Os Pecados do Pai
Capítulo 36
Ninguém o viu sair de casa.
Ele estava carregando uma mala e trajava um terno de tweed grosso, um par de sapatos marrons robustos, feitos para durar, um sobretudo pesado e um chapéu de feltro marrom. Um olhar rápido e seria possível confundi-lo com um caixeiro-viajante.
Caminhou até o ponto de ônibus mais próximo, que ficava a pouco mais de um quilômetro e meio de distância, na maior parte, terras de sua propriedade. Quarenta minutos mais tarde, entrou em um ônibus verde de um só andar, um meio de transporte que ele nunca havia usado até então. Sentou-se no último banco sem perder de vista a mala. Entregou ao cobrador uma nota de dez xelins, embora a passagem só custasse três pence: seu primeiro erro se não quisesse chamar atenção.
O ônibus seguiu seu caminho rumo a Bristol, uma viagem que ele normalmente faria em cerca de doze minutos no Lagonda, mas que, naquele dia, demorou mais de uma hora até que o ônibus finalmente estacionasse na rodoviária. Hugo não foi nem o primeiro nem o último passageiro a saltar. Olhou para o relógio de pulso: 14h38. Ele havia calculado o tempo com uma boa folga.
Subiu a ladeira até a estação Temple Meads. Nunca havia notado a ladeira; afinal, nunca tivera de carregar a própria mala até então, onde entrou em uma longa fila e comprou uma passagem de terceira classe, só de ida, para Fishguard. Perguntou de que plataforma o trem sairia e, depois de tê-la localizado, ficou em pé lá no fundo sob um lampião a gás apagado.
Quando o trem finalmente estacionou, ele embarcou e encontrou um lugar no meio de um compartimento de terceira classe que logo lotou. Hugo pôs a mala no bagageiro à sua frente e raramente tirou os olhos dela. Uma mulher abriu a porta do vagão e olhou para o compartimento lotado, mas ele não lhe ofereceu o lugar.
Enquanto o trem deixava a estação, ele soltou um suspiro de alívio, feliz por ver Bristol desaparecer no horizonte. Recostou-se e pensou sobre a decisão que havia tomado. Àquela hora no dia seguinte, estaria em Cork. Só se sentiria seguro quando seus pés estivessem pisando em solo irlandês. Mas eles precisavam chegar em Swansea no horário para que ele pudesse fazer a conexão até Fishguard.
Quando o trem chegou em Swansea, ele tinha meia hora livre; tempo suficiente para uma xícara de chá e uma broa de Chelsea no bar da estação. Não era Earl Grey nem Carwardine’s, mas ele estava cansado demais para se importar. Assim que terminou, trocou o bar por outra plataforma pouco iluminada e esperou que o trem para Fishguard aparecesse.
O trem estava atrasado, mas ele estava confiante de que a balsa não zarparia antes de todos os passageiros estarem a bordo. Depois de um pernoite em Cork, ele reservaria uma passagem em um navio, qualquer navio, para os Estados Unidos. Lá ele iniciaria uma nova vida, com o dinheiro obtido da venda de Barrington Hall.
A ideia de seu lar ancestral ser leiloado fez com que ele pensasse na mãe pela primeira vez. Onde ela ia morar depois que a casa fosse vendida? Ela sempre poderia ficar com Elizabeth em Manor House. Afinal, espaço é o que não faltava. Senão podia ir morar com os Harvey, que tinham três casas, isso para não falar dos vários chalés em suas propriedades.
Depois, seus pensamentos se voltaram para a Barrington’s Shipping Line, uma empresa construída por duas gerações da família e que a terceira conseguiu destruir mais rápido do que a bênção de um bispo.
Por um instante, ele pensou sobre Olga Piotrovska, grato porque nunca mais a veria. Até chegou a dedicar um rápido pensamento a Toby Dunstable, que fora a causa de todos os seus problemas.
Emma e Grace cruzaram sua mente, mas não por muito tempo: ele nunca entendeu o porquê de ter filhas. Em seguida, pensou em Giles, que o evitara após fugir do campo de prisioneiros Weinsberg e voltar a Bristol. As pessoas sempre perguntavam do seu filho herói de guerra e Hugo tinha de inventar uma nova história a cada vez. Isso não seria mais necessário porque, uma vez que ele estivesse nos Estados Unidos, o cordão umbilical seria finalmente cortado, embora, com o tempo — e Hugo ainda estava determinado que fosse muito tempo —, Giles herdaria o título de família, porém, àquela altura, e tudo o mais aí incluído não valeria mais nada.
Mas, na maior parte do tempo, ele pensou em si mesmo, uma indulgência que só foi interrompida quando o trem chegou em Fishguard. Ele esperou que todos os outros descessem do vagão antes de tirar a mala do bagageiro e descer para a plataforma.
Hugo seguiu as instruções do megafone: “Ônibus para o porto. Ônibus para o porto!” Havia quatro. Ele escolheu o terceiro. Daquela vez, a viagem foi curta e não havia como errar o terminal, apesar do blecaute; outra longa fila de terceira classe, daquela vez para a balsa rumo a Cork.
Após comprar uma passagem só de ida, ele subiu a passarela, pisou a bordo e encontrou um canto que nem um bicho escolheria para se acomodar. Só se sentiu seguro quando ouviu dois toques da sirene de nevoeiro e, no suave balançar das ondas, sentiu que o navio estava se afastando do porto.
Depois que a balsa superou o quebra-mar, ele relaxou pela primeira vez e estava tão cansado que encostou a cabeça na mala e caiu em um sono profundo.
Hugo não sabia ao certo quanto tempo havia dormido quando sentiu alguém cutucando seu ombro. Olhou para cima e viu dois homens em pé.
— Sir Hugo Barrington? — um deles perguntou.
Não fazia muito sentido negar. Eles o pegaram por debaixo dos braços e disseram que ele estava preso. Demoraram lendo uma longa lista de acusações.
— Mas estou a caminho de Cork — ele protestou. — Certamente estamos além do limite de doze milhas.
— Não — disse o segundo-oficial —, o senhor está voltando para Fishguard.
Vários passageiros se debruçaram na amurada para ver mais de perto o homem algemado que estava sendo escoltado pela passarela, motivo daquele atraso.
Hugo foi empurrado para dentro de um Wolseley preto e, segundos depois, começou a longa viagem de volta a Bristol.
Quando a porta da cela foi aberta, um homem uniformizado trouxe o café da manhã em uma bandeja — não o tipo de café da manhã nem o tipo de bandeja ou de homem uniformizado que Hugo estava acostumado a ver de manhã cedo. Uma olhada no pão na chapa com tomates banhado em óleo e ele empurrou a bandeja para o lado. Ficou se perguntando quanto tempo demoraria até aquilo se tornar parte da sua dieta básica. O policial voltou alguns minutos mais tarde, levou a bandeja e fechou a porta da cela com violência.
Quando a porta se abriu novamente, dois guardas entraram na cela e subiram com Hugo uma escada até a sala de audiências. Ben Winshaw, o advogado da Barrington’s Shipping Line, o estava esperando.
— Sinto muito, presidente.
Hugo balançou a cabeça, um olhar de resignação no rosto.
— O que acontece depois?
— O superintendente me disse que vão acusá-lo nos próximos minutos. Depois, o senhor será levado para o tribunal, onde se apresentará diante de um magistrado. Tudo o que precisa fazer é se declarar inocente. O superintendente deixou claro que se oporia a qualquer pedido de fiança e lembraria ao magistrado que o senhor foi preso enquanto tentava deixar o país de posse de uma mala com oitocentas libras. Receio que a imprensa irá se esbaldar.
Hugo e seu advogado ficaram sentados sozinhos na sala de audiências e esperaram que o superintendente aparecesse. O advogado avisou a Hugo que ele deveria se preparar para passar várias semanas na prisão até o início do julgamento. Sugeriu os nomes de quatro outros advogados que talvez pudessem defendê-lo. Eles haviam acabado de escolher Sir Gilbert Gray quando a porta se abriu e o sargento entrou.
— O senhor pode ir embora — ele disse como se Hugo tivesse cometido uma pequena infração de trânsito.
Winshaw demorou um tempo para se recuperar e perguntar:
— Meu cliente deverá voltar mais tarde?
— Não que eu saiba, senhor.
Hugo saiu da delegacia como um homem livre.
A história rendeu um pequeno parágrafo na página seis do Bristol Evening News. O ilustre Toby Dunstable, segundogênito do décimo primeiro conde de Dunstable, faleceu, vítima de ataque cardíaco, enquanto estava detido na Delegacia de Wimbledon.
Foi Derek Mitchell que depois forneceu os detalhes por trás da história.
Ele relatou que o conde havia visitado o filho na cela poucas horas antes que Toby tirasse a própria vida. O guarda de serviço ouviu uma discussão entre pai e filho, durante a qual “a honra”, “a reputação da família” e “a coisa digna a se fazer diante das circunstâncias” foram repetidas várias vezes pelo conde. No inquérito realizado duas semanas mais tarde no Tribunal de Wimbledon, o magistrado perguntou ao guarda em questão se ele havia visto alguma troca de pílulas entre os dois homens durante a visita do conde.
— Não, senhor — o guarda respondeu. — Não vi.
Morte por causas naturais foi o veredicto pronunciado pelo colegiado do Tribunal de Wimbledon naquela mesma tarde.