Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 24 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 22

 

 

— Trate de voltar às seis e meia — Terry quase gritou para o cabo alemão que os acompanhara do acampamento aos aposentos do comandante.

O olhar perdido no rosto do cabo deixou Giles com poucas dúvidas de que ele jamais chegaria a sargento.

— Volte às seis e meia — repetiu Terry enunciando cada palavra lentamente. Pegou o pulso do cabo e apontou para o seis no relógio.

Giles só queria poder dizer ao cabo em seu próprio idioma: “Se você voltar às seis e meia, haverá um engradado de cerveja para você e seus amigos na casa de guarda.” Mas ele sabia que, se o fizesse, seria preso e passaria a véspera do Ano-Novo em uma solitária.

Terry apontou mais uma vez para o relógio do cabo e imitou um homem bebendo. Daquela vez, o cabo sorriu e fez a mímica da mesma ação.

— Acho que ele finalmente entendeu a mensagem — disse Giles enquanto eles entravam nos aposentos do comandante.

— Ainda precisamos garantir que ele vai pegar a cerveja antes da chegada do primeiro oficial. Então, é melhor nos mexermos.

— Sim, senhor — disse Terry enquanto se encaminhava para a cozinha. Ordem natural restabelecida.

Giles foi ao vestiário, tirou o uniforme de garçom do cabide e vestiu a camisa branca, a gravata e as calças pretas e a jaqueta de linho branco. Avistou sobre o banco um par de luvas de couro preto que um oficial devia ter esquecido em alguma ocasião precedente e as enfiou no bolso pensando que poderiam se revelar úteis mais tarde. Fechou a porta do vestiário e se dirigiu à sala de jantar. Três garçonetes da cidade, dentre as quais Greta, a única que suscitou em Giles a tentação de um flerte, mas que ele sabia que Jenkins não teria aprovado, estavam pondo a mesa para dezesseis pessoas.

Ele olhou o relógio: 18h12. Saiu da sala de jantar e desceu até a adega. Uma única lâmpada iluminava o cômodo que, antigamente, abrigava arquivos cheios de dossiês. Desde a chegada de Giles foram substituídos por prateleiras de vinhos.

Giles já havia decidido que precisaria de pelo menos três caixas de vinho para o jantar daquela noite, bem como um engradado de cerveja para o cabo sedento e seus camaradas na casa de guarda. Estudou cuidadosamente as prateleiras antes de selecionar duas garrafas de xerez, uma dúzia de garrafas de pinot grigio italiano, duas caixas de borgonha francês e um engradado de cerveja alemã. Quando estava saindo, seus olhos se detiveram em três garrafas de Johnnie Walker Red Label, duas garrafas de vodca russa, meia dúzia de garrafas de Rémy Martin e um garrafão de porto. Giles achava que um visitante podia ser desculpado por não saber ao certo quem estava guerreando com quem.

Nos quinze minutos seguintes, ele carregou as caixas de vinho e cerveja escada acima, parando o tempo todo para verificar o relógio e, às 18h20, abriu a porta dos fundos e encontrou o cabo alemão pulando para cima e para baixo e batendo nas laterais do corpo, fazendo um esforço para se manter aquecido. Giles levantou as palmas das mãos para indicar que ele deveria ficar parado ali um instante. Em seguida, atravessou com passo acelerado o corredor — Jenkins nunca corria —, pegou o engradado de cerveja, voltou e o entregou ao alemão.

Greta, que obviamente estava atrasada, viu a entrega e sorriu para Giles. Ele retribuiu o sorriso antes que ela desaparecesse na sala de jantar.

— A casa de guarda — disse Giles com firmeza, apontando para o perímetro externo.

O cabo anuiu e partiu na direção correta. Terry havia perguntado a Giles mais cedo se deveria contrabandear comida da cozinha para o cabo e seus amigos na casa de guarda.

— Claro que não — Giles respondeu, resoluto. — Queremos que eles bebam a noite toda de estômago vazio.

Giles fechou a porta e voltou à sala de jantar, onde as garçonetes já haviam quase terminado de pôr a mesa.

Ele abriu as doze garrafas de merlot, mas só pôs quatro sobre o aparador, escondendo discretamente as outras oito embaixo dele. Não carecia que Müller descobrisse o que ele estava aprontando. Giles também pôs uma garrafa de uísque e duas de xerez em uma extremidade do aparador, antes de alinhar, como soldados em uma parada, uma dúzia de copos grandes e meia dúzia de copos para xerez. Tudo estava no lugar.

Giles estava limpando um copo quando o coronel Schabacker entrou. O comandante inspecionou a mesa, fez um ou dois ajustes à distribuição dos convidados e, depois, voltou a própria atenção para o conjunto de garrafas sobre o aparador. Giles se perguntou se ele faria algum comentário, mas o comandante simplesmente sorriu e disse:

— Os convidados devem chegar por volta das sete e meia e eu disse ao chef que vamos nos sentar para jantar às oito.

A esperança de Giles era de que, em poucas horas, seu alemão se revelasse tão fluente quanto o inglês do coronel Schabacker.

A pessoa que entrou em seguida na sala de jantar foi um jovem tenente que havia se juntado recentemente ao refeitório dos oficiais e estava participando do seu primeiro jantar oferecido pelo comandante. Giles o viu olhando para o uísque, avançou e serviu-lhe meio copo. Em seguida, entregou ao comandante o costumeiro xerez.

O segundo oficial a aparecer foi o capitão Henkel, o ajudante do campo. Giles entregou-lhe seu habitual copo de vodca e passou os trinta minutos seguintes servindo cada novo convidado, sempre mantendo a bebida favorita deles por perto.

Quando os convidados se sentaram para jantar, muitas garrafas vazias já haviam sido substituídas pelas reservas que Giles havia escondido embaixo do aparador.

Momentos mais tarde, garçonetes apareceram carregando pratos de sopa de beterraba, enquanto o comandante experimentava o vinho branco.

— Italiano — disse Giles, mostrando o rótulo.

— Excelente — ele murmurou.

Giles, então, encheu todas as taças exceto a do major Müller, que continuou a tomar água.

Alguns dos convidados bebiam mais depressa do que outros, o que mantinha Giles girando em torno da mesa, sempre se certificando de que ninguém estava com o copo vazio. Depois que os pratos de sopa foram retirados, Giles assumiu uma posição menos conspícua porque Terry o advertira sobre o que aconteceria em seguida. Com um floreio, as portas duplas se abriram e o chef entrou carregando uma grande cabeça de javali sobre uma salva de prata. As garçonetes vinham logo atrás e puseram travessas de legumes e batatas, além de molheiras com um creme denso, no centro da mesa.

Enquanto o chef começava a cortar a carne, o coronel Schabacker provou o borgonha, o que fez outro sorriso surgir em seu rosto. Giles retomou a tarefa de encher qualquer taça que estivesse pela metade, com uma exceção. Ele notou que o jovem tenente não falava havia algum tempo; então, deixou seu copo intacto. Um ou dois dos outros oficiais estavam começando a arrastar as palavras e Giles precisava que eles ficassem acordados pelo menos até meia-noite.

O chef voltou mais tarde para servir as segundas porções, e Giles agradeceu quando o coronel Schabacker pediu que as taças de todos fossem reabastecidas. Quando Terry fez sua primeira aparição para retirar o que sobrava da cabeça do javali, o major Müller era o único que ainda estava sóbrio.

Alguns minutos mais tarde, o chef fez sua terceira entrada, daquela vez carregando um bolo Floresta Negra que foi colocado sobre a mesa na frente do comandante. O anfitrião mergulhou uma faca no bolo várias vezes e as garçonetes distribuíram porções generosas a cada um dos convidados. Giles continuou a reabastecer as taças até chegar à última garrafa.

Enquanto as garçonetes retiravam os pratos de sobremesa, Giles removia as taças de vinho da mesa, substituindo-as por taças de conhaque e de porto.

— Cavalheiros — anunciou o coronel Schabacker logo após as onze —, por favor, encham suas taças, pois eu gostaria de fazer um brinde — prosseguiu, levantando-se, erguendo a própria taça no ar. — À Pátria!

Quinze oficiais levantaram-se com velocidades diferentes e repetiram: “À Pátria!”. Müller olhou para Giles e bateu na taça para indicar que queria algo para o brinde.

— Vinho, não, seu idiota — disse Müller. — Quero conhaque.

Giles sorriu e encheu a taça de borgonha.

Müller não conseguiu fazê-lo cair na armadilha.

Uma conversa barulhenta e convivial prosseguiu enquanto Giles dava a volta em torno da mesa carregando uma caixa de charutos para que os convidados escolhessem o de seu agrado. O jovem tenente estava com a cabeça encostada na mesa, e Giles pensou ter ouvido um ronco.

Quando o comandante se levantou pela segunda vez para brindar à saúde do Führer, Giles serviu mais vinho tinto a Müller. Ele levantou a taça, bateu os calcanhares e fez a saudação nazista. Um brinde a Frederico, o Grande veio em seguida e, daquela vez, Giles reabasteceu a taça de Müller muito antes de ele se levantar.

Quando faltavam cinco minutos para a meia-noite, Giles certificou-se de que todas as taças estavam cheias. Quando o relógio de parede começou a soar, quinze oficiais gritaram quase que em uníssono, 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, e em seguida, entoaram Deutschland, Deutschland über alles, dando tapinhas uns nas costas dos outros enquanto saudavam o Ano-Novo.

Um certo tempo se passou antes que eles voltassem aos seus lugares. O comandante permaneceu de pé e bateu com uma colher na própria taça. Todos fizeram silêncio aguardando seu discurso anual.

Ele começou agradecendo aos colegas pela lealdade e dedicação durante um ano difícil. Depois, falou por algum tempo sobre o destino da Pátria. Giles lembrou que Schabacker havia sido o prefeito local antes de assumir o cargo de comandante do campo. O oficial terminou declarando que esperava que o lado certo já tivesse vencido a guerra naquela mesma data no ano seguinte. Giles queria gritar “Ouçam, ouçam!” em qualquer idioma, mas Müller se virou para ver se as palavras do coronel haviam suscitado alguma reação. Giles continuou olhando inexpressivamente para a frente como se não tivesse entendido uma palavra. Ele havia sido aprovado em outro teste de Müller.