Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 30 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 28

 

 

Quando desceu para tomar café na manhã seguinte, Maisie não conseguia lembrar quem a levara para casa ou como ela havia subido até o quarto.

— Eu pus você na cama — disse a mãe enquanto lhe servia uma xícara de chá. — Um jovem e simpático cabo trouxe você de carro para casa. Até me ajudou a carregar você escada acima.

Maisie afundou na cadeira antes de contar lentamente à mãe o que acontecera na noite anterior, deixando-a sem dúvida alguma de como a filha havia gostado da companhia de Mike,

— E você tem certeza de que ele não é casado? — perguntou a mãe.

— Devagar com o andor, mamãe, foi apenas o nosso primeiro encontro.

— Ele parece interessado?

— Acho que ele me convidou para ir ao teatro semana que vem, mas não sei bem em que dia nem em que teatro — disse ela enquanto Stan, o irmão, entrava na cozinha.

Stan se jogou na cadeira na ponta da mesa e esperou que uma tigela de mingau fosse posta na sua frente antes de engolir o conteúdo como se fosse um cão bebendo água em um dia quente. Quando terminou, destampou uma garrafa de Bass e a bebeu de um só gole.

— Quero outra — disse ele. — Afinal, hoje é domingo — acrescentou e arrotou alto.

Maisie nunca falava durante o ritual matutino de Stan e geralmente saía para trabalhar antes que ele tivesse tempo para expressar sua opinião sobre qualquer coisa que passasse por sua mente. Ela se levantou e estava prestes a sair para a missa matutina na igreja St. Mary’s quando ele berrou:

— Senta, mulher! Quero dar uma palavra com você antes da igreja.

Maisie queria ir embora sem dar nenhuma resposta, mas Stan era bem capaz de arrastá-la de volta e deixá-la com um olho roxo, dependendo do seu humor. Ela se sentou novamente.

— Então, o que você vai fazer a respeito das duzentas pratas que vai embolsar? — ele perguntou.

— Como você descobriu?

— Mamãe me contou tudo ontem à noite quando você estava na cidade se engraçando com seu americano grã-fino.

Maisie franziu a testa para a mãe, que ficou sem graça, mas não disse nada.

— Para sua informação, Stan, o major Mulholland é um cavalheiro e o que eu faço no meu tempo livre não é da sua conta.

— Se ele é americano, sua vadia estúpida, vou logo avisando: eles não pedem, acham que têm direito a tudo.

— Como sempre, você fala porque, sem dúvida, tem experiência no assunto — retorquiu Maisie tentando manter a calma.

— Os ianques são todos iguais — disse Stan. — Só querem uma coisa e, quando a conseguem, voltam para casa, e o resto do trabalho sobra para nós, como fizeram na Primeira Guerra.

Maisie percebeu que não fazia sentido continuar a conversa; então, simplesmente ficou sentada esperando que aquela tempestade específica se dispersasse logo.

— Você ainda não me disse o que vai fazer com as duzentas libras — insistiu Stan.

— Ainda não me decidi — respondeu Maisie. — De qualquer maneira, o modo como gasto meu dinheiro não é da sua conta.

— É totalmente da minha conta — disse Stan — porque metade do dinheiro é minha.

— E como você chegou a essa conclusão? — perguntou Maisie.

— Primeiro, levando em consideração que você está morando na minha casa; portanto, tenho direito. E vou logo avisando, garota, caso você esteja querendo me passar para trás: se eu não receber o que me cabe, você vai levar uma surra tão grande que nem mesmo um crioulo americano vai olhar para você novamente.

— Você me dá nojo, Stan — disse Maisie.

— Isso não é nada perto do que você vai sentir se não puser a mão no bolso porque eu vou...

Maisie se levantou, saiu da cozinha, atravessou correndo a sala, pegou o casaco e já estava fora de casa antes que Stan tivesse terminado a frase.

Quando verificou as reservas para o almoço naquele domingo, Maisie logo percebeu que precisava se certificar de que dois dos seus clientes se sentariam o mais longe possível um do outro. Ela pôs Mike Mulholland em sua mesa habitual e Patrick Casey do outro lado do salão, e assim eles não teriam chance de se cruzar.

Ela não via Patrick havia quase três anos e estava imaginando se ele havia mudado. Será que ele ainda tinha aquela irresistível beleza e aquele charme irlandês que a cativaram tanto quando eles se conheceram?

Uma das suas perguntas foi respondida no momento em que ele entrou no salão.

— Que prazer revê-lo depois de tanto tempo, sr. Casey — ela disse antes de acompanhá-lo à mesa.

Muitas mulheres de meia-idade olharam novamente para o belo irlandês que estava atravessando o salão.

— Vai ficar conosco muito tempo desta vez, sr. Casey? — Maisie perguntou enquanto entregava a ele um cardápio.

— Isso depende de você — respondeu Patrick. Ele abriu o cardápio, mas não examinou o conteúdo.

Maisie esperava que ninguém tivesse notado seu rubor. Virou-se e viu Mike Mulholland esperando na recepção; ele nunca permitia que ninguém além de Maisie o acompanhasse até sua mesa. Ela foi apressada até o americano e sussurrou:

— Olá, Mike. Reservei sua mesa de sempre. Quer me seguir, por favor?

— Claro que sim.

Depois que Mike voltou a atenção para o cardápio — embora ele sempre pedisse os mesmos dois pratos todo domingo: a sopa do dia seguida de cozido e Yorkshire pudding —, ela cruzou novamente o salão para anotar o pedido de Patrick.

Durante as duas horas seguintes, Maisie ficou de olho nos dois homens enquanto tentava, ao mesmo tempo, supervisionar outros cem clientes. Quando o relógio da sala de jantar soou três horas, só restavam duas pessoas no salão: John Wayne e Gary Cooper, pensou Maisie, esperando para ver quem sacaria a arma primeiro em OK Corral. Ela dobrou a conta de Mike, pôs sobre um pires e a levou até ele, que pagou sem nem verificar.

— Outra ótima refeição — disse ele antes de sussurrar: — Espero que nosso teatro na terça-feira ainda esteja de pé.

— Com certeza, docinho — disse Maisie, caçoando dele.

— Então, vejo você no Old Vic às oito — disse ele enquanto uma garçonete passava pela mesa.

— Vou aguardar ansiosa, senhor, e pode ter certeza de que transmitirei seus cumprimentos ao chef.

Mike abafou o riso antes de deixar a mesa e cruzar o salão. Depois, virou-se para trás, olhou para Maisie e sorriu.

Quando ele já estava fora de vista, Maisie levou a conta de Patrick. Ele verificou todos os itens e deixou uma gorjeta gorda.

— Você vai fazer algo especial amanhã à noite? — perguntou ele, abrindo um sorriso do qual Maisie se lembrava muito bem.

— Sim, estou frequentando um curso noturno.

— Você está brincando — disse Patrick.

— Não, e não posso me atrasar porque é a primeira aula de um curso de doze semanas.

Ela não disse que ainda não havia decidido se ia realmente levar aquela ideia adiante ou não.

— Então, vai ter de ser na terça-feira — argumentou Patrick.

— Já tenho um encontro na terça-feira.

— É verdade mesmo ou você só está dizendo isso para se livrar de mim?

— Não, vou ao teatro.

— Então, que tal quarta-feira, ou será que essa é a noite das equações algébricas?

— Não, redação e leitura em voz alta.

— Quinta-feira? — insistiu Patrick tentando não parecer exasperado.

— Sim, estou livre na quinta-feira — respondeu Maisie enquanto outra garçonete passava pela mesa deles.

— Que alívio! — disse Patrick. — Eu estava começando a pensar que teria de fazer uma reserva para mais uma semana só para conseguir marcar um encontro.

Maisie riu.

— Então, o que você tem em mente?

— Acho que podíamos começar indo ao...

— Sra. Clifton.

Maisie se virou e viu o gerente do hotel, o sr. Hurst, em pé atrás dela.

— Quando a senhora terminar com esse cliente, queira ter a gentileza de ir até o meu escritório.

Maisie achou que tivesse sido discreta, mas, naquele momento, ficou até com medo de ser demitida porque era contra a política da empresa que os funcionários confraternizassem com os clientes. Foi assim que ela perdeu o emprego anterior e Pat Casey fora o cliente em questão naquela ocasião.

Maisie ficou grata por Patrick ter saído do restaurante sem dizer outra palavra e, depois de verificar a caixa registradora, ela se apresentou no escritório do sr. Hurst.

— Sente-se, sra. Clifton. Tenho um assunto bastante sério para tratar com a senhora.

Maisie se sentou e agarrou os braços da cadeira para parar de tremer.

— Vi que a senhora estava tendo um dia atribulado.

— Cento e quarenta e dois talheres — disse Maisie. — Quase um recorde.

— Não sei como vou substituí-la — disse ele —, mas é a gerência que toma as decisões, e não eu, a senhora entende. Não depende de mim.

— Mas eu gosto do meu trabalho.

— Tenho certeza disso, porém, preciso lhe dizer que, neste caso, concordo com a direção.

Maisie se recostou, pronta para aceitar seu destino.

— Eles deixaram bem claro — continuou o sr. Hurst — que não querem mais que a senhora continue trabalhando na sala de jantar e me pediram para substituí-la o quanto antes.

— Mas por quê?

— Porque eles querem que a senhora passe para a gerência. Francamente, Maisie, se você fosse um homem, já estaria administrando um dos nossos hotéis. Parabéns!

— Obrigada — disse Maisie enquanto começava a pensar nas consequências.

— Vamos tratar logo das formalidades, está bem? — disse o sr. Hurst enquanto abria a gaveta da escrivaninha e tirava lá de dentro uma carta. — Você vai precisar estudar isto com cuidado — ele continuou. São os detalhes do seu novo contrato de trabalho. Depois de ler tudo isto, assine, devolva para mim e eu o encaminharei para o escritório central.

Foi naquele momento que ela tomou a decisão.