O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral · Capítulo 36 de 46

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O Meu Irmão

As irmãs entregaram-mo semanas depois. Entraram na…

As irmãs entregaram-mo semanas depois. Entraram na casa que eu alugara no Porto com ele pela mão, porém ligeiramente atrás como o Euzebiozinho nas saias da mamã.

– Então, que é isto? Não sabes quem sou? – perguntei.

Não sabia. Eu também não o reconheci. Dele, vira no último

enterro uma barriga saliente por entre os abraços das irmãs. Pois agora olhava-o em pormenor. O cabelo continuava cortado à escovinha com dois remoinhos divergentes na nuca. A expressão permanecia a mesma, inocente e aberta, porém marcada pela incerteza que a morte dos pais impusera. Trouxeram-mo em comité, duas de cada lado, como a protegê-lo do inevitável, e aconselharam «Trata-o bem». Murmurou «Olá» enquanto estendia a mão para o «poussoubem».

Tentei abraçá-lo mas ele recuou.

– Passas a viver comigo. As coisas vão mudar. Primeiro uma casa nova. Por enquanto ficamos também com o Tojal. A Matilde, a Joana, a Inês e a Constança só te podem visitar de vez em quando – afirmei sem afrouxar o aperto de mão.

Ele baixou a cabeça e respondeu apenas

– Muitobem.

Foi há um ano. Estávamos por fim entregues um ao outro. Desta vez, sim, revia-o como irmão porque ele era só meu, por muito que achasse que pertencia em exclusivo à Luciana.

E que homem gordo, disforme no pescoço, quase sempre prestes a chorar, não por causa dos nossos pais, que ele esquecera na dor, embora perdurassem na memória. Prestes a chorar porque a Luciana não lhe retribuíra o sorriso, olhara em demasia para outro, demorara a responder, não o quisera acompanhar à sala, enfim, porque a Luciana não o amava tanto como ele a amava.

Esta indiferença perante a morte daqueles que deram e foram a sua vida, comparados com uma qualquer, que se limitou a aceitá-lo quando ele cedeu à carência, revoltava-me como uma afronta pessoal.

Ali estávamos, num T2 miserável perto do Monte dos Burgos, tendo por vista uma magnólia e os prédios em frente, onde por vezes a sexagenária do segundo esquerdo deitava o peito à janela para o secar. Não se pense que era bom de ver: protegido por um soutien húmido, o peito descaía como uma flor murcha.

A casa quase não suportava as enciclopédias e os dicionários que sustentaram a minha carreira académica. O corredor entre os quartos transformou-se numa lura de papel. Até o quarto do Miguel, com pouco espaço para televisão e cama, precisava de ser forrado com várias edições da Luso-Brasileira. De resto alguns clássicos da literatura mundial, porque me desfizera dos autores secundários como Sttau Monteiro para abrir espaço às obras de referência.

Incomodado, o Miguel remodelava as pilhas a todo o momento.

A minha vida mudara por completo. Agora era apenas mais um investigador num centro da FLUP, ainda por cima obrigado a leccionar a cadeira de Literatura Portuguesa do Romantismo ao Naturalismo. Escusado será dizer que lhes espetava com Castilho, só para assustar.

Se já em Lisboa tinha poucos conhecimentos, no Porto nem me valiam os amigos de infância com quem não falava havia décadas. Por isso seguia uma rotina à Kant de casa-universidade, universidade-casa. Pouco mais do que isso. Saía depois do Miguel, às nove, e chegava antes, pelas cinco.

A vida dele, ao contrário da minha, quase não mudara. Mantinha-se igual mas noutro sítio. A obsessão de sempre: Luciana, Luciana, Luciana. Ambos continuavam na APPACDM. Eu deixara de perceber o que ele dizia, embora no fundo fosse sempre o mesmo. Ela usando um vestido diferente, ela de óculos azuis, ela com Nivea espalhado nas mãos, ela que o abraçou na cantina à frente das educadoras (até da Josefa), ela que não olhou para o Ricardo quando este lhe beliscou o braço, ela que o acompanhava todos os dias à carrinha. Ela que sorria sem reservas, como as crianças, ela que guardava um frasquinho de lavanda no bolso de modo a cheirar bem só para ele, ela no jardim a apanhar sol, bebendo a luz. E ela em qualquer forma de mulher, até na vizinha que estendia o peito.

Cedo percebi que a obsessão não mudara desde que eu saíra de casa, até antes, desde o tempo do Caranguejo. Eram as mesmas frases, as mesmas situações, os mesmos medos, mas sobretudo as mesmas certezas.

Aos sábados e domingos o Miguel ansiava a semana porque só então podia estar com ela. Distraía-se com as visitas das irmãs, que no entanto deixaram de aparecer, fosse porque eu insistia em lembrar-lhes o passado, fosse porque as tratava como intrusas.

Entretinha-se também com os desenhos animados da Disney, que para ele mantinham o encanto de quando tinha dez anos. «Ouvindo esse gafanhoto, até parece que vai nos acontecer alguma coisa.» Zurrando em jeito de gargalhada antes de lhe crescer a cauda, Espoleto transformava-se em burro à frente de Pinóquio. «Ele acha que eu tenho cara de quê, de burro, é?» Pinóquio com cascos de madeira responde «E tem mesmo». Espoleto, agora completo asno, mas ainda com voz de rapaz, pergunta «O que é que está havendo?» e escoiceia a mesa de jogo. Destinaram-no às minas de sal com os outros meninos burros vestidos de marinheiro.

Ainda que no tempo dos nossos pais ajudasse em casa, agora o Miguel limitava-se a arrumar o quarto. Para mais, não tínhamos dinheiro para uma empregada porque eu comprara às minhas irmãs o que lhes cabia do Tojal, apesar de não tencionar lá ir. Comprei a casa apenas para a manter como relíquia.

Pois ali estávamos. Passávamos as refeições em silêncio, excepto uma referência ocasional à FLUP ou ao Ricardo, que afinal de contas beliscava a Luciana porque não havia mais raparigas na sala dele. E então, sem aviso, lembrava-se de perguntar entre garfadas «A mãe?» e eu interrompia «O que é que havia de ser? Sabes o quê, não sabes?». Ele respondia um «Mais ou menos» bem pronunciado, com as letras no sítio, depois do qual eu completava, seco, «Morreu».

Excepcionalmente, entusiasmava-se ao contar episódios num sopro, igual a quando os contava aos nossos pais. Histórias semelhantes às do Masturbador, onde amor e luxúria se confundiam.

Semanas depois de começar a viver comigo, subiu as escadas do prédio a correr e sentou-me com ele no sofá da sala. Estalou os dedos e gaguejou, tropeçou nos gestos e nas palavras enquanto tentava ordenar o relato.

– Ela hoje nao dentro mas fora – uma pausa para respirar. – Eu ao Ricardo nao, disse eu nao. Mas ele sim sim sim, Luciana fora. Mentiroso. Eu vi Lucianaforaportao. Ricardo razao. Fugiu!

Após a ter avistado fora da APPACDM, o Miguel saiu no seu encalço e agarrou-a antes que ela apanhasse um autocarro, afirmando «Vais la dentro ja», ao que ela respondeu que o amava muito mas queria liberdade.

A parte depois da vírgula acrescento-a eu.

Olhava-me com carinho e espanto, como se, em vez de mim, encarasse a Luciana em fuga – a Luciana que o traíra porque não quisera levá-lo com ela. Certo era que a impedira de fugir sem que as educadoras reparassem, apenas o Ricardo, que falava como se guardasse berlindes na boca, de modo que ninguém lhe prestou atenção.

– Um heroi…

– Sim, foste um herói – respondi, ainda a tentar perceber o que ele dissera.

Depois do jantar fechou-se no quarto repetindo em voz alta as façanhas do dia, como a assegurar-se de que conseguira manter a Luciana consigo, e para sempre. «Um heroi, um homem. Nao é bebe.» Ouvi-o encostado à porta na esperança de que ele me incluísse na divagação, talvez uma referência breve entre assuntos mais importantes como a urgência de impedir nova fuga.

Claro que não se lembrou de mim.

Falou dela durante uma hora, após a qual o entusiasmo esmoreceu, serenou, e terminou na frase «É assim. Onde a Luciana esta, eu esta», que foi dita já com a calma, já com a decisão de quem não precisa de se justificar, mesmo perante si próprio.