhe aconteceu. Poderá ter-se levantado, buscado ajuda, e agora talvez viva incógnita numa instituição que a acolheu. Quem sabe a chama que mantém a vida acesa se tivesse tão-só apagado momentaneamente, para se reacender depois com mais intensidade e brilho. Imagino a Luciana tão feliz nessa instituição como na APPACDM, porventura agora entregue a outro Miguel que de facto a possa acompanhar. Será também uma menina das flores aos olhos do novo Miguel, tal como o foi aos do antigo.

Em alternativa, suponho que tenha caído num sono tão profundo que não acordou a tempo de evitar que o corpo seguisse caminho – frio e mirrado e vazio a ponto de se confundir com a serra de Valongo.

Não posso dizer que a matei. É bem possível que tenha sobrevivido, julgo que não lhe bati com força. Nem percebo, aliás, porque não se levantou de imediato e porque não reagiu à violência que usei contra ela. Por um lado, fui incapaz de conservar o sangue-frio para lhe tocar no pulso ou no pescoço para sentir a veia pulsando. Por outro lado, depositei-a numa cama confortável e acessível. Bastar-lhe-ia levantar-se e percorrer alguns metros entre os pedregulhos para alcançar o estradão.

Difícil mas possível, e se alguma característica ela tinha, quer dizer, se alguma característica ela tem, é a da resiliência. Há-de se ter levantado; há-de ter suplantado a mata e a serra.

Semanas depois daquela noite que recuso adjectivar de fatídica, telefonei à Eugénia, que me disse «A coitadinha continua desaparecida. A Polícia está a trabalhar mas já não tem esperança», acrescentando no único momento em que me senti em perigo «Sabe que nós pensámos em tudo… Até andámos à procura da casa da mãe dela. Encontrámos o sítio no dia seguinte a ela desaparecer». Porém, completou de imediato «Se soubesse a porcaria. Não vivia lá ninguém há muitos anos». Recuperei a calma e respondi-lhe que considerava aquilo terrível – um horror, um horror –, e que nem sequer contara ao Miguel o que se passara. «Esplêndido, senhor doutor, fez muito bem.»

Quanto ao Miguel, afundou-se num lodo do qual só agora começa a sair. Passou por um período de nojo, embora nunca tenha percebido o que realmente aconteceu. Na minha perspectiva, ele testemunhou que eu levei a Luciana para longe, para as flores, no meio da vegetação. Para um éden muito mais bonito do que o barracão onde eles se refugiaram. E lá permaneceu, no meio da natureza, dormindo. Nada mais.

Não voltara. Preferira o jardim à sua companhia. Traíra-o por um sono em cama de folhas.

O Miguel regrediu com tanta passividade que nem sequer tentou encontrá-la. Simplesmente permaneceu quieto dias seguidos no quarto sem falar da Luciana – mas pensando sempre nela.

Dois meses depois do sucedido na Rua da Constituição, acordou como na esteira de uma longa noite repleta de pesadelos. Perguntava pela Luciana, forçava a saída de casa, onde eu continuava a fechá-lo à chave. Berrava comigo. Culpava-me do que julgava ter acontecido à Luciana. Por sorte nunca conseguiu sair, e não fez comentários ou queixas nas três ou quatro vezes que as nossas irmãs nos visitaram.

Também não demonstrou entusiasmo em vê-las.

A raiva que ele sentia não se dirigia a mim, mas à Luciana, por não ter voltado; e contra ele mesmo, por tê-la deixado partir.

Mais dois meses e voltou ao normal, isto é, ao normal de quando o tirei da APPACDM. Continuava à espera da carrinha e em busca da Luciana. Raramente, num rasgo de lucidez, procurava esmurrar-me enquanto acusava «Tu, foste tu», mas eu dominava-o e, horas depois, ele esquecia-se de que eu estivera envolvido no incidente.

Mantinha-se apático e sobretudo indiferente a mim. Decidi então que o regresso ao Tojal seria benéfico. Talvez ajudasse reviver um local em que fora verdadeiramente feliz sem a Luciana. Queria tanto dar-lhe esse gosto que agendei férias nestes dias para regressarmos juntos.

E aqui nos encontramos. Agarro-lhe a mão com mais força e repito

– Espera, não entres já em casa.

– Que é? – reforça.

– Vamos ao campo – sugiro, mas ele não aceita de imediato. Reforço: – Miguel, vamos ao campo.

Agora sim concorda. É ele mesmo que abre o portão e começa a descer para a várzea. «Mais calma, vamos lado a lado», chamo, e seguimos pelo caminho que o tractor do Quim costumava percorrer. A pedra afundou sob a passagem das rodas. As silvas que crescem junto ao muro roçam nas pernas prendendo as calças e bebem gotas de sangue com os espinhos.

A meio caminho ele comenta «Nito, isto» apontando para o campo próximo que surge quase ao nosso nível. Porém não o conseguimos ver, nem o fim do caminho. O nevoeiro dispersou ligeiramente mas mantém-se em bloco sobre os campos, os montes e o rio. No centro da várzea, o barulho do rio a açoitar as margens impõe-se ao piar das aves.

Chegados ao fim da várzea, perto da curva do Paiva, o Miguel segura a minha mão com receio de tropeçar para a água. Os cascos das ovelhas que pastam a vegetação da margem fincam-se na areia, atirando-a em todas as direcções.

Este é o cenário ideal para lhe dizer

– Miguel, amanhã voltamos ao Porto.

ao que ele encolhe os ombros, afastando-se em três passos.

A garça-boieira que há pouco mergulhou no nevoeiro empoleirou-se num dos paus que servem de espantalho. Debica as penas das asas de modo a prepará-las para o voo que a resgatará do nevoeiro.

Arranho a garganta por dentro impelido por uma frase que tenta sair. Quero dizê-la mas retraio-me, inclusive fisicamente. No entanto, os remorsos, mesmo que incipientes, desobstruem a irritação e obrigam-me a perguntar

– Que achavas se…

mas calo-me antes de concluir. É que pretendo dar-lhe um gosto, uma alegria neste fim de estada: dizer-lhe algo que o transforme nem que seja nas poucas horas antes de regressarmos ao Porto. Algo que restitua o Miguel que existia antes, o Miguel do tempo dos nossos pais, quando era livre para amar a Luciana. E até algo que restitua o Miguel da infância.

Calo-me porque não tenho a certeza do que dizer.

O cheiro do estrume que o Quim, a senhora Olinda e o senhor Aníbal espalharam emana da terra com um travo a mentol. Na extremidade do campo, uma rede tosca impede que as ovelhas entrem para não estragarem os frutos da agricultura.

Basta. Falo agora ou não falo. Alegro-o agora ou não alegro.

Sem mais delongas, agarro-o pelos ombros de modo que olhe directamente para mim. Não consigo perceber se choro. Recomponho-me, limpando a cara. Ele esboça um conforto, qualquer coisa como «Estatudo bem».

Mais calmo, penso em dizer a única frase que o alegraria

Quando chegarmos ao Porto voltas para a Luciana.

mas compreendo que lhe trarei mais tristeza quando perceber que lhe menti. Por isso calo-me e largo-o. Desisto de o reconfortar.

O nevoeiro, mais forte sobre o rio, tapa-se sobre nós numa mudança de vento. Não consigo ver o Miguel, ele que ainda agora estava à minha frente. Estico o braço mas não o alcanço. Chamo-o e logo a mão dele agarra-se à minha com força. Quer-me próximo porque tem medo do que o rodeia. Tal como eu, não vê no nevoeiro.

Regressamos lado a lado, devagar, tacteando. Perto do caminho que sobe para nossa casa, estreito-o com força. Murmuro-lhe ao ouvido «Miguel, não sei o que dizer», e ele responde «Não digas nada».

Você terminou O Meu Irmão

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