Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 21 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 19

 

 

Após ter retornado ao quarto de hotel, Emma verificou o verso do cardápio do almoço e se deliciou confirmando que conseguira ticar quase todas as perguntas. Achou que a exigência de que os cadernos fossem entregues no saguão do no 49 da Wall Street foi um toque de inspiração, pois deve ter deixado Lloyd com a clara impressão de que o sr. Jelks era o advogado dela, o que teria amedrontado até um homem totalmente inocente. Mas ainda estava intrigada com o que Lloyd queria dizer quando deixou escapar as palavras Então é Jelks que está por trás disso. Bem, isso explica tudo. Ela apagou a luz e dormiu profundamente pela primeira vez desde que deixara a Inglaterra.

A rotina matinal de Emma seguiu em grande parte o mesmo padrão dos dias anteriores. Após um café da manhã sem pressa, na companhia apenas do New York Times, ela deixou o hotel e tomou um táxi para Wall Street. Havia planejado chegar alguns minutos adiantada e o táxi a deixou em frente ao edifício às 9h51. Ao entregar ao taxista uma moeda de 25 cents, ficou aliviada por sua visita a Nova York estar chegando ao fim; aquela estadia havia se revelado bem mais cara do que o previsto. Duas refeições no Brasserie com uma garrafa de vinho de cinco dólares, além de gorjetas, não ajudaram.

Entretanto, ela não tinha dúvida de que a viagem fora válida. Sobretudo porque as fotografias tiradas a bordo do Kansas Star confirmaram sua crença de que Harry ainda estava vivo e, por algum motivo, havia assumido a identidade de Tom Bradshaw. Após pôr as mãos no caderno que faltava, o resto do mistério se desvendaria e, certamente, ela conseguiria convencer o detetive Kolowski de que Harry deveria ser libertado. Ela não tinha intenção alguma de voltar à Inglaterra sem ele.

Emma se juntou a uma turba de funcionários de escritório que estavam entrando no edifício. Todos se dirigiram para o elevador mais próximo, mas Emma não os seguiu. Postou-se estrategicamente entre a recepção e a coluna de doze elevadores, o que lhe dava uma visão desimpedida de todos que entravam no edifício no 49 da Wall Street .

Olhou o relógio de pulso: 9h54. Nenhum sinal de Lloyd. Olhou novamente às 9h57, 9h58, 9h59 e 10 horas. Ele deve ter ficado preso no trânsito. 10h02, seus olhos pousaram por uma fração de segundo em cada uma das pessoas que entravam. 10h04, será que ela não o viu? 10h06, ela olhou para a recepção: ainda nenhum sinal dele. 10h08, tentou impedir que pensamentos negativos penetrassem em sua mente. 10h11, será que ele descobriu o blefe dela? 10h14, será que seu próximo encontro teria de ser com o sr. Brett Elders? 10h17, quanto tempo ainda ela estava disposta a esperar? 10h21, e uma voz atrás dela disse:

— Bom dia, srta. Barrington.

Emma virou-se e deu de cara com Samuel Anscott, o qual disse educadamente:

— O sr. Jelks gostaria de saber se a senhorita faria a gentileza de ir até o escritório dele.

Sem dizer mais nada, Anscott se virou e se dirigiu até um elevador que o estava esperando. Emma entrou quando as portas já estavam quase se fechando.

Estava fora de cogitação conversar enquanto o elevador lotado subia lenta e ininterruptamente até o vigésimo segundo andar, no qual Anscott desceu e guiou Emma através de um longo corredor revestido com lambris de carvalho nas paredes e um carpete grosso no chão, repleto de retratos dos sócios anteriores da firma e seus colegas do conselho, o que dava uma impressão de honestidade, integridade e propriedade.

Emma gostaria de ter feito perguntas a Anscott antes de encontrar Jelks pela primeira vez, mas ele permaneceu vários passos à sua frente. Quando chegou a uma porta no final do corredor, Anscott bateu e a abriu sem esperar uma resposta. Afastou-se para permitir que Emma entrasse; em seguida, fechou a porta, mas não se juntou a eles.

Lá, sentado em uma confortável cadeira de espaldar alto ao lado da janela, estava Max Lloyd. Ele estava fumando um cigarro e abriu para Emma o mesmo sorriso do primeiro encontro dos dois na Doubleday’s.

Ela voltou sua atenção para um homem alto e elegantemente vestido que se levantou lentamente de trás da sua mesa. Nenhum sinal de sorriso nem qualquer sugestão de que eles deveriam trocar um aperto de mão. Atrás dele, estava uma parede de vidro através da qual era possível ver os altos edifícios que se erguiam rumo ao céu, sugerindo um poder irrestrito.

— É gentileza sua unir-se a nós, srta. Barrington — disse ele. — Por favor, sente-se.

Emma acomodou-se em uma poltrona de couro tão profunda que quase a fez desaparecer. Ela notou uma pilha de cadernos sobre a mesa do principal sócio da firma.

— Meu nome é Sefton Jelks — iniciou ele — e tenho o privilégio de representar o distinto e aclamado escritor Max Lloyd. Meu cliente me visitou mais cedo esta manhã para me dizer que havia sido abordado por alguém que se diz uma agente literária de Londres e o acusa, caluniosamente, de não ser o autor de O diário de um condenado, que leva seu nome. Talvez seja do seu interesse saber, srta. Barrington — prosseguiu Jelks —, que tenho em meu poder o manuscrito original com todas as palavras redigidas pela mão do sr. Lloyd.

Jelks pôs com firmeza o punho sobre os cadernos e se permitiu um esboço de sorriso.

— O senhor me permitiria ver um? — perguntou Emma.

— Claro — respondeu Jelks, tirou o caderno que estava no topo da pilha e o entregou a ela.

Emma o abriu e começou a ler. A primeira coisa que notou é que não estava escrito com a caligrafia de Harry. Mas era a voz de Harry. Ela devolveu o caderno ao sr. Jelks, que o recolocou no topo da pilha.

— Posso ver um dos outros? — perguntou ela.

— Não. Provamos nosso argumento, srta. Barrington. E meu cliente lançará mão de todos os recursos facultados pela lei caso a senhorita seja suficientemente tola para repetir suas calúnias — disse o advogado. Emma continuou olhando para a pilha de cadernos enquanto Jelks prosseguia a todo vapor. — Também julguei apropriado falar com o sr. Elders no intuito de alertá-lo de que a senhorita talvez venha a contatá-lo e que, caso ele concorde em recebê-la, será certamente arrolado como testemunha caso essa questão chegue a um tribunal. O sr. Elders achou, tudo somado, que o melhor seria evitar encontrá-la. Um homem sensato.

Emma continuou a olhar para a pilha de cadernos.

— Srta. Barrington, não foi necessário realizar extensas pesquisas para descobrir que a senhorita é a neta de Lord Harvey e Sir Walter Barrington, o que explicaria sua inapropriada confiança ao lidar com americanos. Permita-me sugerir que, se a senhorita quiser continuar tentando se passar por agente literária, eu talvez possa lhe dar alguns conselhos gratuitos, algo de domínio publico. Ernest Hemingway deixou os Estados Unidos para viver em Cuba em 1939...

— Quanta generosidade sua, sr. Jelks — interrompeu Emma antes que ele pudesse prosseguir. — Permita-me retribuir oferecendo alguns conselhos gratuitos. Sei muito bem que foi Harry Clifton — Jelks apertou os olhos —, e não o seu cliente, que escreveu O diário de um condenado . Se o senhor for suficientemente tolo para apresentar uma ação de calúnia contra mim, talvez vá parar no tribunal e tenha de explicar por que defendeu um homem acusado de homicídio sabendo que não se tratava do tenente Tom Bradshaw.

Jelks começou a apertar freneticamente um botão embaixo da sua mesa. Emma se levantou da poltrona, sorriu meiga para ambos e saiu da sala sem dizer mais nada. Atravessou rapidamente o corredor em direção ao elevador enquanto o sr. Anscott e um segurança passavam apressados por ela a caminho do escritório do sr. Jelks. Pelo menos ela evitara a humilhação de ser escoltada para fora do recinto.

Quando ela entrou no elevador, o ascensorista perguntou:

— Qual andar, senhorita?

— Rés do chão, por favor.

O ascensorista deu uma risadinha.

— A senhorita deve ser inglesa.

— Por que você diz isso?

— Aqui nós dizemos “térreo”.

— Claro — disse Emma, sorrindo para ele ao sair do elevador.

Ela atravessou o saguão, passou pela porta giratória e desceu rapidamente os degraus até a calçada sabendo perfeitamente o que teria de fazer em seguida. Só havia uma pessoa a quem ela ainda podia recorrer. Afinal, uma irmã de Lord Harvey devia ser uma aliada formidável. Ou será que a tia-avó Phyllis se revelaria uma amiga íntima de Sefton Jelks? Nesse caso, Emma pegaria o próximo navio de volta para a Inglaterra.

Ela chamou um táxi, mas, quando entrou no carro, quase teve de gritar para ser ouvida, tamanho era o barulho do rádio.

— Sessenta e Quatro e Park — ela disse, imaginando como poderia explicar à tia-avó por que não a visitara antes.

Emma inclinou-se para frente e teria pedido ao motorista para abaixar o volume se não tivesse ouvido as palavras: “O presidente Roosevelt se dirigirá à nação às 12h30, hora da Costa Leste.”