Os Pecados do Pai
Capítulo 29
Maisie estava com receio de fazer papel de boba.
Quando chegou ao portão da escola, quase deu meia-volta, e é o que realmente teria feito se não tivesse visto outra mulher, mais velha do que ela, entrando no edifício. Maisie passou pela porta atrás dela e a seguiu pelo corredor, só parando ao chegar à sala de aula. Espiou lá dentro na esperança de encontrar a sala tão cheia a ponto de ninguém a notar. Mas só havia mais sete pessoas presentes: dois homens e cinco mulheres.
Ela se esgueirou até o fundo da sala e se sentou atrás dos dois homens, esperando não ser vista. Arrependeu-se imediatamente da sua decisão porque, se tivesse se sentado ao lado da porta, poderia ter fugido com mais facilidade.
Abaixou a cabeça quando a porta se abriu e o sr. Holcombe adentrou a sala. Ele assumiu seu posto atrás da mesa que ficava na frente do quadro-negro, puxou as lapelas do seu longo guarda-pó preto e olhou para os alunos. Sorriu quando avistou a sra. Clifton sentada próxima aos fundos da sala.
— Vou começar escrevendo todas as 26 letras do alfabeto e quero que vocês as leiam conforme eu for escrevendo.
Em seguida, ele pegou um pedaço de giz e deu as costas para a turma. Escreveu a letra A no quadro-negro, e várias vozes puderam ser ouvidas em uníssono. B, um verdadeiro coro. C, todos exceto Maisie. Quando ele chegou a Z, Maisie articulou o nome da letra, mas sem emitir nenhum som.
— Agora, vou apontar aleatoriamente para uma letra e ver se vocês ainda conseguem identificá-la.
Da segunda vez, Maisie disse o nome de metade delas e, na terceira tentativa, já estava liderando o coro. Quando a aula terminou, só o sr. Holcombe notou que havia sido a primeira aula de Maisie em vinte anos e ela não estava com pressa nenhuma de voltar para casa.
— Quando nos encontrarmos novamente na quarta-feira — disse o sr. Holcombe —, vocês deverão saber escrever as 26 letras do alfabeto na ordem certa.
Maisie queria dominar todo o alfabeto já na terça-feira para que não houvesse chance de cometer nenhum erro.
— Para aqueles dentre vocês que não podem ir tomar um drinque comigo no pub, até quarta-feira.
Maisie achou que fosse necessário um convite para ir ao pub com o sr. Holcombe. Então, levantou-se da cadeira e foi até a porta enquanto os outros rodeavam a mesa do diretor com uma dúzia de perguntas.
— Não vai ao pub, sra. Clifton? — perguntou o sr. Holcombe no momento em que Maisie alcançou a porta.
— Obrigada, sr. Holcombe, seria um prazer — respondeu ela e se juntou aos outros que saíram da sala e atravessaram a rua para ir ao Ship Inn.
Os outros alunos foram indo embora um a um até que só restassem os dois sentados no pub.
— A senhora tem alguma ideia de como é inteligente? — perguntou o sr. Holcombe após ter levado outro suco de laranja para Maisie.
— Mas abandonei a escola aos doze anos e ainda não sei ler nem escrever.
— A senhora pode ter deixado a escola cedo demais, mas nunca parou de aprender. E, como é a mãe de Harry Clifton, vai acabar dando aulas para mim.
— Harry deu aulas para o senhor?
— Todos os dias, sem perceber. Mas eu sabia desde o início que ele era mais inteligente do que eu. Minha única esperança era conseguir que ele fosse admitido na Bristol Grammar School antes de descobrir por si mesmo.
— E o senhor conseguiu?
— Foi por um triz — admitiu Holcombe.
— Últimos pedidos — gritou o barman.
Maisie olhou para o relógio atrás do bar. Não dava para acreditar que já eram 21h30, e as regras de blecaute deviam ser obedecidas.
Parecia natural que o sr. Holcombe a acompanhasse até em casa; afinal, eles se conheciam havia muitos anos. No caminho de ruas às escuras, ele contou muitas outras histórias sobre Harry, o que a deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Era evidente que o sr. Holcombe também sentia falta dele e Maisie se sentiu culpada por não ter agradecido ao diretor muitos anos antes.
Quando chegaram à porta da casa em Still House Lane, Maisie disse:
— Não sei o seu nome de batismo.
— Arnold — disse ele timidamente.
— Combina com você — comentou ela. — Posso chamá-lo de Arnold?
— Claro.
— E você deve me chamar de Maisie — disse, pegou a chave de casa e a enfiou na fechadura. — Boa-noite, Arnold. Vejo você quarta-feira.
Uma noite no teatro trouxe a Maisie muitas lembranças felizes dos dias em que Patrick Casey a levava ao Old Vic toda vez que visitava Bristol. Porém, assim que a lembrança de Patrick esmoreceu e ela começou a sair com outro homem com o qual achava que pudesse ter um futuro, o maldito duende irlandês reapareceu em sua vida. Ele já dissera que havia um motivo para querer vê-la e ela não tinha muita dúvida a respeito de qual era o tal motivo. Ela não precisava que ele virasse sua vida de pernas para o ar novamente. Maisie pensou em Mike, um dos homens mais gentis e decentes que jamais encontrara, e ingênuo em suas tentativas de ocultar os próprios sentimentos em relação a ela.
Uma coisa que Patrick lhe ensinou foi nunca chegar atrasada ao teatro. Ele achava que não havia nada mais constrangedor do que pisar nos pés das pessoas enquanto se dirigia no escuro aos inevitáveis assentos centrais depois de as cortinas terem sido levantadas.
Mike já estava em pé no foyer com um programa nas mãos quando Maisie adentrou o teatro dez minutos antes do horário previsto para o início do espetáculo. Assim que o viu, ela sorriu e não pôde deixar de pensar que ele sempre a deixava de bom humor. Mike retribuiu o sorriso e beijou Maisie gentilmente no rosto.
— Não sei muito sobre Noël Coward — admitiu ele enquanto entregava a ela o programa —, mas acabei de ler uma sinopse e descobri que a peça fala de um homem e uma mulher que não conseguem decidir com quem vão se casar.
Maisie não disse nada enquanto eles avançavam pela plateia. Ela começou a seguir as letras do alfabeto de trás pra frente até chegar à fila H. Quando os dois chegaram ao meio da fila, ela ficou se perguntando como Mike havia conseguido lugares tão bons para um espetáculo esgotado.
Depois que as luzes se apagaram e a cortina subiu, ele pegou a mão dela e só a soltou quando Owen Nares entrou em cena e a plateia explodiu em aplausos. Maisie ficou fascinada com a história, embora fosse um pouco semelhante demais à sua. Mas o encanto se quebrou quando o lamento agudo de uma sirene encobriu as palavras do sr. Nares. Um gemido audível envolveu o auditório enquanto os atores saíam correndo do palco e eram substituídos pelo gerente do teatro, que organizou com eficiência uma estratégia de evacuação que teria alegrado o espírito do sargento-mor de um regimento. Os habitantes de Bristol conheciam havia muito tempo as visitas aéreas dos alemães, que não tinham intenção alguma de pagar os ingressos do teatro.
Mike e Maisie saíram do teatro e desceram os degraus que levavam a um abrigo soturno, mas conhecido, que se tornara um segundo lar para os espectadores habituais do teatro. A plateia foi se sentando em qualquer lugar disponível para o espetáculo com entrada livre. O grande nivelador social, foi assim que Clement Attlee descreveu a vida em um abrigo antiaéreo.
— Não é bem minha ideia de um encontro romântico — disse Mike, pondo o paletó sobre o chão de pedra.
— Quando eu era jovem — comentou Maisie enquanto se sentava sobre o paletó —, muitos rapazes tentaram me trazer aqui para baixo, mas você é o primeiro que conseguiu.
Mike riu enquanto ela começou a rabiscar algo na capa do programa.
— Fico lisonjeado — disse ele, abraçando suavemente o ombro de Maisie enquanto o chão começava a tremer com bombas que pareciam estar caindo perigosamente perto. — Você nunca esteve nos Estados Unidos, não é, Maisie? — perguntou ele, tentando distraí-la do ataque aéreo.
— Eu nunca estive em Londres — admitiu Maisie. — Na verdade, as maiores distâncias que já viajei foram até Weston-super-Mare e Oxford, e as duas viagens se revelaram verdadeiros desastres. Talvez seja melhor eu ficar em casa.
Mike riu.
— Eu adoraria mostrar os Estados Unidos para você — disse ele —, especialmente o Sul.
— Acho que teríamos de pedir aos alemães para folgar algumas noites antes de pensarmos em fazer isso — disse Maisie enquanto soava o aviso de perigo encerrado.
Uma onda de aplausos explodiu no abrigo e todos saíram do intervalo não programado e voltaram para o teatro.
Depois que todos se sentaram, o gerente do teatro entrou no palco.
— O espetáculo vai continuar sem intervalo — anunciou. — Mas, caso os alemães decidam nos fazer outra visita, terá de ser cancelado. Lamento informar que não haverá reembolso. Regras alemãs — ironizou. Algumas pessoas riram.
Instantes após a cortina ter subido novamente, Maisie mais uma vez se deixou levar pela história e, quando os autores finalmente se inclinaram para agradecer, toda a plateia se levantou em sinal de apreço, não apenas pelo espetáculo, mas por outra pequena vitória sobre a Luftwaffe, como Mike disse.
— Harvey’s ou The Pantry? — Mike perguntou enquanto pegava o programa no qual cada letra do título da peça havia sido riscada e reescrita embaixo em ordem alfabética: A E E I I L P R S T V V.
— The Pantry — respondeu Maisie, sem querer admitir que, na ocasião em que esteve no Harvey’s com Patrick, passou a noite toda olhando para as mesas à sua volta temendo a ideia de que a filha de Lord Harvey, Elizabeth, pudesse estar jantando lá com Hugo Barrington.
Mike demorou muito estudando o cardápio, o que surpreendeu Maisie, pois as opções de pratos eram bastante limitadas. Ele geralmente conversava sobre o que estava acontecendo no acampamento ou no forte, como ele gostava de chamá-lo, mas não naquela noite, nem repetiu seus frequentes resmungos sobre o fato de os ingleses não entenderem nada de beisebol. Maisie começou a se perguntar se ele não estava se sentindo bem.
— Está tudo bem, Mike? — perguntou ela.
Ele levantou a cabeça.
— Vão me mandar de volta para os Estados Unidos — respondeu enquanto um garçom surgia ao lado da mesa e perguntava se eles gostariam de fazer o pedido. Sincronia perfeita, pensou Maisie, mas, pelo menos, ela tinha um tempinho para pensar e não sobre o que queria comer. Depois que fizeram o pedido e o garçom foi embora, Mike tentou novamente.
— Designaram-me para um trabalho burocrático em Washington.
Maisie se inclinou sobre a mesa e pegou a mão dele.
— Pressionei para que me deixassem ficar mais seis meses para poder ficar com você, mas indeferiram minha solicitação.
— Lamento ouvir isso — disse Maisie —, mas...
— Por favor, não diga nada, Maisie, porque já estou achando tudo isto bastante difícil. Embora Deus saiba que pensei muito a respeito — acrescentou e caiu em um longo silêncio. — Percebo que só nos conhecemos há pouco tempo, mas meus sentimentos não mudaram desde a primeira vez que vi você — declarou e Maisie sorriu. — E fiquei pensando — Mike prosseguiu —, esperando, torcendo para que você leve em consideração a possibilidade de ir para os Estados Unidos comigo... como minha mulher.
Maisie ficou sem palavras.
— Fico muito lisonjeada — finalmente disse, mas não conseguia pensar em mais nada a acrescentar.
— É claro, sei que você vai precisar de tempo para pensar. Lamento que a destruição da guerra não permita as delicadezas de um namoro longo.
— Quando você vai voltar para casa?
— No final do mês. Portanto, se você disser sim, podemos nos casar na base e voar juntos para os Estados Unidos já como marido e mulher — propôs, inclinou-se para a frente e pegou a sua mão. — Nunca estive tão seguro de algo em toda a minha vida — disse enquanto o garçom reaparecia ao lado da mesa.
— Então, de quem é o picadinho de fígado.
Maisie não dormiu aquela noite e, quando desceu para tomar café na manhã seguinte, disse à mãe que Mike a pedira em casamento.
— Não perca essa oportunidade — foi a reação de imediato da sra. Tancock. — Você nunca vai conseguir uma chance melhor de começar uma nova vida. E, francamente — acrescentou olhando com tristeza para a fotografia de Harry sobre a lareira —, você não tem mais motivo algum para ficar aqui.
Maisie estava prestes a expressar sua única ressalva quando Stan adentrou a cozinha. Ela se levantou da mesa.
— É melhor eu ir andando, senão vou chegar atrasada ao trabalho.
— Não pense que me esqueci daquelas cem pratas que você deve! — ele gritou enquanto a irmã saía.
Maisie estava sentada na beirada da cadeira, na primeira fila, quando o sr. Holcombe entrou na sala de aula às sete horas aquela noite.
Ela levantou a mão várias vezes durante a hora seguinte, como uma aluna cansativa que sabe todas as respostas e quer ser notada pelo professor. Se ele a notou, não deu a entender.
— No futuro, você poderia começar a vir às terças e quintas, Maisie? — o sr. Holcombe perguntou enquanto eles iam até o pub com o resto da turma.
— Por quê? — perguntou Maisie. — Não estou na altura?
— Não estou à altura — corrigiu o diretor sem pensar. — Pelo contrário, decidi pôr você em uma turma intermediária antes que os outros — acrescentou e indicou os colegas de classe de Maisie com um movimento do braço — fiquem atordoados.
— Mas será que não vai ser difícil demais para mim, Arnold?
— Espero que sim, mas, sem dúvida, você vai alcançar a turma até o final do mês, quando terei de passá-la para a mais avançada.
Maisie não respondeu, pois sabia que logo teria de contar a Arnold que havia feito outros planos para o final do mês.
Mais uma vez, os dois acabaram sozinhos no bar e, mais uma vez, ele a acompanhou até Still House Lane, só que, daquela vez, quando tirou a chave de casa da bolsa, Maisie achou que parecia que ele estava reunindo coragem para beijá-la. Certamente não. Ela já não tinha problemas suficientes?
— Eu estava me perguntando — disse ele — que livro você deve ler primeiro.
— Não vai ser um livro — disse Maisie enquanto inseria a chave na fechadura —, vai ser uma carta.