Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 41 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 39

 

— Qual você quer primeiro? — perguntou Phyllis, segurando duas cartas. — A boa ou a má notícia?

— A boa notícia — disse Emma sem hesitação enquanto passava manteiga em outra torrada.

Phyllis pôs uma carta novamente sobre a mesa, ajustou o pincenez e começou a ler a outra.

Cara sra. Stuart,

Acabei de ler O diário de um condenado, de Harry Clifton. Hoje, no Washington Post,

foi publicada uma excelente resenha do livro, que, no final, levanta a questão do que

aconteceu com o sr. Clifton depois de sua saída do Instituto Correcional Lavenham sete

meses atrás, tendo cumprido apenas um terço da sentença.

Por motivos de segurança nacional, que tenho certeza de que a senhora entenderá, não

posso entrar em detalhes nesta carta.

Caso a srta. Barrington, que, pelo que sei, está hospedada em sua casa, queira alguma

outra informação acerca do tenente Clifton, ela poderá contatar este escritório e eu terei

grande prazer em marcar um horário para recebê-la.

Por não ser uma violação da Lei de Espionagem, permita-me acrescentar que muito

apreciei o diário do tenente Clifton. Se os boatos do New York Post de hoje podem ter

algum crédito, mal posso esperar para descobrir o que aconteceu antes de ele ser enviado

para Lavenham.

Atenciosamente,

John Cleverdon (Cel.)

A tia-avó Phyllis olhou para o outro lado da mesa e viu Emma saltitando como uma fã adolescente em um show de Sinatra. Parker serviu uma segunda xícara de chá à sra. Stuart como se nada de incomum estivesse acontecendo alguns centímetros atrás dele.

Emma parou de repente.

— Então, qual é a má notícia? — perguntou voltando a sentar-se à mesa.

Phyllis pegou a outra carta.

— Esta é de Rupert Harvey — declarou. — Filho de um primo de segundo grau.

Emma abafou um sorriso, Phyllis a observou com olhar crítico por cima do pince-nez.

— Não caçoe, menina. Ser a matriarca de um grande clã pode ter suas vantagens, como você está prestes a descobrir — ela disse e voltou a atenção para a carta.

Cara prima Phyllis,

Que prazer ter notícias suas após todo esse tempo! Foi muita gentileza sua chamar minha

atenção para O diário de um condenado, de Harry Clifton, que eu apreciei imensamente.

Que jovem formidável deve ser a prima Emma!

Phyllis levantou a cabeça.

— No seu caso, filho de um primo de terceiro grau — disse antes de voltar à carta.

Ficaria muito feliz em ajudar Emma em seu dilema atual. Com essa finalidade, informo

que a embaixada tem um avião que voará para Londres na próxima quinta-feira e o

embaixador concordou que a srta. Barrington poderá se unir a ele e à sua equipe durante o

voo.

Se Emma tiver a bondade de vir ao meu escritório na quinta-feira de manhã, cuidarei

para que toda a documentação necessária seja preenchida. Lembre que ela deverá trazer o

passaporte.

Afetuosamente,

Rupert

P.S. — A prima Emma tem metade da beleza que o sr. Clifton sugere no livro?

Phyllis dobrou a carta e a pôs de volta no envelope.

— Então, qual é a má notícia? — perguntou Emma.

Phyllis baixou a cabeça, pois não aprovava demonstrações de emoção, e disse baixinho:

— Você não faz ideia, menina, de como vou sentir sua fala. Você é a filha que nunca tive.

 

— Assinei o contrato esta manhã — disse Guinzburg, levantando a taça.

— Parabéns — disse Alistair enquanto todos à volta da mesa de jantar levantavam as próprias taças.

— Perdoe-me — disse Phyllis —, mas pareço ser a única dentre nós que não entende totalmente. Se o senhor assinou um contrato que impede que sua editora publique o trabalho prévio de Harry Clifton, o que exatamente estamos comemorando?

— O fato de que pus cem mil dólares do dinheiro de Sefton Jelks na conta bancária da minha empresa esta manhã — Guinzburg respondeu.

— E eu — disse Emma — recebi um cheque de vinte mil dólares da mesma fonte. O adiantamento que Lloyd recebeu pelo livro de Harry.

— E não se esqueça do cheque de dez mil da sra. Clifton que você não pegou, mas que eu recolhi — disse Guinzburg. — Francamente, todos nós lucramos muito com tudo isso e, agora que o contrato foi firmado, ainda haverá mais pelos próximos cinquenta anos.

— É possível — comentou Phyllis assumindo uma postura mais ética —, mas estou bastante aborrecida por vocês terem deixado Jelks se safar.

— A senhora vai ver que ele continua no Corredor da Morte, sra. Stuart — disse Guinzburg —, embora eu admita que concedemos a ele uma suspensão temporária da pena por três meses.

— Estou mais confusa ainda — protestou Phyllis.

— Então, permita-me explicar — disse Guinzburg. — Veja bem, o contrato que assinei esta manhã não foi com Jelks, mas com a Pocket Books, uma empresa que comprou os direitos de publicação de todos os diários de Harry em edições de bolso.

— E, se me permite perguntar, o que são edições de bolso? — indagou Phyllis.

— Mamãe — disse Alistair —, edições de bolso existem há anos.

— Assim como cédulas de dez mil dólares, mas eu nunca vi nenhuma.

— Sua mãe tem um argumento válido — disse Guinzburg. — Na verdade, isso poderia explicar por que Jelks foi enganado; afinal, a sra. Stuart representa toda uma geração que nunca vai aceitar livros sendo publicados em edições de bolso e que só lê edições de capa dura.

— O que fez com que o senhor percebesse que Jelks não conhecia plenamente o conceito de uma edição de bolso? — perguntou Phyllis.

— F. Scott Fitsgerald foi a deixa — disse Alistair.

— Eu gostaria que você não usasse gírias à mesa de jantar — rebateu Phyllis.

— Foi Alistair que nos alertou — disse Emma. — Se Jelks estava disposto a fazer uma reunião em seu escritório sem a presença do seu assistente jurídico, aquilo devia significar que ele não havia alertado os sócios de que ainda faltava um caderno e que sua eventual publicação seria mais prejudicial à reputação do escritório do que O diário de um condenado.

— Então, por que Alistair não participou da reunião — disse Phyllis — e registrou tudo o que Jelks disse? Afinal, aquele homem é um dos advogados mais ardilosos de Nova York.

— Foi exatamente por isso que não participei da reunião, mamãe. Não queríamos nada registrado e eu estava convencido de que Jelks seria suficientemente arrogante para pensar que estava lidando apenas com uma garota inglesa tola e um editor que certamente poderia ser subornado, ou seja, nós estávamos com a faca e o queijo na mão.

— Alistair.

— No entanto — Alistair prosseguiu, agora a todo vapor —, foi só após ter saído às pressas da reunião que o sr. Guinzburg teve um verdadeiro lampejo de genialidade.

Emma se mostrou intrigada.

— Ele disse a Jelks: “Espero revê-lo assim que o contrato tiver sido redigido.”

— E foi exatamente o que Jelks fez — disse Guinzburg — porque, depois de ler o contrato, percebi que havia sido elaborado tomando como base um outro formulado para F. Scott Fitzgerald, um autor que só foi publicado em edições de capa dura. Não havia nada no contrato que sugerisse que não poderíamos publicar em edições de bolso. Portanto, o subcontrato que firmei esta manhã permitirá à Pocket Books publicar o diário precedente de Harry sem violar meu acordo com Jelks.

Guinzburg deixou que Parker enchesse novamente sua taça de champanhe.

— Quanto você ganhou? — perguntou Emma.

— Às vezes, minha jovem, você abusa da sorte.

— Quanto você ganhou? — perguntou Phyllis.

— Duzentos mil dólares — admitiu Guinzburg.

— Você vai precisar de cada tostão — observou Phyllis —, pois, assim que esse livro começar a ser vendido, você e Alistair vão passar pelo menos dois anos nos tribunais se defendendo de meia dúzia de processos por difamação.

— Acho que não — disse Alistair depois de Parker ter lhe servido um conhaque. — Na verdade, aposto aquela nota de dez mil dólares que a senhora nunca viu, mamãe, que Sefton Jelks está desfrutando de seus últimos três meses como sócio principal da Jelks, Myers and Abernathy.

— Por que você tem tanta certeza disso?

— Pressinto que Jelks não contou aos sócios sobre o primeiro caderno. Então, quando a Pocket Books publicar o diário anterior, sua única opção será entregar a renúncia.

— E se ele não fizer isso?

— Então, eles o demitirão — disse Alistair. — Um escritório tão impiedoso com os próprios clientes não vai se tornar repentinamente benévolo com os próprios sócios. E não se esqueça: sempre existe alguém esperando para se tornar sócio principal... Portanto, sou obrigado a admitir, Emma, que você é muito mais interessante do que Amalgamated Wire...

— Contra New York Electric — disseram os outros em uníssono enquanto erguiam as taças em homenagem a Emma.

— E caso você mude de ideia sobre ficar em Nova York, mocinha — disse Guinzburg —, sempre haverá uma vaga para você na Viking.

— Obrigada, sr. Guinzburg — disse Emma. — Mas o único motivo para eu ter vindo para os Estados Unidos foi encontrar Harry e agora descobri que ele está na Europa enquanto eu estou presa em Nova York. Então, após meu encontro com o coronel Cleverdon, voarei de volta para casa para junto de nosso filho.

— Harry Clifton é um homem de sorte por ter você do lado dele — disse Alistair, melancólico.

— Se você alguma vez encontrar algum deles, Alistair, perceberá que a sorte é minha.