Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 45 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 43

 

Harry acordou na manhã seguinte e encontrou a mãe, mais toda a família Barrington, sentada em volta da sua cama.

Os únicos ausentes eram Sebastian e o tio Stan, que, na opinião de todos, não fariam nenhuma contribuição séria.

— O médico disse que você pode ir para casa — anunciou Emma.

— Ótima notícia — disse Harry. — Mas onde fica minha casa? Se significa voltar para Still House Lane e viver com o tio Stan, prefiro ficar no hospital ou até mesmo voltar para a prisão.

Ninguém riu.

— Estou morando agora em Barrington Hall — disse Giles. — Então, por que você não vai morar comigo? Aposentos não faltam.

— Tem inclusive uma biblioteca — disse Emma. — Assim você não vai ter desculpas para não continuar a trabalhar no romance.

— E você pode ir visitar Emma e Sebastian sempre que quiser — acrescentou Elizabeth Barrington.

Harry não reagiu por algum tempo.

— Vocês estão todos sendo muito gentis — conseguiu dizer por fim — e, por favor, não pensem que não sou grato, mas não posso acreditar que era necessária a presença da família inteira para decidir onde vou morar.

— Há outro motivo para querermos conversar com você — disse Lord Harvey — e a família me pediu para falar em nome de todos.

Harry se sentou ereto e dedicou toda a atenção ao avô de Emma.

— Uma questão grave surgiu em relação ao futuro da propriedade Barrington — começou Lord Harvey. — Os termos do testamento de Joshua Barrington se revelaram um pesadelo jurídico, só perdem para Jarndyce e Jarndyce, e podem terminar sendo igualmente debilitantes do ponto de vista financeiro.

— Mas não tenho interesse nem no título nem na propriedade — disse Harry. — Meu único desejo é provar que Hugo Barrington não era meu pai para que eu possa me casar com Emma.

— Graças a Deus — disse Lord Harvey. — Porém, preciso colocá-lo a par de algumas complicações que podem ter surgido.

— Fale, por favor, pois não consigo ver problema algum.

— Vou tentar explicar. Após a morte intempestiva de Hugo, como Lady Barrington havia sofrido duas tributações onerosas devido a impostos de transmissão e como eu estou com mais de 70 anos, eu disse a ela que seria interessante que nossas duas empresas, a Barrington’s e a Harvey’s, unissem suas forças. Isso, como você pode imaginar, foi em um momento no qual ainda acreditávamos que você estivesse morto. Portanto, qualquer controvérsia a respeito de quem herdaria o título e a propriedade parecia ter sido resolvida, ainda que de maneira infeliz, possibilitando que Giles se tornasse o chefe da família.

— E, no que me diz respeito, continua sendo possível — disse Harry.

— O problema é que outras partes interessadas se envolveram e as consequências agora vão muito além das pessoas que aqui se encontram. Quando Hugo foi assassinado, eu assumi o cargo de presidente da recém-incorporada empresa e pedi a Bill Lockwood que voltasse a ser o diretor executivo. Sem me vangloriar, a Barrington Harvey pagou aos acionistas belos dividendos nos últimos dois anos, apesar de Herr Hitler. Após sabermos que você ainda estava vivo, buscamos o parecer jurídico de Sir Danvers Barker para termos certeza de que não estávamos violando os termos do testamento de Joshua Barrington.

— Se eu tivesse aberto aquela carta... — disse Maisie quase que para si mesma.

— Sir Danvers nos assegurou — prosseguiu Lord Harvey — que, contanto que você abra mão do título ou da propriedade, podemos continuar a negociar como nos últimos dois anos. E, de fato, ele redigiu um documento com essa finalidade.

— Se alguém me entregar uma caneta — disse Harry —, eu o assino de bom grado.

— Quem dera fosse tão simples! — disse Lord Harvey. — E poderia ter sido se o Daily Express não tivesse se interessado pela história.

— Receio que a culpa disso foi minha — interrompeu Emma —, pois, após o sucesso do seu livro dos dois lados do Atlântico, tornou-se uma obsessão da imprensa saber quem herdará o título dos Barrington: será Sir Harry ou Sir Giles?

— Saiu uma charge no News Chronicle desta manhã — disse Giles — de nós dois a cavalo, em uma disputa, com Emma sentada na arquibancada entregando a você um lenço enquanto os homens da multidão vaiam e as mulheres aplaudem.

— O que eles estão insinuando? — perguntou Harry.

— A nação está dividida ao meio — disse Lord Harvey. — Os homens só parecem estar interessados em quem vai terminar levando o título e a propriedade, já as mulheres querem ver Emma cruzando o corredor da igreja pela segunda vez. Na verdade, vocês dois estão mantendo Cary Grant e Ingrid Bergman fora das primeiras páginas.

— Mas depois que eu assinar o documento abrindo mão do título e da propriedade, o público certamente vai perder o interesse e desviar a atenção para outra coisa.

— Esse seria o caso se o Rei de Armas da Ordem da Jarreteira não tivesse se envolvido.

— E quem é ele? — indagou Harry.

— O representante do rei quando se trata de decidir quem é o próximo na linha sucessória de qualquer título. Em 99% dos casos, ele simplesmente envia cartas patentes para o parente mais próximo. Nas raras ocasiões em que há desacordo entre duas partes, ele recomenda que a questão seja solucionada por um juiz.

— Não me diga que chegamos a esse ponto — disse Harry.

— Temo que sim. O desembargador Shawcross decidiu a favor de Giles, mas sob a condição de que, quando você estivesse em plena forma, assinasse um termo de renúncia abrindo mão dos seus direitos ao título e à propriedade e permitindo que a sucessão proceda de pai para filho.

— Bem, estou em plena forma agora; então, vamos marcar um horário com o juiz e resolver isso de uma vez por todas.

— É o que mais quero — disse Lord Harvey —, mas receio que a decisão foi tirada das minhas mãos.

— Por quem dessa vez? — perguntou Harry.

— Um nobre do Partido Trabalhista chamado Lord Preston — disse Giles. — Ele pegou a história na imprensa e redigiu uma solicitação ao ministro do Interior para que ele decida qual de nós dois tem direto a herdar o título de baronete. Em seguida, organizou uma coletiva de imprensa na qual afirmou que eu não tinha direito ao título porque o verdadeiro candidato estava inconsciente em um hospital de Bristol, incapaz de apresentar seus argumentos.

— Por que um nobre do Partido Trabalhista teria algum interesse pelo fato de o título ser herdado por mim ou por Giles?

— Quando a imprensa fez a mesma pergunta — disse Lord Harvey —, ele disse que, se Giles herdasse o título, seria um típico exemplo de preconceito de classe e que seria justo que o filho de um trabalhador das docas pudesse apresentar seus argumentos.

— Mas isso é ilógico — observou Harry —, pois, se eu sou filho de um trabalhador das docas, então Giles herdaria o título de qualquer maneira.

— Muitas pessoas escreveram para o The Times fazendo essa mesma observação — disse Lord Harvey. — Entretanto, como estamos muito próximos de uma eleição geral, o ministro do Interior se esquivou da questão e disse ao seu nobre amigo que encaminharia o caso para o gabinete do Lorde Chanceler. O Lorde Chanceler passou o caso para os Lordes da Lei. Vários homens doutos se detiveram a deliberar e acabaram chegando a uma decisão por quatro votos a três. A seu favor, Harry.

— Mas isso é loucura. Por que não fui consultado?

— Você estava inconsciente — Lord Harvey lembrou — e, de qualquer maneira, eles estavam debatendo uma questão legal, e não a sua opinião; portanto, o veredicto permanecerá válido, a menos que seja anulado por um recurso na Câmara dos Lordes.

Harry ficou sem palavras.

— Então, do jeito que estão as coisas — prosseguiu Lord Harvey —, você agora é Sir Harry, o maior acionista da Barrington Harvey e também o dono da propriedade dos Barrington e, citando o testamento original, tudo o mais aí incluído.

— Então, vou entrar com um recurso contra a decisão dos Lordes da Lei, deixando bem claro que quero renunciar ao título — disse Harry com firmeza.

— Aí está a ironia — disse Giles. — Você não pode. Só eu posso apresentar um recurso contra o veredicto, mas não tenho intenção alguma de fazer isso sem que você concorde.

— Claro que concordo — disse Harry. — Mas consigo ver uma solução bem mais fácil.

Todos olharam para ele.

— Eu poderia cometer suicídio.

— Acho que não — disse Emma, sentando-se na cama ao lado dele. — Você já tentou duas vezes e veja no que deu.