Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 11 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 9

 

Quando Emma acordou na manhã seguinte, Peggy já estava de pé e vestida.

— Vou tomar o café da manhã — anunciou ela. — Vejo você no balcão mais tarde. A propósito, devemos começar a trabalhar às oito.

Assim que a porta se fechou, Emma pulou da cama e, depois de se lavar lentamente e se vestir depressa, percebeu que não teria tempo para tomar café da manhã se quisesse estar atrás do balcão de informações no horário.

Depois de se apresentar para o trabalho, Emma rapidamente descobriu que Peggy levava o serviço muito a sério e se desdobrava para auxiliar qualquer passageiro que precisasse de ajuda. Durante o intervalo matutino, Emma disse:

— Um dos passageiros me perguntou sobre o horário de consulta do médico.

— De sete às onze da manhã — respondeu Peggy — e das quatro às seis da tarde. Em caso de emergência basta discar 111 do telefone mais próximo.

— E qual é o nome do médico?

— Parkinson. Dr. Parkinson. É o homem pelo qual todas as garotas a bordo têm uma paixonite.

— Ah, um dos passageiros pensou que fosse um tal dr. Wallace.

— Não, Wally se aposentou há uns seis meses. Um velhinho meigo.

Emma não fez mais perguntas durante o intervalo, apenas tomou café.

— Por que você não passa o resto da manhã explorando o navio? Assim, você saberá para onde está mandando as pessoas — sugeriu Peggy quando elas se apresentaram novamente no balcão. — Vejo você no almoço. — disse, entregando a Emma um guia do navio.

Com o guia aberto, Emma começou sua pesquisa pelo convés superior: os salões de jantar, bares, salão de jogos, biblioteca e até um salão de baile com uma banda de jazz residente. Ela só parou para fazer uma inspeção mais detalhada quando chegou à enfermaria no convés inferior dois, abrindo timidamente a porta dupla e pondo a cabeça lá dentro. Encostadas na parede oposta havia duas camas bem arrumadas e vagas. Será que Harry havia dormido em uma e o tenente Bradshaw na outra?

— Posso ajudar? — disse uma voz.

Emma se virou e viu um homem alto em um jaleco branco comprido. Imediatamente entendeu por que Peggy tinha uma queda por ele.

— Comecei a trabalhar no balcão de informações agora mesmo — ela deixou escapar — e devo descobrir onde fica tudo.

— Eu sou Simon Parkinson — ele disse, abrindo um sorriso amistoso. — Agora que você descobriu onde eu fico, pode aparecer sempre que quiser.

— Obrigada — disse Emma.

Ela rapidamente voltou para o corredor, fechou a porta atrás de si e saiu apressada. Não conseguia se lembrar da última vez que alguém flertara com ela, mas queria que tivesse sido o dr. Wallace. Emma passou o resto da manhã explorando cada convés até achar que conhecia bem o navio e que poderia dizer com mais confiança a qualquer passageiro onde tudo ficava.

Ela estava ansiosa para passar a tarde testando suas novas habilidades, mas Peggy pediu que ela estudasse as fichas dos passageiros como havia feito com o navio. Emma sentou-se sozinha na salinha dos fundos e começou a se inteirar de pessoas que ela nunca mais veria em toda a sua vida.

À noite, ela tentou jantar, torradas com feijão e um copo de limonada, mas voltou para a cabine logo em seguida na esperança de dormir um pouco caso o engenheiro voltasse.

Quando a porta se abriu, a luz no corredor a acordou. Emma não conseguiu discernir quem entrou na cabine, mas certamente não era o engenheiro, pois seus pés não chegavam até a parede. Ela ficou acordada na cama por quarenta minutos e só voltou a dormir quando a porta se abriu e se fechou novamente.

 

Emma logo se acostumou com a rotina do trabalho diário seguida das visitas noturnas. Aquelas visitas não variavam muito, apenas os homens, embora em uma ocasião o visitante amoroso tenha se encaminhado para a cama de Emma, e não para a de Peggy.

— Garota errada — disse Emma com firmeza.

— Desculpe — foi a resposta, antes de o homem mudar de direção.

Peggy deve ter deduzido que a colega de quarto adormecera, já que, depois de o casal ter feito amor, Emma pôde ouvir cada palavra da conversa sussurrada pelos dois.

— Você acha que sua amiga está disponível?

— Por quê, você se interessou por ela? — disse Peggy soltando um risinho.

— Não, não é para mim, mas conheço alguém que gostaria de ser o primeiro homem a desabotoar o uniforme de Dana.

— Sem chance. Ela tem um namorado em Bristol e eu soube que nem mesmo o dr. Parkinson a impressionou.

— Que pena! — disse a voz.

 

Peggy e Trudy costumavam falar da manhã em que nove marinheiros do Devonian foram enterrados no mar antes do café da manhã. Instigando-as sutilmente, Emma conseguiu obter informações que nem seu avô nem Maisie poderiam conhecer. Mas, apenas três dias antes da chegada a Nova York, ela não estava mais perto de descobrir se era Harry ou o tenente Bradshaw que havia sobrevivido.

No quinto dia, Emma assumiu o comando do balcão de informações pela primeira vez e não houve surpresas. A surpresa aconteceu na quinta noite.

Quando a porta da cabine se abriu, sabe-se lá a que horas, um homem mais uma vez se dirigiu à cama de Emma, mas, daquela vez, quando ela disse firmemente “garota errada”, ele saiu imediatamente. Emma ficou acordada pensando em quem poderia ter sido.

No sexto dia, Emma não descobriu nada de novo sobre Harry ou Tom Bradshaw e estava começando a temer que talvez fosse chegar em Nova York sem pista alguma a seguir. Foi durante o jantar daquela noite que ela decidiu perguntar a Peggy a respeito do “sobrevivente”.

— Só vi Tom Bradshaw uma vez — disse Peggy —, quando ele estava perambulando pelo convés com a enfermeira. Pensando bem, ele não estava exatamente perambulando, já que o coitado estava de muletas.

— Você falou com ele? — perguntou Emma.

— Não, ele parecia muito tímido. De qualquer maneira, Kristin não o perdia de vista.

— Kristin?

— Era a enfermeira do hospital na época, trabalhava com o dr. Wallace. Os dois sem dúvida salvaram a vida de Tom Bradshaw.

— Então, você nunca mais o viu?

— Só quando atracamos em Nova York e o avistei desembarcando com Kristin.

— Ele deixou o navio com Kristin? — perguntou Emma, ansiosa. — O dr. Wallace estava com eles?

— Não, só Kristin e o namorado dela, Richard.

— Richard? — disse Emma com ar aliviado.

— Sim, Richard alguma coisa. Não me lembro do sobrenome dele. Era o terceiro oficial. Pouco depois, ele se casou com Kristin e nunca mais vimos nenhum dos dois.

— Ele era um homem bonito? — perguntou Emma.

— Tom ou Richard?

— Posso pegar um drinque para você, Peg? — perguntou um jovem que Emma nunca tinha visto, mas que achava que o veria de perfil mais tarde naquela mesma noite.

Emma tinha razão e não dormiu antes, durante nem depois da visita, pois outra coisa estava ocupando sua mente.

 

Na manhã seguinte, pela primeira vez na viagem, Emma estava em pé atrás do balcão de informações esperando que Peggy chegasse.

— Devo preparar a lista de passageiros para o desembarque? — perguntou quando Peggy finalmente chegou e levantou a bancada.

— Você é a primeira pessoa que conheço que se oferece voluntariamente para essa tarefa — disse Peggy —, mas fique à vontade. Alguém precisa garantir que a lista esteja atualizada caso a imigração decida fiscalizar os detalhes de algum passageiro após atracarmos em Nova York.

Emma foi direto para o escritório. Pondo de lado a lista dos passageiros atuais, ela voltou sua atenção para os arquivos dos tripulantes anteriores, encontrados em um gaveteiro separado que parecia não ser aberto havia algum tempo.

Ela começou uma pesquisa lenta e meticulosa pelos nomes Kristin e Richard. Kristin se revelou fácil porque só havia uma pessoa com aquele nome, que trabalhara como enfermeira-chefe no Kansas Star de 1936 a 1939. No entanto, havia vários Richards, Dicks e Dickies, mas o endereço de um deles, o tenente Richard Tibbet, ficava no mesmo prédio em Manhattan em que morava a srta. Kristin Craven.

Emma anotou o endereço.