O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 39 de 46

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O Meu Irmão

O Tojal ficou outra vez só. A…

O Tojal ficou outra vez só. A novidade da morte e do enterro do Quim passou e, com ela, desapareceram as pessoas que andavam à cata de qualquer achado. Aliás, o Tojal já tinha ficado só porque se abrira mais uma campa. A senhora Olinda e o senhor Aníbal regressaram aos campos da várzea. Levantaram-se bem cedo, como sempre, mas agora para acalmar a saudade através da enxada.

Terão de trabalhar apenas com as enxadas, pois não podem recorrer ao Quim para guiar o tractor.

A voz da senhora Olinda tornou-se mais fina, como aguada. Cá de cima mal a consigo ouvir. Mesmo assim, impõe-se à voz do marido, que se cala quando esta berra «Maldição. Mandrião, morcão. Faz isso como deve de ser». Não há nada a fazer, os campos estão bem tratados; sentirão a falta do tractor, porém isso agora não interessa.

O Miguel não comentou a morte do Quim. Talvez não tenha percebido o que se passou, embora a presença do caixão fosse óbvia, mas certo é que o resto do mundo não lhe diz respeito, porque insiste em pensar exclusivamente na Luciana. Foi para fugir a essa insistência que o trouxe ao Tojal. Quem sabe a solidão e as memórias deste lugar o libertassem da angústia. Poderia passear pelos campos à vontade, distrair-se com os pássaros e com as ovelhas, até com o cheiro a bosta. Enfim, pensei que mudar de ares seria bom para ele, como antigamente os tuberculosos nos sanatórios à beira-mar ou nas montanhas, mas agora, que chegámos há mais de uma semana, constato que ele está igual, se não pior.

É verdade que a maioria dos tuberculosos morria nos sanatórios, independentemente da pureza do ar que respirava.

Observo as diatribes da senhora Olinda na várzea e sorrio perante tanta energia depois de tanta tristeza. Porque é que o Miguel não reage com energia semelhante? Porque não dá a Luciana como caso arrumado e recomeça?

Hoje ainda não se levantou. Como no outro dia, diz que quer ficar na cama até tarde e que não precisa de comer. Mais uma vez cabe-me o papel de mau, terei de o forçar a sair da cama, a tomar o pequeno-almoço, a dar um passeio.

Lá em baixo, o senhor Aníbal deitou o boné da Santa Casa ao chão e dá-lhe pontapés como numa cabeça. «Calada, mulher! Deixa-me no meu canto!», resmunga. Nunca o vi tão empolgado. «Deixa-me no meu canto, que eu deixo-te no teu!», continua. Aliás, nunca o ouvi falar tanto. Depois coloca o boné sujo com restos de terra e faz menção de virar as costas à mulher, que diz «Deixo-te, deixo. Hás-de vir a miar para mim». E o Miguel repete, no quarto, «a miar pramim».

O senhor Aníbal já sobe, mas avança devagar porque carrega às costas um feixe de galhos; sempre que um deles cai, agacha-se com sacrifício para o apanhar. A terra saturou depois de tanta chuva, e age como se engolisse os pés do senhor Aníbal. As pedras, que se assemelham a espelhos maleáveis, afundam-se levando com elas as ervas daninhas. Aos poucos, a paisagem transforma-se num único e extenso correr de água, ainda que a nível poroso, quer dizer, gotejando por entre os troncos e contornando as raízes das urzes.

Isto dificulta a subida do senhor Aníbal e do Camões, que o acompanha. A lama calçou os pés do senhor Aníbal e as patas do Camões – cão e dono ganem na subida, já perto do topo, que termina em minha casa. Quando ele chega ao pé de mim, justifica-se «Os ramos dão jeito à Olinda para a lareira. Ela queria ainda hoje, mesmo com as costas a doerem-me».

Afirma-o com um sorriso, e a sua cara de areia mijada parece-me menos velha, mais alegre. Pelo menos mais aliviada.

Encosta-se ao muro de xisto e coloca os ramos no chão, lançando um suspiro de alívio. Insectos rastejam para dentro e para fora dos ramos. Perto, o zumbido de uma ou outra vespa.

O senhor Aníbal está de facto bastante eloquente. Comenta que os ramos não servem para nada. «Olha a bicharada ali. Não vão pegar fogo, mas a Olinda queria. Eu disse-lhe deixa-me no meu canto mas ela queria mesmo fazer o lume com esta merda de ramos. Os bichos até vão estalar.»

A conversa incomoda o Miguel, que apareceu à janela de braços cruzados e ar carrancudo. Vai a dizer «Silêncio», mas o senhor Aníbal interrompe-o perguntado se quer ouvir uma história. Deitado junto do portão, o Camões tenta descalçar a lama com os dentes.

– Podser – responde o Miguel.

– Naquelas fragas da Pena, em São Macário, uma cabra matou um lobo. – O Miguel não se interessa por cabras e lobos, mas mostra-se interrogativo. – É verdade. Sabes como é que foi?

– Naosei.

– A cabra põe-se a pino na escada, numas fragas, e depois nem sobe nem desce. – O Camões aponta o focinho para o senhor Aníbal, que levanta os braços para imitar a cabra em pino. – Acho que o lobo andou atrás dela e chegou lá a um sítio qualquer, assim um pouco como há por aqui as fragas, e depois a cabra deu uma marrada no lobo e o lobo foi por ali abaixo e estava morto no caminho.

Mal o senhor Aníbal acaba de falar, o Miguel refere que a história não foi sobre a Luciana e fecha a janela com estrondo.

– Que tem ele? – pergunta o senhor Aníbal.

– Não é nada. Humores – respondo.

– Sei bem. O Quim também os tinha, mas o problema dele era de corpo, não de cabeça. O problema do teu irmão é de cabeça, não é?

– Pode dizer-se que sim – comento. – E de coração.

– Ora isso é que é complicado. Por exemplo eu. O meu problema também é de coração.

O Camões recolhe-se para defecar a um canto sem ter conseguido descalçar a lama. O senhor Aníbal cala-se, visivelmente com vontade de prosseguir. Incentivo-o, perguntando «Como é isso de coração?».

– É que calhou-me em sorte amar duas pessoas que não me amam. O Quim que já lá vai e a Olinda. Amá-los é como comer veneno. Se eu lhe dissesse as coisas… A Olinda trata-me como um idiota e o Quim tinha-me medo e desprezo ao mesmo tempo. – Cala-se para afagar o Camões e depois continua: – Sabes que ele dizia às pessoas que eu lhe tinha dado um tiro na perna? E mostrava o buraco e tudo. Mas aquilo era um buraco antigo de operação por causa da doença. Eu acho que ele me culpava por ter nascido, e eu não conseguia não o amar. Portava-me como os bichos que têm de proteger os pequenos.

Nunca o soube capaz de juntar palavras além de «Então vá» e «Tenho muito que fazer». O Camões coça-se, indiferente à transformação do dono.

– Quanto à Olinda é outra coisa. – continua ele. – Amo nela o que não gosto nela. Aquela chama que queima. E assim acho que vou morrer sozinho. O Quim já foi. Os outros filhos andam pelo estrangeiro e a Olinda, que está à minha beira, está sempre longe de mim. Eu dava-lhe porrada para ver se ela se punha boa, se endireitava, mas ela ficava cada dia mais irada. Depois desisti das coças, até porque eu também apanhava. Porra, um dia um garfo… Mas pronto. Sabias que o casamento foi arranjado? Eu era de Covas do Monte, ela de cá. Eu tinha um bom canastro, ela também. Para mim foi uma coisa boa o arranjo, para ela não. E assim vou vivendo.

O Miguel desce já vestido. Pelos vistos não vai ficar o resto do dia na cama. Acena ao senhor Aníbal como a pedir desculpa pela brusquidão de há pouco.

Pôs a camisola ao contrário.

O senhor Aníbal alça de novo os ramos às costas sem mostrar repugnância pelos insectos que ainda rastejam entre as folhas podres.

– Mas disse de mais, isto cansa muito. Então vá. Tenho muito que fazer – conclui.

Caminha devagar para casa apoiando-se na igreja. O Camões segue atrás, farejando-lhe os passos.

Precisava de falar a sério com o Miguel. Ofereci-lhe um ice tea e sentámo-nos na cozinha frente a frente. Os seus olhos, com olheiras fundas, observaram o gelo a flutuar no copo. Afastou os cubos com o dedo e bebeu.

Tinham decorrido meses desde que o tirara da APPACDM. Nos primeiros dias ele não percebia porque é que a carrinha não chegava às nove da manhã para o levar ao colégio, à Luciana. Observava a rua a partir da janela da sala, sobressaltando-se quando surgia uma carrinha parecida, e por vezes estava tão certo de que aquela era por fim a sua que corria para o passeio de mochila alçada.

Estendia o braço, saltitava, mas a carrinha prosseguia sem parar.

Algo não batia certo, mas ele não associou logo a ausência da Luciana a eu ter-lhe dito «Tenho muita pena, Miguel, mas não voltas ao colégio». Tratava-se de factos sem nexo. Perguntava-me pela carrinha exigindo saber quando a arranjariam, e sugeria que eu telefonasse para a APPACDM até resolverem o problema.

Ficara tão absorvido pelo mistério da carrinha desaparecida, aquilo fugia tanto ao quotidiano, que só duas semanas depois perguntou pela Luciana, que também não podia ir ao colégio e com certeza estaria muito triste na residência, longe dele. «Podes levar o Miguel de carro?», perguntava quando eu chegava do trabalho. «Hoje não me dá jeito», respondia, demasiado cansado para explicar novamente que o tirara do colégio e que ele nunca mais veria a Luciana.

Explicara-o quatro ou cinco vezes, porém ele insistia em não perceber.

As carrinhas nunca paravam, pelo que o Miguel desistiu de as esperar às nove da manhã. Ao invés, esperava-as às cinco da tarde, e demorou mais uma semana a entender que a mudança de hora nada alterava.

Em alternativa, batia à porta dos vizinhos em busca da Luciana, e uma tarde a mulher da frente, aquela que estendia o peito à janela, devolveu-mo pela mão. «Este senhor foi ter a minha casa por engano.»

Seguiu-se uma fase em que ficava estendido na cama, fito no tecto durante várias horas. Não perguntava pela carrinha. Não perguntava pelo colégio. Não perguntava pela Luciana. Eram os dias mais tranquilos, em que eu dispunha de condições para estudar e preparar as aulas, porque de resto me via confrontado com um questionário permanente.

Quando voltaria ao colégio? Portara-se mal? Qual era o castigo? Quanto tempo duraria? Podia levá-lo de carro? Ia a pé? O horário mudara? Quando falaria com a Josefa? O Ricardo ainda importunava a Luciana? Mesmo sozinho, no quarto, enunciava as perguntas em voz alta.

Embora dolorosa, eu previra que a separação da Luciana abrisse os olhos do Miguel para o resto do mundo, mas agora percebia que afastá-lo dela, paradoxalmente, os aproximara mais. É que ele não conseguia evitar pensar nela; até que estivessem juntos de novo, essa seria a sua única ocupação, o seu desígnio – e assim vivia em intimidade com ela, mais ainda do que quando estavam juntos.

Os dias passaram e ele continuava incapaz de perceber o que acontecera. Se compreendesse, ao menos pensaria em mim, ainda que para me culpar da sua infelicidade. Simplesmente evitava-me, não falava comigo, o que se devia em exclusivo à absorção da tarefa que tinha em mãos – recuperar a Luciana –, e não a qualquer represália. Impressionava-me que ele não reagisse contra mim, que lambesse as feridas a um canto.

Depois recomeçou a assistir às telenovelas como se a voz das actrizes possuísse corpo. As figurinhas virtuais das actrizes mostravam descontraídas os braços, as pernas, o peito e o cabelo. Apesar de não as conseguir abraçar, o vidro não escondia o calor da carne e o Miguel aumentava o som, enchendo o quarto. Antes de conhecer a Luciana, costumava ver as telenovelas deste modo, abstraído, e agora recuperava o hábito para não pensar nas circunstâncias. E, afinal de contas, de certa forma a Luciana abandonara-o, não fizera qualquer esforço para o encontrar, por isso não lhe devia essa fidelidade. Mas depois arrependia-se da ousadia, atirava o comando pela janela e dava pontapés nas Luso-Brasileiras, que ficavam espalhadas com as capas abertas como as bocas dos peixes depois de fisgados.

Tentando acalmá-lo, abraçava-o e murmurava «O tempo mata, o tempo mata». Interiormente, desejava ser mais irmão, mais próximo dele, orientá-lo para longe da Luciana e para perto de mim. Mas ele afastava-me logo com violência e às duas por três estávamos aos berros.

Passado um mês, percorria o quarteirão abordando as pessoas na rua, às quais perguntava «Ondesta Luciana?» e «A carrinha, o colegio?». Agarrava-as para que respondessem, mas estas enxotavam-no como a um pedinte. Sentava-se nos cafés à espera de ser atendido, porém apenas para perguntar de novo e de novo «A Luciana?». Os empregados do Docinho, indiferentes às perguntas mas sensibilizados com o desespero do deficiente, ofereciam-lhe sempre um café.

Eu procurava-o pelas ruas porque não raro o Miguel preferia ficar nos cafés a voltar para casa, e às vezes tinha de correr atrás dele porque se metia nos autocarros com pânico de que o apanhasse antes de encontrar a Luciana.

Dizia-lhe «Isto tem de acabar. É de mais, é de mais», e ele respondia «Acaba quando Luciana comigo».

Para o distrair, ofereci-lhe um porquinho-da-índia de pêlo frisado ao qual chamámos Loto. Afeiçoou-se-lhe tal como ao patinho que esvaziara pela cloaca, quando não controlava a força das mãos. Acompanhava-o para todo o lado, dando-lhe alface e cenoura que roubava do frigorífico. O bicho embatia nas paredes dentro da bola de plástico que lhe permitia vaguear fora da gaiola. Chiava e esgravatava quando o Miguel saía do quarto.

Sem contar com o Loto, vivia numa solidão feita de momentos de Luciana. Ela revivida ao jantar, ela lembrada durante o telejornal, ela que se parecia com uma empregada do Docinho, ela que gostaria muito de conhecer o Loto. E isto acirrava as saudades, e ele acabava quase sempre o dia na cama bem cedo, a chorar. Decorreram mais de dois meses em que a solidão o debilitou como uma doença, muito embora eu estivesse sempre disponível a ajudá-lo.

Não parecia o mesmo. Emagrecera, empalidecera. O cabelo, embora cortado às escovinha, recuou nas entradas da testa, onde sobressaía um V de veias que se uniam. Andava encurvado e afagava a barriga como uma grávida.

A situação chegara a tal ponto que precisava de reforçar as medidas para que as coisas não piorassem. Havia que conversar a sério com ele, frente a frente.

No exterior, as gaivotas batiam os bicos em perseguição das pombas, as quais por seu lado atormentavam os pardais que transportavam pequenos galhos para forrar os ninhos. Os cães, um por cada quintal das traseiras, ladravam à desgarrada.

O Miguel acabou o ice tea num trago antes de limpar a boca à manga da camisa. Mantinha os olhos atentos aos nódulos de madeira da mesa e ao exterior, observando as gaivotas, as pombas e os pardais.

– Queres mais ice tea?

– Nao.

A minha garganta constrangia os movimentos necessários à fala, como dar um passo em falso. No entanto, já que decidira reforçar as medidas, mais valia anunciar-lhas de uma vez.

– É altura de aceitares que a Luciana não volta – comecei. – Agora tens de fazer as coisas por ti. Não podes sair de casa para importunar as pessoas na rua, nem podes pôr a televisão aos berros. Os vizinhos de cima já se queixaram.

– Calate.

– Sei que custa, mas é para teu bem. Confia em mim que tudo se resolve. O tempo ajuda.

– Calate.

Desfez o resto do gelo com os dedos e deixou a língua descair. Tentou levantar-se mas eu obriguei-o a ouvir até ao fim.

– A partir de agora portas-te melhor.

– Calate.

– Aliás, não tens hipótese. Vais endireitar. – Falava com cuidado, atento às reacção dele, que ainda observava as gaivotas. – Primeiro, vou tirar-te a televisão. Não é saudável, dependes demasiado daquilo.

– Esta bem, nao importo.

O Loto chiava e empurrava a palha da gaiola em busca de ração. O vizinho da frente subia as escadas do pátio comentando com a mulher «Custa muito por causa da ciática».

– Depois passas a conversar comigo pelo menos vinte minutos por dia – continuei.

– Esta bem, nao importo.

– E por último, e não penses que tenho gosto nisso, ficas fechado em casa até aprenderes a não chatear os vizinhos.

– Esta bem, nao importo.

As respostas tinham a cadência de uma ladainha, e ele mostrou-se concentrado como se rezasse. Mais uma vez, não reagiu de imediato. Levantou-se, fez uma vénia com ademanes, e foi para o quarto, apesar de a conversa não ter acabado.

Eu queria acrescentar aquelas figuras de estilo que ajudavam a enfrentar desafios.

Agora, livre de qualquer esperança, o Miguel seria obrigado a aceitar que nunca reencontraria a Luciana. Forçado, esquecê-la-ia em poucas semanas, quem sabe até dias, depois dos quais eu poderia deixá-lo sair e ver telenovelas. Quem sabe iríamos de férias. Construiríamos juntos uma vida. Por fim voltaria a ser irmão dele.

No dia seguinte, saí de casa sem me esquecer de fechar a porta à chave. Estava um dia quente, daqueles que se agarram ao corpo e persistem em aquecer-nos até meio da noite, altura em que as paredes ainda emanam calor.

Dei a aula de Literatura Portuguesa do Romantismo ao Naturalismo com uma descontracção que não sentia há meses, desde que me mudara para o Porto. Nem sequer fiquei irritado com a falta de estudo dos alunos. Sabia que o Miguel estava seguro em casa, ele dissera que nem sairia do quarto. A vida retomava a normalidade.

A meio do dia, uma chuva momentânea cobriu os automóveis de pó e obrigou a terra, mesmo a das floreiras de varanda, a espalhar um aroma húmido que adocicava a boca.

Depois das aulas fui ao centro de investigação, onde discuti com um colega sobre a estética do verbete no contexto de Oitocentos. Por incrível que pareça, o colega considerava que o verbete, quando visto à luz das grandes enciclopédias populares do final desse século, ganhava nova importância, inclusive comparando-o aos próprios enciclopedistas do Iluminismo, o que era obviamente absurdo.

De regresso, senti que as coisas estavam a melhorar. Era um ânimo, uma vontade de seguir o plano, que funcionaria. A chuva caiu de novo, desta vez limpando os carros e eliminando o cheiro a terra.

Entrei em casa e disse «Miguel, cheguei» mas ele não respondeu. Enquanto abria uma garrafa de vinho tinto na cozinha, perguntei «Queres conversar agora? Temos vinte minutos, certo?». Porém, provavelmente fechado no quarto, ele insistia em não responder.

Entrei no quarto já irritado com a falta de resposta, decerto calava-se para me perturbar. Dentro, para além das enciclopédias rasgadas folha a folha, apenas a gaiola aberta do Loto. Em dois passos percorri a casa. Abri os armários, espreitei na varanda e atrás do sofá, debaixo das camas e das mesas, até no cesto da roupa da casa de banho.

O Miguel desaparecera.