Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 20 de 48

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Os Pecados do Pai

Emma Barrington - 1941

EMMA BARRINGTON

 

1941

18

 

Emma se sentou sozinha no seu quarto de hotel e leu O diário de um condenado de cabo a rabo. Ela não sabia quem era Max Lloyd, mas tinha certeza de uma coisa: ele não era o autor.

Só um homem podia ter escrito aquele livro. Ela reconheceu muitas expressões familiares, e Lloyd nem se deu ao trabalho de mudar os nomes, a menos, é claro, que ele tivesse uma namorada chamada Emma e ainda a adorasse.

Emma virou a última página pouco antes da meia-noite e decidiu dar um telefonema para alguém que ainda estaria trabalhando.

— Só mais um favor — ela implorou quando a voz dele surgiu na linha.

— Tente — ele disse.

— Preciso do nome do oficial de condicional de Max Lloyd.

— Max Lloyd, o escritor?

— Exatamente.

— Nem vou perguntar por quê.

Ela começou a ler o livro pela segunda vez, fazendo anotações a lápis na margem, mas, muito antes de o novo assistente do bibliotecário ter surgido, caiu no sono. Acordou por volta das cinco horas da manhã seguinte e só parou de ler quando um guarda da prisão entrou na biblioteca e disse: “Lloyd, o diretor quer ver você.”

Emma tomou um banho demorado e pensou que todas as informações que ela estivera tentando obter com tanta dificuldade estavam disponíveis por um dólar e meio em qualquer livraria.

Depois de se vestir, ela desceu para tomar o café da manhã e pegou uma cópia do New York Times . Ficou surpresa ao se deparar com uma resenha de O diário de um condenado enquanto folheava o jornal.

Devemos ficar gratos ao sr. Lloyd por nos chamar a atenção para algo que está acontecendo em nossas prisões hoje. Lloyd é um escritor virtuoso com um verdadeiro talento e, agora que ele foi libertado, esperamos que não largue sua caneta...

Ele nunca a pegou, para início de conversa, pensou Emma indignada enquanto assinava a conta.

Antes de voltar a subir para o quarto, ela pediu ao recepcionista para recomendar um bom restaurante perto da livraria Doubleday’s.

— O Brasserie, senhorita. Tem excelente reputação. Gostaria que eu reservasse uma mesa?

— Sim, por favor — respondeu Emma. — Eu gostaria de uma mesa para uma pessoa no almoço hoje e outra para duas pessoas esta noite.

O recepcionista estava aprendendo muito rapidamente a não ficar surpreso com a dama inglesa.

Emma voltou ao quarto e se acomodou para reler o diário. Ficou se perguntando por que a narrativa começava com a chegada de Harry em Lavenham, apesar de haver várias referências espalhadas pelo livro que sugeriam que suas experiências também haviam sido registradas, embora não tivessem sido vistas pelo editor e, certamente, nem pelo público. Na verdade, isso convenceu Emma que devia haver um outro caderno que não apenas descrevesse a prisão e o julgamento de Harry, mas talvez explicasse por que ele havia optado por um tal suplício quando um advogado com a reputação do sr. Jelks certamente devia saber que ele não era Tom Bradshaw.

Depois de ler as páginas marcadas do diário pela terceira vez, Emma decidiu que um longo passeio no parque era necessário. Enquanto caminhava pela avenida Lexington, ela entrou na Bloomingdales e fez uma encomenda que lhe asseguraram que estaria pronta às 15h. Em Bristol, a mesma encomenda teria demorado duas semanas.

Enquanto caminhava pelo parque, um plano começou a se formar em sua mente, mas ela precisava voltar à Doubleday’s e inspecionar com mais cuidado a disposição da loja antes de dar os retoques finais. Quando entrou na livraria, os funcionários já estavam se preparando para a sessão de autógrafos. Uma mesa estava posicionada, e uma área isolada por cordões mostrava claramente onde a fila deveria se formar. O pôster na vitrine exibia larga faixa vermelha que declarava: HOJE.

Emma selecionou um espaço entre duas filas de prateleiras de onde ela teria uma visão clara de Lloyd durante a sessão de autógrafos e poderia observar sua presa enquanto preparava sua armadilha.

Ela saiu da Doubleday’s pouco antes das 13h e se encaminhou para o Brasserie. Um garçom lhe mostrou uma mesa que jamais seria considerada aceitável por qualquer um de seus avós. Mas a refeição, como prometido, era de primeira classe e, quando a conta foi apresentada, ela respirou fundo e deixou uma gorjeta gorda.

— Reservei uma mesa para esta noite — Emma disse ao garçom. — Seria possível que fosse em uma alcova?

O garçom exibiu um ar duvidoso até Emma mostrar uma nota de um dólar que pareceu eliminar qualquer dúvida. Ela estava aprendendo como as coisas funcionavam nos Estados Unidos.

— Qual é seu nome? — Emma perguntou enquanto passava a nota para ele.

— Jimmy — respondeu o garçom.

— E outra coisa, Jimmy.

— Pois não, madame.

— Posso ficar com uma cópia do cardápio?

— Claro, madame.

No caminho de volta para o Mayflower, Emma parou na Bloomingdales e retirou sua encomenda. Ela sorriu quando o atendente mostrou um exemplo do cartão.

— Espero que seja do seu gosto, madame.

— Não poderia ser melhor — disse Emma.

Depois de voltar ao seu quarto, ela recapitulou várias vezes as perguntas preparadas e, após decidir qual era a melhor ordem possível, as anotou com capricho no verso do cardápio. Exausta, deitou-se na cama e caiu em sono profundo.

Quando o toque persistente do telefone a acordou, já estava escuro do lado de fora. Ela olhou o relógio: 17h10.

— Droga — ela disse enquanto pegava o telefone.

— Sei qual é a sensação — disse uma voz do outro lado da linha —, mas eu usaria outra palavra para expressá-la — acrescentou. Emma riu. — O nome que você está procurando é Brett Elders... Eu não disse nada a você.

— Obrigada — agradeceu Emma. — Vou tentar não incomodá-lo novamente.

— Quem dera! — disse o detetive, e a ligação foi encerrada.

Emma anotou com capricho o nome Brett Elders a lápis no canto superior direito do cardápio. Gostaria de ter tomado um banho rápido e trocado de roupa, mas já estava atrasada e não podia se dar ao luxo de não encontrá-lo.

Pegou o cardápio e três cartões. Enfiando tudo na bolsa, saiu apressada porta afora e desceu pela escada para não ter de esperar o elevador. Chamou um táxi e se sentou no banco traseiro.

— Doubleday’s na Quinta — disse —, e rápido, por favor.

Essa não, Emma pensou enquanto o táxi acelerava. O que está acontecendo comigo?

 

Emma entrou na livraria lotada e foi para o seu lugar escolhido entre política e religião, de onde podia observar Max Lloyd em ação.

Ele estava autografando cada livro com um floreio e comprazia da atenção de seus adoradores. Emma sabia que era Harry que devia estar sentado ali recebendo os elogios. Será que ele sabia que seu trabalho havia sido publicado? Ela descobriria naquela noite?

Na verdade, ela não precisava ter se afobado porque Lloyd continuou autografando seu best-seller durante mais uma hora, até que a fila começou a diminuir. Ele demorava mais a cada mensagem na esperança de que aquilo atraísse outras pessoas para a fila.

Enquanto ele conversava expansivamente com a última leitora na fila, Emma saiu do seu posto e foi até lá.

— E como está sua querida mãe? — perguntava a leitora efusivamente.

— Muito bem, obrigado — respondeu Lloyd. — Ela não precisa mais trabalhar em um hotel — acrescentou — após o sucesso do meu livro.

A leitora sorriu.

— E Emma, se me permite perguntar?

— Vamos nos casar no outono — disse Lloyd após ter autografado o exemplar.

Vamos mesmo?, pensou Emma.

— Ah, fico muito feliz — disse a leitora. — Ela sacrificou tanta coisa por você. Mande meus cumprimentos a ela.

Por que você não se vira e faz isso pessoalmente?, Emma queria dizer.

— Certamente — disse Lloyd enquanto entregava a ela o livro e abria o mesmo sorriso da foto na contracapa.

Emma deu um passo à frente e entregou um cartão a Lloyd. Ele o estudou por um instante antes que o mesmo sorriso reaparecesse.

— Uma colega agente literária — disse ele, levantando-se para cumprimentá-la.

Emma apertou sua mão estendida e, de alguma maneira, conseguiu retribuir o sorriso.

— Sim — ela disse —, e vários editores em Londres estão demonstrando muito interesse pelos direitos do seu livro. Obviamente, se o senhor já tiver assinado um contrato ou for representado por outro agente na Inglaterra, eu não gostaria de desperdiçar seu tempo.

— Não, não, minha cara senhora. Ficarei muito feliz em avaliar qualquer proposta que a senhora possa ter.

— Então, o senhor aceitaria jantar comigo para falarmos mais a respeito?

— Acho que estão esperando que eu jante com eles — sussurrou Lloyd, gesticulando com uma mão portentosa na direção de alguns dos funcionários da Doubleday’s.

— Que pena! — disse Emma. — Estou voando para L.A. amanhã para visitar Hemingway.

— Então, vou ter de desapontá-los, não é mesmo? — disse Lloyd. — Tenho certeza de que eles vão entender.

— Ótimo. Podemos nos encontrar no Brasserie então, quando o senhor tiver terminado de autografar?

— Será difícil conseguir uma mesa tão em cima da hora.

— Acho que isso não será um problema — disse Emma antes que o último leitor avançasse na esperança de ainda conseguir um autógrafo. — Estou ansiosa para encontrá-lo mais tarde, sr. Lloyd.

— Max, por favor.

Emma saiu da livraria e atravessou a Quinta Avenida até o Brasserie. Daquela vez, ela não ficou esperando.

— Jimmy — ela disse enquanto o garçom a acompanhava a uma mesa em uma alcova. — Um cliente muito importante vai se juntar a mim e quero que esta seja uma noite inesquecível para ele.

— Pode contar comigo, madame — o garçom disse enquanto Emma se sentava.

Depois que ele se foi, ela abriu a bolsa, tirou o cardápio e releu mais uma vez a lista das perguntas. Quando viu Jimmy vindo na sua direção seguido por Max Lloyd, virou o cardápio.

— Você obviamente é conhecida aqui — disse Lloyd enquanto se acomodava em frente a Emma.

— É meu restaurante favorito em Nova York — disse Emma retribuindo o sorriso.

— Alguma bebida, senhor?

— Manhattan com gelo.

— E madame?

— O de sempre, Jimmy.

O garçom saiu apressado. Emma estava curiosa para descobrir com o que ele voltaria.

— Por que não fazemos o pedido? — disse Emma — Em seguida, podemos tratar de negócios.

— Boa ideia — respondeu Lloyd. — Embora eu já saiba exatamente o que quero — acrescentou enquanto o garçom reaparecia e colocava um Manhattan à sua frente e uma taça de vinho branco ao lado de Emma, a bebida que ela pedira no almoço. Ela ficou impressionada.

— Jimmy, acho que estamos prontos para fazer o pedido.

O garçom anuiu e se virou para o convidado de Emma.

— Quero um dos seus suculentos filés. Ao ponto, e não economize nas guarnições.

— Certamente, senhor — assegurou Jimmy. Voltando-se para Emma, perguntou: — Que tentação posso lhe oferecer esta noite, madame?

— Uma Caesar salad, por favor, Jimmy, mas não carregue no molho.

Quando o garçom não estava mais por perto, ela virou novamente o cardápio, embora não precisasse de lembretes para a primeira pergunta.

— O diário só cobria dezoito meses do seu período no cárcere — disse ela —, mas sua pena foi de mais de dois anos; portanto, espero que tenhamos um outro volume.

— Ainda tenho um caderno cheio de material — disse Lloyd, relaxando pela primeira vez. — Andei pensando em incorporar alguns dos eventos mais extraordinários que vivenciei a um romance que planejei escrever.

Porque, se você os escrevesse sob forma de diário, qualquer editor perceberia que você não era o autor, Emma quis dizer.

O sommelier apareceu ao lado de Lloyd, chamado pela demanda de uma taça vazia.

— O senhor gostaria de ver a carta de vinhos? Algo para complementar o filé talvez?

— Boa ideia — disse Lloyd, abrindo o livro grosso e encadernado em couro como se fosse o anfitrião. Correu o dedo por um extensa lista de borgonhas e parou próximo ao final. — Uma garrafa do 37, eu acho.

— Excelente escolha, senhor.

Emma deduziu que aquilo significava que não era barato. Mas aquela não era uma ocasião para reclamar de preços.

— E que pessoa asquerosa Hessler se revelou — disse ela, olhando para a segunda pergunta. — Eu achava que esse tipo de gente só existia em romances baratos ou filmes de série B.

— Não, ele era bastante real — observou Lloyd. — Mas eu consegui que fosse transferido para outra prisão, se é que se recorda.

— Sem dúvida — disse Emma enquanto um grande filé era posto na frente de seu convidado, e uma Caesar salad era deixada no seu lado da mesa. Lloyd pegou o garfo e a faca, claramente preparado para o desafio.

— Então me diga que tipo de proposta você tem em mente? — perguntou enquanto atacava o filé.

— Uma na qual você recebe exatamente o que vale — respondeu Emma, o tom de sua voz mudando —, e nem um tostão a mais. — Um olhar confuso apareceu no rosto de Lloyd, e ele apoiou o garfo e a faca enquanto esperava que Emma continuasse. — Tenho plena consciência, sr. Lloyd, de que o senhor não escreveu uma palavra de O diário de um condenado além de substituir o nome do verdadeiro autor pelo seu — ela disparou. Lloyd abriu a boca, mas, antes que ele tivesse tempo de protestar, Emma prosseguiu: — Se for tolo o suficiente para manter a farsa de autor do livro, minha primeira visita pela manhã será ao sr. Brett Elders, seu oficial de condicional, e não será para discutir como anda a sua reabilitação.

O sommelier reapareceu, sacou a rolha de uma garrafa e esperou que dissessem quem provaria o vinho. Lloyd estava olhando para Emma como um coelho diante do brilho dos faróis de um carro. Então, ela fez um ligeiro gesto com a cabeça. Deteve-se girando o vinho na taça antes de tomar um gole.

— Excelente — ela disse por fim. — Aprecio particularmente o 37.

O sommelier se inclinou levemente, serviu duas taças e se retirou em busca de outra vítima.

— Você não pode provar que não fui eu que escrevi — disse Lloyd em tom de desafio.

— Posso, sim — rebateu Emma — porque represento o verdadeiro autor — fez uma pausa para tomar um gole de vinho e acrescentar: — Tom Bradshaw.

Lloyd afundou na cadeira e caiu em um silêncio amuado.

— Portanto, deixe-me explicar o acordo que estou propondo, sr. Lloyd, e, ao mesmo tempo, esclarecer que não há espaço para negociação, a menos, é claro, que o senhor queira voltar para a prisão com a acusação de fraude e também de roubo. Caso o senhor vá parar em Pierpoint, sinto que o sr. Hessler ficará muito feliz em acompanhá-lo à sua cela, já que a impressão que o livro deixa dele não é lá muito boa.

A ideia não parecia apetecer muito a Lloyd.

Emma tomou outro gole de vinho antes de continuar.

— O sr. Bradshaw generosamente concordou que o senhor dê continuidade ao mito de que escreveu o diário, e nem vai esperar que o senhor devolva o adiantamento recebido, que, de qualquer maneira, suspeito que o senhor já tenha gastado. No entanto — prosseguiu enquanto Lloyd franzia os lábios —, ele deseja deixar claro que, caso o senhor seja suficientemente tolo para tentar vender os direitos em qualquer outro país, uma intimação por roubo de direitos autorais será emitida contra o senhor e a respectiva editora. Está claro?

— Sim — resmungou Lloyd, agarrando os braços da cadeira.

— Muito bem. Então, está tudo acertado — disse Emma e, após tomar outro gole de vinho, acrescentou: — Tenho certeza de que o senhor vai concordar, sr. Lloyd, que não há propósito em continuarmos esta conversa; portanto, talvez tenha chegado a hora de o senhor se retirar.

Lloyd hesitou.

— Vamos nos encontrar novamente às 10h amanhã em Wall Street, 49.

— Wall Street, 49?

— O escritório do sr. Sefton Jelks, o advogado de Tom Bradshaw.

— Então é Jelks que está por trás disso. Bem, isso explica tudo.

Emma não entendeu o que ele quis dizer, mas retrucou:

— O senhor levará todos os cadernos que estão em seu poder e os entregará. Caso esteja um minuto que seja atrasado, instruirei o sr. Jelks a ligar para o seu oficial de condicional e dizer o que o senhor andou aprontando desde que saiu de Lavenham. Roubar os ganhos de um cliente é uma coisa, mas dizer que escreveu o livro dele...

Lloyd continuou segurando os braços da cadeira, mas não disse nada.

— Pode se retirar agora, sr. Lloyd — disse Emma. — Espero vê-lo no saguão de Wall Street, 49, às 10h amanhã. Não se atrase, a menos que queira que seu próximo encontro seja com o sr. Elders.

Lloyd se levantou cambaleante e atravessou lentamente o restaurante, deixando um ou dois clientes se perguntando se ele estava bêbado. Um garçom segurou a porta aberta para ele e, depois, correu até a mesa de Emma. Vendo o filé intacto e uma taça de vinho cheia, ele disse ansioso:

— Espero que tudo esteja de acordo, srta. Barrington.

— Não poderia ter sido melhor, Jimmy — disse ela, servindo-se de outra taça de vinho.