Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 37 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 35

 

Quando o primeiro cheque foi devolvido, Hugo simplesmente o ignorou e esperou alguns dias antes de apresentá-lo pela segunda vez. Quando o mesmo cheque foi devolvido novamente, com o carimbo “Procurar o Emissor”, ele começou a aceitar o inevitável.

Nas semanas seguintes, Hugo encontrou várias maneiras de contornar o problema de falta de dinheiro vivo.

Primeiro, saqueou o cofre do escritório e removeu as £100 que o pai sempre mantinha guardadas para tempos incertos. Aquela era uma tempestade, e o velho certamente nunca teve de recorrer à reserva em dinheiro para pagar o salário da secretária. Quando aquele dinheiro acabou, Hugo, relutante, abriu mão do Lagonda. Todavia, o vendedor da concessionária indicou educadamente que o lilás e o verde não eram as cores da moda naquele ano e, como Sir Hugo queria dinheiro na mão, ele só podia oferecer metade do preço original de compra, pois a carroceria teria de ser lixada e pintada novamente.

Hugo sobreviveu por mais um mês.

Sem outros ativos disponíveis para vender, ele começou a roubar da mãe. Primeiro, qualquer trocado largado pela casa; em seguida, moedas das carteiras e, por fim, cédulas das bolsas.

Não demorou muito até ele surrupiar um pequeno faisão de prata que enfeitava o centro da mesa de jantar havia anos, seguido pelos pais da ave: a família inteira alçou voo até a casa de penhores mais próxima.

Depois, Hugo passou para as joias da mãe. Começou com itens que ela não notaria. Um alfinete de chapéu e um broche vitoriano logo foram seguidos por um colar de âmbar que ela raramente usava e uma tiara de diamantes de propriedade da família havia mais de um século que só era usada em casamentos ou cerimônias formais. Ele não previa muitas ocasiões desse tipo.

Por fim, Hugo passou para o acervo de arte do pai, primeiro tirando da parede um retrato do avô pintado por um jovem John Singer Sargent, mas não antes de a camareira e a cozinheira terem pedido demissão devido ao não recebimento de salários por mais de três meses. Jenkins morreu convenientemente um mês mais tarde.

O Constable do avô (O Moinho no Dique Dunning) foi seguido pelo Turner do bisavô (Cisnes no Avon), ambos propriedade da família havia mais de um século.

Hugo conseguiu se convencer de que não se tratava de roubo. Afinal, o testamento do pai declarava: e tudo o mais aí incluído .

Essa fonte irregular de fundos garantiu que a empresa sobrevivesse e só acusasse um pequeno prejuízo no final do primeiro trimestre do ano, isso sem contar a renúncia de outros três diretores e vários outros funcionários do alto escalão que não haviam recebido pagamento no último dia do mês. Quando era indagado, Hugo culpava os reveses temporários da guerra. As palavras de despedida de um diretor idoso foram:

— Seu pai nunca achou necessário usar isso como desculpa.

Logo até mesmo os bem móveis começaram a minguar.

Hugo sabia que pôr Barrington Hall e seus trinta hectares de parque no mercado seria como anunciar ao mundo que uma empresa que havia declarado lucro durante mais de cem anos estava insolvente.

A mãe continuava a aceitar as garantias de Hugo de que o problema era apenas temporário e que, em seu devido momento, tudo se resolveria. Depois de um tempo, ele começou a acreditar na própria propaganda. Quando os cheques começaram a ser devolvidos novamente, o sr. Prendergast lembrou a Hugo que ainda estava de pé uma oferta de £3.500 libras por suas propriedades em Broad Street, que, como o gerente do banco ressaltou, ainda resultaria em um lucro de £600.

— E quanto às trinta mil libras que me foram prometidas? — Hugo gritou ao telefone.

— Essa oferta também continua de pé, Sir Hugo, mas depende sempre da compra da propriedade da sra. Clifton.

— Ofereça mil a ela — Hugo latiu.

— Como quiser, Sir Hugo.

Hugo bateu o telefone e ficou pensando o que mais poderia dar errado. O telefone tocou novamente.

 

Hugo estava apartado em uma alcova no canto do Railway Arms, um hotel no qual jamais estivera e ao qual jamais voltaria. Nervoso, olhava para o relógio em intervalos de poucos minutos enquanto esperava a chegada de Mitchell.

O detetive particular chegou às 11h34, poucos instantes após o expresso de Paddington ter estacionado na estação Temple Meads. Mitchell sentou-se discretamente na cadeira em frente ao seu único cliente, embora não recebesse remuneração alguma havia vários meses.

— O que era tão urgente que não podia esperar? — perguntou Hugo após uma caneca de cerveja ter sido colocada na frente do detetive particular.

— Lamento informar, senhor — iniciou Mitchell após tomar um gole — que a polícia prendeu seu amigo Toby Dunstable — disse e Hugo sentiu um arrepio percorrer o corpo. — Ele está sendo acusado do roubo dos diamantes de Piotrovska e de vários quadros, incluindo um Picasso e um Monet, que ele tentou vender para a Agnew’s, a galeria em Mayfair.

— Toby vai ficar de boca fechada — disse Hugo.

— Temo que não, senhor. Eu soube de fonte segura que ele fez um acordo de delação premiada em troca de uma pena mais branda. Parece que a Scotland Yard está mais interessada em prender o homem por trás do crime.

A cerveja de Hugo ficou choca enquanto ele tentava assimilar o significado das palavras de Mitchell. Após um longo silêncio, o detetive particular continuou:

— Achei que o senhor também gostaria de saber que a srta. Piotrovska contratou Sir Francis Mayhew para representá-la.

— Por que ela simplesmente não deixa que a polícia cuide do caso?

— Ela não procurou Sir Francis por causa do roubo, mas devido a duas outras questões.

— Duas outras questões? — repetiu Hugo.

— Sim. Eu soube que o senhor está para receber uma intimação por quebra de promessa. Além disso, a srta. Piotrovska está movendo uma ação de paternidade que indica o senhor como pai de sua filha.

— Ela nunca conseguirá provar isso.

— Dentre as provas que serão apresentadas no tribunal está o recibo de um anel de noivado comprado em uma joalheria em Burlington Arcade, e tanto a governanta quanto a camareira da srta. Piotrovska assinaram um depoimento confirmando que o senhor residiu em Lowndes Square 42 por mais de um ano.

Pela primeira vez em dez anos, Hugo pediu a opinião de Mitchell.

— O que você acha que devo fazer? — ele quase sussurrou.

— Se eu estivesse no seu lugar, senhor, deixaria o país o quanto antes.

— Quanto tempo você acha que tenho?

— Uma semana, dez dias no máximo.

— Um garçom surgiu ao lado deles.

— É um xelim e nove pence, senhor.

Como Hugo não se mexia, Mitchell entregou ao garçom um florim e disse:

— Fique com o troco.

Depois que o detetive particular saiu do bar para voltar a Londres, Hugo ficou sentado sozinho por algum tempo avaliando suas opções. O garçom apareceu novamente e perguntou se ele queria beber alguma outra coisa, mas Hugo nem sequer se deu ao trabalho de responder. No final, levantou-se da cadeira e saiu do bar.

Hugo se encaminhou para o centro da cidade, mais devagar a cada passo, até finalmente atinar o que deveria fazer em seguida. Entrou no banco alguns minutos mais tarde.

— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou o jovem na recepção.

Mas Hugo já estava na metade do saguão quando ele conseguiu ligar para o gerente para avisá-lo de que Sir Hugo Barrington estava a caminho do seu escritório.

Prendergast não ficava mais surpreso por Sir Hugo Barrington sempre achar que ele estaria disponível a qualquer momento, mas ficou chocado ao perceber que o presidente da Barrington’s não havia se dado ao trabalho de fazer a barba naquela manhã.

— Tenho um problema que precisa ser resolvido com urgência — Hugo disse enquanto afundava na cadeira em frente ao gerente.

— Claro, Sir Hugo. Em que posso ajudá-lo?

— Qual é o valor máximo que você acredita poder conseguir pelas minhas propriedades em Broad Street?

— Mas semana passada enviei uma carta avisando o senhor que a sra. Clifton havia recusado sua última oferta.

— Estou ciente — disse Hugo. — Eu quis dizer sem o lote dela.

— Ainda está de pé uma oferta de três mil e quinhentas libras, mas tenho motivos para acreditar que, caso o senhor oferecesse um pouco mais à sra. Clifton, ela cederia o terreno, e a oferta de trinta mil libras ainda estaria válida.

— Não tenho mais tempo — disse Hugo sem explicação.

— Sendo assim, acredito poder pressionar meu cliente para aumentar a oferta para quatro mil, o que ainda representaria um belo lucro para o senhor.

— Caso eu aceite essa oferta, preciso que você me garanta uma coisa: — Hugo disse e Prendergast se permitiu levantar uma sobrancelha. — Que seu cliente não tem nem nunca teve nenhuma ligação com a sra. Clifton.

— Posso dar tal garantia, Sir Hugo.

— Caso o seu cliente pague quatro mil, quanto sobraria em minha conta corrente?

O sr. Prendergast abriu o dossiê de Sir Hugo e consultou o balanço.

— Oitocentas e vinte duas libras e dez xelins — respondeu.

Hugo não brincou mais sobre os dez xelins.

— Nesse caso, vou precisar de oitocentas libras em dinheiro imediatamente. E darei instruções mais tarde sobre o destino dos proventos da venda.

— Os proventos da venda? — repetiu Prendergast.

— Sim — respondeu Hugo. — Decidi pôr Barrington Hall no mercado.