Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 10 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 8

 

Emma estava em pé nas docas havia mais de uma hora quando avistou a proa do Kansas Star despontando no porto, mas outra hora se passou antes que o navio finalmente atracasse.

Naquele ínterim, Emma pensou sobre a decisão que havia tomado e já estava começando a questionar se teria a coragem para levá-la a cabo. Tentou afastar dos pensamentos o afundamento do Athenia alguns meses antes e a possibilidade de sequer chegar a Nova York.

Ela havia escrito uma longa carta tentando explicar por que ficaria longe por algumas semanas — três no máximo — e esperava que a mãe entendesse. Mas não podia escrever uma carta para que Sebastian soubesse que ela estava indo à procura de seu pai e que já estava sentindo sua falta. Ela continuava tentando se convencer de que estava fazendo aquilo tanto pelo filho quanto por si mesma.

Sir Walter se ofereceu mais uma vez para apresentá-la ao capitão do Kansas Star, mas Emma declinou educadamente, pois isso atrapalharia seus planos de permanecer anônima. O avô também fez uma vaga descrição do dr. Wallace e, sem dúvida, ninguém com aquela aparência havia desembarcado do navio naquela manhã. Todavia, Sir Walter conseguiu passar duas outras informações valiosas. O Kansas Star partiria na última maré daquela noite. E o intendente geralmente podia ser encontrado em seu escritório entre duas e cinco horas todas as tardes, preenchendo formulários de embarque. Mais importante ainda: ele era responsável pela contratação de pessoal não pertencente à tripulação.

Emma escrevera ao avô no dia anterior para agradecer pela ajuda, mas não revelou o que estava tramando, embora tivesse a sensação de que ele já tinha intuído.

Após o relógio de Barrington House ter soado duas vezes sem sinal da presença do dr. Wallace, Emma pegou sua malinha e decidiu que era chegada a hora de cruzar a prancha de embarque. Ao pisar nervosamente no convés, perguntou à primeira pessoa uniformizada que viu onde ficava o escritório do intendente e foi informada de que ficava no convés de popa inferior.

Ela avistou uma passageira descendo uma larga escadaria e a seguiu até onde presumiu ser o convés inferior, mas, como não fazia ideia do que fosse popa, entrou em uma fila diante do balcão de informações.

Atrás do balcão estavam duas garotas trajando uniformes azul-escuros e blusas brancas que estavam tentando responder a todos os questionamentos dos passageiros mantendo o sorriso estampado em seus rostos.

— Em que posso ajudá-la, senhorita? — uma delas perguntou quando Emma por fim chegou à frente da fila.

A garota claramente presumiu que ela era uma passageira e, de fato, Emma havia pensado em comprar uma passagem para Nova York, mas decidiu que as probabilidades de descobrir aquilo de que precisava saber seriam maiores desde que se alistasse como tripulante.

— Onde fica o escritório do intendente? — perguntou.

— Segunda porta à direita descendo aquela escada de escotilha — respondeu a garota. — Não há como errar.

Emma seguiu a direção apontada pelo dedo da moça e, quando chegou a uma porta com a inscrição Intendente, respirou fundo e bateu.

— Entre.

Emma abriu a porta e entrou no escritório, onde viu um oficial elegantemente vestido sentado atrás de uma escrivaninha coberta de formulários. Ele estava usando uma impecável camisa branca de colarinho aberto com duas dragonas douradas em cada ombro.

— Em que posso ajudá-la? — ele perguntou com um sotaque que ela jamais ouvira e que mal conseguia decifrar.

— Estou procurando emprego como garçonete, senhor — disse Emma, esperando soar como uma das criadas de Manor House.

— Lamento — ele disse voltando a baixar a cabeça. — Não precisamos de nenhuma outra garçonete. A única vaga disponível é no balcão de informações.

— Eu ficaria feliz de trabalhar lá — disse Emma, voltando à sua voz normal.

O intendente a olhou com mais atenção.

— O salário não é bom — advertiu — e o horário é pior ainda.

— Estou acostumada — Emma disse.

— E não posso oferecer uma vaga permanente — continuou o intendente — porque uma das minhas garotas está de licença em Nova York, mas voltará para o navio depois desta travessia.

— Isso não é problema — disse Emma sem dar explicações.

O intendente ainda não parecia convencido.

— Você sabe ler e escrever?

Emma até gostaria de ter respondido que obtivera uma bolsa de estudos em Oxford, mas disse simplesmente:

— Sim, senhor.

Sem dizer outra palavra, ele abriu uma gaveta e tirou lá de dentro um longo formulário e entregou a Emma uma caneta-tinteiro.

— Preencha isso — disse. — E também vou precisar de uma referência — acrescentou enquanto Emma começava a responder às perguntas.

Após ter preenchido o formulário, Emma abriu a bolsa e entregou a carta de recomendação de Maisie.

— Bastante impressionante — ele disse. — Mas você tem certeza de que tem as qualidades necessárias para ser uma recepcionista?

— Era o que eu ia fazer em seguida no Grand — respondeu Emma. — Parte do treinamento para que eu me tornasse gerente.

— Então, por que abrir mão dessa oportunidade para vir trabalhar conosco?

— Tenho uma tia-avó que mora em Nova York, e minha mãe quer que eu fique com ela até o final da guerra.

Daquela vez, o intendente pareceu convencido, pois não era a primeira vez que alguém queria pagar a própria passagem trabalhando para ir embora da Inglaterra.

— Então, vamos começar logo — disse ele, levantando-se rapidamente.

Saiu do escritório e a guiou no curto trajeto de volta até o balcão de informações.

— Peggy, encontrei alguém para substituir Dana nesta viagem. Então é melhor que você comece a prepará-la imediatamente.

— Graças a Deus! — disse Peggy, levantando uma parte da bancada para que Emma pudesse se juntar a ela atrás do balcão. — Qual é o seu nome? — perguntou com o mesmo sotaque quase impenetrável. Pela primeira vez, Emma entendeu o que Bernard Shaw quis dizer quando sugeriu que ingleses e americanos eram divididos por um idioma comum.

— Emma Barrington.

— Muito bem, Emma, esta é minha assistente Trudy. Estamos muito ocupadas, talvez você possa ficar só observando por enquanto e nós vamos explicando tudo aos poucos.

Emma deu um passo para trás e ficou observando enquanto as duas garotas davam conta do que aparecia pela frente, conseguindo, de alguma maneira, sempre manter o sorriso.

Em uma hora, Emma já sabia a que horas e onde os passageiros deviam se apresentar para as simulações de evacuação com botes salva-vidas, em que convés ficava o restaurante, quanto ao largo eles precisavam estar antes que os passageiros pudessem pedir um drinque, onde eles poderiam encontrar um parceiro para uma partida de bridge após o jantar e como chegar ao convés superior para apreciar o pôr do sol.

Durante a hora seguinte, Emma ouviu, na maioria das vezes, as mesmas perguntas sendo feitas repetidamente e, na terceira hora, deu um passo à frente e começou a responder ela mesma as indagações dos passageiros, precisando consultar as outras garotas apenas ocasionalmente.

Peggy ficou impressionada e, quando a fila diminuiu e foram ficando só os retardatários, ela disse a Emma:

— É hora de mostrar seus aposentos e jantar enquanto os passageiros estão tomando um aperitivo. Volto mais ou menos às sete para render você — acrescentou, virando-se para Trudy. Depois, levantou a bancada e saiu de trás da mesa. Trudy anuiu com a cabeça enquanto outro passageiro se aproximava.

— Você pode me dizer se precisamos nos arrumar para o jantar hoje à noite?

— Não na primeira noite — foi a resposta firme —, mas em todas as outras, sim.

Peggy não parou de falar enquanto guiava Emma por um longo corredor, chegando até a parte de cima de alguns degraus isolados por um cordão com um sinal que dizia em grossas letras vermelhas: SOMENTE TRIPULANTES.

— Este é o caminho para os nossos aposentos — ela explicou enquanto soltava o cordão. — Você vai precisar dividir uma cabine comigo — acrescentou à medida que elas avançavam — porque a cama de Dana é a única disponível no momento.

— Tudo bem — disse Emma.

Elas foram descendo cada vez mais; as escadas se tornando mais apertadas a cada convés. Peggy só parava de falar quando um tripulante se afastava para deixá-las passar. Ocasionalmente, ela os recompensava com um sorriso caloroso. Emma nunca havia conhecido alguém como Peggy, tão ferozmente independente, mas que, de alguma maneira, conseguia manter a feminilidade, com os seus cabelos claros e na altura do queixo, saia pouco abaixo dos joelhos e paletó justo que não deixava dúvida quanto à sua bela silhueta.

— Esta é nossa cabine — ela disse finalmente. — É onde você vai dormir durante a próxima semana. Tomara que você não esteja esperando nada majestoso.

Emma entrou em uma cabine menor do que qualquer aposento de Manor House, inclusive o armário das vassouras.

— Terrível, não é? — disse Peggy. — Na verdade, esta lata velha tem apenas uma vantagem.

Emma não precisou perguntar o que era, já que Peggy ficava feliz em responder a suas próprias perguntas, bem como as de Emma.

— A proporção homens/mulheres é melhor do que em quase qualquer outro lugar do mundo — Peggy disse rindo. E acrescentou: — Aquela é a cama de Dana e esta é a minha. Como você pode ver, não há muito espaço para duas pessoas aqui ao mesmo tempo, a menos que uma delas esteja na cama. Vou deixar que você desfaça sua mala. Volto em meia hora para levar você ao refeitório dos tripulantes para o jantar.

Emma ficou imaginando como era possível descer ainda mais, mas Peggy desapareceu antes que ela pudesse perguntar. Emma sentou-se na cama, atordoada. Como fazer com que Peggy respondesse a todas as suas perguntas se ela não parava de falar? Ou será que isso se revelaria uma vantagem; será que ela, com o tempo, revelaria tudo o que Emma precisava saber? Ela tinha uma semana inteira para descobrir; portanto, podia se dar ao luxo de ser paciente. Começou, então, a enfiar seus poucos pertences em uma gaveta que Dana nem tentara esvaziar.

Dois longos apitos do navio e, um instante mais tarde, Emma sentiu um leve tremor. Embora não houvesse nenhuma escotilha da qual olhar, ela podia sentir que eles estavam se deslocando. Sentou-se novamente na cama e tentou se convencer de que havia tomado a decisão certa. Embora planejasse voltar a Bristol em um mês, ela já estava sentindo saudade de Sebastian.

Emma começou a examinar com mais atenção o que seria sua residência durante a semana seguinte. Em cada lado da cabine, presa à parede, ficava uma cama estreita cujas dimensões presumiam que qualquer ocupante seria mais baixo do que a média. Ela se deitou, testou um colchão que não afundava porque não tinha molas e repousou a cabeça sobre um travesseiro cheio de espuma de látex, e não de plumas. Havia uma pequena pia com duas torneiras que forneciam o mesmo filete de água morna.

Ela vestiu o uniforme de Dana e tentou não rir. Quando voltou, Peggy riu. Dana devia ser pelo menos uns oito centímetros mais baixa e certamente uns três números maior do que Emma.

— Agradeça por ser só uma semana — disse Peggy enquanto levava Emma para jantar.

Elas desceram ainda mais nas entranhas do navio e se juntaram a outros membros da tripulação. Vários homens jovens e um ou dois mais velhos convidaram Peggy para se sentar à mesa deles. Ela preferiu um rapaz alto que, conforme disse a Emma, era engenheiro. Emma ficou se perguntando se aquilo explicava por que não eram apenas os cabelos dele que estavam besuntados de óleo. Os três entraram na fila da comida. O engenheiro encheu o prato com quase tudo o que era oferecido. Peggy pegou metade, já Emma, sentindo-se um pouco tonta, se satisfez com um biscoito e uma maçã.

Após o jantar, Peggy e Emma voltaram ao balcão de informações para render Trudy. Como o jantar dos passageiros era servido às oito, poucos deles apareceram no convés, apenas aqueles que precisavam pedir instruções sobre como chegar ao salão das refeições.

Durante a hora seguinte, Emma aprendeu muito mais sobre Peggy do que sobre o SS Kansas Star. Quando terminaram o turno às dez horas, baixaram a grade e Peggy guiou a nova companheira de volta pela escadaria do convés inferior.

— Quer ir tomar um drinque conosco no refeitório da tripulação? — perguntou.

— Não, obrigada — disse Emma. — Estou exausta.

— Você acha que consegue encontrar o caminho de volta até a cabine?

— Convés inferior sete, quarto cento e treze. Se eu não estiver na cama quando você voltar, acione uma equipe de buscas.

Assim que entrou na cabine, Emma rapidamente se despiu, se lavou e entrou embaixo do único lençol e coberta disponíveis. Ficou deitada na cama tentando se ajeitar, os joelhos quase batendo no queixo, enquanto os solavancos irregulares do navio não a deixavam permanecer na mesma posição por mais do que alguns instantes. Seus últimos pensamentos antes de cair em um sono espasmódico foram dedicados a Sebastian.

Emma acordou com um tranco. Estava tão escuro que ela não tinha como verificar o horário no relógio de pulso. Primeiro, ela deduziu que a oscilação fosse causada pelo movimento do navio, até que seus olhos focaram e ela pôde divisar dois corpos na cama do outro lado da cabine se mexendo ritmicamente para cima e para baixo. Um dos corpos tinha pernas que ultrapassavam, e muito, o final da cama e estavam apoiadas na parede; só podia ser o engenheiro. Emma queria rir, mas só ficou deitada sem se mexer até Peggy soltar um longo suspiro e o movimento cessar. Uns instantes mais tarde, os pés conectados às longas pernas tocaram o chão e começaram a serpear dentro de um macacão velho. Pouco depois, a porta da cabine se abriu e se fechou silenciosamente. Emma caiu em um sono profundo.