Os Pecados do Pai
Capítulo 5
Quando Lloyd se levantou para cumprimentá-lo às nove horas da sua primeira manhã como bibliotecário assistente, Harry percebeu que, até então, só o tinha visto sentado. Lloyd era mais alto do que Harry esperava, tinha bem mais do que um metro e oitenta. Apesar da insalubre comida da prisão, ele tinha uma silhueta enxuta e era um dos poucos prisioneiros que se barbeava todas as manhãs. Com seus cabelos corvinos penteados para trás, parecia mais um ídolo das matinês que estava envelhecendo do que um homem que estava cumprindo uma pena de cinco anos por estelionato. Quinn não conhecia os detalhes do crime dele, o que significava que ninguém além do diretor conhecia a história por inteiro. E a regra na cadeia era simples: se um prisioneiro não revelasse por que estava ali, você não perguntaria.
Lloyd explicou a Harry a rotina diária que o novo bibliotecário assistente já havia dominado ao descer para o jantar naquela mesma noite. Durante os dias seguintes, ele continuou a crivar Lloyd de perguntas sobre questões, como a recuperação de livros atrasados, multas e convites, para que os prisioneiros doassem seus próprios livros à biblioteca quando fossem libertados, algo que Lloyd nem havia considerado. A maioria das respostas do bibliotecário era monossilábica. Então, Harry finalmente permitiu que ele voltasse à sua posição de descanso atrás da escrivaninha, escondido por uma cópia do New York Times .
Embora houvesse cerca de mil prisioneiros trancafiados em Lavenham, menos de 10% deles sabiam ler e escrever, e nem todos os que sabiam se davam ao trabalho de visitar a biblioteca em uma terça, quinta ou domingo.
Harry logo descobriu que Max Lloyd era preguiçoso e desonesto. Ele parecia não se importar com as iniciativas imaginadas pelo seu novo assistente, desde que não envolvessem trabalho extra.
A principal tarefa de Lloyd parecia ser manter uma jarra de café pronta, caso um guarda aparecesse. Depois que o exemplar do New York Times do dia anterior era descartado pelo diretor e entregue à biblioteca, Lloyd se instalava atrás da sua escrivaninha pelo resto da manhã. Primeiro, ele lia as resenhas dos livros e, quando terminava, voltava a atenção para os classificados, seguidos das notícias e, por fim, do caderno esportivo. Depois do almoço começava a fazer as palavras cruzadas que Harry completava na manhã seguinte.
Quando chegava a Harry, o jornal já passava de dois dias. Ele sempre começava pelas páginas das notícias internacionais, pois queria descobrir como a guerra na Europa estava progredindo. Foi assim que soube da invasão da França e também que Neville Chamberlain havia renunciado como primeiro-ministro e que Winston Churchill o sucedera. Ele não era uma unanimidade, mas Harry nunca esqueceria o discurso de Churchill ao entregar os prêmios na Bristol Grammar School e que não tinha dúvida de que a Grã-Bretanha estava sendo liderada pelo homem certo. Harry várias vezes amaldiçoava o fato de ser bibliotecário assistente em uma prisão americana, e não um oficial da Marinha Real.
Durante a última hora do dia, quando nem mesmo ele conseguia encontrar algo para fazer, Harry atualizava seu diário.
Harry demorou pouco mais de um mês para reorganizar todos os livros nas categorias certas: primeiro, ficção; depois, não ficção. Durante o segundo mês, ele os separou de acordo com uma classificação ainda mais específica para que os prisioneiros não precisassem perder tempo procurando os únicos três livros sobre marcenaria que havia nas prateleiras. Explicou a Lloyd que, quando o assunto era não ficção, a categoria era mais importante do que o nome do autor. Lloyd deu de ombros.
Nas manhãs de domingo, Harry empurrava o carrinho da biblioteca pelas quatro alas, recuperando livros com empréstimo vencido, dos quais alguns estavam atrasados havia mais de um ano. Ele esperava que alguns dos veteranos da ala D fossem ficar chateados ou até mesmo ofendidos por causa da intrusão, mas todos eles queriam conhecer o homem que fizera Hessler ser transferido para Pierpoint.
Depois da entrevista com o conselho, Hessler recebeu a oferta de um alto posto em Pierpoint e aceitou a promoção, já que ficava mais perto da sua cidade. Embora Harry nunca houvesse sugerido que teve algo a ver com a transferência de Hessler, essa não foi a história que Quinn espalhou de orelha em orelha até se tornar uma lenda.
Durante suas rondas pelas alas em busca de livros faltantes, Harry muitas vezes ouvia anedotas que eram registradas no seu diário à noite.
O diretor aparecia ocasionalmente na biblioteca, sobretudo porque Harry, ao se apresentar diante do conselho, descreveu a postura do sr. Swanson em relação à educação dos detentos como ousada, criativa e visionária. Era incrível a quantidade de elogios imerecidos que o diretor estava disposto a aceitar.
Depois de seus primeiros três meses, os empréstimos aumentaram 14%. Quando Harry perguntou ao diretor se podia instigar uma aula noturna de leitura, Swanson hesitou por um instante, mas cedeu quando Harry repetiu as palavras ousada, criativa e visionária.
Apenas três prisioneiros assistiram à primeira aula de Harry, e um deles era Pat Quinn, que já sabia ler e escrever. Mas, no final do mês seguinte, a turma havia crescido e contava com dezesseis alunos, mas vários deles fariam qualquer coisa para sair das celas durante uma hora à noite. Todavia, Harry conseguiu uma ou duas vitórias notáveis dentre os prisioneiros jovens e sempre lembrava que o fato de não ter frequentado a escola “certa”, ou simplesmente uma escola, não significava que você era burro, e vice-versa. Quinn era um exemplo.
Apesar da atividade extra, Harry descobriu que ainda tinha tempo à disposição. Então, estipulou para si mesmo a tarefa de ler dois novos livros por semana. Depois de ter terminado os poucos clássicos americanos da biblioteca, voltou-se para os livros policiais, disparados os mais populares entre os detentos, ocupando sete das dezenove prateleiras da biblioteca.
Harry sempre gostou de Conan Doyle e estava ansioso para se dedicar a seus rivais americanos. Começou com Divórcio sangrento, de Erle Stanley Gardner, antes de passar para O sono eterno, de Raymond Chandler. Sentia-se um pouco culpado de gostar tanto daqueles livros. O que o sr. Holcombe pensaria?
Durante a última hora antes de a biblioteca fechar, Harry continuava a atualizar seu diário. Uma tarde, surpreendeu-se quando Lloyd, tendo terminado o jornal, perguntou se podia lê-lo. Harry sabia que Lloyd havia sido um agente literário em Nova York e que foi por isso que conseguiu o trabalho na biblioteca. Às vezes, ele citava os nomes dos escritores que havia representado, em sua maioria desconhecidos para Harry. Lloyd só falou de como tinha ido parar em Lavenham em uma ocasião, olhando para a porta para ter certeza de que ninguém o ouviria por acaso.
— Um pouco de azar — Lloyd explicou. — Investi de boa-fé dinheiro dos meus clientes na Bolsa de Valores e, quando as coisas não saíram como previsto, paguei o pato.
Quando Harry repetiu a história aquela noite, Quinn virou os olhos para o céu.
— É mais fácil que ele tenha gastado o dinheiro em cavalos lentos em mulheres rápidas.
— Então, por que ele daria tantos detalhes — perguntou Harry — se nunca contou a ninguém o motivo para estar aqui?
— Às vezes, você é muito ingênuo — disse Quinn. — Com você como mensageiro, Lloyd sabe que a chance de acreditarmos em sua história é muito maior. Só trate de nunca fazer trato algum com esse cara porque ele tem seis dedos em cada mão — uma expressão de batedores de carteira que Harry registrou no diário naquela noite. Mas não deu muita importância ao conselho de Quinn, em parte porque não conseguia imaginar circunstância alguma em que faria um trato com Max Lloyd, a não ser para decidir de quem era a vez de servir café quando o diretor aparecia.
No final do primeiro ano em Lavenham, Harry havia preenchido três cadernos com as suas observações a respeito da vida na prisão, e só podia imaginar quantas outras páginas daquela crônica diária conseguiria escrever antes de ter cumprido sua pena.
Ficou surpreso com o entusiasmo de Lloyd, sempre querendo ler o episódio seguinte. O bibliotecário até sugeriu que talvez pudesse mostrar o trabalho de Harry a um editor. Harry riu.
— Não consigo imaginar alguém demonstrando interesse pelas minhas divagações.
— Você pode se surpreender — disse Lloyd.