Os Pecados do Pai
Capítulo 3
Harry ficou deitado na cama de cima do beliche observando o teto com uma demão de tinta branca que ele podia tocar com os dedos se esticasse a mão. O colchão era empelotado e o travesseiro tão duro que ele só conseguia dormir por alguns minutos de cada vez.
Seus pensamentos se voltaram para Sefton Jelks e a facilidade com que o velho advogado o ludibriara. Livrar meu filho da acusação de homicídio é tudo o que me interessa, ele podia ouvir o pai de Tom Bradshaw dizendo a Jelks. Harry tentou não pensar sobre os seis anos seguintes, que não interessavam ao sr. Bradshaw. Será que aquilo valia 10 mil dólares?
Ele afastou da mente o advogado e pensou em Emma. Sentia muito sua falta e queria escrever e dizer que ainda estava vivo, mas sabia que não podia. Ficou imaginando o que ela deveria estar fazendo em um dia de outono em Oxford. Como será que seu trabalho estava progredindo no início do primeiro ano? Será que ela estava sendo cortejada por outro homem?
E o irmão dela, Giles, seu melhor amigo? Agora que a Grã-Bretanha estava em guerra, será que Giles havia deixado Oxford e se alistado para lutar contra os alemães? Se assim fosse, Harry rezaria para que ainda estivesse vivo. Bateu na lateral da cama com o punho cerrado, com raiva por não poder fazer sua parte. Quinn não falou, deduzindo que Harry estivesse sofrendo de “primeira-noitite”.
E Hugo Barrington? Será que alguém o vira desde o seu desaparecimento no dia em que Harry deveria ter se casado com a sua filha? Será que ele acharia uma maneira de recuperar sorrateiramente sua posição quando todos acreditassem que Harry estava morto? Ele afastou Barrington da mente, ainda não querendo aceitar a possibilidade de que aquele homem fosse seu pai.
Quando seus pensamentos se voltaram para a mãe, Harry sorriu, esperando que ela fizesse bom uso dos 10 mil dólares que Jelks prometera enviar para ela depois de Harry ter aceitado tomar o lugar de Tom Bradshaw. Com mais de 2 mil libras no banco, Harry esperava que ela largasse o emprego de garçonete no Grand Hotel e comprasse aquela casinha no campo do qual sempre falara; aquele era o único resultado positivo daquela farsa.
E Sir Walter Barrington, que sempre o tratou como um neto? Se Hugo era o pai de Harry, então Sir Walter era seu avô. Se aquilo se revelasse verdade, Harry teria todo o direito de herdar a propriedade dos Barrington e o título familiar, e, com o tempo, se tornaria Sir Harry Barrington. Mas Harry queria que seu amigo Giles, filho legítimo de Hugo Barrington, herdasse o título e, sobretudo, estava desesperado para provar que seu pai verdadeiro era Arthur Clifton. Isso ainda lhe daria uma remota chance de se casar com sua amada Emma. Harry tentou esquecer onde passaria os próximos seis anos.
Às sete horas, uma sirene soou para acordar os prisioneiros que, já estando ali havia tempo suficiente, conseguiam dormir à noite. Você não está na prisão quando está dormindo, foram as últimas palavras que Quinn murmurou antes de cair em um sono profundo e, em seguida, roncar. Aquilo não incomodava Harry. Em matéria de ronco, seu tio Stan deixava qualquer um no chinelo.
Harry havia tomado várias decisões durante sua longa noite insone. Para ajudar a passar a entorpecente crueldade do tempo desperdiçado, “Tom” seria um detento modelo na esperança que sua sentença fosse reduzida por bom comportamento. Arrumaria um emprego na biblioteca e escreveria um diário sobre o que havia acontecido antes de ter sido condenado e tudo o que se passou enquanto estava atrás das grades. Também se manteria em boa forma, de maneira que, se a guerra ainda estivesse assolando a Europa, ele estaria pronto para se alistar assim que fosse libertado.
Quinn já estava vestido quando Harry desceu da cama superior do beliche.
— E agora? — perguntou Harry, parecendo um calouro no primeiro dia de escola.
— Café da manhã — disse Quinn. — Vista-se, pegue seu prato e caneca e trate de estar pronto quando a porta for destrancada. Se você se atrasa alguns segundos, certos guardas se divertem batendo a porta na sua cara — acrescentou enquanto Harry começava a vestir as calças. — E não fale a caminho do refeitório. Isso chama atenção, o que incomoda os veteranos. Na verdade, não fale com nenhum desconhecido até seu segundo ano.
Harry teria rido, mas não tinha certeza se Quinn estava brincando. Ouviu uma chave girando na fechadura e a porta da cela se abrindo. Quinn saiu em disparada como um cão liberado da coleira, com seu colega de cela somente um passo atrás. Eles entraram em uma longa fila de prisioneiros silenciosos que atravessavam o corredor para o qual se abriam as portas das celas vazias antes de descer uma escadaria em caracol até o térreo, onde se juntavam aos outros detentos para o café da manhã.
A fila parou bem antes de eles chegarem ao refeitório. Harry observou os serventes com seus curtos jalecos brancos em pé atrás da bancada. Um guarda com um cassetete e um longo jaleco branco estava de olho neles para garantir que ninguém receberia uma porção extra.
— Que prazer em revê-lo, sr. Siddell — Pat disse baixinho para o guarda quando eles chegaram à frente da fila. Os dois homens trocaram um aperto de mãos como se fossem grandes amigos. Daquela vez, Harry não viu dinheiro trocando de mãos, mas um breve aceno de cabeça do sr. Siddell indicou que um trato havia sido concluído.
Quinn foi avançando enquanto seu prato de latão era preenchido com um ovo frito com a gema dura, uma pilha de batatas que eram mais pretas do que brancas e as duas fatias regulamentares de pão dormido. Harry o alcançou enquanto o café era despejado em sua caneca. Os serventes pareceram intrigados quando Harry agradeceu a cada um deles, como se fosse um convidado do chá da tarde no vicariato.
— Droga — ele disse quando o último servente lhe ofereceu café —, esqueci minha caneca na cela.
O servente encheu a caneca de Quinn até a borda.
— Da próxima vez, trate de não esquecer — disse o companheiro de cela de Harry.
— Nada de conversa na fila! — gritou Hessler, batendo com o cassetete na outra mão enluvada.
Quinn levou Harry até o final de uma mesa comprida e se sentou no banco à sua frente. Harry estava com tanta fome que devorou tudo o que estava no prato, inclusive o ovo mais gorduroso que ele jamais havia provado. Até pensou em lamber o prato e se lembrou do seu amigo Giles em outro primeiro dia.
Quando Harry e Pat terminaram aquele café da manhã de cinco minutos, subiram escoltados a escada em caracol até o último andar. Depois de a porta da cela ter sido batida e trancada, Quinn lavou o prato e a caneca e os pôs ordenadamente embaixo da cama.
— Quando você vive em um cubículo por anos a fio, aproveita cada centímetro do espaço — explicou.
Harry seguiu seu exemplo e ficou pensando quanto tempo passaria até que ele pudesse ensinar algo a Quinn.
— E agora? — Harry perguntou.
— Atribuição do trabalho — respondeu Quinn. — Vou me juntar a Siddell na cozinha, mas ainda temos que garantir que vão pôr você na biblioteca. E isso vai depender do guarda que estiver de serviço. O problema é que estou ficando sem dinheiro.
Quinn mal acabara de pronunciar aquelas palavras quando a porta foi aberta novamente e a silhueta de Hessler surgiu na soleira, o cassetete batendo na mão enluvada.
— Quinn — ele disse —, apresente-se imediatamente na cozinha. Bradshaw, vá para a estação nove e se junte aos outros faxineiros da ala.
— Eu tinha esperança de ir trabalhar na biblioteca, senhor...
— Não me interessa o que você estava esperando, Bradshaw — disparou Hessler. — Como supervisor da ala, eu dito as regras aqui. Você pode ir à biblioteca às terças, quintas e domingos entre seis e sete, como todos os outros detentos. Está claro? — acrescentou e Harry anuiu. — Você não é mais um oficial, Bradshaw, apenas um condenado, como todos aqui. E não perca tempo pensando que pode me subornar — disse antes de se encaminhar para a cela seguinte.
— Hessler é um dos poucos guardas que você não pode subornar — sussurrou Quinn. — Sua única esperança agora é o sr. Swanson, o diretor do presídio. Mas lembre-se de que ele se considera uma espécie de intelectual, o que provavelmente significa que tem uma boa caligrafia. Ele também é um batista fundamentalista. Aleluia!
— Quando terei uma chance de vê-lo? — perguntou Harry.
— Pode ser a qualquer momento. Mas certifique-se de que ele sabe que você quer trabalhar na biblioteca, pois ele só dedica cinco minutos do próprio tempo a cada novo prisioneiro.
Harry se jogou na cadeira de madeira e pôs a cabeça entre as mãos. Se não fosse pelos 10 mil dólares que Jelks havia prometido mandar à sua mãe, ele usaria seus cinco minutos para contar ao diretor a verdade de como ele tinha ido parar em Lavenham.
— Enquanto isso, vou fazer o possível para que você vá para a cozinha — acrescentou Quinn. — Talvez não seja o que você esperava, mas é sem dúvida melhor do que ser faxineiro.
— Obrigado — disse Harry.
Quinn saiu apressado rumo à cozinha sem precisar de instruções. Harry desceu novamente a escada até o térreo e saiu à procura da estação nove.
Doze homens, todos primários, estavam aglomerados em pé esperando instruções. Iniciativa não era algo bem visto em Lavenham, cheirava a rebelião ou sugeria que um prisioneiro podia ser mais esperto do que um guarda.
— Pegue um balde, encha-o d’água e arrume um esfregão — comandou Hessler. Sorriu para Harry enquanto ticava seu nome em outra prancheta. — Como você foi o último a descer, Bradshaw, você vai trabalhar nas latrinas durante o próximo mês.
— Mas não fui o último a descer — protestou Harry.
— Acho que foi — retrucou Hessler sem tirar o sorriso do rosto.
Harry encheu o balde de água fria e pegou um esfregão. Não precisava que dissessem que direção deveria tomar, dava para sentir o fedor das latrinas a distância. Começou a ter ânsia de vômito antes mesmo de entrar no grande cômodo quadrado com trinta buracos no chão. Apertou o nariz, mas tinha de sair constantemente dali para respirar. Hessler estava um pouco apartado, rindo.
— Você vai se acostumar, Bradshaw — ele disse —, com o tempo.
Harry se arrependeu de ter comido tanto no café da manhã que até vomitou minutos depois. Uma hora deve ter se passado até ouvir um outro guarda gritar seu nome.
— Bradshaw!
Harry saiu cambaleando das latrinas, branco como uma folha de papel.
— Sou eu — disse.
— O diretor que ver você; portanto se apresse.
Harry conseguia respirar mais fundo a cada passo que dava e, quando chegou ao gabinete do diretor, estava se sentindo quase humano.
— Espere aí até ser chamado — disse o guarda.
Harry sentou-se em uma cadeira vaga entre dois outros prisioneiros que logo se viraram. Ele não podia culpá-los. Tentou reunir seus pensamentos enquanto cada novo prisioneiro entrava e saía do gabinete do diretor. Quinn tinha razão, as entrevistas duravam cerca de cinco minutos, algumas até menos. Harry não podia se dar ao luxo de desperdiçar um minuto sequer do seu tempo.
— Bradshaw — disse o guarda e abriu a porta. Pôs-se de lado enquanto Harry entrava no gabinete do diretor.
Harry decidiu não se aproximar demais do sr. Swanson e ficou a vários passos de sua grande mesa com o topo forrado de couro. Embora o diretor estivesse sentado, Harry pôde ver que ele não conseguia fechar o botão central do seu paletó esporte. Seus cabelos haviam sido tingidos de preto na tentativa de fazer com que parecesse mais jovem, mas só o tornavam ligeiramente ridículo. O que Bruto diz da vaidade de César? Ofereça-lhe guirlandas e o elogie como se fosse um deus, e essa será sua derrocada.
Swanson abriu o dossiê de Bradshaw e o estudou por alguns instantes antes de levantar a cabeça e olhar para Harry.
— Vejo que você foi condenado a seis anos por deserção. Nunca me deparei com isso antes — admitiu.
— Sim, senhor — Harry disse, não querendo desperdiçar nem um segundo do seu precioso tempo.
— Não se dê ao trabalho de me dizer que é inocente porque só um em mil realmente é; portanto, as chances estão contra você — Swanson continuou e Harry teve de sorrir. — Mas se você mantiver seu nariz limpo — Harry pensou nas latrinas — e não causar nenhum problema, não vejo por que você teria de cumprir todos os seis anos.
— Obrigado, senhor.
— Algum interesse especial? — Swanson perguntou com ar de quem não estava minimamente interessado.
— Leitura, apreciação das artes e canto coral, senhor.
O diretor lançou um olhar incrédulo para Harry sem saber se o detento estava gozando da sua cara. Apontou para um quadro pendurado na parede atrás da escrivaninha e perguntou:
— Sabe me dizer qual é a próxima linha?
Harry estudou o tecido bordado: Ergo os olhos para as montanhas. Agradeceu silenciosamente à srta. Eleanor E. Monday e as horas passadas nos ensaios do seu coro.
— De onde virá meu socorro, disse o Senhor. Salmo 121.
O diretor sorriu.
— Diga-me, Bradshaw, quais são seus autores favoritos?
— Shakespeare, Dickens, Austen, Trollope e Thomas Hardy.
— Nenhum dos nossos conterrâneos é suficientemente bom?
Harry queria dizer um palavrão em voz alta por ter cometido um erro tão óbvio. Olhou para a estante semicheia do diretor.
— Claro — disse. — Considero F. Scott Fitzgerald, Hemingway e O. Henry do mesmo nível de todos os outros, e, na minha opinião, Steinbeck é o melhor escritor americano moderno.
Ele esperava ter pronunciado o nome corretamente. Ia sem falta ler Ratos e Homens antes de cruzar novamente com o diretor.
O sorriso voltou aos lábios de Swanson.
— Para que tarefa o sr. Hessler o designou? — perguntou.
— Faxineiro da ala, mas eu gostaria de trabalhar na biblioteca, senhor.
— É mesmo? — disse o diretor. — Então, vou precisar verificar se há uma vaga.
Fez uma anotação no bloco à sua frente.
— Obrigado, senhor.
— Se houver, você será informado mais tarde hoje — disse o diretor enquanto fechava o dossiê.
— Obrigado, senhor — Harry repetiu.
Saiu rapidamente, ciente de que havia demorado mais do que os cinco minutos a ele destinados.
Quando já estava no corredor, o guarda do turno o escoltou de vota à ala. Harry agradeceu por Hessler não estar à vista e pelos faxineiros já terem ido para o segundo andar quando ele voltou a se unir ao grupo.
Muito antes de a sirene soar indicando o almoço, Harry já estava exausto. Entrou na fila da comida e viu que Quinn já estava instalado atrás do balcão servindo os outros detentos. Grandes porções de batatas e carne cozida demais foram jogadas no prato de Harry. Ele se sentou sozinho na longa mesa e ciscou a comida. Temia que, se Hessler reaparecesse de tarde, ele fosse despachado de volta para as latrinas, assim como o seu almoço.
Hessler não estava de serviço quando Harry se reapresentou para o trabalho, e um guarda diferente pôs outro primário para limpar as latrinas. Harry passou a tarde varrendo corredores e esvaziando latas de lixo. Seu único pensamento era se o diretor dera ordem para remanejá-lo para a biblioteca. Se não, Harry seria obrigado a torcer por um trabalho na cozinha.
Quando Quinn voltou à cela para o jantar, a expressão em seu rosto não deixou dúvidas de que Harry não se juntaria a ele.
— Havia uma vaga disponível para lavador de pratos.
— Eu aceito.
— Mas quando o sr. Siddell indicou seu nome, Hessler o vetou. Disse que você teria de ficar pelo menos três meses como faxineiro da ala antes que ele pensasse em uma transferência para uma função na cozinha.
— Qual é o problema daquele homem? — perguntou Harry desesperado.
— Correm boatos de que ele se alistou na Marinha, mas foi reprovado no exame e teve de se contentar com o serviço na penitenciária. Portanto, o tenente Bradshaw tem de sofrer as consequências.