Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 4 de 48

Páginas do PDF

Os Pecados do Pai

Capítulo 2

 

Harry foi acompanhado sem cerimônias por um corredor longo e mal iluminado e saiu por uma porta anônima para um pátio árido.

No meio do pátio estava um ônibus amarelo que não exibia nem número nem dica alguma do seu destino. Um motorista musculoso segurando um rifle estava de pé ao lado da porta e indicou com a cabeça que Harry deveria subir a bordo. Os guardas lhe deram uma mãozinha, caso alguma ideia diferente estivesse passando pela sua cabeça.

Harry se sentou e olhou taciturno pela janela enquanto uns poucos prisioneiros condenados eram acompanhados até o ônibus, alguns de cabeça baixa, outros, que claramente já haviam trilhado aquele caminho, adotavam um passo arrogante e desafiador. Harry deduziu que o ônibus logo partiria rumo ao seu destino, seja lá qual fosse, mas ele estava prestes a aprender sua primeira dolorosa lição como prisioneiro: depois de ter sido condenado, ninguém tem pressa.

Harry pensou em perguntar a um dos guardas para onde eles estavam indo, mas nenhum deles tinha ares de um solícito guia turístico. Virou-se ansioso quando um corpo se jogou no assento ao seu lado. Ele não queria ficar olhando para o novo companheiro, mas, como o homem se apresentou imediatamente, Harry o observou mais de perto.

— Meu nome é Pat Quinn — ele anunciou com um leve sotaque irlandês.

— Tom Bradshaw — disse Harry, que teria trocado um aperto de mão com seu novo companheiro se ambos não estivessem algemados.

Quinn não parecia um criminoso. Seus pés mal tocavam o chão; portanto, ele não podia ter mais do que um metro e cinquenta e cinco e, enquanto os outros prisioneiros no ônibus eram musculosos ou simplesmente gordos, Quinn parecia que seria carregado por uma lufada de vento. Seus ralos cabelos ruivos estavam começando a ficar grisalhos, embora ele não pudesse ter mais do que 40 anos.

— Você é primário? — Quinn disse confidencialmente.

— É tão óbvio assim? — perguntou Harry.

— Está escrito na sua testa.

— O que está escrito na minha testa?

— Que você não tem a mínima ideia do que vai acontecer em seguida.

— Então, você obviamente não é primário.

— Esta é a décima primeira vez que subo neste ônibus. Ou talvez seja a décima segunda.

Harry riu pela primeira vez em dias.

— Por que você está aqui? — perguntou Quinn.

— Deserção — Harry respondeu sem elaboração.

— Nunca ouvi falar disso — disse Quinn. — Abandonei três mulheres, mas nunca me puseram no xadrez por causa disso.

— Não abandonei uma mulher — Harry disse, pensando em Emma. — Abandonei a Marinha Real, quer dizer, a Marinha.

— Quanto tempo você pegou por isso?

— Seis anos.

Quinn assobiou através de seus dois dentes restantes.

— Parece que pegaram pesado. Quem foi o juiz?

— Atkins — Harry respondeu com raiva.

— Arnie Atkins? Você pegou o juiz errado. Se você algum dia for a julgamento novamente, trate de escolher o juiz certo.

— Eu não sabia que você podia escolher o juiz.

— E não pode — observou Quinn —, mas existem maneiras de evitar os piores.

Harry observou melhor o companheiro, mas não o interrompeu.

— Os juízes que trabalham nesta região são sete, e você precisa evitar dois deles a qualquer custo. Um é Arnie Atkins. Ele carece de bom humor e exagera nas sentenças.

— Mas como eu poderia tê-lo evitado? — indagou Harry.

— Atkins é o presidente da quarta vara há onze anos; portanto, se estou sendo levado para aquela direção, tenho um ataque epilético e os guardas me levam para ver o médico do tribunal.

— Você é epilético?

— Não — respondeu Quinn —, você não está prestando atenção — ele parecia exasperado e Harry ficou em silêncio. — Quando finjo estar recuperado, eles já atribuíram meu caso a outra vara.

Harry riu pela segunda vez.

— E você se safa sempre?

— Não, não sempre, mas, se calhar de eu estar com dois guardas novatos, tenho uma chance, embora esteja ficando mais difícil dar sempre o mesmo golpe. Não precisei me preocupar desta vez porque fui levado direto para a segunda vara, que é território do juiz Regan. Ele é irlandês, como eu, caso você não tenha notado, e tende a aplicar a sentença mínima a um conterrâneo.

— Qual foi o seu delito? — perguntou Harry.

— Sou batedor de carteiras — Quinn anunciou como se fosse um arquiteto ou um médico. — Sou especialista em corridas de cavalo no verão e lutas de boxes no inverno. É sempre mais fácil se o otário estiver de pé — explicou. — Mas ando meio sem sorte ultimamente porque muitos funcionários me reconhecem. Então tive de ir trabalhar no metrô e nas estações de ônibus, onde a féria é baixa e o risco de ser pego é maior.

Harry queria fazer muitas perguntas ao seu novo tutor e, como um estudante entusiasmado, se concentrou naquelas que o ajudariam a passar no exame de admissão, bastante satisfeito por Quinn não ter questionado seu sotaque.

— Você sabe para onde estamos indo? — ele perguntou.

— Lavenham ou Pierpoint — respondeu Quinn. — Depende se pegarmos a saída doze ou quatorze na rodovia.

— Você já esteve em ambas?

— Já, diversas vezes — disse Quinn casualmente. — E, antes que você pergunte, se existisse um guia turístico das prisões, Lavenham receberia uma estrela e Pierpoint seria fechada.

— Por que simplesmente não perguntamos ao guarda para qual estamos indo? — disse Harry, que queria acabar logo com aquele sofrimento.

— Porque ele nos diria a opção errada só para nos irritar. Se for Lavenham, sua única preocupação deve ser em qual ala vão pôr você. Se você for primário, provavelmente irá para a ala A, onde a vida é bem mais fácil. Os reincidentes, como eu, geralmente são mandados para a ala D, onde não tem ninguém com menos de 30 anos nem com histórico de violência; portanto, é o lugar ideal se você simplesmente quiser ficar na sua e cumprir sua pena. Tente evitar as alas B e C. Estão cheias de viciados e psicopatas.

— O que preciso fazer para garantir que irei parar na ala A?

— Diga ao oficial na recepção que você é um cristão devoto, não fume e não beba.

— Eu não sabia que era permitido beber na prisão — comentou Harry.

— Não é, seu idiota — disse Quinn —, mas se você puder fornecer algumas verdinhas — acrescentou, esfregando o polegar na ponta do indicador — os guardas de repente viram barmen. Nem mesmo a lei seca os deteve.

— Qual é a coisa mais importante a que devo estar atento no meu primeiro dia?

— Trate de arrumar o trabalho certo.

— Quais são as opções?

— Faxina, cozinha, hospital, lavanderia, biblioteca, jardinagem e capela.

— O que preciso fazer para ir para a biblioteca?

— Diga que você sabe ler.

— O que você diz para eles? — perguntou Harry.

— Que fiz treinamento como chef de cozinha.

— Deve ter sido interessante.

— Você ainda não entendeu, não é? — disse Quinn. — Nunca fiz treinamento algum para ser chef, mas assim sempre sou mandado para a cozinha, que é o melhor trabalho na prisão.

— Por quê?

— Você sai da cela antes do café da manhã e só volta depois do jantar. É quente e você tem a melhor opção de comida. Ah, vamos para Lavenham — Quinn observou enquanto o ônibus virava na saída doze da rodovia. — Isso é bom porque, agora, não vou precisar responder nenhuma pergunta idiota sobre Pierpoint.

— Mais alguma coisa que eu preciso saber sobre Lavenham? — perguntou Harry, sem se incomodar com o sarcasmo de Quinn, já que ele suspeitava que o reincidente estava gostando de ministrar uma palestra para um aluno tão ávido.

— Coisas demais para dizer a você — suspirou ele. — Apenas lembre-se de ficar perto de mim depois que tiver sido registrado.

— Mas eles não vão mandar você automaticamente para a ala D?

— Não se o sr. Manson estiver de serviço — Quinn disse sem explicação.

Harry conseguiu fazer várias outras perguntas antes que o ônibus finalmente parasse do lado de fora da prisão. Na verdade, ele sentiu que havia aprendido mais com Quinn em duas horas do que em uma dúzia de tutoriais em Oxford.

— Grude em mim — repetiu Quinn enquanto o enorme portão se abria. O ônibus avançou lentamente rumo a um desolador terreno coberto por vegetação rasteira que jamais vira um jardineiro. Parou na frente de um vasto edifício de tijolos que exibia fileiras de pequenas e imundas janelas, sendo que, atrás de algumas, olhos espreitavam.

Harry observou enquanto uma dúzia de guardas formou um corredor que ia dar na entrada da prisão. Dois deles, armados com rifles, se postaram um de cada lado da porta do ônibus.

— Desçam do ônibus dois a dois — um deles anunciou rispidamente — com um intervalo de cinco minutos entre cada par. Ninguém se mexe a menos que eu mande.

Harry e Quinn ficaram no ônibus mais uma hora. Quando finalmente foram acompanhados para fora, Harry olhou para o topo dos altos muros com arame farpado que circundavam toda a prisão e pensou que nem mesmo o campeão mundial de salto com vara seria capaz de fugir de Lavenham.

Harry entrou atrás de Quinn no edifício, onde pararam diante de um oficial que estava sentado atrás de uma mesa e trajava uniforme azul brilhoso e gasto com botões que não brilhavam. Ele parecia já ter cumprido uma pena de prisão perpétua enquanto estudava a lista de nomes em sua prancheta. Sorriu quando viu o prisioneiro seguinte.

— Seja bem-vindo de volta, Quinn — disse ele. — Você não vai encontrar muitas mudanças desde a sua última vez aqui.

Quinn sorriu.

— É um prazer ver o senhor também, sr. Mason. Talvez o senhor possa ter a cortesia de pedir a um dos seus carregadores para subir com a minha bagagem para o quarto de sempre.

— Não abuse da sorte, Quinn — disse Mason —, senão posso ficar tentado a dizer ao novo médico que você não é epilético.

— Mas, sr. Mason, tenho um atestado médico para provar.

— Certamente da mesma fonte que emitiu seu certificado de chef de cozinha — rebateu Mason, voltando a atenção para Harry. — E quem é você?

— Esse é meu amigo Tom Bradshaw. Ele não fuma, não bebe, não fala palavrões nem cospe — disse Quinn antes que Harry tivesse chance de falar.

— Bem-vindo a Lavenham, Bradshaw — disse Mason.

— Capitão Bradshaw, na verdade — disse Quinn.

— Costumava ser tenente — disse Harry. — Nunca fui capitão.

Quinn pareceu desapontado com seu protegido.

— Primário? — perguntou Mason, observando Harry com mais atenção.

— Sim, senhor.

— Vou colocá-lo na ala A. Depois de tomar uma ducha e pegar seu uniforme de presidiário no depósito, o sr. Hessler o levará para a cela número três-dois-sete.

Mason verificou a prancheta antes de se virar para um jovem oficial que estava em pé atrás dele com um cassetete balançando na mão direita.

— Alguma esperança de eu me juntar ao meu amigo? — perguntou Quinn depois que Harry assinou o registro. — Afinal de contas, o tenente Bradshaw talvez precise de um ordenança.

— Você é a última pessoa de quem ele precisa — disse Mason.

Harry estava prestes a falar quando o batedor de carteiras se inclinou, retirou uma nota dobrada de um dólar da meia e a pôs no bolso superior de Mason em um piscar de olhos.

— Quinn também ficará na cela três-dois-sete — disse Mason ao jovem oficial.

Se Hessler testemunhou a troca, não fez comentário algum.

— Vocês dois, sigam-me — foi tudo o que disse.

Quinn saiu atrás de Harry antes que Mason pudesse mudar de ideia.

Os dois novos prisioneiros foram acompanhados ao longo de um comprido corredor de tijolos verdes até que Hessler parou do lado de fora de um quartinho com chuveiros e dois estreitos bancos de madeira presos à parede e cobertos de toalhas descartadas.

— Tirem a roupa — disse Hessler — e tomem um banho.

Harry tirou lentamente o terno ajustado sob medida, a elegante camisa creme, o colarinho engomado e a gravata listrada que o sr. Jelks fez questão que ele usasse no tribunal para impressionar o juiz. O problema era que ele havia escolhido o juiz errado.

Quinn já estava debaixo do chuveiro antes que Harry tivesse desamarrado os sapatos. Girou a torneira, e um fio d’água pingou relutante em seus cabelos cada vez mais ralos. Em seguida, pegou do chão uma lasquinha de sabonete e começou a se lavar. Harry entrou debaixo da água fria do outro chuveiro e, logo depois, Quinn passou para ele o que restava do sabonete.

— Lembre-me de falar com a gerência sobre as instalações — disse Quinn enquanto pegava um toalha úmida, não muito maior do que um pano de prato, e tentava se secar.

Os lábios de Hessler continuaram cerrados.

— Vistam-se e sigam-me — disse antes que Harry tivesse terminado de se ensaboar.

Mais uma vez, Hessler os acompanhou ao longo do corredor com um passo acelerado, seguido por um Harry semivestido e ainda molhado. Eles só pararam quando chegaram a uma porta dupla onde se lia DEPÓSITO. Hessler bateu com firmeza e, um instante mais tarde, a porta foi aberta, revelando um guarda cansado do mundo, com os cotovelos sobre o balcão, fumando um cigarro enrolado por ele mesmo. O guarda sorriu quando viu Quinn.

— Não sei bem se seu último lote já voltou da lavanderia, Quinn — ironizou.

— Então, vou precisar de tudo novo, sr. Newbold — disse Quinn, que se inclinou e tirou da outra meia algo que, mais uma vez, desapareceu sem deixar rastros. — Minhas exigências são simples — acrescentou. — Um cobertor, dois lençóis de algodão, um travesseiro, uma fronha...

O guarda pegou cada um dos itens das prateleiras às suas costas antes de colocá-los em uma pilha bem arrumada sobre o balcão. — Duas camisas, três pares de meias, seis pares de calças, duas toalhas, uma tigela, um prato, uma faca, garfo e colher, um barbeador, uma escova de dente e um tubo de pasta de dente; prefiro Colgate.

Newbold não fez nenhum comentário enquanto a pilha de Quinn aumentava cada vez mais.

— Mais alguma coisa — perguntou ele por fim, como se Quinn fosse um cliente importante que provavelmente voltaria.

— Sim, meu amigo, o tenente Bradshaw vai precisar das mesmas coisas, e, por ser um oficial e um cavalheiro, trate de dar a ele tudo do melhor.

Para surpresa de Harry, Newbold começou a fazer uma outra pilha, aparentemente demorando para selecionar cada item, tudo isso por causa do prisioneiro que havia se sentado ao seu lado no ônibus.

— Sigam-me — disse Hessler quando Newbold terminou sua tarefa. Harry e Pat pegaram suas pilhas de roupas e se trocaram no fundo do corredor. Houve várias paradas no caminho, pois um guarda de serviço tinha de destrancar e trancar portões à medida que eles se aproximavam das celas. Quando finalmente chegaram à ala, foram recebidos pelo barulho de mil prisioneiros.

— Vejo que estamos no último andar, sr. Hessler — disse Quinn —, mas não vou pegar o elevador, pois preciso me exercitar.

O guarda o ignorou e continuou a avançar em meio aos gritos dos prisioneiros.

— Achei que você tivesse dito que esta era a ala tranquila — disse Harry.

— Obviamente o sr. Hessler não é um dos guardas mais populares — sussurrou Quinn pouco antes que os três chegassem na cela 327.

Hessler destrancou a pesada porta de ferro e a abriu para permitir que o novato e o veterano entrassem naquele que seria o lar de Harry pelos próximos seis anos.

Harry ouviu a porta bater atrás de si. Correu os olhos pela cela e notou que não havia maçaneta na parte interna da porta. Duas camas, uma em cima da outra, uma pia de aço presa à parede, uma mesa de madeira, também presa à parede, e uma cadeira de madeira. Seus olhos finalmente se detiveram em uma tigela de aço sob a cama de baixo. Ele achou que fosse vomitar.

— Você fica com a cama de cima — disse Quinn, interrompendo os pensamentos de Harry —, já que é primário. Se eu sair antes de você, mude-se para a de baixo, e seu novo companheiro de cela ficará com a de cima. Etiqueta carcerária — explicou.

Harry ficou em pé na parte inferior do beliche e fez lentamente a própria cama, em seguida subiu, deitou-se e pôs a cabeça sobre o travesseiro fino e duro, dolorosamente consciente de que demoraria um tempo até ser capaz de dormir uma noite inteira.

— Posso fazer mais uma pergunta? — disse a Quinn.

— Pode, mas não fale novamente até que as luzes tenham sido acesas amanhã de manhã.

Harry se lembrou de Fisher dizendo quase as mesmas palavras na sua primeira noite em St. Bede’s.

— É claro que você conseguiu contrabandear aqui para dentro uma considerável quantia em dinheiro. Então, por que os guardas não a confiscaram assim que você desceu do ônibus?

— Porque se tivessem feito isso — respondeu Quinn —, nenhum prisioneiro jamais traria dinheiro novamente e todo o sistema ruiria.