Os Pecados do Pai
Capítulo 21
Ao receber alta da enfermaria cinco semanas mais tarde, Giles conhecia mil palavras em alemão, mas não podia exercitar sua pronúncia.
Também passou inúmeras horas deitado na cama tentando lembrar como Jenkins executava seu trabalho. Ficou treinando dizer Bom dia, senhor com um respeitoso aceno de cabeça e Gostaria de experimentar este vinho, coronel? enquanto servia uma jarra d’água em uma garrafa de amostra.
— Sempre pareça modesto, nunca interrompa e não fale até que lhe dirijam a palavra — Bates recordou. — Na verdade, faça exatamente o oposto do que você sempre fez.
Giles tinha vontade de bater no amigo, mas sabia que ele tinha razão.
Embora só tivesse permissão para visitar Giles durante trinta minutos duas vezes por semana, Bates usava cada um daqueles minutos para informá-lo sobre a movimentação quotidiana da sala de jantar particular do comandante. Ensinou a Giles o nome e a patente de cada oficial, o que eles gostavam e não gostavam, e advertiu que o major Müller da SS, encarregado da segurança do campo, não era um cavalheiro e, certamente, não era suscetível a agrados, especialmente do tipo tradicional.
Outro visitante foi o brigadeiro Turnbull, que ouviu com interesse as ideias que Giles tinha em mente para quando saísse da enfermaria. O brigadeiro foi embora impressionado e voltou poucos dias mais tarde com algumas ideias próprias.
— A comissão de fuga não tem dúvida alguma de que os alemães jamais permitirão que você trabalhe na sala de jantar do comandante se acharem que você é um oficial — ele disse a Giles. — Para que seu plano tenha alguma chance de sucesso, você vai precisar ser um soldado raso. Já que apenas Bates serviu abaixo de você, ele é o único que terá de manter a boca fechada.
— Ele fará o que eu mandar — disse Giles.
— Não mais — advertiu o brigadeiro.
Quando finalmente saiu da enfermaria e foi para o acampamento, Giles ficou surpreso com a disciplina da vida quotidiana, especialmente para um soldado raso.
Aquilo trouxe lembranças dos seus dias no campo de treinamento Ypres em Dartmoor: pés no chão às seis horas toda manhã com um sargento-mor que certamente não o tratava como um oficial.
Bates ainda chegava antes dele ao banheiro e ao café da manhã todos os dias. Havia uma parada no pátio às sete com saudação ao brigadeiro. Depois que o sargento-mor berrava “Parada encerrada!”, todos iniciavam uma atividade frenética que se estendia pelo resto do dia.
Giles nunca deixava de participar da corrida de cinco milhas, 25 voltas ao redor do perímetro do campo, nem da hora de conversação em alemão com seu tutor particular enquanto eles estavam sentados nas latrinas.
Ele rapidamente descobriu que o campo para prisioneiros de guerra Weinsberg tinha muitas outras coisas em comum com o quartel Ypres: era frio, soturno, tinha um terreno árido e dezenas de cabanas com camas de madeira, colchões de crina de cavalo e aquecimento fornecido apenas pelo sol, que, como a Cruz Vermelha, raramente visitava Weinsberg. Eles também tinham o próprio sargento-mor, que se referia o tempo todo a Giles como um sujeitinho preguiçoso.
Assim como em Dartmoor, o complexo era cercado por uma cerca alta de arame farpado e só tinha uma entrada e saída. O problema era que não havia folgas nos fins de semana, e os guardas, armados com rifles, certamente não cumprimentavam quando você passava pelo portão em seu MG amarelo.
Quando pediram que Giles preenchesse o formulário de trabalho, no espaço reservado para o nome, ele escreveu soldado Giles Barrington, e no espaço reservado para a ocupação anterior, sommelier.
— Que diabos é isso quando você trabalha em uma casa? — perguntou Bates.
— Garçom de vinhos — disse Giles com tom de superioridade.
— Então, por que diabos você não escreve isso? — Bates disse enquanto rasgava o formulário. — A menos que você tenha alguma esperança de conseguir um emprego no Ritz. Você vai ter de preencher outro — acrescentou, exasperado.
Depois que entregou o segundo formulário, Giles esperou impacientemente para ser entrevistado por alguém no gabinete do comandante. Usou as incontáveis horas para se manter em forma tanto física quanto mentalmente. “Mens sana in corpore sano” era mais o menos a única coisa em latim que ele ainda lembrava dos tempos de escola.
Bates o mantinha informado sobre o que estava acontecendo do outro lado da cerca e até conseguia contrabandear uma batata ou uma casca de pão de vez em quando, em uma ocasião, até mesmo meia laranja.
— Não posso exagerar — ele explicou. — A última coisa que preciso é perder meu emprego.
Foi cerca de um mês mais tarde que os dois foram convidados a comparecer diante da comissão de fuga e apresentar o plano Bates-Barrington, que rapidamente ficou conhecido como o plano “cama e café”: cama em Weinsberg, café da manhã em Zurique.
A apresentação clandestina correu bem e a comissão concordou que eles deveriam avançar algumas posições na lista, mas ninguém ainda estava sugerindo que eles fossem para o topo. Na verdade, o brigadeiro disse sem rodeios que, até o soldado Barrington conseguir um trabalho na sala de jantar do comandante, eles não deveriam voltar a incomodar a comissão.
— Por que está demorando tanto, Terry? — Giles perguntou depois que eles saíram da reunião.
O cabo Bates sorriu.
— Fico feliz por você me chamar de Terry — disse —, quer dizer, quando estamos só nós dois, mas nunca na frente dos homens, entende? — acrescentou fazendo uma imitação passável de Fisher.
Giles deu um soco em seu braço.
— Ofensa digna de corte marcial — Bates lembrou —, um soldado raso atacando um oficial não comissionado.
Giles deu outro soco no amigo.
— Agora responda minha pergunta — exigiu.
— Nada acontece com rapidez neste lugar. Você vai precisar ter paciência, Giles.
— Você não pode me chamar de Giles até estarmos sentados para tomar o café da manhã em Zurique.
— Por mim, tudo bem, se você estiver pagando.
Tudo mudou no dia em que o comandante do campo teve de oferecer um almoço para um grupo de oficiais da Cruz Vermelha e precisou de um garçom suplementar.
— Não se esqueça de que você é um soldado raso — disse Bates quando Giles foi acompanhado até o outro lado da cerca para sua entrevista com o major Müller. — Você precisa tentar raciocinar como um serviçal, e não como alguém acostumado a ser servido. Se Müiller suspeitar ainda que por um instante que você é um oficial, estaremos encrencados e voltaremos para o início do tabuleiro de jogo. Posso garantir uma coisa: o brigadeiro nunca mais vai nos convidar para jogar os dados novamente. Portanto, aja como um serviçal e jamais dê a mínima impressão de que entende uma palavra de alemão. Entendeu?
— Sim, senhor — disse Barrington.
Giles voltou uma hora mais tarde com um sorriso largo no rosto.
— Conseguiu o emprego? — perguntou Bates.
— Dei sorte — respondeu Giles. — O comandante, e não Müller, me entrevistou. Começo amanhã.
— E ele nunca suspeitou que você era um oficial e um cavalheiro?
— Não depois que eu disse que era seu amigo.
Antes que o almoço para os oficiais da Cruz Vermelha fosse servido, Giles abriu seis garrafas de merlot para deixá-las respirar. Quando os convidados estavam sentados, ele despejou um dedo de vinho na taça do comandante e esperou sua aprovação. Depois de um aceno de cabeça, ele serviu os convidados, sempre do lado direito. Depois, passou para os oficiais, de acordo com as patentes, e finalmente retornou ao comandante anfitrião.
Durante a refeição, ele se certificava de que nenhuma taça permanecia vazia, mas nunca servia alguém que estivesse falando. Assim como Jenkins, ele era raramente visto e nunca ouvido. Tudo correu como planejado, embora Giles tivesse plena consciência de que os olhos desconfiados do major Müller raramente se desviavam dele, mesmo quando ele tentava passar despercebido.
Após os dois terem sido escoltados de volta para o acampamento em seguida naquela tarde, Bates disse:
— O comandante ficou impressionado.
— Por que você está dizendo isso? — perguntou Giles, jogando verde.
— Ele disse ao cozinheiro-chefe que você deve ter trabalhado para alguma grande família, porque, embora obviamente fosse das classes baixas, você foi bem treinado por um profissional consumado.
— Obrigado, Jenkins — disse Giles.
— Então, o que quer dizer consumado? — perguntou Bates.
Giles se tornou tão hábil em sua nova vocação que o comandante do campo insistia em ser servido por ele mesmo quando jantava sozinho. Isso permitiu que Giles estudasse seus maneirismos, as inflexões em sua voz, seu riso, até mesmo sua leve gagueira.
Em algumas semanas, o soldado Barrington recebeu as chaves da adega e permissão para escolher quais vinhos deviam ser servidos no jantar. E, após alguns meses, Bates ouviu o comandante dizer ao cozinheiro que Barrington era erstklassig.
Toda vez que o comandante oferecia um jantar, Giles rapidamente avaliava quais línguas podiam ser amolecidas pelo fluxo incessante de vinho nas taças e como se tornar invisível toda vez que uma daquelas línguas começava a bater nos dentes. Ele passava todas as informações úteis captadas na noite anterior para o ordenança do brigadeiro durante a corrida comunal de cinco milhas. Aqueles fragmentos de notícias incluíam o local onde o comandante vivia, o fato de ele ter sido eleito vereador da cidade aos 32 anos e nomeado prefeito em 1938. Ele não sabia dirigir, mas havia visitado a Inglaterra três ou quatro vezes antes da guerra e falava inglês fluentemente. Em troca, Giles soube que ele e Bates haviam subido vários degraus na escada da comissão de fuga.
A principal atividade de Giles durante o dia era passar uma hora conversando com seu tutor. Nunca uma palavra de inglês era dita e o homem de Solihull até disse ao brigadeiro que o soldado Barrington estava começando a soar cada vez mais como o comandante.
Em 3 de dezembro de 1941, o cabo Bates e o soldado Barrington fizeram sua apresentação final à comissão de fuga. O brigadeiro e a sua equipe ouviram o plano Café e Cama com bastante interesse e concordaram que suas chances de sucesso eram maiores do que as da maioria dos esquemas mal amadurecidos que lhes eram propostos.
— Qual vocês acham que seria o melhor momento para realizar o plano? — perguntou o brigadeiro.
— Na véspera do Ano-Novo, senhor — disse Giles sem hesitação. — Todos os oficiais vão se juntar ao comandante para o jantar de réveillon.
— E, como o soldado Barrington estará servindo os drinques — acrescentou Bates —, poucos deles ainda estarão sóbrios à meia-noite.
— Exceto Müller — o brigadeiro lembrou a Bates —, que nunca bebe.
— É verdade, mas ele nunca deixa de brindar à Pátria, ao Führer e ao Terceiro Reich. Se acrescentarmos o Ano-Novo e o fato de ele ser o anfitrião, tenho a sensação de que ele estará bastante sonolento quando for levado de carro para casa.
— A que horas vocês são geralmente escoltados de volta ao acampamento depois dos jantares do comandante? — perguntou um jovem tenente que havia se juntado recentemente à comissão.
— Por volta das onze horas — disse Bates —, mas, como se trata da véspera do Ano-Novo, não será antes de meia-noite.
— Não se esqueçam, cavalheiros — Giles interveio —, de que tenho as chaves da adega; portanto, posso garantir a vocês que várias garrafas irão parar na casa de guarda durante a noite. Não queremos que eles fiquem de fora das comemorações.
— Está tudo muito bem — disse um tenente-coronel da aeronáutica que raramente falava —, mas como vocês planejam passar por eles?
— Saindo pelo portão principal no carro do comandante — respondeu Giles. — Ele é sempre um anfitrião zeloso e nunca sai antes do último convidado, o que deve nos dar pelo menos umas duas horas de vantagem.
— Ainda que vocês consigam roubar o carro dele — disse o brigadeiro —, por mais bêbados que estejam, os guardas mesmo assim conseguirão distinguir um garçom de vinho do oficial comandante.
— Não se eu estiver usando o sobretudo, chapéu, echarpe e luvas dele e carregando seu bastão — observou Giles.
O jovem tenente claramente não estava convencido.
— E, como parte do plano, o comandante vai entregar calmamente todas as roupas para você, soldado Barrington?
— Não, senhor — disse Giles a um oficial que era seu subalterno. — O comandante sempre deixa o casaco, quepe e luvas na chapelaria.
— Mas e quanto a Bates? — perguntou o mesmo oficial. — Eles vão identificá-lo a um quilômetro de distância.
— Não se eu estiver no porta-malas do carro — disse Bates.
— E o motorista do comandante, que, como podemos deduzir, vai estar totalmente sóbrio? — perguntou o brigadeiro.
— Estamos pensando a respeito — disse Giles.
— E, caso vocês consigam superar o problema do motorista e passar pelos guardas, qual é a distância até a fronteira suíça? — indagou novamente o jovem tenente.
— Cento e setenta e três quilômetros — disse Bates. — A cem quilômetros por hora, devemos alcançar a fronteira em pouco menos de duas horas.
— Contando que não haverá obstáculos no caminho.
— Nenhum plano de fuga pode ser totalmente seguro — interveio o brigadeiro. — No final, tudo se resume a como enfrentamos os imprevistos.
Giles e Bates anuíram.
— Obrigado, cavalheiros — disse o brigadeiro. — A comissão vai avaliar seu plano e comunicaremos nossa decisão pela manhã.
— O que aquele recruta da aeronáutica tem contra nós? — perguntou Bates quando eles saíram da reunião.
— Nada — disse Giles. — Pelo contrário, suspeito que ele queira ser o terceiro membro da nossa equipe.
Em 6 de dezembro, o ordenança do brigadeiro disse a Giles durante a corrida de cinco milhas que o plano havia sido aprovado e que a comissão desejava a eles boa viagem. Giles rapidamente alcançou o cabo Bates e comunicou a notícia.
Barrington e Bates recapitularam o plano várias vezes até ficarem, como atletas olímpicos, entediados com as infindáveis horas de preparação e ansiosos para ouvir o tiro de largada.
Às 18h do dia 31 de dezembro de 1941, o cabo Terry Bates e o soldado Giles Barrington se apresentaram para o serviço nos aposentos do comandante cientes de que, se o plano falhasse, eles, na melhor das hipóteses, teriam de esperar mais um ano, mas se fossem pegos com a boca na botija...