Os Pecados do Pai
Maisie Clifton - 1939-1942
MAISIE CLIFTON
1939-1942
25
Maisie ainda conseguia se lembrar da dor que sentiu quando o marido não voltou para casa no final do turno da noite. Ela sabia que Arthur estava morto, embora anos se passariam antes que seu irmão Stan se decidisse a contar a verdade sobre a morte do seu marido no estaleiro naquela tarde.
Mas a dor não era nada comparada à notícia de que seu filho único havia sido enterrado no mar depois de o Devonian ter sido atingido por um torpedo alemão horas após a declaração de guerra.
Maisie ainda se lembrava da última vez em que havia visto Harry. Ele tinha ido visitá-la no Grand Hotel em uma manhã de quinta-feira. O restaurante estava abarrotado, com uma longa fila de clientes esperando uma mesa. Ele ficou na fila, mas, quando viu a mãe assoberbada, entrando e saindo da cozinha sem um minuto a perder, saiu de fininho, presumindo que ela não o havia notado. Harry era consciencioso e sabia que ela não gostava de ser interrompida no trabalho e, para dizer a verdade, ele também sabia que a mãe não ia gostar de ouvir que ele deixara Oxford para se alistar na Marinha.
Sir Walter Barrington apareceu no dia seguinte para informar a Maisie que Harry zarpara de manhã como quarto-oficial no SS Devonian e voltaria até o final do mês para se juntar à tripulação do HMS Resolution como taifeiro, pois tinha intenção de partir atrás de submarinos alemães no Atlântico. O que ele não sabia é que os alemães já estavam atrás dele.
Maisie planejou tirar o dia de folga no dia em que Harry voltasse, mas não foi o que aconteceu. Saber quantas outras mães haviam perdido filhos por causa daquela guerra vil e bárbara não ajudava.
O dr. Wallace, o oficial médico a bordo do SS Kansas Star, a estava esperando ao lado da porta da casa em Still House Lane quando ela voltou para casa depois do trabalho naquela noite de outubro. Ele não precisou dizer a Maisie o motivo da sua visita. Estava escrito em seu rosto.
Os dois se sentaram na cozinha, e o médico contou que foi o responsável pelo bem-estar daqueles marinheiros que foram resgatados do oceano após o naufrágio do Devonian. Ele garantiu que havia feito todo o possível para salvar a vida de Harry, mas, infelizmente, o rapaz nunca recobrou a consciência. Na verdade, dos nove marinheiros dos quais ele tratou naquela noite, só um sobreviveu, um certo Tom Bradshaw, o terceiro-oficial, que era evidentemente um amigo de Harry. Bradshaw havia escrito uma carta de condolências que o dr. Wallace prometeu entregar à sra. Clifton assim que o Kansas Star voltasse a Bristol. Ele manteve a palavra. Maisie se sentiu culpada assim que o médico foi embora e voltou para o navio. Ela sem sequer lhe oferecera uma xícara de chá.
Maisie pôs a carta de Tom Bradshaw sobre a lareira, perto de sua fotografia favorita de Harry cantando no coro da escola.
Quando voltou ao trabalho na manhã seguinte, os colegas no hotel foram gentis e solícitos, e o sr. Hurst, o gerente do hotel, sugeriu que ela tirasse alguns dias de folga. Ela disse que era a última coisa de que precisava naquele momento. Ao contrário, decidiu fazer o máximo de horas extras que podia na esperança de atenuar a dor.
Não funcionou.
Muitos dos jovens que trabalhavam no hotel estavam partindo para se alistar nas Forças Armadas, e suas vagas estavam sendo ocupadas por mulheres. Não era mais considerado um estigma para uma moça trabalhar e Maisie foi assumindo cada vez mais responsabilidades à medida que o número de funcionários do sexo masculino ia diminuindo.
O gerente do restaurante devia se aposentar ao completar sessenta anos, mas Maisie deduziu que o sr. Hurst pediria a ele para ficar até o final do guerra. Foi um choque quando o chefe a chamou ao seu escritório e lhe ofereceu o cargo.
— Você fez por merecer, Maisie — ele disse —, e o escritório central concorda comigo.
— Eu gostaria de alguns dias para pensar a respeito — ela respondeu antes de sair do escritório.
O sr. Hurst não tocou mais no assunto durante uma semana e, quando o fez, Maisie sugeriu que talvez devesse ser colocada em experiência durante um mês. Ele riu.
— Geralmente — o sr. Hurst lembrou a ela — é o empregador, e não o funcionário, que insiste a respeito do mês de experiência.
Em uma semana, ambos haviam se esquecido do período de experiência porque, embora o horário fosse longo e as novas responsabilidades fossem onerosas, Maisie nunca se sentira tão realizada. Ela sabia que, quando a guerra terminasse e os rapazes retornassem do front, ela voltaria a ser uma garçonete. Voltaria a ser uma prostituta se aquilo pudesse fazer com que Harry estivesse entre os que regressavam para casa.
Maisie não precisava ser capaz de ler um jornal para saber que a força aérea japonesa havia destruído a frota americana em Pearl Harbor e que os cidadãos dos Estados Unidos haviam se erguido em peso contra o inimigo em comum e se unido aos Aliados, pois, durante dias a fio, aquele foi o único assunto na boca de todos.
Não demorou até Maisie conhecer seu primeiro americano.
Milhares de ianques se encaminharam para West Country nos dois anos seguintes, e muitos deles foram aquartelados em um acampamento militar nos arrabaldes de Bristol. Alguns dos oficiais começaram a jantar no restaurante do hotel, mas, com a mesma rapidez com que se tornavam clientes regulares, desapareciam e nunca mais eram vistos. Maisie era dolorosamente lembrada o tempo todo de que alguns deles não eram mais velhos do que Harry.
Mas isso mudou quando um deles de fato voltou. Maisie não o reconheceu imediatamente quando ele mesmo, impulsionando a própria cadeira de rodas, entrou no restaurante e pediu a mesa de sempre. Ela sempre achou que fosse boa para lembrar nomes, e mais ainda para lembrar fisionomias — é algo necessário quando você não sabe ler nem escrever, mas, no momento em que ela ouviu o sotaque sulista, a ficha caiu.
— Tenente Mulholland, não é mesmo?
— Não, sra. Clifton. Agora é major Mulholland. Mandaram-me de volta para cá para me recuperar antes de me despacharem para casa na Carolina do Norte.
Ela sorriu e o acompanhou até sua mesa habitual, embora ele não a tenha deixado ajudá-lo com a cadeira de rodas. Mike, como ele insistia que Maise o chamasse, tornou-se um cliente regular, aparecendo duas, até mesmo três, vezes por semana.
Maisie riu quando o sr. Hurst sussurrou:
— Você sabe que ele tem uma queda por você.
— Acho que o senhor deve considerar meus dias de flerte encerrados — respondeu ela.
— Não se engane — retorquiu ele. — Você está na flor da idade, Maisie. Posso assegurar que o major Mulholland não é o primeiro homem que me pergunta se você está saindo com alguém.
— Tente não se esquecer, sr. Hurst, de que sou avó.
— Eu não diria isso a ele se fosse você — disse o gerente.
Maisie não reconheceu o major pela segunda vez quando ele chegou uma tarde de muletas, tendo claramente abandonado a cadeira de rodas. Mais um mês, e as muletas foram substituídas por bengalas e não demorou muito para que também se tornassem relíquias.
Uma noite, o major Mulholland telefonou para reservar uma mesa para oito; ele tinha algo a comemorar, disse a Maisie. Ela deduziu que ele devia estar voltando para a Carolina do Norte e, pela primeira vez, percebeu como sentiria sua falta.
Ela não considerava Mike um homem bonito, mas ele tinha o sorriso caloroso e os modos de um cavalheiro inglês, ou, como uma vez ele ressaltou, de um cavalheiro sulista. Tornou-se moda falar mal dos americanos depois que eles se estabeleceram nas bases da Grã-Bretanha, e o bordão de que eles tinham apetite sexual e soldo excessivos era repercutido por vários habitantes de Bristol que jamais haviam cruzado com um americano, inclusive o irmão de Maisie, Stan, e nada que ela dissesse o fazia mudar de opinião.
Quando o jantar comemorativo do major chegou ao fim, o restaurante estava quase vazio. Às dez horas, um oficial levantou um brinde à saúde de Mike e o parabenizou.
Quando os convivas estavam prestes a ir embora e voltar para o acampamento antes do toque de recolher, Maisie disse a Mike, em nome de todos os funcionários, que todos estavam muito felizes por ele ter se recuperado plenamente e em condições de voltar para casa.
— Não vou voltar para casa, Maisie — ele disse rindo. — Estávamos comemorando minha promoção a vice-comandante da base. Receio que você vai ter de me aturar até o final da guerra.
Maisie ficou exultante com a notícia e ficou surpresa quando ele acrescentou:
— Sábado que vem, teremos o baile do regimento, e eu estava me perguntando se você faria a honra de ser minha convidada.
Maisie ficou sem palavras. Ela não conseguia se lembrar da última vez que alguém a havia convidado para sair e não sabe quanto tempo ele ficou ali parado esperando sua resposta, mas, antes que ela pudesse dizer alguma coisa, Mike declarou:
— Temo que será a primeira vez em muitos anos que ponho os pés em uma pista de dança.
— Eu também — admitiu Maisie.