Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 47 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 45

 

Giles estava tão preocupado em ser eleito para a Câmara dos Comuns como membro do Parlamento por Bristol Docklands e Harry estava tão envolvido na publicação de William Warwick e o caso da testemunha cega que, ao receberem um convite para almoçar com Lord Harvey em sua propriedade no campo, no domingo, ambos acharam que seria uma reunião de família. Mas, quando chegaram a Ashcombe Hall, não havia sinal de nenhum outro parente.

Lawson não os acompanhou até a sala de estar, nem mesmo à sala de jantar, mas os levou ao estúdio de Lord Harvey, onde os dois o encontraram sentado atrás da escrivaninha com duas poltronas de couro vazias à sua frente. Ele não perdeu tempo com futilidades.

— Fui informado pelo gabinete do Lorde Chanceler de que a quinta-feira, 6 de setembro, foi reservada no calendário parlamentar para um debate que determinará qual de vocês dois herdará o título de família. Temos dois meses para nos preparar. Estarei no primeiro banco e abrirei o debate — disse Lord Harvey — e espero ser confrontado por Lord Preston.

— O que ele espera conseguir? — perguntou Harry.

— Ele quer enfraquecer o sistema hereditário e, sejamos justos, não faz segredo algum disso.

— Talvez eu pudesse marcar um encontro com ele — disse Harry — e expor minha opinião...

— Ele não está interessado em você nem em suas opiniões — disse Lord Harvey. — Está simplesmente usando o debate como uma plataforma para difundir suas conhecidas opiniões sobre o princípio hereditário.

— Mas, certamente, se eu escrevesse para ele...

— Eu já escrevi — disse Giles — e, embora sejamos do mesmo partido, ele não se deu ao trabalho de responder.

— Na opinião dele, a questão é muito mais importante do que qualquer caso individual — afirmou Lord Harvey.

— Uma posição tão intransigente não será mal aceita pelos lordes? — indagou Harry.

— Não necessariamente — respondeu Lord Harvey. — Reg Preston era um sindicalista aguerrido até Ramsay MacDonald lhe oferecer uma cadeira na Câmara dos Lordes. Ele sempre foi um excelente orador e, desde que entrou para o Parlamento, se tornou alguém que não deve ser subestimado.

— O senhor tem alguma ideia de como a Câmara vai se dividir? — perguntou Giles.

— Os articuladores do governo me dizem que será uma disputa acirrada. Os parlamentares do Partido Trabalhista apoiarão Reg porque não podem se dar ao luxo de serem vistos apoiando o princípio hereditário.

— E os Conservadores? — interrogou Harry.

— A maioria vai me apoiar, sobretudo porque a última coisa que eles querem é ver o princípio hereditário sofrer um golpe em seu próprio quintal, embora eu ainda precise conversar com um ou dois indecisos.

— E quanto aos Liberais? — perguntou Giles.

— Só Deus sabe, embora eles tenham anunciado que será uma votação livre.

— Uma votação livre? — indagou Harry.

— Não haverá diretriz partidária — explicou Giles. — Cada membro pode decidir a estrada a seguir por princípio.

— E, por fim, existem os Não Alinhados — prosseguiu Lord Harvey. — Eles ouvirão os argumentos de ambos os lados e seguirão a própria consciência. Portanto, só descobriremos qual é a intenção de voto deles quando for feita a convocação das partes para a divisão.

— Então, o que podemos fazer para ajudar? — perguntou Harry.

— Você, Harry, como escritor, e você, Giles, como político, podem começar a me ajudar em meu discurso. Qualquer contribuição que vocês queiram dar será muito bem-vinda. Vamos começar esboçando um esquema durante o almoço.

Nem Giles nem Harry achou que valeria a pena mencionar ao anfitrião questões frívolas como as próximas eleições gerais ou as datas de publicação do novo livro enquanto os três se encaminhavam para a sala de jantar.

— Quando seu livro vai ser publicado? — perguntou Giles enquanto os dois saíam de carro de Ashcombe Hall naquela tarde.

— No dia 20 de julho — disse Harry. — Portanto, só depois das eleições. Meus editores querem que eu faça uma turnê pelo país com algumas sessões de autógrafos e entrevistas.

— Fique sabendo — disse Giles — que os jornalistas não vão fazer nenhuma pergunta sobre o livro, apenas sobre a sua opinião acerca de quem deveria herdar o título.

— Quantas vezes preciso dizer a eles que meu único interesse é Emma e que eu sacrificaria tudo para poder passar o resto da vida com ela? — perguntou Harry tentando não parecer exasperado. — Você pode ficar com o título, com a propriedade e tudo o que nela houver se eu puder ficar com Emma.

 

William Warwick e o caso da testemunha cega foi bem-recebido pela crítica, mas Giles estava com a razão: a imprensa não parecia estar particularmente interessada no ambicioso e jovem detetive de Bristol, mas apenas no alter ego do escritor, Giles Barrington, e suas chances de recuperar o título de família. Toda vez que Harry dizia à imprensa que não tinha interesse algum no título, eles cada vez mais se convenciam do contrário.

Naquela que os jornalistas consideravam a batalha pela herança dos Barrington, todos os jornais, exceto o Daily Telegraph, apoiavam o bonito, corajoso, empreendedor, popular e inteligente menino de origem humilde que, como eles viviam lembrando aos leitores, fora criado nas vielas de Bristol.

Harry aproveitava todas as oportunidades para lembrar aos mesmos jornalistas que Giles havia frequentado a Bristol Grammar School com ele, era agora um parlamentar do Partido Trabalhista por Bristol Docklands, havia recebido a Cruz Militar em Tobruk, um prêmio de críquete no primeiro ano em Oxford e, certamente, não tinha culpa alguma pelo berço em que nascera. A lealdade de Harry ao amigo só o tornava cada vez mais popular junto à imprensa e ao público.

Embora tivesse sido eleito para a Câmara dos Comuns com mais de três mil votos de vantagem e já estivesse atuando nos bancos verdes do Parlamento, Giles sabia que era um debate que aconteceria nos bancos vermelhos da Câmara dos Lordes, do outro lado do corredor, dali a pouco mais de um mês, que decidiria o futuro dele e de Harry.