Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 28 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 26

 

Maisie sempre depositava o salário e as gorjetas no banco na sexta-feira à tarde.

Não levava nenhum dinheiro para casa porque não queria que Stan descobrisse que ela estava ganhando mais do que ele. Suas duas contas estavam sempre no positivo e, toda vez que a conta corrente mostrava um saldo de dez libras, cinco eram transferidas para a conta poupança, seu pequeno pé-de-meia, como ela a descrevia, caso algo desse errado. Depois do seu revés financeiro com Hugo Barrington, ela sempre achava que algo daria errado.

Naquela sexta-feira, ela esvaziou a bolsa sobre o balcão, e o caixa começou a separar as moedas em pilhas bem ordenadas, como costumava fazer toda semana.

— São quatro xelins e nove pence, sra. Clifton — disse ele, preenchendo a caderneta da conta.

— Obrigada — agradeceu Maisie enquanto o caixa passava a caderneta por baixo da divisória.

Ela a estava guardando na bolsa quando ele acrescentou:

— O sr. Prendergast gostaria de dar uma palavrinha com a senhora.

O coração de Maisie teve um sobressalto. Ela considerava gerentes de banco e cobradores de aluguel uma raça que só transmitia más notícias e, no caso do sr. Prendergast, tinha bons motivos para pensar assim, já que da última vez que ele pediu para vê-la foi para lembrar que não havia saldo suficiente em sua conta para cobrir as despesas de Harry no último período da Bristol Grammar School. Relutante, ela se encaminhou para o escritório do gerente.

— Bom dia, sra. Clifton, disse o sr. Prendergast, levantando-se atrás da mesa enquanto Maisie entrava no escritório. Indicou-lhe uma cadeira. — Eu gostaria de falar com a senhora sobre um assunto particular.

Maisie ficou ainda mais apreensiva. Tentou até se lembrar se havia emitido algum cheque durante as últimas duas semanas que pudessem ter feito sua conta entrar no negativo. Ela havia comprado um vestido alinhado para o baile na base americana para o qual Mike Mulholland a convidara, mas era de segunda mão e estava dentro das suas possibilidades.

— Um estimado cliente do banco — iniciou o sr. Prendergast — perguntou sobre o seu lote em Broad Street, onde costumava ficar a Tilly’s.

— Mas eu achava que tivesse perdido tudo quando o edifício foi bombardeado.

— Não tudo — observou Prendergast. — A escritura do terreno continua em seu nome.

— Mas que valor pode ter aquilo — disse Maisie —, agora que os alemães destruíram a maior parte da vizinhança? Da última vez que caminhei por Chapel Street restavam apenas escombros.

— Pode ser — respondeu o sr. Prendergast —, mas, mesmo assim, meu cliente está disposto a lhe oferecer duzentas libras pela propriedade.

— Duzentas libras? — repetiu Maisie como se tivesse ganhado na loteria.

— É o valor que ele está disposto a pagar — confirmou Prendergast.

— Quanto o senhor acha que vale o terreno? — perguntou Maisie pegando o gerente do banco de surpresa.

— Não faço ideia, senhora — respondeu ele. — Sou um bancário, e não um especulador imobiliário.

Maisie permaneceu em silêncio por alguns instantes.

— Por favor, diga ao seu cliente que eu gostaria de alguns dias para pensar a respeito.

— Claro — disse Prendergast. — Mas fique ciente de que meu cliente me instruiu para manter a oferta por uma semana apenas.

— Então, terei de tomar uma decisão até a próxima sexta-feira — disse Maisie desafiadora.

— Como quiser, senhora — disse Prendergast quando Maisie se levantou para sair. — Ficarei à sua espera na próxima sexta-feira.

Quando saiu do banco, Maisie não podia deixar de pensar que o gerente nunca a chamara de “senhora” antes. Enquanto caminhava até a própria casa, passando por residências com cortinas pretas nas janelas — Maisie só pegava o ônibus quando estava chovendo —, ela começou a pensar em como gastaria duzentas libras, mas aqueles devaneios logo deram lugar a questionamentos sobre quem poderia aconselhá-la e dizer se aquele era um valor justo ou não.

O sr. Prendergast dera a entender que se tratava de uma oferta razoável, mas de que lado ele estava? Talvez ela fosse conversar com o sr. Hurst, mas, muito antes de chegar em Still House Lane, Maisie decidiu que não seria profissional envolver o chefe em um assunto pessoal. Mike Mulholland parecia um homem astuto e inteligente, mas o que ele podia saber a respeito do valor de terrenos em Bristol? Quanto a Stan, seu irmão, não fazia sentido algum pedir sua opinião, pois ele certamente diria: “Pegue o dinheiro e fuja, garota.” Pensando bem, a última pessoa que ela queria que soubesse da sua renda inesperada era Stan.

Quando Maisie entrou em Merrywood Lane, já estava escurecendo e os moradores estavam se preparando para o blecaute. Ela não havia avançado na resolução do seu problema. Ao passar pelo portão da escola primária onde Harry havia estudado, sua mente foi tomada por lembranças felizes e ela silenciosamente agradeceu ao sr. Holcombe por tudo o que havia feito por seu filho. De repente, Maisie estacou. O sr. Holcombe era um homem inteligente; afinal, havia se formado na Bristol University. Ele certamente poderia ajudá-la.

Maisie deu meia-volta e se dirigiu ao portão da escola, mas, quando entrou no pátio, não havia ninguém à vista. Ela olhou para o relógio; alguns minutos depois das cinco. Todas as crianças já deviam ter ido para casa havia algum tempo; portanto, o sr. Holcombe também já deveria ter partido.

Ela atravessou o pátio, abriu a porta da escola e entrou em um corredor conhecido. Era como se o tempo tivesse parado: as mesmas paredes de tijolinhos vermelhos, apenas mais algumas iniciais rabiscadas neles, as mesmas pinturas coloridas penduradas na parede, só que de outras crianças, as mesmas taças de futebol, só que vencidas por outra equipe. Porém, no lugar onde costumavam ficar os bonés escolares estavam penduradas máscaras antigás. Ela se lembrou da primeira vez em que foi falar com o sr. Holcombe para se queixar das marcas vermelhas que encontrou nas costas de Harry na hora do banho. Ele permaneceu calmo enquanto ela perdia as estribeiras, e Maisie saiu dali uma hora mais tarde sem ter dúvida de quem era o culpado.

Maisie percebeu uma luz que filtrava por baixo da porta da sala de aula do sr. Holcombe. Hesitou, respirou fundo e bateu de leve no vidro martelado.

— Entre — disse a voz alegre da qual ela se recordava tão bem.

Ela entrou na sala e encontrou o sr. Holcombe sentado atrás de uma pilha alta de livros, movendo sua caneta sobre papel. Ela estava prestes a lembrar a ele quem era quando ele se levantou de supetão e disse:

— Que surpresa agradável, sra. Clifton, especialmente se for comigo mesmo que a senhora queira falar!

— Sim, é com o senhor mesmo — Maisie respondeu um pouco aturdida. — Desculpe incomodá-lo, sr. Holcombe, mas preciso de um conselho e não sabia a quem mais poderia recorrer.

— Fico lisonjeado — disse o diretor, oferecendo-lhe uma cadeirinha normalmente ocupada por uma criança de oito anos. — Em que posso ajudar?

Maisie contou do encontro com o sr. Prendergast e da oferta de £200 pelo terreno em Broad Street.

— O senhor acha que é um preço justo? — perguntou.

— Não faço ideia — disse o sr. Holcombe, balançando a cabeça. — Não tenho experiência em assuntos desse tipo e não gostaria de lhe dar um conselho errado. Na verdade, achei que a senhora tivesse vindo falar comigo sobre outro assunto.

— Outro assunto? — repetiu Maisie.

— Sim, eu esperava que a senhora tivesse visto o aviso no quadro fora da escola e tivesse vindo se inscrever.

— Inscrever-se em quê? — perguntou ela.

— Em um dos novos programas do governo para aulas noturnas que visam a ajudar pessoas como a senhora, que são obviamente inteligentes, mas não tiveram oportunidade de continuar os estudos.

Maisie não quis admitir que, mesmo que tivesse visto o aviso, teria tido dificuldade para lê-lo.

— Estou atarefada demais no trabalho para pensar em começar qualquer outra coisa no momento — disse ela. — Com o hotel e... e...

— Lamento ouvir isso — observou Holcombe —, pois acho que a senhora seria uma candidata ideal. Eu mesmo vou dar a maioria das aulas e seria um grande prazer lecionar para a mãe de Harry Clifton.

— É só que...

— Seria apenas uma hora, duas vezes por semana — continuou ele, recusando-se a se dar por vencido. — As aulas são à noite e nada a impede de desistir se achar que não lhe convêm.

— Foi muita gentileza sua pensar em mim, sr. Holcombe. Talvez quando eu estiver menos ocupada.

Ela se levantou e trocou um aperto de mão com o diretor.

— Lamento não ter podido ajudá-la com seu problema, sra. Clifton — disse ele enquanto a acompanhava até a porta. — Veja bem, esse é um problema bastante agradável.

— Agradeço por seu tempo, sr. Holcombe — respondeu Maisie antes de ir embora. Atravessou o corredor, o pátio e saiu pelo portão da escola. Parou na calçada e ficou olhando para o quadro de avisos. Como ela gostaria de saber ler!