Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 42 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 40

 

 

Emma acordou cedo na manhã seguinte e conversou alegremente com Phyllis durante o café da manhã sobre como ela estava ansiosa para rever Sebastian e a família. Phyllis anuiu com a cabeça, mas disse muito pouco.

Parker recolheu as malas de Emma no quarto, levou-as de elevador para o andar inferior e as deixou no saguão. Ela havia adquirido mais duas malas desde a chegada em Nova York. Alguém voltava para casa com menos coisas do que quando partiu?, ela se perguntou.

— Não vou descer — disse Phyllis depois de várias tentativas de se despedir. — Só vou fazer papel de tola. É melhor que você simplesmente se lembre de uma velha ranzinza que não gostava de ser perturbada durante suas partidas de bridge. Quando nos visitar da próxima vez, querida, traga Harry e Sebastian. Quero conhecer o homem que capturou seu coração.

Um táxi buzinou lá embaixo, na rua.

— Hora de partir — disse Phyllis. — Vá logo.

Emma deu um último abraço na tia-avó e não olhou mais para trás.

Quando ela saiu do elevador, Parker a estava esperando ao lado da porta de entrada da casa, a bagagem já guardada no porta-malas do táxi. Assim que a viu, ele foi para a calçada e abriu a porta traseira do carro.

— Adeus, Parker — disse Emma —, e obrigada por tudo.

— O prazer foi meu, madame — ele respondeu. Quando ela estava prestes a entrar no carro, o mordomo acrescentou: — Se não for impróprio, madame, eu poderia fazer uma observação?

Emma deu um passo para trás tentando mascarar a própria surpresa.

— Claro, por favor.

— Apreciei tanto o diário do sr. Clifton — ele disse — que espero que não demore muito para a senhorita voltar a Nova York acompanhada do seu marido.

 

Não se passou muito tempo, e o trem estava correndo pelo campo, Nova York fora de vista, enquanto eles se dirigiam à capital. Emma descobriu que não conseguia ler nem dormir por mais do que alguns minutos de cada vez. A tia-avó Phyllis, o sr. Guinzburg, o primo Alistair, o sr. Jelks, o detetive Kolowski e Parker, todos apareciam e iam embora.

Ela pensou no que precisava fazer quando chegasse a Washington. Primeiro, precisava ir à embaixada britânica e assinar alguns formulários para poder se juntar ao embaixador no voo para Londres conforme organizado por Rupert Harvey, o filho de um primo de terceiro grau. “Não caçoe, garota”, ela ouviu a tia-avó resmungando, depois pegou no sono. Harry apareceu em seus sonhos, fardado daquela vez, sorrindo, rindo e, depois, ela acordou com um solavanco esperando que ele estivesse ao seu lado.

Quando o trem estacionou na Union Station cinco horas mais tarde, Emma teve dificuldade em carregar as malas para a plataforma, até que um carregador, ex-militar com um só braço, veio socorrê-la. Ele chamou um táxi, agradeceu a gorjeta e bateu continência com o braço errado. Outra pessoa cujo destino foi decidido por uma guerra declarada por outros.

— Para a embaixada britânica — Emma disse enquanto subia no táxi.

Ela foi deixada em Massachusetts Avenue, diante de um portão de ferro rebuscado que exibia o Estandarte Real. Dois jovens soldados correram para ajudar Emma com as malas.

— Quem a senhorita gostaria de ver? — perguntou um deles com um sotaque britânico.

— O sr. Rupert Harvey — ela respondeu.

— O comandante Harvey. Pois não — disse o coronel, pegando as malas e guiando Emma até um escritório nos fundos do edifício.

Emma entrou em um cômodo grande no qual os funcionários, em sua maioria fardados, corriam em todas as direções. Ninguém andava. Uma figura surgiu em meio àquela confusão e a cumprimentou com um enorme sorriso.

— Sou Rupert Harvey — disse. — Desculpe o caos organizado, mas é sempre assim quando o embaixador está voltando para a Inglaterra. Está ainda pior desta vez porque tivemos a visita de um ministro durante a última semana. Toda a sua documentação foi preparada — acrescentou voltando para a própria escrivaninha. — Só preciso ver seu passaporte.

Depois de folheá-lo, ele pediu que Emma assinasse alguns papéis.

— Um ônibus partirá da frente da embaixada para o aeroporto às seis da tarde. Por favor, seja pontual, pois todos devem estar a bordo do avião antes que o embaixador chegue.

— Serei pontual — disse Emma. — Seria possível deixar minhas malas aqui enquanto vou visitar a cidade?

— Isso não é problema — respondeu Rupert. — Mandarei que alguém as ponha no ônibus para a senhorita.

— Obrigada — disse Emma.

Ela estava prestes a sair quando ele acrescentou:

— A propósito, adorei o livro. E, só a título de aviso, o ministro gostaria de conversar em particular com a senhorita quando estivermos a bordo do avião. Acho que ele foi editor antes de entrar para a política.

— Qual é o nome dele?

— Harold Macmillan.

Emma se lembrou de alguns dos sábios conselhos do sr. Guinzburg: “Todo mundo vai querer esse livro”, ele dissera. “Não existe editor algum que não abrirá as portas para você; portanto, não fique envaidecida facilmente. Procure Billy Collins e Allen Lane da Penguin.” Ele não havia mencionado nenhum Harold Macmillan.

— Então nos vemos no ônibus por volta das seis — disse o filho de um primo de terceiro grau antes de desaparecer em meio ao tumulto.

Emma deixou a embaixada, foi para Massachusetts Avenue e olhou para o relógio de pulso. Pouco mais de duas horas livres antes do encontro com o coronel Cleverdon. Ela chamou um táxi.

— Para onde, senhorita?

— Quero ver tudo o que esta cidade tem a oferecer — disse ela.

— Quanto tempo a senhorita tem? Uns dois anos?

— Não — respondeu Emma —, umas duas horas. Portanto, vamos logo.

O táxi se distanciou rapidamente do meio-fio. Primeira parada: a Casa Branca; 15 minutos. Em seguida, o Capitólio; 20 minutos. Uma volta em torno dos monumentos dedicados a Washington, Jefferson e Lincoln; 25 minutos. Uma visita-relâmpago à Galeria Nacional; outros 25 minutos. Para terminar, o Smithsonian, mas só havia 30 minutos até o compromisso com o coronel Cleverdon; então, Emma não passou do primeiro andar.

Quando ela entrou novamente no táxi, o motorista perguntou:

— Para onde agora, senhorita?

Emma verificou o endereço na carta do coronel Cleverdon.

— Adams Street, 3022 — ela respondeu — e estou com pressa.

Quando o táxi parou diante de um grande edifício de mármore branco que ocupava todo o quarteirão, Emma entregou ao motorista sua última nota de cinco dólares. Ela teria de voltar andando até a embaixada após o encontro.

— Valeu cada centavo — disse ela.

Ele tocou a aba do quepe.

— Eu achava que só nós, americanos, fazíamos essas coisas — disse com um sorriso.

Emma subiu os degraus, passou por dois guardas que nem sequer a olharam e entrou no edifício. Percebeu que quase todo mundo estava vestindo tons diferentes de cáqui, embora poucos exibissem condecorações de batalhas. Uma jovem que estava atrás da mesa de recepção a direcionou à sala 9197. Emma se uniu a uma massa de uniformes cáqui enquanto se dirigia aos elevadores e, quando desceu no nono andar, encontrou a secretária do coronel Cleverdon à sua espera.

— Lamento, mas o coronel ficou preso em uma reunião, mas deverá recebê-la em alguns minutos — disse a moça enquanto as duas atravessavam o corredor.

Emma foi levada até o escritório do coronel. Após se sentar, ela observou um dossiê grosso sobre o centro da mesa. Como acontecera com a carta sobre a lareira de Maisie e os cadernos na mesa de Jelks, ela ficou se perguntando quanto tempo teria de esperar até que o conteúdo fosse revelado.

A resposta foi vinte minutos. Quando a porta finalmente foi aberta, um homem alto e atlético, mais ou menos da mesma idade que o pai de Emma, entrou no escritório com um charuto que subia e descia pendurado na sua boca.

— Lamento tê-la feito esperar, mas não há horas suficientes no dia — ele disse apertando a mão de Emma. Em seguida, sentou-se atrás da escrivaninha e sorriu para ela. — John Cleverdon, e eu a teria reconhecido em qualquer lugar — acrescentou. Emma pareceu surpresa até ele explicar: — A senhorita é exatamente como Harry a descreveu no livro. Aceita um café?

— Não, obrigada — respondeu Emma tentando não parecer impaciente enquanto olhava para o dossiê sobre a mesa do coronel.

— Nem preciso abrir isto — ele disse batendo no dossiê. — A maior parte, eu mesmo escrevi; portanto, posso dizer tudo o que Harry anda fazendo desde que deixou Lavenham. E agora, graças aos diários, todos nós sabemos que nem sequer deveria ter ido parar lá. Mal posso esperar para ler o próximo volume e descobrir o que aconteceu antes de ele ser mandado para Lavenham.

— E eu mal posso esperar para saber o que aconteceu depois de ele ter deixado Lavenham — disse Emma esperando não parecer impaciente.

— Então, vamos em frente — disse o coronel. — Em contrapartida à comutação da sua sentença, Harry se alistou voluntariamente em uma unidade de serviços especiais que eu tenho o privilégio de comandar. Começou a vida no Exército dos Estados Unidos como soldado raso, foi recentemente promovido em campo e, atualmente, está servindo como tenente. Está atrás de linhas inimigas há vários meses — continuou. — Tem trabalhado com grupos de resistência em países ocupados e ajudado a preparar nosso futuro desembarque na Europa.

Emma não gostou daquilo.

— O que de fato significa “atrás de linhas inimigas”?

— Não posso dizer com exatidão, porque nem sempre é fácil localizá-lo durante uma missão. Muitas vezes, ele interrompe a comunicação com o mundo exterior durante dias a fio. Mas o que posso lhe dizer é que ele e seu motorista, o cabo Pat Quinn, outro diplomado de Lavenham, se revelaram dois dos agentes mais eficazes do meu grupo. São como dois garotos de escola que ganharam um enorme kit de química e receberam ordens para usá-lo em experiências na rede de comunicação do inimigo. Eles passam boa parte do tempo explodindo pontes, desmantelando linhas ferroviárias e derrubando torres de eletricidade. A especialidade de Harry é interromper os movimentos das tropas alemãs e, em uma ou duas ocasiões, os boches quase o pegaram. Mas, até agora, ele conseguiu estar sempre um passo à frente deles. Na verdade, ele se revelou uma tal pedra no sapato dos nazistas que eles até criaram uma recompensa por sua cabeça, e o valor parece subir a cada mês. Estava em trinta mil francos da última vez que verifiquei.

O coronel notou que o rosto de Emma havia ficado branco como uma folha de papel.

— Sinto muito — disse ele. — Eu não queria alarmá-la, mas, às vezes, quando estou sentado atrás de uma escrivaninha, me esqueço do perigo que meus rapazes enfrentam diariamente.

— Quando Harry será dispensado? — Emma perguntou baixinho.

— Temo que ele deva servir pelo tempo da sua sentença — respondeu o coronel.

— Mas agora que o senhor sabe que ele é inocente, não pode pelo menos mandá-lo de volta para a Inglaterra?

— Acho que isso não faria muita diferença, srta. Barrington, porque, se conheço Harry, no momento em que ele puser os pés na própria pátria, só vai trocar uma farda por outra.

— Não se eu puder fazer alguma coisa.

O coronel sorriu.

— Vou ver o que posso fazer para ajudar — prometeu enquanto se levantava de trás da escrivaninha. Abriu a porta e a cumprimentou. — Faça uma boa viagem de volta à Inglaterra, srta. Barrington. Espero que não demore muito até vocês dois estarem no mesmo lugar no mesmo momento.