Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 40 de 48

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Os Pecados do Pai

Emma Barrington - 1942

EMMA BARRINGTON

1942

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— Bom dia, sr. Guinzburg — disse Sefton Jelks enquanto se levantava de trás da mesa. — É realmente uma honra conhecer o homem que publica Dorothy Parker e Graham Greene.

Guinzburg inclinou ligeiramente a cabeça antes de trocar um aperto de mãos com Jelks.

— E srta. Barrington — disse Jelks, virando-se para Emma —, é um prazer revê-la. Como não represento mais o sr. Lloyd, espero que possamos ser amigos.

Emma franziu o cenho e sentou-se sem apertar a mão esticada de Jelks.

Depois de os três se acomodarem, Jelks continuou:

— Talvez eu devesse iniciar esta reunião dizendo que pensei que seria válido para nós três nos encontrarmos, conversarmos franca e abertamente e avaliarmos se seria possível chegar a uma solução para o nosso problema.

— O seu problema — interveio Emma.

O sr. Guinzburg apertou os lábios, mas não disse nada.

— Tenho certeza — prosseguiu Jelks concentrando a atenção em Guinzburg — que o senhor vai querer fazer o que for melhor para todos os envolvidos.

— E Harry Clifton está incluído nesse grupo desta vez? — Emma perguntou.

Guinzburg virou-se para Emma e fez uma careta de desaprovação.

— Sim, srta. Barrington — disse Jelks —, qualquer acordo a que possamos chegar certamente incluirá o sr. Clifton.

— Como da vez anterior, sr. Jelks, quando o senhor o abandonou quando ele mais precisava?

— Emma — disse Guinzburg em tom de reprimenda.

— Devo ressaltar, srta. Barrington, que eu estava apenas obedecendo as instruções do meu cliente. Tanto o sr. quanto a sra. Bradshaw me garantiram que o homem que eu estava representando era filho deles e eu não tinha motivo algum para duvidar disso. E, é claro, evitei que Tom fosse julgado por...

— E, depois, o senhor deixou Harry se virar sozinho.

— Em minha defesa, srta. Barrington, quando eu finalmente descobri que Tom Bradshaw era de fato Harry Clifton, ele me implorou para que eu continuasse a representá-lo, pois não queria que a senhorita descobrisse que ele ainda estava vivo.

— Essa não é a versão de Harry dos fatos — disse Emma, que parecia ter se arrependido das próprias palavras logo após tê-las dito.

Guinzburg não tentou disfarçar seu desagrado. Parecia um homem que estava se dando conta de que seu trunfo havia sido usado cedo demais.

— Entendo — disse Jelks. — Com base nesse breve surto, devo deduzir que vocês dois leram o caderno anterior?

— Cada palavra — disse Emma. — Portanto, pode parar de fingir que só fez o que era melhor para Harry.

— Emma — disse Guinzburg com firmeza —, você precisa aprender a não levar as coisas para o lado pessoal e tentar ver o panorama geral.

— E esse panorama seria o de um famoso advogado de Nova York indo parar na cadeia por falsificar provas e obstruir a justiça? — ironizou Emma sem tirar os olhos de Jelks.

— Peço desculpa, sr. Jelks — disse Guinzburg. — Minha jovem amiga se empolga quando o assunto é...

— Pode apostar que sim — atalhou Emma quase aos gritos — porque posso dizer exatamente o que esse homem — disse, apontando para Jelks — teria feito se Harry tivesse sido mandado para a cadeira elétrica. Ele mesmo teria puxado a alavanca se achasse que isso salvaria sua própria pele.

— Isso é ultrajante! — protestou Jelks pulando da sua cadeira. — Eu já havia preparado um recurso que não deixaria dúvidas para o júri de que a polícia prendera o homem errado.

— Então, o senhor sabia o tempo todo que era Harry — disse Emma, recostando-se na cadeira.

Jelks ficou atônito por um instante com a observação de Emma. Ela aproveitou o silêncio do advogado.

— Deixe-me dizer o que vai acontecer, sr. Jelks: quando a Viking publicar o primeiro caderno de Harry na primavera, não somente sua reputação será destruída e sua carreira chegará ao fim, mas, como Harry, o senhor vai descobrir em primeira mão como é a vida em Lavenham.

Jelks se voltou desesperado para Guinzburg.

— Achei que era nosso interesse mútuo chegar a um acordo amigável antes que tudo isso saia de controle.

— O que o senhor tem em mente, sr. Jelks? — perguntou Guinzburg tentando soar conciliatório.

— O senhor não vai fornecer uma escapatória a esse vigarista, não é mesmo? — disse Emma.

Guinzburg levantou a mão.

— O mínimo que podemos fazer, Emma, é ouvi-lo.

— Assim como ele ouviu Harry?

Jelks virou-se para Guinzburg.

— Se o senhor julgar possível não publicar o caderno anterior, posso garantir que não sairá perdendo.

— Não acredito que esteja falando isso a sério — disse Emma.

Jelks continuou a se dirigir a Guinzburg como se Emma não estivesse presente.

— É claro, entendo que o senhor sairia perdendo uma quantia razoável se decidisse não seguir em frente.

— Tomando por base O diário de um condenado — disse Guinzburg —, mais de cem mil dólares.

A cifra deve ter surpreendido Jelks, pois ele não reagiu.

— Além dos vinte mil dólares que foram pagos como adiantamento a Lloyd — prosseguiu Guinzburg — e que terão de ser reembolsados ao sr. Clifton.

— Se Harry estivesse aqui, ele seria o primeiro a dizer que não está interessado no dinheiro, sr. Guinzburg, mas somente em ter certeza de que esse homem irá para a cadeia.

Guinzburg parecia chocado.

— A reputação da minha editora não foi construída em cima de escândalos, Emma; portanto, antes de eu tomar uma decisão a respeito de publicar ou não o caderno, preciso levar em consideração como os meus escritores mais ilustres podem reagir a uma publicação desse tipo.

— O senhor tem toda a razão, sr. Guinzburg. Reputação é tudo.

— Como o senhor sabe disso? — indagou Emma.

— Já que estamos falando de escritores ilustres — continuou Jelks com um pouco de pompa, ignorando a interrupção —, o senhor talvez saiba que meu escritório tem o privilégio de representar o patrimônio de F. Scott Fitzgerald — disse, recostando-se na cadeira. — Lembro-me muito bem de Scotty dizendo que, se fosse mudar de editora, gostaria de ir para a Viking.

— O senhor não vai cair nessa, não é? — perguntou Emma.

— Emma, minha querida, há momentos em que é sensato ter uma visão de longo prazo.

— Quão longo? Seis anos?

— Emma, só estou fazendo o que é melhor para todos.

— A meu ver, o que o senhor está fazendo vai acabar sendo bom apenas para a sua pessoa. Na verdade, quando há dinheiro envolvido, o senhor não é melhor do que ele — Emma disse apontando para Jelks.

Guinzburg pareceu ferido pela acusação de Emma, mas logo se recuperou. Virou-se para o advogado e perguntou:

— O que o senhor tem em mente, sr. Jelks?

— Se o senhor concordar em não publicar o primeiro caderno de maneira alguma, eu concordaria de bom grado em pagar uma compensação equivalente à soma que o senhor ganhou por O diário de um condenado e, além disso, reembolsaria integralmente os vinte mil dólares do adiantamento dado ao sr. Lloyd.

— Por que o senhor simplesmente não beija meu rosto, sr. Guinzburg — disse Emma —, e depois ele vai saber a quem dar as trinta moedas de prata.

— E Fitzgerald? — perguntou Guinzburg, ignorando-a.

— Concedo-lhe os direitos de edição do patrimônio de F. Scott Fitzgerald por um período de cinquenta anos com as mesmas condições da editora atual.

Guinzburg sorriu.

— Redija o contrato, sr. Jelks, e o assinarei de bom grado.

— E que pseudônimo o senhor vai usar quando assinar o contrato? — indagou Emma. — Judas?

Guinzburg deu de ombros.

— Negócios são negócios, minha querida. E você e Harry não deixarão de ser recompensados.

— Fico feliz que o senhor tenha mencionado isso, sr. Guinzburg — disse Jelks —, pois tenho um cheque de dez mil dólares nominal à mãe de Harry Clifton há algum tempo, mas, por causa da eclosão da guerra, não tive como fazê-lo chegar até ela. Talvez a senhorita possa gentilmente entregá-lo à sra. Clifton quando retornar à Inglaterra.

Jelks deslizou o cheque até o outro lado da mesa.

Emma o ignorou.

— O senhor nunca teria mencionado esse cheque se eu não tivesse lido a respeito dele no primeiro caderno, quando o senhor prometeu a Harry que enviaria à sra. Clifton dez mil dólares se ele concordasse em assumir o lugar de Tom Bradshaw — Emma disse se levantando e acrescentou: — Vocês dois me enojam, só me resta esperar nunca mais cruzar com nenhum dos dois pelo resto da minha vida.

Emma saiu furiosa do escritório sem dizer outra palavra, deixando o cheque sobre a mesa.

— Garota obstinada — disse Guinzburg —, mas tenho certeza de que, no seu devido tempo, conseguirei convencê-la de que tomamos a decisão certa.

— Estou confiante, Harold — disse Jelks — de que você vai contornar esse pequeno incidente com toda a habilidade e diplomacia que se tornaram a marca registrada da sua ilustre empresa.

— É muita gentileza sua dizer isso, Sefton — agradeceu Guinzburg enquanto se levantava da cadeira e pegava o cheque. — E farei com que a sra. Clifton receba isto — acrescentou pondo o cheque na carteira.

— Eu sabia que podia contar com você, Harold.

— Claro que pode, Sefton, e espero revê-lo assim que o contrato tiver sido redigido.

— Estará pronto até o final da semana — Jelks disse enquanto eles saíam juntos do escritório e atravessavam o corredor. — É surpreendente não termos feito negócios antes.

— Concordo — disse Guinzburg —, mas tenho a sensação de que este é apenas o início de um relacionamento longo e profícuo.

— Tomara que sim — concordou Jelks quando eles chegaram ao elevador. — Entrarei em contato assim que a documentação estiver pronta para ser assinada — acrescentou enquanto apertava o botão de descida.

— Ficarei aguardando, Sefton — disse Guinzburg e apertou calorosamente a mão de Jelks antes de entrar no elevador.

Quando o elevador chegou ao térreo, Guinzburg saiu e a primeira coisa que viu foi Emma vindo na sua direção.

— Você foi brilhante, minha querida — ele disse. — Confesso que, por um instante, fiquei me perguntando se você tinha ido longe demais com o seu comentário sobre a cadeira elétrica, mas não, você entendeu direitinho com quem estava lidando — acrescentou enquanto os dois saíam do edifício de braços dados.

Emma passou a maior parte da tarde sentada sozinha em seu quarto relendo o primeiro caderno no qual Harry escrevera sobre a época anterior a Lavenham.

À medida que virava cada página e ia se dando conta do que Harry se dispôs a passar para liberá-la de qualquer obrigação que ela pudesse achar que tinha em relação a ele, Emma resolveu que, se algum dia conseguisse encontrar aquele tolo novamente, não o perderia de vista.

Com a bênção do sr. Guinzburg, Emma se envolveu em todos os aspectos da publicação da edição revista de O diário de um condenado, ou a primeira edição, como ela sempre dizia. Emma foi a reuniões editoriais, discutiu as fontes da capa com o chefe do departamento de arte, escolheu a foto que ilustraria a quarta capa, escreveu os elogios sobre Harry na orelha do livro e até participou de uma conferência de vendas.

Seis semanas mais tarde, caixas de livros foram transportadas em trens, caminhões e aviões, da gráfica até depósitos em todos os Estados Unidos.

No dia do lançamento, Emma estava em pé na calçada na frente da Doubleday’s esperando que a livraria abrisse. Naquela noite, ela pôde contar à tia-avó Phyllis e ao primo Alistair que o livro esgotou na loja. A confirmação se deu na lista dos mais vendidos do New York Times no domingo seguinte, quando a edição revista de O diário de um condenado apareceu na lista dos dez mais depois de apenas uma semana de venda.

Jornalistas e editores de revistas de todo o país estavam desesperados para entrevistar Harry Clifton e Max Lloyd. Mas não era possível encontrar Harry em nenhum estabelecimento penal dos Estados Unidos, ao passo que Lloyd, para citar o The Times, não estava disponível para tecer comentários. O New York News foi menos prosaico quando publicou a manchete: LLOYD DEU NO PÉ.

No dia da publicação, o escritório de Sefton Jelks emitiu um comunicado formal esclarecendo que não representava mais Max Lloyd. Embora O diário de um condenado tenha ficado no primeiro lugar da lista dos mais vendidos do New York Times pelas cinco semanas seguintes, Guinzburg ateve-se ao acordo com Jelks e não publicou nenhum trecho do caderno anterior.

Todavia, Jelks assinou um contrato que concedia à Viking os direitos exclusivos de publicação de todas as obras de F. Scott Fitzgerald pelos cinquenta anos seguintes. Jelks considerava que havia honrado seu lado do acordo e que, no seu devido tempo, a imprensa se cansaria daquela história e passaria para outra. E ele até podia ter tido razão se a revista Time não tivesse publicado uma entrevista de página inteira com o recém-aposentado detetive Kolowski do Departamento de Polícia de Nova York.

“E posso garantir”, era uma das citações de Kolowski, “que, até o momento, eles só publicaram a parte mais chata. Esperem até lerem o que aconteceu com Harry Clifton antes de ele chegar a Lavenham.”

A matéria foi divulgada por volta das 18h, horário do Leste, e o sr. Guinzburg havia recebido mais de cem telefonemas quando entrou no escritório na manhã seguinte.

Jelks leu o artigo na Time enquanto seu motorista o levava para Wall Street. Quando desceu do elevador no vigésimo segundo andar, encontrou três dos seus sócios esperando fora do escritório.