Os Pecados do Pai
Capítulo 17
Quando Giles desceu para o café da manhã no dia seguinte, vários oficiais foram apertar sua mão, embora ele jamais tivesse falado com alguns deles.
À medida que ele entrava no refeitório, várias cabeças se voltaram e sorriram em sua direção, o que ele achou um pouco constrangedor. Giles pegou uma tigela de mingau, dois ovos cozidos e um exemplar antigo da Punch. Sentou-se sozinho, esperando ser deixado em paz, mas, alguns instantes mais tarde, três oficiais australianos que ele não reconheceu se juntaram a ele. Giles virou uma página da revista e riu de um cartum de E. H. Shepard que retratava Hitler recuando de Calais em um biciclo.
— Um incrível ato de coragem — disse o australiano à direita.
Giles sentiu que estava corando.
— Concordo — disse uma voz do outro lado da mesa. — Notável.
Giles queria ir embora antes que eles...
— Como era mesmo o nome do sujeito?
— Fisher.
Giles quase engasgou.
— Parece que Fisher, contra todas as probabilidades, liderou seu pelotão por terreno aberto e, com apenas um punhado de granadas e um revólver, neutralizou três trincheiras repletas de soldados alemães.
— Inacreditável! — disse a outra voz.
Giles podia concordar com aquilo pelo menos.
— E é verdade mesmo que ele matou um oficial alemão e, depois, aprisionou cinquenta desgraçados com apenas doze homens como apoio?
Giles tirou a parte superior do primeiro ovo cozido. Estava duro.
— Deve ser verdade — disse outra voz — porque ele foi promovido a capitão.
Giles sentou-se e olhou para a gema do ovo.
— Disseram que ele vai ser recomendado para uma Cruz Militar.
— É o mínimo que ele merece.
O mínimo que ele merecia, pensou Giles, era o que Bates havia recomendado.
— Mais alguém envolvido na ação? — perguntou a voz do outro lado da mesa.
— Sim, o seu segundo em comando, mas não consigo me lembrar do nome dele.
Giles havia ouvido o suficiente e decidiu dizer a Fisher exatamente o que pensava dele. Deixando o segundo ovo intacto, ele saiu do refeitório e foi direto para a sala de operações. Estava com tanta raiva que entrou sem bater. Assim que entrou na sala, assumiu posição de atenção e bateu continência.
— Peço desculpas, senhor — disse. — Eu não sabia que o senhor estava aqui.
— Esse é o sr. Barrington, coronel — disse Fisher. — O senhor deve se lembrar de que eu lhe disse que ele me auxiliou na ação de ontem.
— Ah, sim. Barrington. Boa iniciativa. Você não deve ter visto as ordens da companhia esta manhã, mas foi promovido a tenente pleno e, após ler o relatório do capitão Fisher, posso dizer que também será mencionado nos despachos.
— Parabéns, Giles — disse Fisher. — Totalmente merecido.
— De fato — disse o coronel. — E, já que você está aqui, Barrington, eu estava dizendo ao capitão Fisher que, agora que ele identificou a rota preferida de Rommel para entrar em Tobruk, vamos precisar dobrar nossas patrulhas no lado oeste da cidade e utilizar todo um esquadrão de tanques como apoio — acrescentou batendo com o dedo no mapa aberto sobre a mesa. — Aqui, aqui e aqui. Vocês não concordam?
— Eu concordo, senhor — disse Fisher. — Vou providenciar o posicionamento do pelotão imediatamente.
— Não vai ser sem tempo — disse o coronel —, pois tenho a sensação de que Rommel não vai demorar a voltar e, dessa vez, não se tratará de uma missão de reconhecimento, mas de uma investida com toda a força do Afrika Korps. Devemos estar à espera e ter certeza de que ele seguirá direto para a nossa armadilha.
— Estaremos prontos para ele, senhor — disse Fisher.
— Muito bem, pois estou pondo você no comando das nossas novas patrulhas, Fisher. Barrington, você permanecerá como segundo em comando.
— Meu relatório estará na sua mesa ao meio-dia, senhor — disse Fisher.
— Boa iniciativa, Fisher. Vou deixá-los preparar os detalhes.
— Obrigado, senhor — disse Fisher, pondo-se em posição de atenção e batendo continência enquanto o coronel saía da sala.
Giles estava prestes a falar, mas Fisher rapidamente interveio.
— Fiz uma recomendação para que o sargento Harris receba uma medalha militar póstuma e o cabo Bates também seja mencionado nos despachos. Espero que você me apoie.
— Devo deduzir que você foi indicado para uma Cruz Militar? — perguntou Giles.
— Isso não é da minha alçada, companheiro, mas fico feliz em acatar qualquer decisão do oficial comandante. Agora, mãos à obra. Com seis patrulhas sob nosso comando proponho que...
Depois daquilo que ficou conhecido pelas Divisões 1 e 3 como “O Devaneio de Fisher”, todos abaixo do coronel ficaram em alerta vermelho. Dois pelotões patrulhavam o confim oeste da cidade revezando-se noite e dia, sem mais perguntar-se, mas apenas quando, Rommel apareceria no horizonte à frente do seu Afrika Korps.
Até Fisher, recém-alçado à capacidade de herói, tinha de aparecer ocasionalmente no perímetro externo, mesmo que fosse apenas para manter o mito de seu feito heroico, mas apenas por tempo suficiente para se certificar de que havia sido visto por todos. Em seguida, ele se reapresentava ao comandante do esquadrão de tanques, cinco quilômetros mais para trás, e preparava seus telefones de campo.
A Raposa do Deserto escolheu 11 de abril de 1941 para iniciar seu ataque contra Tobruk. Os britânicos e australianos não poderiam ter lutado com mais coragem para defender o perímetro do violento avanço alemão. Mas, à medida que os meses passavam e os suprimentos de comida e munição começavam a minguar, poucos duvidavam, embora nunca externassem a própria opinião, de que era apenas uma questão de tempo antes que a simples magnitude do exército de Rommel os sobrepujasse.
Foi em uma manhã de sexta-feira, quando a névoa estava se dissipando, que o tenente Barrington esquadrinhou o deserto com os seus binóculos e avistou filas e mais filas de tanques alemães.
— Merda — disse ele. Pegou o telefone de campo exatamente quando uma bomba atingiu o edifício que ele e seus homens escolheram como posto de observação. Fisher surgiu do outro lado da linha.
— Estou vendo quarenta, talvez cinquenta, tanques vindo em nossa direção — informou Giles — e o que parece ser um regimento inteiro de soldados como apoio. Permissão para retirar meus homens para uma posição mais segura onde possamos nos reagrupar e entrar em formação de batalha?
— Fiquem onde estão — disse Fisher — e, quando o inimigo estiver no raio de tiro, ataquem.
— Atacar? — disse Giles. — Com o quê? Arcos e flechas? Não estamos em Agincourt, Fisher. Não tenho nem cem homens para enfrentar um regimento de tanques, sem nada mais do que rifles para nos proteger. Pelo amor de Deus, Fisher, permita-me decidir o que é melhor para os meus homens.
— Fiquem onde estão — repetiu Fisher — e ataquem os inimigos quando eles estiverem no raio de tiro. É uma ordem.
Giles bateu o telefone.
— Por algum motivo que só ele conhece — disse Bates —, aquele homem não quer que você sobreviva. Você deveria deixar que eu o matasse.
Outra bomba atingiu o edifício enquanto alvenaria e destroços começavam a cair em volta deles. Giles não precisava mais de binóculos para ver quantos tanques estavam avançando rumo a eles e para aceitar que só lhe restavam poucos momentos de vida.
— Apontar!
De repente, ele pensou em Sebastian, que herdaria o título familiar. Se o menino revelasse ter metade da bondade de Harry, a dinastia Barrington não precisaria temer pelo próprio futuro.
A bomba seguinte atingiu o edifício atrás deles, e Giles conseguia ver claramente um soldado alemão olhando de volta para ele da torre do seu tanque.
— Fogo!
Enquanto o edifício começava a cair à sua volta, Giles pensou em Emma, Grace, seu pai, sua mãe, seus avós e... A bomba seguinte fez com que o edifício inteiro desmoronasse. Giles olhou para cima e viu um grande pedaço de alvenaria caindo, caindo, caindo. Pulou em cima de Bates, que ainda estava atirando em um tanque que continuava a avançar.
A última imagem que Giles viu foi Harry nadando para um lugar seguro.