Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 8 de 48

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Os Pecados do Pai

Emma Barrington - 1939-1941

EMMA BARRINGTON

1939-1941

6

 

— Sebastian Arthur Clifton — disse Emma, entregando a criança adormecida à avó.

Maisie sorriu enquanto segurava o neto nos braços pela primeira vez.

— Não me deixaram vir visitá-la antes que eu fosse despachada para a Escócia — disse Emma, sem tentar esconder seu desdém. — Por isso liguei no momento em que voltei a Bristol.

— Foi gentileza sua — disse Maisie, enquanto olhava fixamente para o menininho, tentando se convencer de que Sebastian herdara os cabelos louros e os olhos azul-claros do seu marido.

Emma sentou-se à mesa da cozinha, sorriu e tomou um gole de chá: Earl Grey, era típico de Maisie se lembrar. E sanduíches de pepino e salmão, os favoritos de Harry, o que deve ter esgotado sua caderneta de ração. Ao observar o cômodo, seus olhos se fixaram na prateleira em cima da lareira, onde ela viu uma fotografia sépia de um soldado raso na Primeira Guerra. Como Emma gostaria de ver o tom dos seus cabelos, escondidos sob o capacete, ou até a cor de seus olhos! Será que eram azuis, como os de Harry, ou castanhos, como os dela? Arthur Clifton era uma bela figura em sua farda do Exército. O queixo quadrado e o olhar resoluto mostravam a Emma que ele se orgulhara de servir a seu país. O olhar de Emma se deslocou para uma foto mais recente de Harry cantando no coro da escola St. Bede’s, pouco antes de sua voz mudar, e ao lado dela, apoiado na parede, estava um envelope com a inconfundível caligrafia de Harry. Emma deduziu que era a última carta que ele havia escrito para a mãe antes de morrer. Ficou se perguntando se Maisie permitiria que ela a lesse. Levantou-se, foi até a lareira e ficou surpresa ao descobrir que o envelope não fora aberto.

— Fiquei muito triste ao ouvir que você teve de deixar Oxford — Maisie se arriscou a dizer quando viu Emma fixando o envelope.

— Entre continuar os estudos e ter o filho de Harry, a decisão era clara — disse Emma, seus olhos ainda fixos na carta.

— E Sir Walter me disse que seu irmão Giles se alistou no regimento Wessex, mas infelizmente foi...

— Vejo que a senhora recebeu uma carta de Harry — atalhou Emma, incapaz de se conter.

— Não, não é de Harry — disse Maisie. — É de um tal tenente Bradshaw que serviu com ele no SS Devonian.

— O que o tenente Bradshaw tem a dizer? — perguntou Emma, ciente de que o envelope não fora aberto.

— Não faço ideia — respondeu Maisie. — Um tal dr. Wallace a entregou para mim e disse que era uma carta de condolências. Achei que não precisava de mais nada que me lembrasse a morte de Harry. Então, nunca a abri.

— Mas não é possível que essa carta esclareça o que aconteceu com o Devonian?

— Duvido — Maisie respondeu. — Afinal de contas, eles só se conheceram por alguns dias.

— Gostaria que eu lesse a carta para a senhora? — Emma perguntou, ciente de que Maisie poderia ficar envergonhada por ter de admitir que não sabia ler.

— Não, obrigada, minha querida — Maisie respondeu. — Afinal, isso não vai trazer Harry de volta, não é mesmo?

— Concordo — disse Emma —, mas talvez a senhora me permita lê-la para pôr meu coração em paz.

— Com os alemães atacando as docas à noite — disse Maisie —espero que a Barrington’s não tenha sido muito afetada.

— Escapamos de um disparo direto — confirmou Emma, relutando em aceitar que não receberia permissão para ler a carta. — Imagine, acho que nem os alemães ousariam jogar uma bomba no vovô.

Maisie riu e, por um instante, Emma pensou em pegar o envelope e abri-lo antes que Maisie pudesse detê-la. Mas Harry nunca teria aprovado algo assim. Se Maisie saísse do aposento, mesmo que só por um instante, Emma usaria o vapor da chaleira em ebulição para abrir o envelope, verificar a assinatura e pôr novamente a carta em seu devido lugar antes que ela voltasse.

Mas era quase como se Maisie pudesse ler seus pensamentos, pois ficou ao lado da lareira e não arredou pé.

— Vovô me disse que devo parabenizá-la — Emma disse, ainda se recusando a desistir.

Maisie corou e começou a conversar sobre seu novo cargo no Grand Hotel. Os olhos de Emma continuaram a se fixar no envelope. Inspecionou cuidadosamente o M, o C, o S, o H e o I no endereço, sabendo que teria de guardar a imagem daquelas letras em sua mente, como uma fotografia, até voltar a Manor House. Quando Maisie devolveu o pequeno Sebastian à mãe, explicando que, infelizmente, precisava voltar ao trabalho, Emma, relutante, se levantou, mas não antes de dar uma última olhada no envelope.

No caminho de volta a Manor House, Emma tentou manter a imagem da caligrafia em sua mente, grata por Sebastian ter adormecido profundamente. Assim que o carro parou na alameda de cascalho diante dos degraus da entrada, Hudson abriu a porta traseira para que Emma saltasse e carregasse o filho para dentro de casa. Ela o levou direto para o quarto das crianças, onde a babá Barrington os estava esperando. Para surpresa da babá, Emma deu um beijo na testa do menino e saiu sem dizer uma só palavra.

Quando chegou ao quarto, Emma destrancou a gaveta central da escrivaninha e tirou uma pilha de cartas que Harry havia escrito para ela ao longo dos anos.

A primeira coisa que verificou foi o H maiúsculo da assinatura de Harry, muito simples e inclinado, exatamente como o H em Still House Lane, no envelope fechado de Maisie. Aquilo lhe deu confiança para prosseguir em sua investigação. Em seguida, procurou um C maiúsculo e acabou encontrando um, além de um M maiúsculo também, nos votos de Muitas Conquistas em um cartão de Ano-Novo. Harry certamente deve estar vivo, ela continuava a repetir em voz alta. Encontrar um Bristol foi fácil, mas Inglaterra foi mais difícil, até ela se deparar com uma carta que ele havia escrito na Itália, quando os dois ainda estavam na escola. Emma demorou mais de uma hora para recortar com cuidado as 42 letras e dois números antes de conseguir reproduzir o endereço no envelope.

Sra. M. Clifton

27 Still House Lane

Bristol

Inglaterra

Emma caiu exausta na cama. Não fazia ideia de quem fosse Thomas Bradshaw, mas uma coisa era certa: a carta fechada sobre a lareira de Maisie havia sido escrita por Harry e, por algum motivo pessoal, ele não queria que ela soubesse que ele ainda estava vivo. Emma ficou pensando se ele teria agido diferente se soubesse que ela engravidara do seu filho antes de partir naquela fatídica viagem.

Emma estava desesperada para contar à mãe, ao avô e, é claro, à Maisie, a notícia de que Harry talvez não estivesse morto, mas percebeu que teria de ficar em silêncio até obter uma prova mais conclusiva do que uma carta fechada. Um plano começou a se delinear em sua mente.

 

Emma não desceu para o jantar naquela noite, mas ficou no quarto e continuou a analisar por que Harry queria que todos, exceto a mãe, acreditassem que ele havia morrido naquela noite.

Quando foi para a cama, pouco antes da meia-noite, ela só conseguia deduzir que deveria ser por algo que ele considerava uma questão de honra. Talvez Harry imaginasse, pobre homem tolo e desiludido, que assim ela estaria livre de qualquer obrigação em relação a ele. Será que ele não percebia que, desde o primeiro momento em que ela, aos 10 anos de idade, o viu na festa de aniversário do irmão, não haveria outro homem em sua vida?

A família de Emma ficou felicíssima quando ela e Harry ficaram noivos oito anos mais tarde, com exceção do pai, que vivia uma mentira havia muito tempo, uma mentira que só foi revelada no dia do casamento. Os dois estavam em pé no altar, prestes a fazer os votos, quando o Velho Jack encerrou a cerimônia de maneira improvisada e inesperada. A revelação de que o pai de Emma talvez fosse também o pai de Harry não a fez, nem nunca a faria, parar de amá-lo. Ninguém ficou surpreso por Harry ter se comportado como um cavalheiro, ao passo que o pai de Emma não desmentiu o próprio caráter e se comportou como um calhorda. Um deles ficou lá e encarou as consequências enquanto o outro escapuliu pela porta dos fundos da sacristia e, desde então, nunca mais foi visto.

Harry havia deixado claro, muito antes de pedir Emma em casamento, que, se a guerra fosse declarada, ele não hesitaria em deixar Oxford e se alistar na Marinha Real. Na melhor das conjunturas, ele era um homem teimoso, e aquela era a pior. Emma percebeu que não adiantava tentar dissuadi-lo, pois nada que ela pudesse dizer ou fazer o teria convencido a mudar de ideia. Ele também a alertou de que não pensaria em voltar a Oxford a menos que os alemães se rendessem.

Emma também deixou Oxford antes do tempo, mas, ao contrário de Harry, ela não teve escolha. Para ela, não haveria chance de retorno. Gravidez era algo desaprovado em Sommerville, ainda mais quando a moça não era casada com o pai da criança. A decisão deve ter partido o coração da sua mãe. Elizabeth Barrington quis muito que a filha obtivesse as honras acadêmicas que lhe foram negadas única e exclusivamente por causa do seu sexo. Um lampejo de esperança surgiu no horizonte um ano mais tarde, quando Grace, a irmã caçula de Emma, ganhou uma bolsa de estudo para o Girton College, em Cambridge, e, desde o primeiro dia em que chegou naquele templo do saber, destacou-se mais do que os homens mais inteligentes.

Quando a gravidez ficou bem evidente, Emma foi despachada para a propriedade do avô na Escócia para dar à luz o filho de Harry. Os Barrington não produziam prole ilegítima, pelo menos não em Bristol. Sebastian já estava engatinhando pelo castelo quando a filha pródiga recebeu permissão para voltar a Manor House. Elizabeth queria que eles tivessem ficado em Mulgelrie até o fim da guerra, mas Emma já estava farta de ficar escondida em um remoto castelo escocês.

Uma das primeiras pessoas que ela visitou após voltar a West Country foi o avô, Sir Walter Barrington. Foi ele que contou que Harry havia se juntado à tripulação do SS Devonian e planejado voltar a Bristol dali a um mês com a intenção de se alistar como marinheiro raso no HMS Resolution. Harry nunca voltou, e seis semanas se passaram antes que ela soubesse que seu amante havia sido enterrado no mar.

Sir Walter fez questão de visitar cada um dos parentes e comunicar a trágica notícia. Começou pela sra. Clifton, embora soubesse que ela já tomara conhecimento do que havia acontecido por meio do dr. Wallace, que lhe entregou a carta de Thomas Bradshaw. Em seguida, ele viajou até a Escócia para dar a notícia a Emma. Sir Walter ficou surpreso por sua neta não ter derramado uma lágrima sequer, mas, a bem da verdade, Emma simplesmente se recusou a aceitar que Harry estava morto.

Após ter voltado a Bristol, Sir Walter visitou Giles e contou a ele a notícia. O amigo mais próximo de Harry mergulhou em um silêncio desolado e não havia nada que alguém da família pudesse dizer para consolá-lo. Quando ouviram a notícia da morte de Harry, Lord e Lady Harvey foram estoicos. Uma semana mais tarde, quando a família foi à cerimônia em memória do capitão Jack Tarrant na Bristol Grammar School, Lord Harvey observou que estava feliz pelo Velho Jack nunca ter sabido o que acontecera ao seu protegido.

A única pessoa da família que Sir Walter se recusou a visitar foi seu filho Hugo. Deu a desculpa de que não sabia como entrar em contato com ele, mas, quando Emma voltou a Bristol, Sir Walter admitiu para ela que, mesmo que soubesse, não teria se dado ao trabalho, e acrescentou que o pai dela provavelmente era a única pessoa que ficaria feliz com a morte de Harry. Emma não disse nada, mas não duvidou de que o avó tivesse razão.

Durante vários dias após a visita a Maisie em Still House Lane, Emma passou horas sozinha em seu quarto, avaliando infinitamente o que faria com a sua recente descoberta. Concluiu que não havia esperança de descobrir o conteúdo da carta que estava apoiada sobre a lareira havia mais de um ano sem prejudicar seu relacionamento com Maisie. No entanto, resolveu não apenas provar a todo o mundo que Harry ainda estava vivo, mas também encontrá-lo, onde quer que ele estivesse. Com isso em mente, ela marcou outro encontro com o avô. Afinal de contas, Sir Walter Barrington era a única pessoa além de Maisie que havia se encontrado com o dr. Wallace; portanto, era sem dúvida sua melhor chance de desvendar o mistério de quem exatamente era Tom Bradshaw.