Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 6 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 4

 

Harry passou os vinte e nove dias seguintes limpando as latrinas da ala A e foi só quando um outro primário apareceu na ala que Hessler finalmente o liberou de suas tarefas e começou a infernizar a vida de outra pessoa.

— Aquele maldito é um psicopata — disse Quinn. — Siddell ainda está disposto a oferecer a você um trabalho na cozinha, mas Hessler o vetou — acrescentou, mas Harry não comentou. — Mas a notícia não é de todo ruim porque acabei de ouvir que Andy Savatori, o bibliotecário assistente, ganhou a condicional. Ele deve ser libertado no próximo mês e, melhor ainda, mais ninguém parece estar interessado pelo trabalho.

— Deakins estaria — disse Harry baixinho. — Então, o que preciso fazer para ter certeza de que vou consegui-lo?

— Nada. Na verdade, tente dar a impressão de que você não está muito interessado e fique longe de Hessler porque sabemos que o diretor está do seu lado.

O mês seguinte se arrastou, cada dia parecia mais longo do que o anterior. Harry visitava a biblioteca todas as terças, quintas e domingos entre seis e sete horas, mas Max Lloyd, o bibliotecário-chefe, não dava motivo para ele acreditar que seria levado em consideração para a vaga. Savatori, seu assistente, continuava de bico fechado, embora obviamente soubesse de algo.

— Acho que Lloyd não quer que eu seja seu assistente — disse Harry depois que as luzes foram apagadas uma noite.

— A opinião de Lloyd não vai ser levada em consideração — disse Quinn. — A decisão é do diretor.

Mas Harry não estava convencido.

— Acho que Hessler e Lloyd estão mancomunados para que eu não consiga a vaga.

— Você está ficando para... qual é mesmo a palavra? — disse Quinn.

— Paranoico.

— Isso, é isso mesmo que você está ficando, embora eu não saiba o que significa.

— Sofrendo de suspeitas infundadas — disse Harry.

— Eu não poderia ter explicado melhor!

Harry não estava convencido de que suas suspeitas fossem infundadas e, uma semana mais tarde, Savatori o puxou para um canto e confirmou seus piores temores.

— Hessler indicou três detentos para que o diretor avalie, e seu nome não está na lista.

— Então, está tudo acabado — disse Harry batendo na lateral da perna. — Serei faxineiro da ala pelo resto dos meus dias.

— Não necessariamente — argumentou Savatori. — Venha me visitar na véspera da minha dispensa.

— Mas aí já vai ser tarde demais.

— Acho que não — disse Savatori sem explicar. — Enquanto isso, estude minuciosamente cada página disto aqui — e entregou a Harry um tomo pesado e encadernado em couro que raramente saía da biblioteca.

 

Harry sentou-se na cama superior do beliche e abriu a capa do manual da prisão com suas 273 páginas. Antes de ter chegado à página 6 começou a fazer anotações. Muito antes de começar a ler o livro uma segunda vez, um plano começara a se formar em sua mente.

Ele sabia que a escolha dos momentos seria crítica e que os dois atos teriam de ser ensaiados, especialmente porque ele estaria no palco quando a cortina subisse. Aceitou que só poderia prosseguir com seu plano depois que Savatori tivesse sido libertado, apesar de, até lá, um novo bibliotecário já ter sido nomeado.

Quando Harry realizou um ensaio detalhado na privacidade da cela, Quinn disse que ele não era apenas paranoico, mas também maluco, pois certamente sua segunda apresentação seria na solitária.

 

O diretor fazia sua ronda mensal de cada ala em uma segunda-feira pela manhã. Então, Harry sabia que teria de esperar três semanas após Savatori ter sido libertado para que ele reaparecesse na ala A. Swanson sempre percorria o mesmo itinerário, e os prisioneiros que davam valor à própria pele sabiam que deviam sumir assim que ele aparecia.

Quando Swanson chegou ao último andar da ala A naquela manhã de segunda-feira, Harry estava esperando para cumprimentá-lo com um esfregão nas mãos. Hessler apareceu atrás do diretor e balançou seu cassetete para indicar que, se Bradshaw dava valor à própria vida, devia se afastar. Harry não se mexeu, deixando o diretor sem opção a não ser parar.

— Bom dia, diretor — disse Harry, como se eles se esbarrassem regularmente.

Swanson ficou surpreso por estar cara a cara com um prisioneiro em sua ronda e mais ainda quando o tal prisioneiro se dirigiu a ele. Olhou mais atentamente para Harry.

— Bradshaw, não é mesmo?

— O senhor tem boa memória.

— Também me lembro do seu interesse por literatura. Fiquei surpreso quando você recusou o trabalho de bibliotecário assistente.

— Nunca me ofereceram essa vaga — disse Harry. — Se tivessem me oferecido, eu teria aceitado de bom grado — acrescentou, causando surpresa no diretor.

Virando-se para Hessler, Swanson disse:

— Você me disse que Bradshaw não quis a vaga.

Harry falou antes que Hessler pudesse reagir.

— Provavelmente foi culpa minha, senhor. Eu não percebi que precisava ter me inscrito para obter a vaga.

— Entendo — disse o diretor. — Bem, isso explicaria tudo. E posso dizer, Bradshaw, que o novo encarregado não sabe a diferença entre Platão e Plutão.

Harry começou a rir. Hessler permaneceu de bico calado.

— Boa analogia, senhor — disse Harry enquanto o diretor tentava prosseguir. Mas Harry não havia terminado. Quando tirou da jaqueta um envelope e o entregou ao diretor, achou que Hessler fosse explodir.

— O que é isso? — Swanson perguntou desconfiado.

— Uma solicitação oficial para me dirigir ao conselho em sua visita trimestral à prisão na próxima terça-feira, minha prerrogativa de acordo com o artigo 32 do Código Penal. Enviei uma cópia da solicitação ao meu advogado, o sr. Sefton Jelks.

Pela primeira vez, o diretor pareceu ansioso. Hessler mal conseguia se conter.

— Você vai fazer uma reclamação? — perguntou cautelosamente o diretor.

Harry olhou direto para Hessler antes de responder.

— De acordo com o artigo 116, é meu direito não revelar a nenhum membro da prisão o motivo pelo qual desejo me dirigir ao conselho, como o senhor certamente sabe, diretor.

— Sim, claro, Bradshaw — disse o diretor com ar agitado.

— Mas é minha intenção, dentre outras coisas, informar ao conselho a importância que o senhor atribui à inclusão da literatura e da religião em nossa vida cotidiana.

Harry deu um passo para o lado a fim de deixar que o diretor seguisse em frente.

— Obrigado, Bradshaw — ele disse. — Muito gentil.

— Vejo você mais tarde, Bradshaw — sibilou Hessler baixinho.

— Aguardo ansioso — disse Harry, alto o suficiente para que o sr. Swanson ouvisse.

 

O confronto de Harry com o diretor foi o principal assunto de conversa entre os prisioneiros na fila do jantar e, quando Quinn voltou da cozinha mais tarde naquela noite, avisou a Harry que o boato que corria na ala era que Hessler o mataria assim que as luzes fossem apagadas.

— Duvido — disse Harry calmamente. — Sabe, o problema de ser valentão é que, do outro lado dessa mesma moeda, você encontra a marca de um covarde.

Quinn não parecia convencido.

Harry não precisou esperar muito para provar seu argumento. Logo depois que as luzes foram apagadas, a porta da cela se abriu e Hessler entrou balançando seu cassetete.

— Quinn, saia — disse ele sem tirar os olhos de Harry.

Depois que o irlandês saiu apressado para o corredor, Hessler fechou a porta da cela e disse:

— Fiquei esperando por isto o dia inteiro, Bradshaw. Você está prestes a descobrir quantos ossos tem seu corpo.

— Acho que não, sr. Hessler — Harry disse sem mexer um músculo.

— E o que você acha que vai salvá-lo? — perguntou Hessler enquanto avançava. — O diretor não está por perto para salvar você desta vez.

— Não preciso do diretor — respondeu Harry. — Não enquanto você estiver sendo avaliado para uma promoção — acrescentou encarando Hessler. — Estou sabendo de fonte segura que você vai se apresentar perante o conselho na próxima terça-feira às duas da tarde.

— E daí? — disse Hessler, a menos de trinta centímetros de distância.

— Você certamente se esqueceu de que eu vou me dirigir ao conselho às dez da manhã do mesmo dia. Um ou dois deles podem ficar curiosos para descobrir por que tantos ossos do meu corpo foram quebrados depois de eu ter ousado falar com o diretor.

Hessler baixou o cassetete com força na lateral do beliche, a centímetros de distância do rosto de Bradshaw, mas Harry não se mexeu.

— Claro — continuou Harry —, é possível que você queira permanecer como guarda de ala pelo resto da vida, mas eu duvido. Nem mesmo você pode ser tão idiota a ponto de arruinar sua única chance de promoção.

Hessler levantou o cassetete outra vez, mas hesitou quando Harry tirou um caderno grosso debaixo do travesseiro.

— Fiz uma extensa lista de regras que você violou nos últimos meses, sr. Hessler, algumas delas em várias ocasiões. Tenho certeza de que o conselho terá interesse em lê-la. Esta noite vou acrescentar mais duas indiscrições: ficar a sós com um prisioneiro em uma cela com a porta fechada, artigo 419, e fazer ameaças físicas quando o prisioneiro não tem como se defender, artigo 512 — recitou, e Hessler deu um passo para trás. — Mas sem dúvida o que mais influenciará a avaliação do conselho em relação à sua promoção será o motivo pelo qual você teve de deixar a Marinha tão rapidamente — ameaçou e Hessler empalideceu. — Certamente não foi porque você foi reprovado no exame para oficial.

— Quem alcaguetou? — perguntou Hessler, suas palavras não mais do que um sussurro.

— Um dos seus ex-colegas de navio que, infelizmente, veio parar aqui. Você o calou dando a ele a posição de bibliotecário assistente. Eu não espero menos do que isso.

Harry entregou o trabalho realizado no último mês a Hessler, fazendo uma pausa para que ele absorvesse aquela última informação antes de acrescentar:

— Vou ficar de boca fechada até o dia em que for libertado, a menos, é claro, que você me dê algum motivo para mudar de opinião. E, se você encostar um dedo que seja em mim, farei com que você seja expulso do serviço carcerário mais rápido do que foi exonerado da Marinha. Fui claro?

Hessler anuiu, mas não falou.

— Além disso, se você decidir implicar com algum outro pobre primário, o trato estará desfeito. Agora, caia fora da minha cela.