Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 25 de 48

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Os Pecados do Pai

Capítulo 23

 

Eram poucos minutos após a 1h quando o primeiro convidado se levantou para ir embora.

— De serviço às seis da manhã, coronel — explicou. O anúncio foi recebido com um aplauso zombeteiro enquanto o oficial se inclinava e partia sem dizer outra palavra.

Muitos outros convidados se foram durante a hora seguinte, mas Giles sabia que não podia pensar em executar sua bem ensaiada saída enquanto Müller ainda estivesse nas paragens. Ficou um pouco ansioso quando as garçonetes começaram a retirar as xícaras de café, um sinal de que a noite deles estava chegando ao fim e de que talvez o mandassem de volta para o acampamento. Giles se manteve ocupado, continuando a servir aqueles oficiais que não pareciam ter pressa de ir embora.

Müller finalmente se levantou quando a última garçonete saiu da sala e desejou boa noite aos colegas, mas não antes de bater os calcanhares e fazer outra saudação nazista para os camaradas. Giles e Terry concordaram que o plano deles só poderia ser posto em ação pelo menos quinze minutos após Müller ter partido e eles terem verificado que o carro dele não estava mais no lugar de costume.

Giles encheu novamente as taças dos seis oficiais que ficaram sentados em torno da mesa. Eram todos amigos íntimos do comandante. Dois deles estudaram com ele, outros três serviram na assembleia municipal e apenas o ajudante do campo era um conhecido mais recente; todas as informações que Giles captou durante os meses anteriores.

Deviam ser cerca de duas e vinte quando o comandante chamou Giles.

— Foi um dia cansativo — ele disse em inglês. — Vá se juntar ao seu amigo na cozinha e leve uma garrafa de vinho.

— Obrigado, senhor — disse Giles pondo as garrafa de conhaque e porto no centro da mesa.

As últimas palavras que ele ouviu o comandante dizer foram para o ajudante, que estava sentado à sua direita.

— Quando finalmente vencermos esta guerra, Franz, vou oferecer um emprego àquele homem. Não imagino que ele vá querer voltar à Inglaterra com a suástica tremulando sobre o Palácio de Buckingham.

Giles removeu a única garrafa de vinho que ainda estava sobre o aparador, saiu da sala e fechou a porta silenciosamente atrás de si. Era possível sentir a adrenalina correndo por seu corpo e ele estava bem ciente de que os quinze minutos seguintes decidiriam seu futuro e o de Bates. Desceu a escadaria dos fundos até a cozinha, onde encontrou Terry conversando com o chef e com uma garrafa de xerez de cozinha pela metade ao seu lado.

— Feliz Ano-Novo, chef — disse Terry enquanto se levantava da cadeira. — Preciso me apressar, senão vou me atrasar para o café da manhã em Zurique.

Giles tentou se manter sério enquanto o chef mal conseguia levantar a mão como resposta.

Eles subiram correndo a escada, as únicas duas pessoas sóbrias no edifício. Giles passou a garrafa de vinho para Terry e disse:

— Dois minutos, nada mais.

Terry atravessou o corredor e saiu sorrateiro pela porta dos fundos. Giles recuou para a sombra no topo da escadaria exatamente quando um oficial saiu da sala de jantar e se dirigiu ao lavatório.

Instantes mais tarde, a porta dos fundos se abriu novamente, e uma cabeça surgiu. Giles acenou furiosamente para Terry e apontou para o lavatório. Terry correu para se unir ao amigo na escuridão pouco antes de o oficial aparecer e se dirigir cambaleante de volta à sala de jantar. Depois que a porta se fechou atrás dele, Giles perguntou:

— Como está nosso dócil cabo alemão?

— Semiadormecido. Dei a ele a garrafa de vinho e adverti que demoraríamos mais uma hora no mínimo.

— Você acha que ele entendeu?

— Acho que ele não estava dando a mínima.

— Muito bem. É a sua vez de bancar o vigia — disse Giles enquanto voltava para o corredor. Cerrou os punhos para impedir que as mãos tremessem e estava prestes a abrir a porta do vestiário quando achou ter ouvido uma voz vindo lá de dentro. Giles congelou, encostou a orelha na porta e aguçou o ouvido. Só foi necessário um instante para que ele percebesse quem devia ser. Pela primeira vez, ele quebrou a regra de ouro de Jenkins e atravessou correndo o corredor para se unir novamente a Terry na escuridão no topo da escadaria.

— Qual é o problema?

Giles pôs um dedo na frente dos lábios enquanto a porta do vestiário se abria e lá de dentro saía o major Müller abotoando a braguilha. Depois de jogar o sobretudo por cima do corpo, ele olhou para um lado e outro do corredor e, em seguida, saiu de fininho pela porta da frente.

— Que garota? — perguntou Giles.

— Provavelmente Greta. Já estive com ela algumas vezes, mas nunca no vestiário.

— Isso não é confraternização? — sussurrou Giles.

— Só se você for um oficial — respondeu Terry.

Eles só tiveram de esperar alguns instantes até que a porta se abrisse novamente e Greta surgisse um pouco corada. Ela saiu calmamente pela porta da frente sem se dar ao trabalho de verificar se alguém a tinha visto.

— Segunda tentativa — disse Giles, que atravessou rapidamente o corredor mais uma vez, abriu a porta do vestiário e desapareceu lá dentro exatamente quando um outro oficial saiu da sala de jantar.

Não vire à direita, não vire à direita, Terry implorou silenciosamente. O oficial virou à esquerda e se dirigiu ao lavatório. Terry rezou pelo xixi mais longo da história. Começou a contar os segundos, mas, então, a porta do vestiário se abriu e de lá saiu o comandante, para todos os efeitos. Volte lá para dentro, Terry acenou freneticamente. Giles voltou a se esconder no vestiário e fechou a porta.

Quando o ajudante reapareceu, Terry temeu que ele fosse entrar no vestiário para pegar seu quepe e casaco e encontrasse Giles vestido como o comandante; nesse caso, o jogo terminaria antes mesmo de começar. Terry seguiu cada passo, temendo o pior, mas o ajudante parou em frente à porta da sala de jantar, abriu-a e desapareceu lá dentro. Depois que a porta se fechou, Terry saiu desabalado pelo corredor, abriu a porta do vestiário e encontrou Giles trajando sobretudo, echarpe, luvas, quepe e carregando um bastão, com o suor escorrendo pela sua testa.

— Vamos cair fora daqui antes que um de nós tenha um ataque do coração — disse Terry.

Terry e Giles saíram do edifício ainda mais rápido do que Müller ou Greta haviam saído.

— Relaxe — disse Giles quando eles já estavam lá fora. — Não se esqueça de que somos as duas únicas pessoas sóbrias.

Ele enrolou a echarpe no pescoço de maneira que cobrisse o queixo, abaixou o quepe, agarrou o bastão com firmeza e inclinou-se levemente, já que era alguns centímetros mais alto do que o comandante.

Assim que o motorista ouviu Giles se aproximando, saltou do carro e abriu a porta traseira para ele. Giles ensaiara uma sentença que havia ouvido o coronel dizer várias vezes ao motorista e, ao se acomodar no banco traseiro, abaixou ainda mais o quepe e disse com voz enrolada:

— Leve-me para casa, Hans.

Hans voltou ao banco do motorista, mas, quando ouviu um barulho que parecia o porta-malas fechando, olhou para trás, desconfiado. No entanto, viu apenas o comandante batendo com o bastão na janela.

— Por que está demorando, Hans? — Giles perguntou com uma leve gagueira.

Hans deu a partida na ignição, engatou a primeira marcha e saiu lentamente em direção à casa de guarda. Um sargento saiu da guarita quando ouviu o veículo que se aproximava. Tentou abrir a cancela e cumprimentar ao mesmo tempo. Giles levantou o bastão e quase explodiu em risadas quando notou que os dois botões superiores do casaco da camisa do sentinela estavam abertos. O coronel Schabacker nunca teria deixado aquilo passar sem um comentário, nem mesmo na véspera do Ano-Novo.

O major Forsdyke, o oficial da inteligência da comissão de fuga, havia dito a Giles que a casa do comandante ficava a aproximadamente três quilômetros do complexo, e os últimos duzentos metros eram uma estradinha estreita e escura. Giles permaneceu largado no canto do banco traseiro, onde não podia ser visto pelo retrovisor, mas, no momento em que o carro entrou na tal estradinha, ele se sentou ereto, bateu no ombro do motorista com o bastão e ordenou que ele parasse.

— Não posso esperar — ele disse antes de pular para fora do carro e fingir abrir a braguilha.

Hans observou enquanto o coronel desaparecia em meio aos arbustos. Parecia intrigado, afinal, eles estavam a apenas cem metros da porta de casa. Saltou do carro e esperou ao lado da porta traseira. Quando achou ter ouvido o patrão voltando, virou-se exatamente no momento em que um punho cerrado surgiu na sua frente, um instante antes de quebrar seu nariz. Hans caiu desfalecido no chão.

Giles correu para a traseira do carro e abriu o porta-malas. Terry pulou para fora, foi até o corpo prostrado de Hans e começou a desabotoar o uniforme do motorista, antes de tirar as próprias roupas. Quando Bates terminou de vestir o novo uniforme, ficou claro como Hans era mais baixo e gordo do que ele.

— Não importa — disse Giles lendo o pensamento do amigo. — Quando você estiver atrás da direção, ninguém vai prestar muita atenção em você.

Eles arrastaram Hans até a traseira do carro e o colocaram no porta-malas.

— Duvido que ele vá acordar antes de nos sentarmos para o café da manhã em Zurique — disse Terry enquanto amarrava um lenço em volta da boca de Hans.

O novo motorista do comandante assumiu seu lugar atrás do volante e nenhum dos dois falou até estarem novamente na estrada principal. Terry não precisou parar nem verificar as placas, pois havia estudado a rota até a fronteira diariamente nos cinco meses anteriores.

— Fique do lado direito da estrada — disse Giles desnecessariamente — e não dirija rápido demais. A última coisa que queremos é ser parados.

— Acho que conseguimos — Terry disse quando eles passaram uma placa que indicava Schaffhausen.

— Só vou acreditar que conseguimos quando indicarem nossa mesa no Imperial Hotel e um garçom me entregar o cardápio do café da manhã.

— Eu não vou precisar de cardápio — disse Terry. — Ovos, bacon, feijão, salsicha, tomate e uma caneca de cerveja. Essa costuma ser minha refeição no mercado de carnes todas as manhãs. E você?

— Um arenque, ligeiramente cozido, uma fatia de torrada com manteiga, uma colher de geleia Oxford e um bule de chá Earl Grey.

— Não demorou muito para você deixar de ser mordomo e voltar a ser um grã-fino.

Giles sorriu. Olhou para o relógio. Havia poucos carros na estrada naquela manhã de Ano-Novo. Então, eles continuaram a avançar bem, ou seja, até Terry avistar o comboio à frente deles.

— O que faço agora? — perguntou ele.

— Ultrapasse-os. Não podemos nos dar ao luxo de perder tempo. Eles não têm motivos para desconfiar, você está dirigindo um alto oficial que não espera ser parado.

Quando Terry alcançou o veículo na traseira do comboio, abriu para o centro da estrada e começou a ultrapassar uma longa fila de caminhões blindados e motocicletas. Como Giles previra, ninguém demonstrou o menor interesse na ultrapassagem de um Mercedes que claramente estava em missão oficial. Quando superou o veículo que estava na dianteira, Terry soltou um suspiro de alívio, mas só relaxou totalmente quando fez uma curva e não conseguiu mais ver nenhum farol no retrovisor.

Giles continuava a olhar para o relógio em breves intervalos. A placa seguinte confirmou que eles estavam progredindo dentro do horário previsto, mas Giles sabia que eles não tinham controle sobre o horário em que o último convidado iria embora e o coronel Schabacker sairia em busca do seu carro e do seu motorista.

Outros quarenta minutos se passaram até que eles alcançassem os arredores de Schaffhausen. Os dois estavam tão nervosos que mal trocaram uma só palavra. Giles estava esgotado apenas de ficar sentado no banco traseiro sem fazer nada, mas sabia que eles só poderiam se dar ao luxo de relaxar quando tivessem cruzado a fronteira suíça.

Quando eles entraram na cidade, os habitantes locais estavam começando a acordar; um bonde ocasional, um carro ou outro, algumas bicicletas transportando pessoas que eram esperadas no trabalho no dia de Ano-Novo. Terry não precisou procurar placas que indicassem a fronteira, pois era possível ver os Alpes suíços dominando o horizonte. Parecia que a liberdade podia ser tocada com as mãos.

— Caramba! — Terry disse enquanto pisava com força no freio.

— Qual é o problema? — Giles perguntou, inclinando-se para a frente.

— Olhe para aquela fila.

Giles pôs a cabeça para fora da janela e viu uma fila de cerca de quarenta veículos, grudados uns nos outros, na frente deles, todos esperando para cruzar a fronteira. Deu uma olhada para verificar se havia algum carro oficial dentre eles. Quando se certificou de que não havia nenhum, disse:

— Vá direto para a frente da fila. É o que seria esperado de nós. Se não fizermos isso, vamos chamar atenção.

Terry avançou lentamente e só parou quando alcançou a cancela.

— Salte e abra a porta para mim, mas não diga nada.

Terry desligou o motor, desceu do carro e abriu a porta traseira. Giles se dirigiu ao posto da imigração.

Um jovem oficial se levantou rapidamente atrás da sua mesa e bateu continência quando viu o coronel entrar na saleta. Giles entregou dois conjuntos de documentos que o falsificador do campo garantiu que passariam sem problemas por qualquer posto de fronteira na Alemanha. Ele estava prestes a descobrir se o falsificador havia exagerado ou não. Enquanto o oficial folheava os documentos, Giles ficou batendo na lateral da perna com o bastão e olhou várias vezes para o relógio de pulso.

— Tenho uma reunião importante em Zurique — disparou — e estou atrasado.

— Lamento, coronel. Vou liberá-lo para que continue a viagem assim que possível. Só mais alguns instantes.

O oficial verificou a fotografia de Giles nos documentos e pareceu intrigado. Giles ficou se perguntando se o oficial teria o topete de pedir que ele tirasse a echarpe, pois, se o fizesse, perceberia imediatamente que ele era jovem demais para ser um coronel.

Giles lançou um olhar desafiador para o jovem, que devia estar avaliando as possíveis consequências de vir a atrasar um alto oficial com perguntas desnecessárias. A balança pendeu a favor de Giles. O oficial anuiu, carimbou os documentos e disse:

— Espero que o senhor não se atrase para a reunião.

— Obrigado — disse Giles. Pôs os documentos de volta no bolso e estava caminhando rumo à porta quando o jovem oficial o fez parar.

— Heil Hitler! — gritou.

Giles hesitou e virou-se lentamente.

— Heil Hitler! — disse e executou uma saudação nazista perfeita.

Ao sair do edifício, teve de refrear o riso quando notou que Terry estava segurando a porta traseira aberta com uma mão e as calças com a outra.

— Obrigado, Hans — disse Giles enquanto se jogava no banco traseiro.

Foi então que eles ouviram pancadas vindo do porta-malas.

— Ah, meu Deus! — disse Terry. — Hans.

As palavras do brigadeiro reapareceram para assombrá-los: nenhum plano de fuga pode ser totalmente seguro. No final, tudo se resume a como enfrentamos os imprevistos.

Terry fechou a porta traseira e voltou para o seu lugar atrás da direção o mais rápido possível, pois temia que os guardas ouvissem as pancadas. Tentou permanecer calmo enquanto a cancela era levantada centímetro a centímetro e as pancadas ficavam cada vez mais altas.

— Dirija devagar — disse Giles. — Não dê motivo algum para que eles desconfiem.

Terry deslizou a alavanca de câmbio para a primeira marcha e avançou lentamente por baixo da cancela. Giles olhou pela janela lateral enquanto eles cruzavam o posto de fronteira. O jovem oficial estava falando ao telefone. Olhou pela janela, encarou Giles, pulou de trás da mesa e correu para a estrada.

Giles calculou que o posto de fronteira suíço não ficava a mais do que duzentos metros de distância. Olhou pela janela traseira e viu o jovem oficial acenando freneticamente enquanto guardas com rifles saíam do posto de imigração.

— Mudança de planos — disse Giles. — Pise fundo no acelerador! — gritou enquanto os primeiros projéteis atingiam a traseira do carro.

Terry estava mudando de marcha quando o primeiro pneu estourou. Ele tentou desesperadamente manter o carro na estrada, mas o veículo começou a debandar, arrastou-se pelo gradil de proteção da estrada e parou no meio do caminho entre os dois postos de fronteira. Outra salva de tiros veio logo em seguida.

— É minha vez de chegar no banheiro na sua frente — disse Giles.

— Sem chance — rebateu Terry, que estava com os dois pés no chão antes que Giles tivesse se lançado para fora pela porta traseira.

Os dois começaram a correr desembestados rumo à fronteira suíça. Se algum dos dois algum dia fosse correr cem metros em dez segundos, aquele era o dia. Embora eles estivessem se esquivando e mudando de direção na tentativa de evitar os tiros, Giles ainda estava confiante de que cruzaria a linha de chegada em primeiro lugar. Os guardas suíços os incitavam e, quando Giles atravessou a fronteira, levantou os braços em triunfo, tendo finalmente derrotado seu maior rival.

Virou-se para trás para comemorar e viu Terry caído no meio da estrada a cerca de trinta metros de distância, uma ferida de bala na parte posterior da cabeça e sangue gotejando da boca.

Giles caiu de joelhos e começou a engatinhar até o amigo. Mais tiros começaram a ser disparados enquanto os dois guardas suíços o agarravam pelos tornozelos e o puxavam de volta para a segurança.

Ele queria explicar a eles que não tinha vontade alguma de tomar café da manhã sozinho.