Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 32 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 30

 

 

Patrick Casey tomou café da manhã, almoçou e jantou no restaurante do hotel na segunda, terça e quarta-feira.

Maisie achou que ele a levaria para jantar no Plimsoll Line com a esperança de evocar lembranças. De fato, ela não havia voltado àquele restaurante desde que Patrick voltara à Irlanda. Ela tinha razão, e as lembranças reafloraram.

Maisie estava resolvida a não se deixar seduzir mais uma vez pelo charme e pela beleza de Patrick, e não tinha intenção alguma de contar a ele sobre Mike e os planos dos dois para o futuro. Mas, à medida que a noitada progredia, ela achava cada vez mais difícil tocar no assunto.

— Então, o que você andou fazendo desde a última vez que estive em Bristol? — Patrick perguntou enquanto os dois tomavam um aperitivo no bar. — Se bem que é impossível não saber que você está administrando o melhor restaurante de hotel da cidade e, ao mesmo tempo, dando um jeito de frequentar aulas noturnas.

— Bem, vou sentir falta de tudo isso quando... — ela começou melancólica.

— Quando o quê? — perguntou Patrick.

— É apenas um curso de doze semanas — disse Maisie, tentando se recuperar.

— Daqui a doze semanas — disse Patrick —, aposto que você é que vai estar dando aulas.

— E você? O que você tem feito? — perguntou ela enquanto o garçom-chefe se aproximava para dizer que a mesa deles estava pronta.

Patrick só respondeu quando eles se sentaram a uma mesa tranquila no canto do salão.

— Você talvez se lembre de que fui promovido a vice-gerente da empresa há uns três anos, e por isso é que tive de voltar para Dublin.

— Não esqueci por que você teve de voltar para Dublin — disse Maisie um pouco sentida.

— Tentei voltar a Bristol várias vezes, mas, depois do início da guerra, foi quase impossível, e também não ajudou o fato de eu não poder escrever para você.

— Bem, esse problema talvez seja resolvido em um futuro próximo.

— Então, você vai poder ler para mim na cama.

— E como estão as coisas na sua empresa nestes tempos difíceis? — Maisie perguntou, desviando o assunto para um terreno mais seguro.

— Na verdade, muitas empresas irlandesas estão se dando bastante bem por causa da guerra. Devido à neutralidade do país, podemos negociar com ambos os lados.

— Vocês se dispõem a fazer negócios com os alemães? — perguntou Maisie incrédula.

— Não, como empresa, sempre deixamos claro de que lado estávamos, mas você não vai se surpreender se souber que muitos dos meus compatriotas ficam felizes em negociar com os alemães. Por causa disso, tivemos alguns anos difíceis, mas, quando os americanos entraram na guerra, até mesmo os irlandeses começaram a acreditar que os Aliados podem sair vencedores.

Aquela era a chance para contar a Patrick sobre um americano específico, mas Maisie não a aproveitou.

— Então, o que traz você a Bristol agora? — perguntou ela.

— A resposta simples é: você.

— Eu? — Maisie tentou pensar rapidamente em uma maneira convincente de levar a conversa de volta para um nível menos pessoal.

— Sim. Nosso diretor-executivo vai se aposentar no final do ano e o presidente pediu para que eu o substituísse.

— Parabéns — disse Maisie, aliviada por ter voltado a um território mais seguro. — E você quer que eu seja a sua vice — acrescentou tentando ser bem-humorada.

— Não, quero que você seja minha esposa.

O tom de Maisie mudou.

— Não passou pela sua cabeça, Patrick, nem por um instante nos últimos três anos, que outra pessoa podia ter entrado na minha vida?

— Diariamente — respondeu Patrick —, e é por isso que vim até aqui para descobrir se existe outra pessoa.

Maisie hesitou.

— Existe, sim.

— E ele a pediu em casamento?

— Pediu — ela sussurrou.

— Você aceitou o pedido?

— Não, mas prometi dar uma resposta antes que ele volte para os Estados Unidos no final do mês — ela disse com mais firmeza.

— Isso significa que ainda tenho chance?

— Francamente, Patrick, as probabilidades estão contra você. Há quase três anos que você não dá notícia e, de repente, aparece como se nada tivesse acontecido.

Patrick não tentou se defender enquanto o garçom servia os pratos principais.

— Quem dera fosse tão fácil assim! — disse ele.

— Patrick, sempre foi fácil assim. Se você tivesse me pedido em casamento três anos atrás, eu teria embarcado no primeiro navio para a Irlanda feliz da vida.

— Naquela época, eu não podia.

Maisie apoiou o garfo e a faca sem comer nada.

— Sempre me perguntei se você era casado.

— Por que você não disse algo naquela época?

— Eu estava muito apaixonada por você, Patrick, a ponto de até aceitar uma situação tão humilhante.

— E pensar que só voltei para a Irlanda porque não podia pedir a você para ser minha mulher.

— E isso mudou?

— Mudou. Byrony me deixou há mais de um ano. Conheceu alguém que se interessava mais por ela do que eu, o que não deve ter sido difícil.

— Ai, meu Deus — disse Maisie —, por que minha vida tem sempre de ser tão complicada?

Patrick sorriu.

— Lamento ter complicado sua vida novamente, mas não vou desistir tão fácil desta vez, não enquanto eu acreditar que ainda existe a mínima chance.

Ele se inclinou sobre a mesa e pegou a mão dela. Um instante mais tarde, o garçom reapareceu ao lado deles com uma expressão ansiosa enquanto olhava para os dois pratos intactos e, àquela altura, já frios.

— Está tudo bem, senhor? — perguntou.

— Não — Maisie respondeu. — Não está.

Maisie ficou acordada pensando nos dois homens da sua vida. Mike, tão confiável, tão gentil, e ela sabia que ele seria fiel até o fim dos seus dias. E Patrick, tão excitante, tão vivo, com o qual nunca haveria um momento de tédio. Ela mudou de opinião várias vezes durante a noite, e o fato de ter tão pouco tempo para tomar uma decisão também não ajudava.

Quando desceu para tomar café na manhã seguinte, a mãe não mediu palavras quando Maisie perguntou com qual dos dois homens deveria se casar se tivesse chance.

— Mike — a mãe disse sem hesitação. — Ele é muito mais confiável a longo prazo, e casamento é algo de longo prazo. De qualquer maneira — acrescentou —, nunca confiei nos irlandeses.

Maisie pensou nas palavras da mãe e estava prestes a fazer outra pergunta quando Stan invadiu a cozinha. Após engolir o mingau, invadiu os pensamentos dela.

— Você não vai falar com o gerente do banco hoje?

Maisie não respondeu.

— Foi o que eu pensei. Trate de voltar direto para casa com minhas cem libras. Se não fizer isso, garota, vou atrás de você.

 

— Que prazer em revê-la, madame! — disse o sr. Prendergast enquanto acompanhava Maisie até uma cadeira logo após as quatro da tarde. Esperou que Maisie se acomodasse antes de se arriscar: — A senhora teve oportunidade de pensar sobre a generosa oferta do meu cliente?

Maisie sorriu. Com uma única palavra, o sr. Prendergast revelou de quem eram os interesses que estava protegendo.

— Certamente — respondeu Maisie —, e eu ficaria muito grata se o senhor pudesse dizer ao seu cliente que só aceito quatrocentas libras, nem um tostão a menos.

O sr. Prendergast ficou boquiaberto.

— E é possível que eu deixe Bristol no final do mês; portanto, talvez o senhor possa gentilmente dizer ao seu cliente que minha generosa oferta só estará de pé por uma semana.

O sr. Prendergast fechou a boca.

— Tentarei voltar na próxima semana no mesmo horário, sr. Prendergast, quando o senhor poderá me comunicar a decisão do seu cliente — disse Maisie, levantando-se e abrindo um sorriso meigo para o gerente antes de acrescentar: — Espero que o senhor tenha um fim de semana agradável, sr. Prendergast.

 

Maisie estava achando difícil se concentrar nas palavras do sr. Holcombe, e não apenas porque a turma intermediária estava se revelando mais rigorosa do que a dos iniciantes que ela já estava se arrependendo de ter deixado. Quando levantava a mão, era, na maioria das vezes, para fazer uma pergunta e não para dar respostas.

O entusiasmo de Arnold pela matéria era contagioso e ele tinha um verdadeiro dom para fazer com que todos se sentissem iguais e todas as contribuições parecessem importantes.

Depois de uma revisão de vinte minutos daquilo que ele considerava os preceitos básicos, ele convidou a turma a abrir o livro Mulherzinhas na página 72. Números não eram um problema para Maisie, e ela rapidamente folheou o livro até a página correta. Em seguida, ele pediu para que uma mulher na terceira fila ficasse de pé e lesse o primeiro parágrafo enquanto o resto da turma seguia cada frase palavra por palavra. Maisie pôs um dedo no topo da página e tentou desesperadamente acompanhar a narrativa, mas logo se perdeu.

Quando o diretor pediu a um senhor idoso na primeira fila para ler o mesmo trecho pela segunda vez, Maisie conseguiu identificar algumas das palavras, mas estava rezando para que Arnold não lhe pedisse para ler em seguida. Ela soltou um suspiro de alívio quando outra pessoa foi convidada a ler o parágrafo novamente. Quando o novo leitor se sentou, Maisie baixou a cabeça, mas não escapou.

— E, por fim, vou pedir à sra. Clifton para se levantar e ler o mesmo trecho.

Maisie se levantou incerta e tentou se concentrar. Recitou todo o parágrafo quase palavra por palavra, sem olhar uma vez sequer para a página. Afinal, ela passara muitos anos tentando se lembrar de pedidos complicados em restaurantes.

O sr. Holcombe abriu um sorriso caloroso enquanto ela se sentava.

— Que memória prodigiosa a sua, sra. Clifton! — disse, mas nenhuma outra pessoa parecia ter captado o significado das suas palavras. — Agora eu gostaria de seguir em frente e discutir o significado de certas palavras nesse parágrafo. Na segunda linha, por exemplo, vocês encontram a palavra “esponsálias”, uma palavra antiquada. Alguém pode me dizer uma palavra mais moderna que tenha o mesmo significado?

Várias mãos se levantaram, e a de Maisie estaria entre elas se não tivesse reconhecido um passo pesado se aproximando da porta da sala de aula.

— Srta. Wilson — disse o diretor.

— Casamento — disse a srta. Wilson enquanto a porta era escancarada e o irmão de Maisie adentrava a sala. Ele parou na frente do quadro-negro, seu olhar pulando de uma pessoa para outra.

— Posso ajudá-lo? — perguntou o sr. Holcombe educadamente.

— Não — respondeu Stan. — Vim pegar o que é meu por direito; portanto, fique de boca calada, diretor, se souber o que é melhor para você, e cuide da sua vida.

Seus olhos se fixaram em Maisie.

Maisie quis dizer a ele durante o café da manhã que ainda levaria mais uma semana até saber se o prezado cliente do sr. Prendergast havia aceitado sua contraproposta. Mas, à medida que Stan ia caminhando resoluto em sua direção, ela percebeu que não conseguiria convencê-lo de que não tinha o dinheiro.

— Onde está minha grana? — ele perguntou muito antes de alcançar a carteira da irmã.

— Ainda não recebi — respondeu Maisie. — Você vai ter de esperar outra semana.

— Não vou esperar porra nenhuma — disse Stan, agarrando Maisie, que se pôs a gritar atrás da carteira, pelos cabelos e começando a arrastá-la. Enquanto ele rumava para a porta, o resto da turma permanecia sentada, atônita. Só um homem entrou na sua frente.

— Saia da minha frente, diretor.

— Sugiro que você solte sua irmã, sr. Tancock, se não quiser ficar mais encrencado do que já está.

— E quem vai me parar? Você e qual exército? — Stan disse rindo. — Se você não cair fora, vou fazer você engolir os próprios dentes, e garanto que não vai ser uma cena bonita.

Stan não viu o primeiro soco vindo na sua direção e, quando foi atingido no plexo solar, dobrou-se para a frente, o que era uma boa justificativa para não ter se recuperado antes de o segundo soco ter sido desferido em seu queixo. Com o terceiro, esborrachou-se como um carvalho cortado.

Stan ficou caído no chão, com a mão sobre a barriga, esperando um chute. O diretor ficou em pé ao seu lado e esperou que ele se recuperasse. Quando finalmente recobrou as forças, Stan se levantou cambaleante sem tirar os olhos por um momento sequer do diretor enquanto avançava lentamente até a porta. Quando achou que estivesse a uma distância segura, olhou para Maisie, que ainda estava encolhida no chão, soluçando baixinho.

— É melhor você só voltar para casa quando estiver com o meu dinheiro, garota — Stan rosnou —, se ainda souber o que é melhor para você.

Sem dizer mais nada, ele saiu furioso da sala.

Mesmo após ter ouvido a porta bater, Maisie ainda estava assustada demais para se mexer. O resto da turma recolheu os livros e saiu em silêncio da sala de aula. Ninguém foi ao pub naquela noite.

O sr. Holcombe atravessou rapidamente a sala, ajoelhou-se ao lado de Maisie e abraçou seu corpo trêmulo. Algum tempo se passou até ele dizer:

— É melhor você ir para a minha casa esta noite, Maisie. Vou preparar uma cama no quarto de hóspedes. Você pode ficar lá pelo tempo que quiser.