Os Pecados do Pai

Jeffrey Archer · Capítulo 3 de 48

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Os Pecados do Pai

Harry Clifton - 1939-1941

HARRY CLIFTON

1939-1941

1

 

— Meu nome é Harry Clifton.

— Claro, e eu sou Babe Ruth — disse o detetive Kolowski enquanto acendia um cigarro.

— Não — rebateu Harry —, você não está entendendo, aconteceu um erro terrível. Eu sou Harry Clifton, um inglês de Bristol. Servi no mesmo navio que Tom Bradshaw.

— Guarde essa história para o seu advogado — disse o detetive, soltando uma baforada profunda e enchendo a pequena cela com uma nuvem de fumaça.

— Não tenho advogado — protestou Harry.

— Se eu estivesse encrencado como você, rapaz, acharia que ter Sefton Jelks ao meu lado seria minha única esperança.

— Quem é Sefton Jelks?

— Talvez você não tenha ouvido falar do advogado mais astuto de Nova York — respondeu o detetive enquanto soltava outra pluma de fumaça —, mas ele verá você às nove horas amanhã, e Jelks não sai do escritório sem que a conta já tenha sido paga.

— Mas... — iniciou Harry enquanto Kolowski batia com a palma da mão na porta da cela.

— Portanto, quando Jelks aparecer amanhã de manhã — Kolowski continuou, ignorando a interrupção de Harry —, é melhor você ter uma história mais convincente do que aquela de que “a polícia prendeu o homem errado”. Você disse ao oficial da imigração que era Tom Bradshaw e, se isso foi suficiente para ele, será suficiente para o juiz.

A porta da cela se abriu, mas não antes que o detetive tivesse soltado outra baforada de fumaça que fez Harry tossir. Kolowski saiu para o corredor sem outra palavra e bateu a porta atrás de si. Harry se jogou em uma cama presa à parede e encostou a cabeça em um travesseiro duro como tijolo. Olhou para o teto e começou a pensar como tinha ido parar na cela de uma delegacia do outro lado do mundo com uma acusação de homicídio.

 

A porta se abriu muito antes que a luz matutina pudesse atravessar as barras na janela e penetrar na cela. Apesar de ser tão cedo, Harry já estava desperto.

Um carcereiro entrou carregando uma bandeja de comida que nem o Exército da Salvação teria cogitado em oferecer a um indigente. Depois de pôr a bandeja sobre a mesinha de madeira, saiu sem nada dizer.

Harry deu uma olhada na comida antes de começar a andar de um lado para outro na cela. A cada passo, ele ficava mais confiante de que, explicando ao sr. Jelks o motivo para ter trocado de nome com Tom Bradshaw, a questão seria rapidamente resolvida. A pior punição que eles poderiam aplicar seria certamente deportá-lo, e, como sua intenção sempre fora voltar à Inglaterra e se alistar na Marinha, tudo se encaixava em seu plano original.

Às 8h55, Harry estava sentado na beirada da cama, impaciente pela chegada do sr. Jelks. A enorme porta de ferro só se abriu doze minutos depois das nove. Harry se pôs de pé com um salto enquanto o guarda da prisão dava um passo para o lado para deixar entrar um homem alto, elegante e grisalho. Harry achou que ele devia ter mais ou menos a mesma idade do seu avô. O sr. Jelks trajava um terno risca de giz azul-marinho transpassado, uma camisa branca e uma gravata listrada. O olhar cansado em seu rosto sugeria que poucas coisas o surpreenderiam.

— Bom dia — ele disse, abrindo um leve sorriso para Harry. — Meu nome é Sefton Jelks. Sou o principal sócio da Jelks, Myers e Abernathy, e meus clientes, o sr. e a sra. Bradshaw, me pediram para representá-lo em seu julgamento.

Harry ofereceu a Jelks a única cadeira da cela, como se estivesse recebendo a visita de uma velho amigo para tomar uma xícara de chá em seu estúdio em Oxford. Empoleirou-se na cama e ficou observando o advogado abrir a pasta, retirar um bloco amarelo e colocá-lo sobre a mesa.

Jelks tirou uma caneta de um bolso interno e disse:

— Talvez o senhor queira começar me dizendo quem é, pois nós dois sabemos que o senhor não é o tenente Bradshaw.

Se o advogado ficou surpreso com a história de Harry, não demonstrou. Com a cabeça abaixada, redigiu copiosas anotações em seu bloco amarelo enquanto Harry explicava como tinha acabado pernoitando na cadeia. Quando chegou ao fim, Harry deduziu que seus problemas certamente deviam ter acabado, pois tinha um advogado tarimbado ao seu lado — isso até ouvir a primeira pergunta de Jelks.

— O senhor disse que escreveu uma carta para a sua mãe enquanto estava a bordo do Kansas Star explicando por que assumiu a identidade de Tom Bradshaw?

— Correto, senhor. Eu não queria que minha mãe sofresse desnecessariamente, mas, ao mesmo tempo, precisava que ela entendesse por que eu havia tomado uma decisão tão drástica.

— Sim, posso entender por que o senhor cogitou que a troca de identidade resolveria todos os seus problemas imediatos sem levar em consideração que isso poderia envolvê-lo em uma série de questões ainda mais complicadas — disse Jelks. Sua pergunta seguinte surpreendeu Harry ainda mais. — O senhor se lembra do conteúdo dessa tal carta?

— Claro. Eu a escrevi e reescrevi tantas vezes que poderia reproduzi-la quase palavra por palavra.

— Então, permita-me testar sua memória — disse Jelks e, sem dizer outra palavra, arrancou uma folha do bloco amarelo e a entregou junto com sua caneta-tinteiro a Harry.

Harry ficou algum tempo tentando se lembrar das palavras exatas antes de começar a reescrever a carta.

Minha querida mãe,

Fiz todo o possível para garantir que você receberia esta carta antes que alguém pudesse dizer que eu morri no mar.

Como a data desta carta comprova, não morri quando o Devonian foi afundado em 4 de setembro. Na verdade, fui resgatado do mar pelo marinheiro de um navio americano e, graças a ele, estou bem vivo. No entanto, surgiu uma oportunidade inesperada para que eu assumisse a identidade de outro homem, e foi isso o que fiz propositalmente, na esperança de livrar Emma de todos os problemas que, ao que parece, causei involuntariamente a ela e à sua família ao longo dos anos.

É importante que você perceba que meu amor por Emma não diminuiu de forma alguma, pelo contrário. Acredito que nunca viverei novamente um outro amor assim. Mas acho que não tenho o direito de esperar que ela passe o resto da vida agarrada à vã esperança de que, em algum momento no futuro, eu possa provar que Hugo Barrington não é meu pai e que, na verdade, sou filho de Arthur Clifton. Desta maneira, ela pode pelo menos pensar em um futuro com outro homem. Eu o invejo.

Planejo voltar à Inglaterra em breve. Caso você receba alguma comunicação de um tal Tom Bradshaw, saiba que é minha. Entrarei em contato assim que puser os pés em Bristol, mas, por enquanto, devo implorar que a senhora guarde meu segredo com a mesma firmeza com que guardou o seu por tantos anos.

Com amor, do seu filho,

Harry

Quando terminou de ler a carta, Jelks surpreendeu Harry mais uma vez.

— O senhor mesmo postou a carta, sr. Clifton? — perguntou ele. — Ou deu essa responsabilidade a outra pessoa?

Pela primeira vez, Harry ficou desconfiado, e decidiu não mencionar que havia pedido ao dr. Wallace para entregar a carta à sua mãe quando ele voltasse a Bristol dali a duas semanas. Ele temia que Jelks persuadisse o dr. Wallace a entregar-lhe a carta e que sua mãe não tivesse como saber que ele ainda estava vivo.

— Postei a carta quando desembarquei — disse ele.

O advogado demorou antes de esboçar alguma reação.

— O senhor tem alguma prova de que é Harry Clifton, e não Thomas Bradshaw?

— Não, senhor, não tenho — respondeu Harry sem hesitar, dolorosamente ciente de que ninguém a bordo do Kansas Star tinha motivo para acreditar que ele não fosse Tom Bradshaw e que as únicas pessoas que poderiam confirmar sua história estavam do outro lado do oceano, a mais de cinco mil quilômetros de distância, e que logo seriam informadas de que Harry Clifton fora enterrado no mar.

— Então, talvez possa auxiliá-lo, sr. Clifton, presumindo que o senhor ainda queira que a srta. Emma Barrington acredite que o senhor está morto. Se esse for o caso — disse Jelks, um sorriso fingido em seu rosto —, talvez eu possa apresentar uma solução para o seu caso.

— Uma solução? — disse Harry parecendo confiante pela primeira vez.

— Mas apenas se o senhor se sentir capaz de continuar a representar o personagem de Thomas Bradshaw.

Harry permaneceu em silêncio.

— A promotoria aceitou que a acusação contra Bradshaw é, na melhor das hipóteses, circunstancial, e a única prova real à qual eles estão se agarrando é que ele deixou o país no dia seguinte ao assassinato. Cientes da fragilidade de tal argumento, eles concordaram em retirar a acusação de homicídio se o senhor for capaz de se declarar culpado da acusação menos grave de deserção durante o serviço militar.

— Mas por que eu concordaria com isso? — questionou Harry.

— Posso pensar em três bons motivos — respondeu Jelks. — Primeiro, se o senhor não o fizer, provavelmente acabará passando seis anos na prisão por entrar nos Estados Unidos sob falsos pretextos. Segundo, manteria seu anonimato; portanto, a família Barrington não teria motivo para acreditar que o senhor ainda está vivo. E, terceiro, os Bradshaw estão dispostos a pagar dez mil dólares para que o senhor assuma o lugar do filho deles.

Harry percebeu imediatamente que aquela seria uma oportunidade para recompensar a mãe por todos os sacrifícios feitos a seu favor ao longo dos anos. Uma quantia tão alta transformaria a vida dela, possibilitando que ela deixasse a modesta casa em Still House Lane e se livrasse da visita semanal do cobrador do aluguel. Talvez ela até pensasse em deixar o trabalho de garçonete no Grand Hotel para ter uma vida mais tranquila, embora Harry achasse isso improvável. Porém, antes de concordar em tomar parte nos planos de Jelks, ele tinha algumas perguntas.

— Por que os Bradshaw estão dispostos a dar continuidade a tal embuste quando, a esta altura, já devem estar sabendo que o filho morreu no mar?

— A sra. Bradshaw está desesperada para limpar o nome de Thomas. Ela nunca aceitará que um dos seus filhos pode ter matado o outro.

— Então é disso que Tom está sendo acusado, de matar seu próprio irmão?

— Sim, mas, como eu disse, as provas são fracas e circunstanciais, e certamente não se sustentariam em um tribunal, e é por isso que a promotoria está disposta a retirar a acusação, mas somente se o senhor concordar em se declarar culpado da acusação menos grave de deserção.

— E qual seria minha pena se eu concordasse?

— A promotoria concordou em recomendar ao juiz uma sentença de um ano; portanto, com bom comportamento, o senhor poderia estar livre em seis meses, muito melhor do que os seis anos que o senhor pode esperar se continuar a insistir que é Harry Clifton.

— Mas, no momento em que eu pisar no tribunal, alguém certamente vai perceber que não sou Bradshaw.

— Improvável — disse Jelks. — Os Bradshaw são de Seattle, na costa oeste, e, embora sejam abastados, raramente visitam Nova York. Thomas se alistou na Marinha aos 17 anos, e, como o senhor bem sabe, não pôs os pés nos Estados Unidos nos últimos quatro anos. E, se o senhor se declarar culpado, não permanecerá no tribunal por mais de vinte minutos.

— Mas, quando eu abrir a boca, as pessoas não vão perceber que não sou americano?

— É por isso mesmo que o senhor não vai abrir a boca, sr. Clifton.

O sofisticado advogado parecia ter uma resposta para tudo. Harry tentou outro estratagema.

— Na Inglaterra, os julgamentos de homicídios sempre ficam repletos de jornalistas, e o público faz fila fora do tribunal desde cedo na esperança de entrever o réu.

— Sr. Clifton, atualmente há quatorze julgamentos de homicídios acontecendo em Nova York, incluindo o do famigerado “assassino da tesoura”. Duvido que mesmo um jornalista novato seja designado para esse caso.

— Preciso de tempo para pensar a respeito.

Jelks olhou para o relógio.

— Devemos nos apresentar perante o juiz Atkins ao meio-dia; portanto, o senhor tem pouco mais de uma hora para tomar uma decisão, sr. Clifton — Jelks disse, chamando em seguida um guarda para abrir a porta da cela. — Caso decida não utilizar meus serviços, desejo-lhe boa sorte, pois não nos encontraremos novamente — acrescentou antes de deixar a cela.

Harry ficou sentado na beira da cama avaliando a oferta de Jelks. Embora não duvidasse que o advogado grisalho tivesse seus próprios motivos, seis meses pareciam muito mais palatáveis do que seis anos, e a quem mais ele podia recorrer senão àquele experiente advogado? Harry desejou que fosse possível aparecer no escritório de Sir Walter Barrington por alguns instantes e pedir seu conselho.

 

Uma hora mais tarde, Harry, trajando terno azul-escuro, camisa creme, colarinho engomado e gravata listrada, foi algemado, acompanhado de sua cela até uma viatura da delegacia e levado até o tribunal sob escolta armada.

— Ninguém deve acreditar que você seja capaz de cometer um assassinato — Jelks havia se pronunciado após um alfaiate ter visitado a cela de Harry com uma dúzia de ternos, camisas e um sortimento de gravatas para que ele escolhesse.

— E não sou mesmo — Harry lembrou ao advogado.

Harry voltou a se encontrar com Jelks no corredor. O advogado deu aquele mesmo sorriso antes de abrir caminho empurrando as portas vaivéns e atravessar o corredor central, só parando ao chegar até os dois assentos vazios atrás da mesa reservada à defesa.

Depois de se acomodar e ter as algemas retiradas, Harry olhou à sua volta e viu uma tribunal quase vazio. Jelks tinha razão. Poucos curiosos, e certamente ninguém da imprensa, pareciam interessados no caso. Para eles, devia ser apenas mais um assassinato doméstico no qual o réu provavelmente seria absolvido: nenhuma manchete de “Caim e Abel” se não houvesse possibilidade de cadeira elétrica na vara número quatro.

Enquanto a primeira campainha soava para anunciar o meio-dia, uma porta se abriu na extremidade oposta da sala e o juiz Atkins apareceu. Ele atravessou lentamente o tribunal, subiu os degraus e assumiu seu posto atrás da mesa colocada sobre um tablado. Em seguida, acenou com a cabeça em direção ao promotor, como se soubesse exatamente o que ele estava prestes a dizer.

Um jovem advogado se levantou de trás da mesa da promotoria e explicou que o Estado retiraria a acusação de homicídio, mas processaria Thomas Bradshaw por deserção da Marinha dos Estados Unidos. O juiz anuiu e voltou a atenção para o sr. Jelks, que se levantou no momento apropriado.

— E, em relação à segunda acusação, de deserção, o que seu cliente tem a dizer?

— Ele se declara culpado — disse Jelks. — Espero que Vossa Excelência seja clemente com o meu cliente nesta ocasião, pois não preciso lembrar, Excelência, que ele é réu primário e que, antes desse insólito lapso, seu prontuário era imaculado.

O juiz Atkins franziu a testa.

— Sr. Jelks — disse ele —, algumas pessoas talvez julguem que um oficial que abandona o posto ao servir o próprio país é um crime tão hediondo quanto um homicídio. Não preciso lembrar ao senhor que, até recentemente, seu cliente encararia um pelotão de fuzilamento por tal crime.

Harry ficou nauseado enquanto olhava para Jelks, que não tirava os olhos do juiz.

— Com isso em mente — continuou Atkins —, condeno o tenente Thomas Bradshaw a seis anos de prisão — proferiu e bateu o martelo. — Próximo caso — disse antes que Harry tivesse chance de protestar.

— O senhor me disse... — começou Harry, mas Jelks já tinha dado as costas ao seu ex-cliente e estava se afastando. Harry estava prestes a correr atrás dele quando dois guardas o seguraram pelos braços, torceram-nos para trás e rapidamente algemaram o criminoso condenado antes de fazê-lo cruzar o tribunal em direção a uma porta que Harry não vira anteriormente.

Ele olhou para trás e viu Sefton Jelks apertando a mão de um homem de meia-idade que, obviamente, o estava cumprimentando por um trabalho bem-feito. Onde Harry já havia visto aquele rosto? Foi então que ele percebeu: só podia ser o pai de Tom Bradshaw.